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domingo, 24 de janeiro de 2016

A neutralidade não existe (...) Ricardo Mioto Folha de São Paulo 28 Nov. 2015

Imagine uma discussão após um jogo de futebol sobre um pênalti. "Ele obviamente foi empurrado", diz o torcedor de um time. "Que nada, se jogou", diz o outro.
O mais interessante: ambos acreditam no que dizem. Ou seja, não se trata de uma distorção deliberada da realidade, uma "malandragem", mas de um viés involuntariamente criado pelo cérebro.
Apostando que isso não se aplica só ao futebol, mas também a várias outras áreas (como a política), um físico e professor da USP tem se dedicado a mapear todos os mecanismos mentais que nos tornam seres tendenciosos -ele já publicou artigos sobre o tema em revistas científicas e prepara um livro. Para André Martins, isso é um problema inclusive para o método científico.
Além do viés de confirmação -primeiro escolhemos um lado, depois selecionamos os fatos que se adequam-, há muitos outros mecanismos de parcialidade no nosso cérebro (veja infográfico). Um dos mais famosos é o pensamento de grupo.
Estudos mostram que, se um voluntário desavisado é colocado em uma sala cheia de atores, eles vai concordar com eles em várias questões, mesmo que estejam obviamente errados. A maior parte dos voluntários chega a dizer que duas retas evidentemente diferentes têm o mesmo tamanho, só porque os outros concluíram isso antes deles.
"Um exemplo disso é uma assembleia estudantil", diz Martins. "Não há muita permissão para ideias próprias, só alguns pensamentos são permitidos. Dissidentes são de alguma forma humilhados".
Uma charge americana sintetiza o assunto: em uma sala de reuniões, o chefão dá o diagnóstico: "Nosso problema é que precisamos de mais opiniões divergentes" -ao que os subordinados reagem, dizendo "com certeza, chefe", "exatamente o que eu penso".
Estudos mais recentes, em que os cérebros dos voluntários são mapeados, mostram que estar isolado, discordando da maioria, ativa regiões ligadas à dor -ou seja, a rejeição de ser diferente machuca.
Em uma apresentação aberta ao público do seu trabalho na última quinta-feira na USP, Martins apontou outros tipos de viés demonstrados por pesquisas de psicologia.
Dois dos mais interessantes são a falha de calibração e a tendência humana ao pensamento rápido.
O primeiro se refere à nossa tendência de acreditar que sabemos mais sobre o assunto do que os outros. É curioso: para conseguir avaliar o tamanho da sua defasagem de conhecimento sobre determinado tema, é importante que você o entenda minimamente -ou seja, é preciso saber alguma coisa para perceber que não sabemos nada.
Os estudos sobre pensamento rápido mostram que tomamos partido muito rapidamente quando apresentados a questões polêmicas.
A explicação é evolutiva: "Na selva, você prefere ter certeza ou reagir rápido quando algo se mexe no meio do mato? Em termos evolutivos, ponderar todos os argumentos para tomar decisões embasadas nem sempre vale a pena", argumenta Martins.
Nossa inteligência, aliás, não parece ter evoluído para que encontrássemos a verdade ou desvendássemos os mistérios do Universo. Isso é só um efeito colateral útil.
"Nosso raciocínio serve é para nos permitir argumentar e convencer. Ele é um elemento de coesão social."
PARCIAL, E AÍ?
Se nosso raciocínio não é muito confiável, surgem duas perguntas. Em primeiro lugar, isso quer dizer que a ponderação é uma ilusão? Além disso, como fica a ciência?
Sobre a primeira pergunta, Martins diz existirem meios de se policiar para tentar contornar a tentação do viés.
"A mensagem é esta: ouça o outro lado. Um bom exercício, que deveríamos estimular inclusive as crianças a fazerem,é se obrigar a listar defeitos no seu ponto de vista e qualidades nas visões das quais discordamos", afirma.
"Se você acredita em A, faça a experiência de se obrigar a escrever uma defesa de B. Tem de ser algo forçado, deliberado, porque naturalmente não vamos querer fazer."
Ele cita um trabalho sobre os vieses dos juízes da Suprema Corte americana. Os pesquisadores concluíram, interessantemente, que aqueles com treinamento anterior em advocacia tinham maior tendência a ponderar argumentos dos dois lados.
Aparentemente, atuar como advogado -trabalhando para o lado que pintar, não para o que agrada mais- força o sujeito justamente a perceber que, em uma controvérsia, com frequência vários pontos de vista são defensáveis. Ou seja, aquilo que normalmente enxergamos como flexibilidade moral e que faz certa má fama dos advogados talvez seja, na verdade, um ativo.
Na ciência, a questão da tendenciosidade se aplica especialmente às áreas em que medições quantitativas não estão tão disponíveis. Os números têm essa característica maravilhosa de encerrar discussões. Bom, ao menos quando sua interpretação é consensual, como em várias áreas da física -não adianta nada ter os números e ninguém se entender sobre o que eles estão dizendo, como na economia.

