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segunda-feira, 15 de julho de 2019

O RATINHO, O MORANGO VERMELHO MADURO E O GRANDE URSO ESFOMEADO: EM QUE A DRAMATURGIA PODE CONTRIBUIR PARA A INTERPRETAÇÃO TEXTUAL


                                                                                                               Sheila G Soares
1.       Introdução

Frequentei nos anos 90, dois cursos de roteiros (TV e cinema), um Seminário de Dramaturgia de teatro, e um laboratório de cinema no Sundance, Nogueira- RJ, em 2001, e, após entrar (por concurso) para o quadro de funcionários da Fundação Municipal de Educação de Niterói, em 2009, observei, ao longo do tempo, como seria útil, para as práticas de leitura textual, a introdução de princípios da dramaturgia como via de interpretação de  literatura infantojuvenil de ficção. O que será abordado aqui talvez não seja novidade para os docentes;  mas pelo que observei, desde escola particular (ONG Solar Meninos de Luz 2001-2008), bibliotecas populares da FME (3,de 2009 a 2016) e escola do Ensino Fundamental da Rede ( 2017-), não observei o uso desses recursos. De antemão, alerto que são  de  simples aplicação,  e que não é nenhum demérito que sejam consideradas “ovo de Colombo” .  Importante é que se coloque o ovo em pé.

2.       Os Limites da interpretação

Observei que a cultura chamada de “interpretação” de texto literário na escola cristaliza alguns hábitos, no momento de se avaliar a apreensão de um texto por parte das crianças.  E geralmente por “interpretação” entende-se como a reprodução de uma sequência  narrativa. As crianças têm uma  facilidade natural em reproduzir enredos e são bastante fiéis a eles. Mas não significa que tenham  “interpretado”.  Alguns  textos têm muito  material a explorar que não é  apenas factual ou apenas "enredo".  Justamente o que se chama de “interpretação”- o que vai além  da simples reprodução de uma história - requer muito mais do que memorização, que é uma apreensão essencial, mas primária.  Requer um aprofundamento em alguma questão ou problemática não explícita, que geralmente tem duas orientações: juízo de valor e produção de sentido.  O juízo de valor (quase sempre aspectos morais) encontra-se muito nas fábulas e em abundância nas histórias clássicas infantis. A desobediência é um valor implícito, embora claro, em Pinóquio e Chapeuzinho Vermelho.  A imprevidência em n´Os Três Porquinhos, a inveja em Cinderela, e assim por diante. Algumas histórias têm mais do que um juízo de valor. Já a produção de sentido se dá em obras abertas, independentemente  da extensão  da obra ou do público-alvo. Obra aberta é “a obra de arte como algo inacabado que exigiria do receptor, no ato da fruição, uma participação bastante ativa, a fim de perceber a obra como um objeto aberto a várias possibilidades interpretativas” (Eco, 1995) A produção de sentido, portanto, implica em o leitor exercer a subjetividade soberanamente, não induzida, ou seja, ele faz uso daquela narrativa de acordo com sua visão de mundo, de sua experiência de vida, de sua cultura pessoal, ou de seu inconsciente, por meio de uma elaboração individual. É a leitura do mundo de que fala Paulo Freire. Esse é um domínio difícil de interferir, porque é bastante complexo exercê-lo como prática pedagógica, ao mesmo tempo é também difícil não se ceder à tentação de induzir.  Que não seja interditado “trabalhar produção de sentido”, propor questões; mas que haja  alguns cuidados em respeito à subjetividade. Uma experiência me é cara em uma roda de leitura com crianças, quando trabalhei em uma escola de  comunidade. O livro em questão foi o famoso e singelo  Maria vai com as outras, de Sylvia Orthoff, onde a autora  coloca o impasse para uma ovelhinha decidir entre seguir o líder do rebanho e saltar de uma ribanceira, o que as demais ovelhas fizeram, ou “ouvir” seu instinto de sobrevivência, e não saltar.  Ao final da narrativa, um aluno, que devia ter seus seis anos, disse com ar reflexivo:  -  “o meu pai cheira todas e bebe todas..”  ante nossa perplexidade. Esse foi um nítido exemplo de como o texto repercutiu na sua produção de sentido. O dilema  gerou instantaneamente  nele a ideia de que o pai  não conseguira se livrar de más influências e o que resultou disso: caiu, como as ovelhas, ribanceira abaixo. É produtivo trabalhar por analogia com uma experiência real na vida de cada um, mas sem perder o foco de que esse é um terreno movediço, onde se ocultam ressentimentos e outros afetos próprios do leitor. A produção do sentido está na zona cinzenta (ou cor-de-rosa) dos afetos. O que pode ser um “limite da interpretação” para o mediador, como diria Humberto Eco. Mas como tratar a interpretação na prática pedagógica, já que se nossa meta é capacitarmos leitores para além da apreensão  literal do texto ?

