Sheila G Soares
1. Introdução
Frequentei nos anos 90, dois cursos
de roteiros (TV e cinema), um Seminário de Dramaturgia de teatro, e um
laboratório de cinema no Sundance, Nogueira- RJ, em 2001, e, após entrar (por
concurso) para o quadro de funcionários da Fundação Municipal de Educação de
Niterói, em 2009, observei, ao longo do tempo, como seria útil, para as
práticas de leitura textual, a introdução de princípios da dramaturgia como via
de interpretação de literatura
infantojuvenil de ficção. O que será abordado aqui talvez não seja novidade
para os docentes; mas pelo que observei,
desde escola particular (ONG Solar Meninos de Luz 2001-2008), bibliotecas
populares da FME (3,de 2009 a 2016) e escola do Ensino Fundamental da Rede ( 2017-),
não observei o uso desses recursos. De antemão, alerto que são de simples aplicação, e que não é nenhum demérito que sejam
consideradas “ovo de Colombo” . Importante é que se coloque o ovo em pé.
2. Os Limites da interpretação
Observei que a cultura chamada de
“interpretação” de texto literário na escola cristaliza alguns hábitos, no
momento de se avaliar a apreensão de um texto por parte das crianças. E geralmente por “interpretação” entende-se
como a reprodução de uma sequência
narrativa. As crianças têm uma facilidade natural em reproduzir enredos e são
bastante fiéis a eles. Mas não significa que tenham “interpretado”. Alguns textos têm muito material a explorar que não é apenas factual ou apenas "enredo". Justamente o que se chama de “interpretação”-
o que vai além da simples reprodução de uma história - requer
muito mais do que memorização, que é uma apreensão essencial, mas primária. Requer um aprofundamento em alguma questão ou
problemática não explícita, que geralmente tem duas orientações: juízo de valor e produção de sentido. O juízo
de valor (quase sempre aspectos morais) encontra-se muito nas fábulas e em
abundância nas histórias clássicas infantis. A desobediência é um valor implícito,
embora claro, em Pinóquio e Chapeuzinho Vermelho. A imprevidência em n´Os Três Porquinhos, a inveja em
Cinderela, e assim por diante. Algumas histórias têm mais do que um juízo
de valor. Já a produção de sentido se dá em obras abertas, independentemente da extensão
da obra ou do público-alvo. Obra aberta é “a obra de arte como algo
inacabado que exigiria do receptor, no ato da fruição, uma participação
bastante ativa, a fim de perceber a obra como um objeto aberto a várias
possibilidades interpretativas” (Eco, 1995) A produção de sentido,
portanto, implica em o leitor exercer a subjetividade soberanamente, não
induzida, ou seja, ele faz uso daquela narrativa de acordo com sua visão de
mundo, de sua experiência de vida, de sua cultura pessoal, ou de seu
inconsciente, por meio de uma elaboração individual. É a leitura do mundo de que fala Paulo Freire. Esse é um domínio difícil
de interferir, porque é bastante complexo exercê-lo como prática pedagógica, ao
mesmo tempo é também difícil não se ceder à tentação de induzir. Que não seja interditado “trabalhar produção
de sentido”, propor questões; mas que haja alguns cuidados em respeito à subjetividade.
Uma experiência me é cara em uma roda de leitura com crianças, quando trabalhei
em uma escola de comunidade. O livro em
questão foi o famoso e singelo Maria vai com as outras, de Sylvia
Orthoff, onde a autora coloca o impasse
para uma ovelhinha decidir entre seguir o líder do rebanho e saltar de uma
ribanceira, o que as demais ovelhas fizeram, ou “ouvir” seu instinto de
sobrevivência, e não saltar. Ao final da
narrativa, um aluno, que devia ter seus seis anos, disse com ar reflexivo: - “o meu
pai cheira todas e bebe todas..” ante
nossa perplexidade. Esse foi um nítido exemplo de como o texto repercutiu na
sua produção de sentido. O dilema gerou
instantaneamente nele a ideia de que o
pai não conseguira se livrar de más
influências e o que resultou disso: caiu, como as ovelhas, ribanceira abaixo. É
produtivo trabalhar por analogia com uma experiência real na vida de cada um,
mas sem perder o foco de que esse é um terreno movediço, onde se ocultam
ressentimentos e outros afetos próprios do leitor. A produção do sentido está na zona cinzenta (ou cor-de-rosa) dos afetos. O que pode ser um “limite da
interpretação” para o mediador, como diria Humberto Eco. Mas como tratar a
interpretação na prática pedagógica, já que se nossa meta é capacitarmos
leitores para além da apreensão literal
do texto ?
3.