"Vários dos problemas de viés se aplicam às ciências humanas. Veja a necessidade de as teses mostraram que o que está sendo proposto já foi dito antes por alguém", afirma Martins. "Mas humanos são humanos em todos os campos. A situação é parecida nas áreas da física em que experimentos não estão disponíveis. Pense em toda a controvérsia sobre a teoria das cordas."

domingo, 17 de janeiro de 2016

De volta ao futuro por Dorrit Harrzin O Globo 17/01/2016

Dorrit Harazim, O Globo
Em artigo publicado esta semana na “Folha de S.Paulo”, o professor Luiz Armando Bagolin, diretor da Biblioteca Mário de Andrade, lamenta o fato de pedras, pichações e vandalismo voltarem a acertar a fachada da instituição. Já em 2013, também no rastro dos protestos estudantis contra o aumento de tarifas do transporte urbano, a mais importante e querida biblioteca pública de São Paulo fora danificada por black blocks ou jovens sem-noção.
Nem durante a chienlit do Maio de 1968 em Paris as manifestações visaram bibliotecas públicas. Durante o interminável movimento Occupy, que em 2011 se alastrou por 600 comunidades nos Estados Unidos, e nas incendiárias respostas da população negra americana aos abusos da polícia branca ao longo de 2014 e 2015 também não.
Ainda bem, pois hoje mais do que nunca elas talvez sejam os últimos espaços não comerciais nem religiosos, nem partidários ou excludentes que ainda podem ser frequentados sem receio por qualquer tipo de cidadão.
Um aviso para quem pensa que a geração Google e Wikipedia não tem tempo nem interesse em explorar tais espaços: pelo menos em países desenvolvidos, eles continuam a florescer, adaptados aos tempos modernos, é claro. O Pew Research Internet Project, com sede em Washington, há quatro anos estuda a mudança de papel das bibliotecas públicas na sociedade dos Estados Unidos. Segundo seu último relatório, 90% dos frequentadores mais assíduos de bibliotecas também acessam a internet diariamente, 95% deles possuem telefone celular, 46% usam tablets ou computador e 33% leem livros em e-readers.
Ou seja, mesmo tendo ao alcance da mão todo um universo de informação digital, eles não se furtam ao hábito do convívio físico com o local. Representam 30% da amostra, o que não é pouco, e foram classificados como “amantes de biblioteca” e “onívoros de informação” pelo instituto Pew.
Dois anos atrás, a centenária New York Public Library (NYPL), tão reverenciada pelos nativos quanto as catedrais europeias o são pelos seus fiéis, deu um presente de fim de ano aos 30,8 milhões de visitantes de seu website.
A equipe de bibliotecários da instituição havia descoberto uma caixa contendo um tesouro de fichas referentes a consultas recebidas entre as décadas de 1940 e 1980. Além da pergunta, cada ficha continha a data da consulta, quem a recebera, se fora feita por telefone ou pessoalmente.
À época, como hoje, o sistema consistia em tentar atender o cliente de imediato. Quando isso se revelava impossível ou quando a fonte consultada não parecia 100% confiável, a consulta permanecia em aberto para apuração posterior — uma delas por exemplo, recebida em 1940, só conseguiu ser respondida 30 anos mais tarde.
O fichário encontrado pertencia a essa categoria de consultas pendentes, e a NYPL começou a fazer postagens semanais do precioso conteúdo no Instagram, com a hashtag #letmelibrarianthatforyou. Sucesso instantâneo.
Alguns exemplos dessas inquietações de antanho deixadas em aberto:
Qual o ciclo de vida de um cílio?
Os Estados Unidos têm qual porcentagem de banheiras existentes no mundo?
Existe alguma estatística sobre longevidade de mulheres abandonadas? (consulta recebida entre 1h e 2h da madrugada de 15 de fevereiro de 1963)
Quantos grãos contém uma tonelada de trigo?
Qual a espessura de um selo americano, já com a cola adicionada? Resposta: “Não conseguiremos fornecer a informação exata rapidamente. Sugerimos recorrer ao Serviço Postal dos Estados Unidos”. Tréplica: “Aqui é o Serviço Postal dos Estados Unidos.”
Para deleite de quem quer dar uma espiadela nessa cápsula do tempo — uma era em que humanos confiavam em outros humanos — há de tudo um pouco. No lugar de aplicativos para questões profundas, comezinhas, incompreensíveis, utilitárias, de etiqueta, existenciais, bastava um bibliotecário do outro lado da mesa ou da linha telefônica.
Eles eram o Google antes do Google existir.
Segundo a bibliotecária Rosa Caballeri-Li, ainda hoje a equipe de atendentes do Departamento de Referência e Pesquisa da NYPL continua a receber uma média de 1.700 consultas por mês, seja através de chat, e-mail ou telefone, em inglês ou espanhol. “Num país tão informatizado como os Estados Unidos”, explicou à época do lançamento da hashtag no Instagram, “pode soar espantoso as pessoas procurarem refúgio na NYPL. Mas quando há respostas em demasia na internet e você não consegue distinguir o que é ficção de fato, você se sente mais seguro recorrendo a nossos serviços”.
Ou, como já disse o escritor britânico Neil Gaiman, “se o Google te dá cem mil respostas, o bom bibliotecário vai te dar uma, a resposta certa”.
Na NYPL, nenhum atendente considera consulta alguma estúpida. Procuram responder sem arrogância. “Tudo pode ser transformado em momento de aprendizado para quem não sabe”, diz Caballeri-Li. “Não estamos aqui para constranger quem quer aprender”.
É claro que nem todas as bibliotecas públicas são uma NYPL. Tampouco precisam ou poderiam ser. Mas é bom ficar de olho no que resta das nossas. Nestes tempos de blocos nas ruas brasileiras, elas precisam e devem ser protegidas dos black blocks — protegidas tanto pela polícia como pelos estudantes.