3.       Linguagem dramatúrgica e linguagem literária: as narrativas clássicas e abertas

Vimos que temos o juízo de valor e a produção de sentido em literatura como métodos a serem explorados na interpretação, cada um no seu território. Os princípios de  dramaturgia nos oferecem uma segunda  via de interpretação, já que não é ela mesma literatura, contudo não exclui esses dois  métodos.  Uma história como Romeu e Julieta é uma trama intrincada de fatos e afetos, mas será que Shakespeare, ao escrevê-la, não quer marcar moralmente a irracionalidade do ódio (juízo de valor) representada nas famílias Capuletto e Montecchio, como um modelo a não ser seguido pela Humanidade? Como é sabido, ele o fez, apenas através de sua famosa narrativa dramática. As inferências nós as fazemos, tipo “o ódio nada constrói”.  A dramaturgia se move pela ação. Na literatura a ação não é condição necessária, embora muito presente nos livros para jovens e crianças. Há um enorme acervo de obras literárias adaptadas para cinema, teatro e televisão, porque elas têm potencial para se transformarem em roteiros e viabilizarem uma produção.  Em resumo, a literatura tem certo grau de dramaturgia, mas é raro e inadequado a  dramaturgia reproduzir o texto literário, no palco ou nas telas. O  literário conta; o dramatúrgico  mostra. Meu grande professor José Louzeiro insistia nessa regra.  Por outro lado, a ação em dramaturgia abrange também afetos, manifestações, não só de natureza física.  Esperando Godot , de Beckett,  um clássico de teatro universal para adultos, é um exemplo típico de obra aberta, com diálogos e movimentação escassos.  Em uma obra aberta, como Esperando..., ou nos movemos por uma suposta “intenção” do autor, ou por um olhar subjetivo, aquele que tenha repercutido interiormente em nós, espectadores ou leitores. O juízo de valor são preceitos estabelecidos socialmente. São valores e normas  estabelecidas pelas leis,  pela sociedade ou pela comunidade a que pertencemos.  A Arte, porém, seja em qualquer meio de expressão, não tem compromisso com nenhum  juízo de valor ou norma estabelecida, apesar de estar comumente associada aos textos literários para o público infantojuvenil,  Porque sempre pretendem ser “educativos” e, como tal, a discussão moral  entre Bem e o Mal é  presença constante.

2.  Elementos dramatúrgicos de texto-modelo :  O Ratinho, o Morango vermelho maduro e o Grande Urso esfomeado.

A aplicação de elementos dramatúrgicos  ficam bastante claros, quando escolhemos um modelo ou exemplo. Um pequeno texto pode ser muito rico em materiais interpretativos não literais, a partir daquela premissa de não identificarmos o conteúdo de imediato. O pequeno grande livro de Don e Audrey Wood, título referido acima, é o nosso modelo-exemplo. Com o mínimo de texto, é uma trama curta e expressiva. Sinopse: um ratinho, ao encontrar um suculento morango maduro deseja-o para si, mas ao pressentir a ameaça do grande urso, vindo em seu encalço para comer a fruta, procura várias soluções rápidas para tentar escondê-la. Essa é uma sinopse de apenas três ou quatro linhas. E qual a questão envolvida? Reparem que toda a trama é apenas o esforço do pequeno em esconder a fruta, esforço em vão, porque o morango é grande e pesado para transportar, o urso é veloz e o tempo é curto. Qual o elemento dramatúrgico nessa história? O impasse. Um impasse se apresenta logo ao protagonista.  Em algumas narrativas clássicas, introduzem-se a personagem, o ambiente e época, como se vê nas histórias iniciadas por “era uma vez”, para contextualizar espaço e tempo. Mas toda e qualquer trama se desenvolve a partir de um problema e não da contextualização. Sem problemas, por menores que sejam,  não há dramaturgia. A premissa da interpretação é de imediato a identificação do problema. Precisa acontecer algo que mova as personagens a uma ação a tirá-los da normalidade, à qual retornarão (ou não) ao final.  A partir de um impasse,  a trama segue rumo a um enfrentamento e a uma resolução.  Atentem que, quase sempre, o final é feliz. Termina num casamento, uma celebração, uma recompensa etc.  Mas, examinando melhor o final do Ratinho ..., a trama não evolui como na maioria das narrativas clássicas para crianças. Voltando à linha do enredo, o ratinho procura algumas soluções para enfrentar o problema (esconder/disfarçar o morango) ; afinal,  nenhuma é satisfatória, já que a aparição do grande urso é iminente. Então ele resolve deixar a metade da fruta para o poderoso animal.  E contenta-se em ficar com a outra metade que pode carregar. Acabou o enredo. Não foi final “feliz”, porque não conseguiu a fruta só para ele; nem infeliz, porque escapou ileso.  Mas é isso?  Não. Sigamos.