Linguagem
dramatúrgica e linguagem literária: as narrativas clássicas e abertas
Vimos que temos o juízo de valor
e a produção de sentido em literatura como métodos a serem explorados na
interpretação, cada um no seu território. Os princípios de dramaturgia nos oferecem uma segunda via de interpretação, já que não é ela mesma
literatura, contudo não exclui esses dois métodos.
Uma história como Romeu e Julieta
é uma trama intrincada de fatos e afetos, mas será que Shakespeare, ao escrevê-la,
não quer marcar moralmente a irracionalidade do ódio (juízo de
valor) representada nas famílias Capuletto e Montecchio, como um modelo a não ser seguido pela Humanidade? Como é sabido, ele o fez, apenas através de sua famosa narrativa
dramática. As inferências nós as fazemos, tipo “o ódio nada constrói”. A dramaturgia se move pela ação. Na literatura
a ação não é condição necessária, embora muito presente nos livros para jovens
e crianças. Há um enorme acervo de obras literárias adaptadas para cinema, teatro
e televisão, porque elas têm potencial para se transformarem em roteiros e viabilizarem uma produção. Em resumo, a
literatura tem certo grau de dramaturgia, mas é raro e inadequado a dramaturgia reproduzir o texto literário, no palco ou nas telas. O literário conta; o dramatúrgico mostra. Meu grande professor José Louzeiro insistia nessa regra. Por outro lado, a ação em dramaturgia
abrange também afetos, manifestações, não só de natureza física. Esperando
Godot , de Beckett, um clássico de
teatro universal para adultos, é um exemplo típico de obra aberta, com diálogos
e movimentação escassos. Em uma obra
aberta, como Esperando..., ou nos
movemos por uma suposta “intenção” do autor, ou por um olhar subjetivo, aquele
que tenha repercutido interiormente em nós, espectadores ou leitores. O juízo
de valor são preceitos estabelecidos socialmente. São valores e normas estabelecidas pelas leis, pela sociedade ou pela comunidade a que pertencemos. A Arte, porém,
seja em qualquer meio de expressão, não tem compromisso com nenhum juízo de valor ou norma estabelecida, apesar de estar comumente associada aos textos literários para o público
infantojuvenil, Porque sempre pretendem ser
“educativos” e, como tal, a discussão moral entre Bem e o Mal é presença constante.
2. Elementos
dramatúrgicos de texto-modelo : O Ratinho, o Morango vermelho maduro e o
Grande Urso esfomeado.
A aplicação de elementos
dramatúrgicos ficam bastante claros, quando escolhemos um modelo ou exemplo. Um pequeno texto pode ser muito rico em
materiais interpretativos não literais, a partir daquela premissa de não identificarmos
o conteúdo de imediato. O pequeno grande livro de Don e Audrey Wood, título
referido acima, é o nosso modelo-exemplo. Com o mínimo de texto, é uma trama curta
e expressiva. Sinopse: um ratinho, ao encontrar um suculento morango maduro deseja-o
para si, mas ao pressentir a ameaça do grande urso, vindo em seu encalço para comer
a fruta, procura várias soluções rápidas para tentar escondê-la. Essa é uma sinopse
de apenas três ou quatro linhas. E qual a questão envolvida? Reparem que toda a
trama é apenas o esforço do pequeno em esconder a fruta, esforço em vão, porque
o morango é grande e pesado para transportar, o urso é veloz e o tempo é curto.
Qual o elemento dramatúrgico nessa história? O impasse. Um impasse se apresenta logo ao protagonista. Em algumas narrativas clássicas,
introduzem-se a personagem, o ambiente e época, como se vê nas histórias
iniciadas por “era uma vez”, para contextualizar espaço e tempo. Mas toda e
qualquer trama se desenvolve a partir de um problema
e não da contextualização. Sem problemas, por menores que sejam, não há dramaturgia. A premissa da interpretação é de imediato a
identificação do problema. Precisa acontecer
algo que mova as personagens a uma ação a tirá-los da normalidade, à qual retornarão
(ou não) ao final. A partir de um
impasse, a trama segue rumo a um enfrentamento e a uma resolução. Atentem que, quase sempre, o final é feliz. Termina num casamento, uma celebração, uma recompensa etc. Mas, examinando melhor o final do Ratinho ..., a trama não evolui como na
maioria das narrativas clássicas para crianças. Voltando à linha do enredo, o
ratinho procura algumas soluções para enfrentar o problema (esconder/disfarçar
o morango) ; afinal, nenhuma é
satisfatória, já que a aparição do grande urso é iminente. Então ele resolve
deixar a metade da fruta para o poderoso animal. E contenta-se em ficar com a outra metade que
pode carregar. Acabou o enredo. Não foi final “feliz”, porque não conseguiu a
fruta só para ele; nem infeliz, porque escapou ileso. Mas é só
isso? Não. Sigamos.
