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sábado, 25 de agosto de 2012

A fantasia dos computadores na escola (por Elio Gaspari)


A fantasia dos computadores nas escolas, por Elio Gaspari

Elio Gaspari, O Globo 19/08/2012
O comissário Aloizio Mercadante, que anunciou a compra de 600 mil tabuletas para professores, bem como os educatecas que lidam com encomendas de computadores para escolas, deveria pedir à Universidade Estácio de Sá uma cópia da dissertação de mestrado de Marcelo Remígio Tavares de Matos. É curta e simples. Analisa o impacto e o desempenho de 11 computadores federais colocados na periferia de Petrópolis, na escola municipal Stefan Zweig, o autor do livro "Brasil, país do futuro".
No Brasil do presente, Remígio entrevistou 164 alunos num universo de 200 jovens do segundo ciclo, mas só três dos dez professores quiseram responder ao seu questionário.
Só uma informou que usava o laboratório de informática em suas aulas. Tanto a diretora da escola como a garotada exaltam a experiência. Já os professores não receberam capacitação adequada, nem a escola dispôs de assistência para colocar uma página na internet.
Quando as máquinas chegaram, ficavam disponíveis sete dias por semana e havia um contrato de assistência. Deletaram-no, a sala foi fechada aos sábados e domingos, e sumiram os endereços eletrônicos dados aos alunos. Se um computador enguiça, o conserto leva cerca de um mês.
Em média, cada aluno tem acesso aos computadores duas horas por semana. Como eles não são bobos, ligam-se duas horas por dia em outras máquinas quando conseguem. Numa conta racional, poderiam ter cinco horas por semana na escola.
Apesar da falta de capacitação dos professores, não há má vontade de vivalma na Stefan Zweig com os computadores. O que há por lá é a fantasia segundo a qual basta comprar máquinas e, com isso, chega-se ao futuro. Capacitação de mestres dá trabalho. Compra de equipamentos dá marquetagem y otras cositas más.

domingo, 19 de agosto de 2012

Caro Elio Gaspari, caro Zuenir

Caro Gaspari, foi bom que você tocasse no assunto ( em A fantasia dos computadores nas escolas,19/08 ) de forma provocativa. Com relação a internet  - como Zuenir Ventura também  já havia mencionado ( em A internet como vício, 18/08), é evidente que é exagero a generalização, para todos os usuários aficionados pelas mídias eletrônicas, a pecha de idiotas. E arrisco até que talvez esse seja um problema menor, em relação ao que justamente  você falou, não só o baixo uso, como a subutilização do computador, na área dos programas de inclusão digital. A ideia de que basta meninos e meninas sentarem- se em frente de um monitor de PC para serem considerados "incluídos digitais", ou que isso seja considerado inclusão digital. A inclusão digital não é o acesso. É o uso que se faz a partir  dele. As crianças são absolutamente fascinadas e ávidas por essas máquinas, e sujeitas, como os meninos das classes mais altas, a cair "no vício", mas não da Internet, mas num vício lúdico e pobre de recursos. Quando vejo a maioria delas utilizando (elas dizem "mexendo") o aparelho para joguinhos mecânicos  em que precisam apenas de seis (isso mesmo, seis!) teclas: a barra de espaços, a backspace, as quatro setas e eventualmente o mouse, porque basta apenas  certa agilidade para jogar e mais nada, fico triste. E penso: para que teclado, poderiam colocar joysticks, aquelas pecinhas de comando de jogos nos computadores destinados à "inclusão digital". Aí sim, é uma via de entrada na fantástica fábrica de deficientes mentais, como Pierluigi Piazzi, citado por Zuenir, disse. Significa uma relação lúdica, importante a um primeiro contato, mas que não pode ser só ela, nem pode se eternizar: basta ligar, acessar os ícones e jogar o tempo todo, e pronto, aí está o "milagre" da inclusão. A pergunta não é se eles usam o computador, mas que uso fazem do computador! Tudo bem, primeiro são crianças e é divertido; segundo, e o que é preocupante, porque não sabem usar as funções mais complexas, as quais requerem mais do que um incipiente grau de leitura e escrita*. Ah e requerem teclado inteiro!  Em suma, não concebem a máquina como ferramenta de informação e de inclusão na sociedade. Dirão alguns, é cedo para essas ferramentas, pode ser, mas meu temor é que quando forem chamados a usá-las, não tenham mais interesse. Explorar  os poderosos oráculos - Google e cia - , as inúmeras possibilidades de conhecimento e aplicações que tudo tem a acrescentar ao indivíduo,  treinar a escrita na rede, dialogarem com amigos, postarem imagens, curiosidades, ou, minimamente, fazerem uma pesquisa para escola ou para interesse próprio, temo que tudo isso não venha cair na expectativa dos usuários do setor público. Essas pessoas,  crianças principalmente, não têm culpa; seguindo o preceito cristão, não sabem o que fazem; nós sim, os da "política", é que sabemos (ou pensamos que); nós é que temos a obrigação de saber, de estarmos atentos para esses usos da máquina e procurar ampliá-los antes que seja tarde. Enfim, como tenho sempre observado e insistido, em leitura o mesmo acontece; não há leitor pleno sem bom conhecimento da língua. Se há, é exceção e não a regra. As políticas públicas da  área têm colocado peso excessivo no acesso às mídias tanto impressas quanto digitais. Que o Zuenir  me desculpe, mas a meu ver colocar, dois mil, cem mil ou um milhão de crianças para ouvir Ziraldo - sem demérito para o escritor - quer dizer muito pouco. Por mais que se badalem livros em caríssimos eventos, feiras e salões pelo país afora, ninguém tira a propriedade da leitura (eletiva) ser pessoal e  subjetiva. O que não é subjetivo (e é essencial) é o preparo para ela.  Do mesmo modo que o computador e, logo, a inclusão digital, exige muito mais do que "mexerem" nas seis teclinhas mágicas. Um abraço.

*O INAF( Instituto Nacional de Alfabetismo Funcional.) já vem acusando isso: dos 64% dos brasileiros que não usam a internet 31%  declararam desinteresse (será?), e 33%  declararam  não ser capazes de utilizar seus recursos minimamente. Ver matéria anterior publicada neste blog.