Estou mergulhado há dois anos na redação de um novo romance. Mesmo
quando um escritor já pratica seu ofício há muito tempo, escrever um novo
romance é sempre um exercício árduo e extenuante –e acredito que seja assim
para quase todos os escritores que respeitam a si e a seus leitores.
Eu precisei de quatro anos para concluir "Hereges" e
cinco para pôr o ponto final em "O Homem que Amava os Cachorros". Por
que é tão difícil escrever um romance? Por que o escritor, ainda mais o
escritor profissional, sente que nunca disse o que pretendia dizer da melhor
maneira em que é capaz de dizê-lo, e retorna várias vezes sobre o que escreveu,
transpira, duvida, receia?
Hemingway confessou certa vez que tinha escrito o final de
"Adeus às Armas" quase 40 vezes. Quando lhe perguntaram qual tinha
sido o problema, ele deu uma resposta tão simples quanto terrível e reveladora:
o problema era a ordem das palavras. Porque, na realidade, tudo se resume a
isto: a colocar uma palavra atrás de outra para conseguir expressar algo que
tenha um sentido e consegui-lo do modo mais belo e claro possível. O difícil é
consegui-lo.
Milan Kundera, por sua vez, falou de uma característica peculiar
da arte do romance: é que o autor que começa a escrever esse livro é diferente
do que terminou de escrevê-lo. Por duas razões: o processo de escrever um
romance, de tirar tantas coisas de dentro de si para falar dos mistérios da
condição humana, muda você, quer você queira, quer não. E a outra razão é ainda
mais dramática: para escrever um romance você pode precisar de dois, três,
cinco anos, às vezes mais. O tempo transcorrido faz com que você não seja mais
o mesmo entre um momento e outro. É a lei da vida.
Gabriel García Márquez contou várias vezes o que precisou fazer
para escrever "Cem Anos de Solidão". O romancista renunciou a todos
seus trabalhos de sobrevivência, encerrou-se com seus cafés e seus cigarros
para escrever e confiou que poderia acontecer alguma coisa com seu livro, pois,
do contrário, sua família estaria do outro lado da beira da falência. E assim
escreveu durante anos.
Parece evidente que o ofício literário requer essa dose de
masoquismo, de autoimolação, um processo com dor ao longo do qual o artista tem
que combater todos os demônios que sejamos capazes de imaginar. Eu me refiro
aos verdadeiros escritores, àqueles que fazem de sua arte um instrumento para
penetrar "a alma das coisas", como pedia Flaubert. Mas esse
verdadeiro escritor assume os riscos e se empenha em sua tarefa. Por quê?
Porque não pode deixar de fazê-lo.
Estou convencido de que nunca serei um escritor com as qualidades
de Hemingway, Kundera, García Márquez ou Flaubert. Mas, se aprendi alguma coisa
em meus quase 40 anos lutando com a escrita, é que escrever literatura é um
ofício tremendamente difícil, às vezes lacerante, repleto de incertezas e
geralmente, depois de tanto esforço, premiado com a indiferença. Porque apenas
um bom livro entre muitos bons livros consegue chegar a se converter em
referência, em sucesso comercial (que está mais ao alcance de alguns maus
livros).
Os poetas, esses seres empenhados em nos fazer descobrir que a
vida pode ser expressa com outras palavras, dedicam-se à sua obra sabendo, de
modo geral, que não receberão recompensas por seu trabalho. A poesia nunca
vendeu bem e, embora em determinadas épocas e conjunturas históricas os poetas
tenham gozado de grande prestígio social e cultural, seu empenho raramente
alcança ressonância maior. Mas os poetas existem, sonham, burilam os idiomas,
iluminam a mente. Porque são poetas e não podem evitá-lo.
E os dramaturgos? Como no caso da poesia, a experiência pessoal
não me acompanha em minha opinião, mas o fato de mover personagens diante dos
olhos de outros e contar por meio das palavras deles algo tão difícil de armar
como um verdadeiro drama implica, sem dúvida, um esforço criativo maiúsculo.
Direi apenas que vi com surpresa como se concedeu a recompensa
literária que se supõe ser a mais importante do mundo a um escritor de letras
de canções. Um dos maiores e mais influentes. Um poeta da canção. Claro, o grande Bob Dylan, o
Prêmio Nobel de Literatura. Esnobismo nórdico ou injustiça
artística? Não sei, mas acho que não teria ocorrido a ninguém entregar um
Prêmio Grammy a um poeta, um romancista ou um dramaturgo, graças à musicalidade
de seus textos. Alejo Carpentier e Carlos Fuentes morreram sem o Nobel de
Literatura. Milan Kundera e Philip Roth esperam pelos deles... Mais do que
nunca, a resposta da Academia Sueca está boiando no ar. L.P. Folha de São Paulo, 22/10/2016