2.1 Agora façamos um exercício de argumento
, não é produção de sentido.
Personagens. Um
ratinho e um urso oculto.
Identifique o problema
que o ratinho enfrenta. Um enorme urso quer pegar o belo morango que o ratinho desejou. O
impasse: ou deixa a fruta para o urso ou
arrisca sua vida.
Como ele enfrenta
o problema, já que o urso é muita vezes mais forte do que ele?
De duas maneiras.
1º tentando
esconder o morango.
2º tentando disfarçá-lo.
Também duas estratégias inúteis. O urso cheira um morango a
muitos km de distância.
Como ele resolve o
problema? Divide então o morango em duas partes.
Uma parte ele já come. A outra deixa para o urso E assim salva
sua pele.
Esse é apenas o
argumento que você “compreendeu” e
está bem explícito.
2.2 Pensemos numa produção de sentido. Você pode tirar uma conclusão para você de uma história como essa?
Agora imagine uma situação parecida que você tenha vivido no
seu cotidiano. Isso se chama produção de
sentido, que pode variar de pessoa para pessoa.
Há livros, como falamos, que não têm nenhuma
“moral” (ou juízo de valor) explícita. Esse não tem. Aqui se sugere apenas que o ratinho foi mais astuto do que corajoso.
Pense em quantas situações parecidas acontecem conosco. Don Woody nos
mostra o quanto somos limitados em
nossos poderes.(essa produção de sentido é minha). Que há sempre alguém mais
forte do que nós, e que o mais inteligente será negociar, perdendo alguma
coisa, do que desafiar e perdermos tudo. Que há circunstâncias que nos levam a
abrir mão de alguma coisa, a ceder. Quantas situações aparecem em que temos que
ceder? Em quantas situações temos que simplesmente
aceitar certas condições, e esperar para superá-las em outra oportunidade? Em quantas somos levamos a dividir algo
material ou moral ? Em que momento você se viu obrigado(a) a repartir algo que
deseja muito, para preservar você mesmo, alguém
ou alguma coisa, ou parte de algo que deseja? Quando temos que avaliar as nossas reais
possibilidades? Então podemos dizer que o ratinho foi medroso... ou cauteloso? Enfim,
múltiplas possibilidades a explorar. Muitas narrativas enaltecem o herói. São chamadas histórias românticas ou
heroicas, em que o protagonista, com persistência ou bravura, vence um inimigo
ou um antagonista muito mais forte do que ele.
Está cheio deles na literatura. Mas em geral não funciona assim na
realidade. Vimos que história do ratinho há mais elementos realistas do que
românticos. Ele reconhece suas desvantagens em relação ao antagonista, então
prefere a estratégia à bravura. O pequeno e rico texto valeu-se de um recurso
dramatúrgico que mais mostra do que
descreve. Importante observar que a
produção de sentido não é aquela solução apresentada pela personagem.
É o que esta solução agregou para o leitor em termos de sua experiência. Mais importa que suscitem perguntas do que respostas.
3.
Conclusão
Como foi mencionado, para textos
da literatura infantojuvenil do primeiro ciclo
(1º ao 5º ano) é bastante simples a interpretação utilizando elementos
dramatúrgicos. No tripé problema ou um impasse, o enfrentamento do problema e a
resolução do problema são elementos que necessariamente precisam ser
identificados na trama. Procuramos ver
se existem indícios de juízo de valor, que não são complexos de explorar, e
podemos parar por aí. Porém os textos podem ir além da produção do juízo de
valor - a produção de sentido – a pergunta é o quê, para cada um dos leitores, aquele texto
associou à sua experiência?
Recomendável que seja aplicado à
leitura em roda de um texto por vez, com possibilidade de gerar ricas
discussões.
Mas atenção: há textos com
vastíssimas possibilidades. São mais complexos e requerem recursos da dramaturgia
também mais complexos. Aplicam-se aos jovens mais velhos e com mais escolaridade.
4.
Bibliografia
recomendada
Beckett, Samuel. Esperando Godot.
São Paulo: Companhia das Letras, 2017.
Ortoff. Maria
vai com as outras. São Paulo: Ática,
1987.
Pallotini, Renata. Introdução à
dramaturgia. Rio de Janeiro: Brasiliense, 1983
Propp, Vladimir. Morfologia do conto
maravilhoso. São Paulo: Forense, 1984
Vogler, Christopher. A jornada do
escritor. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008
Wood, Don e Audrey. O
ratinho, o morango vermelho maduro e o grande urso esfomeado. São Paulo:
Brinque book, 2008