A fantasia dos
computadores nas escolas, por Elio Gaspari
Elio Gaspari, O Globo 19/08/2012
O comissário Aloizio Mercadante, que anunciou
a compra de 600 mil tabuletas para professores, bem como os educatecas que
lidam com encomendas de computadores para escolas, deveria pedir à Universidade
Estácio de Sá uma cópia da dissertação de mestrado de Marcelo Remígio Tavares
de Matos. É curta e simples. Analisa o impacto e o desempenho de 11
computadores federais colocados na periferia de Petrópolis, na escola municipal
Stefan Zweig, o autor do livro "Brasil, país do futuro".
No Brasil do presente, Remígio entrevistou 164
alunos num universo de 200 jovens do segundo ciclo, mas só três dos dez
professores quiseram responder ao seu questionário.
Só uma informou que usava o laboratório de
informática em suas aulas. Tanto a diretora da escola como a garotada exaltam a
experiência. Já os professores não receberam capacitação adequada, nem a escola
dispôs de assistência para colocar uma página na internet.
Quando as máquinas chegaram, ficavam
disponíveis sete dias por semana e havia um contrato de assistência.
Deletaram-no, a sala foi fechada aos sábados e domingos, e sumiram os endereços
eletrônicos dados aos alunos. Se um computador enguiça, o conserto leva cerca
de um mês.
Em média, cada aluno tem acesso aos
computadores duas horas por semana. Como eles não são bobos, ligam-se duas
horas por dia em outras máquinas quando conseguem. Numa conta racional,
poderiam ter cinco horas por semana na escola.
Apesar da falta de capacitação dos
professores, não há má vontade de vivalma na Stefan Zweig com os computadores.
O que há por lá é a fantasia segundo a qual basta comprar máquinas e, com isso,
chega-se ao futuro. Capacitação de mestres dá trabalho. Compra de equipamentos
dá marquetagem y otras cositas más.