O leitor não é uma entidade teórica ou um dado estatístico. Podemos fazer um relatório minucioso ou um questionário completo, mas de que adianta se os engavetamos em algum arquivo? Quem é de fato nosso leitor? A biblioteca especializada faz o seu perfil de leitor, visando uma difusão seletiva da informação, mas nós precisamos, além da difusão geral da informação, acolher e aninhar nosso leitor em nossas estantes cheias de livros, para todos os gostos e perfis diversificados e quiçá para toda a vida . Dito isso, o que devemos ter de ferramenta, além da comunicação do dia a dia, é também um papel, mas nele se inscreve a experiência vivida pelo leitor em nossas bibliotecas. E muitas vezes a rotina não permite nos apoderarmos dela para aprofundar nosso conhecimento. Foi com alegria e grata surpresa que tive acesso a um trabalho de Danielly Spíndula*, da PUCRS, que me encantou e ofereceu boas possibilidades para estreitar esse conhecimento, partindo de perguntas simples: "Quem são esses leitores? Que leituras buscam e com que frequência? "É possível entrever uma relação entre essas leituras e suas atividades profissionais e/ou estudantis?"E citando Chartier, "em busca dos contrastes, igualmente, entre as normas e convenções de
leitura que definem, para cada comunidade de leitores, os usos legítimos
do livro. Contrastes, enfim, encontramos entre os diversos interesses
e expectativas com os quais diferentes grupos de leitores investem a prática
da leitura." E continua ela: "A organização dos dados por leitor permite que se observe o
perfil de cada um desses leitores: o que eles leem e com que frequência, além de nos
permitir levantar hipóteses sobre como e por que buscaram essas leituras e não outras. A
organização dos dados por autor nos permite verificar quem são os leitores mais
recorrentes de cada autor." Nossa limitada percepção raramente permite que façamos essa relação autor-leitor no ambiente de biblioteca., de modo que não temos recursos que cruzem essas relações. E mais "Contudo, é possível que a escola não seja a única instância
a atuar sobre as escolhas desses leitores e sobre sua movimentação neste
espaço de leitura, de maneira que é preciso investigar mais detalhadamente como estudantes
e não estudantes usam o serviço de empréstimo dessa biblioteca. Para recolhermos
mais indícios que nos ajudem a compreender as práticas desses leitores, precisamos partir
para a próxima etapa da análise: verificar que leituras cada um desses grupos
realiza e quais as semelhanças e/ou diferenças entre elas". Isso é mais ou menos como um mito a se desvendar: se é verdade que o tempo pelo leitor investido na biblioteca tem uma regularidade maior durante o tempo em que ele é estudante, o mesmo não se pode afirmar das escolhas individuais no uso do acervo, mesmo na condição de estudante. "Também é possível se encontrar nesse rico mundo do leitor "princípios de diferenciação, eles também plenamente
sociais, poderiam dar, com maior pertinência, razão a outras distâncias
culturais: pertencer a um sexo ou a uma geração, adesões religiosas,
solidariedades comunitárias, tradições educativas e corporativas, etc.” Da mesma forma pode-se observar "certas
regularidades e também rupturas nas práticas de leitura de um grupo e de outro,
e vamos (...) em busca de ambas. Elas podem indicar se há mais leitores que foram à biblioteca neste período e
levaram apenas 01 obra emprestada. Essa prática pode indicar um vínculo menor
desses usuários com a biblioteca na realização de suas leituras, o que pode
ocorrer, por exemplo, pelo fato de ter outras fontes de acesso aos livros. Ela pode, ainda,
apontar para uma leitura escolhida com a finalidade de realizar alguma atividade
prática ou voltada para a resolução de um problema mais imediato (escolar ou
não)(...) É importante esclarecer que estão sendo considerados todos os empréstimos
realizados pelos leitores,ainda que isso signifique a retirada de uma mesma obra em
momentos distintos, dentro do período analisado, assim, se o leitor solicitou da
biblioteca a mesma obra duas vezes, por exemplo, as duas vezes (desde que não seja renovação)
foram contabilizadas (...) Talvez, na verdade, essas leituras sejam mais parecidas do
que se possa imaginar, ou, ainda, talvez elas tenham alguns pontos de
aproximação e outros de afastamento, a depender muito mais da história de
leitura de cada usuário da biblioteca, considerado individualmente, que
propriamente do rótulo de estudante ou da ausência dele.(...)O que dizer de leitores, como "uma leitora que realiza 14 empréstimos. Destes, 10 são divididos em apenas dois
autores: Clarice Lispector e Chico Buarque."(...) Concluindo, "a leitura escolar, evidentemente, está neste espaço público
também, mas entre os empréstimos de estudantes e não estudantes há muitas
outras leituras que a extrapolam, denunciando que esses leitores não obedecem
apenas a este “senhor”, mas há outros: o mercado, a mídia, a pertença do
sujeito a outros grupos sociais longe da escola, até mesmo seu momento de vida".
O que nos envaidece, e engrandece, é que é a biblioteca e tão somente a biblioteca pode, mais do que qualquer outra fonte, falar do comportamento do leitor e do caráter de sua vida intelectual, quando tem nas mãos os dados preciosos para pesquisas as mais complexas, e que, muitas vezes,a gente não sabe que tem.
* http://ebooks.pucrs.br/edipucrs/anais/IIICILLIJ/Trabalhos/Trabalhos/S8/daniellyespindula.pdf