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segunda-feira, 6 de março de 2017

Compreender biblioteca e bibliotecários

                             
O que me move aqui é traduzir sucintamente esses conceitos – biblioteca e bibliotecários - tão mal compreendidos, sem introduções, históricos e teorias. Para leigos. Do modo mais simples que meus 40 anos de profissão puderem expressar. Embora recente como conhecimento profissionalmente  estabelecido, a biblioteconomia é uma das  atividades que têm mais tradição no mundo, quanto à sua idade  na História, e  dada à sua natureza,  sua origem, como salvaguarda do conhecimento. E que se transforma, claro, como tudo, e ainda bem, porque vem agregando mídias  e diferentes funções. Mas, vamos reconhecer, seu suporte e sua razão de existir é o livro. Viajei  recentemente à Inglaterra e à Suécia e visitei bibliotecas públicas municipais. Sim, é o livro, na sua dimensão social, o protagonista da biblioteca. Onde quer que ela esteja está o livro. E claro,  pessoas interagindo com ele. As bibliotecas são espaços e equipamentos culturais abertos à sociedade em busca do conhecimento. Algumas delas podem contar com ou estar em espaços culturais, mas não são centros culturais. Podem contar com atividades educativas, lato sensu, mas não são escolas.  Nelas, o que se vê são pessoas “apenas” lendo qualquer coisa, outras estudando, outras mais consultando seus computadores para diferentes fins, não necessariamente saberes, apenas informações importantes para o dia a dia, ou simples curiosidades. E sua peculiaridade, ao contrário de que muitos creem,  é de que a biblioteca  não é também equipamento de massa, como um espetáculo -  uma peça ou filme - para onde as pessoas  vão com o propósito de usufruir do mesmo objeto. Atinge cada sujeito na sua particularidade. Na extensão de sua necessidade e seu desejo, em um mesmo ambiente ou pelos meios de difusão.  Não é algo novo o que estou dizendo, mas por incrível que pareça, algo aparentemente tão simples, como um ambiente coletivo de leitura seja, ao mesmo tempo, tão estranho ao senso comum. Uma pergunta que já ouvi muitas vezes: precisa “ter faculdade pra fazer isso [arrumar livros na estante]”?
O que há nesses espaços são profissionais que atendem ao público, de forma personalizada, no que ele precisa em termos de informação e saberes, aos quais  chamamos bibliotecários “de referência”, que irão orientar o usuário sobre como/onde encontrar  a informação ou um determinado documento, mesmo fora de seu território. Para tal atividade é preciso mais que familiaridade, como
 vemos nas livrarias. O bibliotecário precisa “entender do assunto”? Não. Cumpre a ele localizá-lo em seus diferentes aspectos ou suportes (além dos livros) Por exemplo. Um médico pode procurar o assunto “aborto” sob  aspectos biológicos; um advogado sob o aspecto legal; um religioso sob o aspecto moral. Que pode estar num artigo, livro ou outro meio. Um conteúdo pode estar sob  diferentes contextos, suportes e aspectos os quais o bibliotecário deve conhecer, sob o ponto de vista da organização da informação temática e dos meios. Definido o objeto da demanda, para que o bibliotecário seja ágil em sua resposta, ele deve contar com um sistema de informação (SI) bem estruturado. Na falta dele, valerá sua experiência em classificação, o que não é suficiente. O profissional pode falhar, o sistema de informação não. E como é o sistema de informação, pode ser um catálogo? Sim, pode ser na sua forma, porém não é um simples cadastro, uma “relação de livros” ou “lista de documentos” como muitos leigos veem.  É um meio bastante complexo, pelo qual se oferecem descritores (não conteúdos) adequados a uma pesquisa ou uma simples consulta. Os bibliotecários fornecem os meios, não as respostas. Para isso, no SI existem pontos de acesso. Pontos de acesso recuperam, para o consulente, elementos tais como autores ou responsabilidades, títulos, séries, assuntos e os quesitos que satisfaçam àquela demanda e numa linguagem adequadamente representada. Esse é um dos mais importantes campos da biblioteconomia. Aqui entra a tão propalada função educativa do bibliotecário, em que ele orienta o usuário no acesso à informação e no uso do documento.  As bibliotecas, porém, para trabalharem  com sua capacidade máxima, necessitam de ferramentas que vão além de seus acervos locais, como diretórios, bibliografias, que disponibilizem recursos a nível nacional e internacional.
Antigamente (há uns trinta, quarenta anos) um sistema de informação era produzido manualmente, em fichas ou listagens impressas, trabalhosas de se atualizarem. Mas isso mudou, ainda bem, e evoluiu para softwares e bancos de dados online próprios para uso de bibliotecas, e que permitem formatos, tanto para se migrarem dados de uma biblioteca para, outra, como para intercâmbio de fontes. Esses softwares são desenvolvidos por profissionais de TI, porém a montagem deles necessita de suporte de bibliotecários, sob  pena de ficarem incompletos. Contando com um software para bibliotecas, é necessário um bibliotecário técnico para alimentação dos dados que vão compor o sistema de informação. Por que? Por que essa alimentação exige que se sigam normas internacionalmente aceitas, que são exclusivas de sua competência. Você não pode manipular uma fórmula, se você ñ é um farmacêutico, certo? É a mesma coisa. Alguns SI podem ter módulos que auxiliem no funcionamento da biblioteca como cadastro de usuários, relatórios estatísticos e controle de movimentação do acervo, que podem ser mantidos pela equipe auxiliar, mas é fundamental que, principalmente, o sistema de recuperação da informação, de responsabilidade do bibliotecário, possa repercutir também para o público externo no país e até fora dele. São conhecidas as redes de bibliotecas nacionais, estaduais e municipais que trocam informações sobre seus acervos e colaboram entre si. Sem dúvida, essa é uma das maiores conquistas da humanidade na área de informação.
O que mais faz o bibliotecário? Desenvolvimento de coleção. Ou seja, aquisição, seleção, descarte de acervo que seja adequado ao perfil do público local. E quanto mais geral o acervo, mais refinada é a seleção. Avaliar bem o perfil do público é também uma tarefa básica, que envolve conhecer e se relacionar bem com a comunidade a quem a biblioteca vai servir.
Administração. Implica planejar e  trabalhar com as equipes de colaboradores e auxiliares, e os recursos materiais, dentro de um programa de funcionamento e de atividades planejadas que deem visibilidade à biblioteca e atraiam público permanente. Em geral essas atividades contam com um grupo profissional multidisciplinar, ou da própria instituição a que é subordinada, ou contratado especialmente para eventos  e convidados voluntários. Tais atividades são estratégicas para uma boa (e necessária) receptividade da biblioteca em seu meio.
 É esperado também que os bibliotecários sejam sensíveis, particularmente os que atuam no Terceiro Mundo, às dificuldades e desafios da inclusão sociocultural, ainda presentes nos países em desenvolvimento.  E isso implica em sistemáticas ações de incentivo ao uso das bibliotecas por parte de um público iletrado ou não familiarizado com práticas leitoras.
De qualquer modo, a  finalidade de uma biblioteca é universal:  a de  que seja um espaço de  familiaridade e, no plano ideal, de fidelidade à leitura e ao saber, e onde a comunidade se veja incluída e, ao mesmo tempo,  o veja como parte do seu cotidiano.
Espero ter ajudado na compreensão de biblioteca e dos bibliotecários.
                                                                                                              Sheila G Soares 2017