2.1   Agora façamos um exercício de argumento , não é produção de sentido.

Personagens.  Um ratinho e um urso oculto.
Identifique o problema que o ratinho enfrenta. Um enorme urso quer  pegar o belo morango que o ratinho desejou. O impasse: ou deixa a fruta para o urso ou  arrisca sua vida.
Como ele enfrenta o problema, já que o urso é muita vezes mais forte do  que ele?  De duas maneiras.
 1º tentando esconder  o morango.
2º tentando disfarçá-lo.
Também duas estratégias inúteis. O urso cheira um morango a muitos km de distância.
Como ele resolve o problema? Divide então o morango em duas partes.
Uma parte ele já come. A outra deixa para o urso E assim salva sua pele.
Esse é apenas o argumento que você “compreendeu” e  está bem explícito.

2.2   Pensemos numa produção de sentido. Você pode tirar uma conclusão para você de uma história como essa? 

Agora imagine uma situação parecida que você tenha vivido no seu cotidiano. Isso se chama produção de sentido, que pode variar de pessoa para pessoa.
 Há livros, como falamos, que não têm nenhuma “moral” (ou juízo de valor) explícita. Esse não tem. Aqui se sugere apenas  que o ratinho foi mais astuto do que corajoso. Pense em quantas situações parecidas acontecem conosco. Don Woody nos mostra  o quanto somos limitados em nossos poderes.(essa produção de sentido é minha). Que há sempre alguém mais forte do que nós, e que o mais inteligente será negociar, perdendo alguma coisa, do que desafiar e perdermos tudo. Que há circunstâncias que nos levam a abrir mão de alguma coisa, a ceder. Quantas situações aparecem em que temos que ceder?  Em quantas situações temos que simplesmente aceitar certas condições, e esperar para superá-las em outra oportunidade?  Em quantas somos levamos a dividir algo material ou moral ? Em que momento você se viu obrigado(a) a repartir algo que deseja muito, para preservar você mesmo,  alguém ou alguma coisa, ou parte de algo que deseja?  Quando temos que avaliar as nossas reais possibilidades? Então podemos dizer que o ratinho foi medroso... ou cauteloso? Enfim, múltiplas possibilidades a explorar. Muitas narrativas enaltecem o herói.  São chamadas histórias românticas ou heroicas, em que o protagonista, com persistência ou bravura, vence um inimigo ou um antagonista muito mais forte do que ele.  Está cheio deles na literatura. Mas em geral não funciona assim na realidade. Vimos que história do ratinho há mais elementos realistas do que românticos. Ele reconhece suas desvantagens em relação ao antagonista, então prefere a estratégia à bravura. O pequeno e rico texto valeu-se de um recurso dramatúrgico que mais mostra do que descreve. Importante observar que a produção de sentido não é aquela solução apresentada pela  personagem.  É o que esta solução agregou para o leitor em termos de sua experiência. Mais importa que suscitem perguntas do que respostas.

3.       Conclusão

Como foi mencionado, para textos da literatura infantojuvenil do primeiro ciclo   (1º ao 5º ano) é bastante simples a interpretação utilizando elementos dramatúrgicos. No tripé problema ou um impasse, o enfrentamento do problema e a resolução do problema são elementos que necessariamente precisam ser identificados na trama.  Procuramos ver se existem indícios de juízo de valor, que não são complexos de explorar, e podemos parar por aí. Porém os textos podem ir além da produção do juízo de valor  - a produção de sentido –  a pergunta é o quê,  para cada um dos leitores, aquele texto associou à sua experiência?
Recomendável que seja aplicado à leitura em roda de um texto por vez, com possibilidade de gerar ricas discussões.
Mas atenção: há textos com vastíssimas possibilidades. São mais complexos e requerem recursos da dramaturgia também mais complexos. Aplicam-se aos jovens mais velhos e com mais escolaridade.

4.       Bibliografia recomendada

     Beckett, Samuel. Esperando Godot. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.

Ortoff.  Maria vai com as outras.  São Paulo: Ática, 1987.

     Pallotini, Renata. Introdução à dramaturgia. Rio de Janeiro: Brasiliense, 1983

    Propp, Vladimir. Morfologia do conto maravilhoso. São Paulo: Forense, 1984

   Vogler, Christopher. A jornada do escritor. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008

   Wood, Don e Audrey. O ratinho, o morango vermelho maduro e o grande urso esfomeado. São Paulo: Brinque book,  2008