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quinta-feira, 29 de abril de 2021

Fim das bibliotecas. Fim?

 


               
“O que sempre me fascinou nessas grandes bibliotecas públicas é o halo de luz    verde desenhando um círculo claro, em cujo centro se encontra o livro. Você está com seu livro e cercado de todos os livros do mundo” (Carriére, 2009, p.246)

As especulações sobre o fim do livro e das bibliotecas físicas ensejaram   muitos debates, entre as quais destaco as publicadas no simpático  Não contem com o fim do livro, Humberto Eco e Jean-Claude Carriére[i]., de onde surgiu a frase que inspirou a epígrafe . Mesmo descontando o fato de que falam de bibliofilia, entendo que o “fim do livro” implicaria no fim das bibliotecas físicas.  Prendo-me aqui, e avanço mais no meu “quadrado’, a essas bibliotecas,  públicas e escolares. Ninguém, em sã consciência ou conhecimento de causa, proclama o fim dessa fonte inesgotável de conhecimentos, mas forçosa e abundantemente debatem-se os efeitos da avalancha eletrônica sobre ela, nas duas últimas décadas. Visível que as bibliotecas não só se utilizam como adotaram estratégias de convivência tecnológica, com salas disponibilizando computadores aos usuários,  algumas com acervos digitalizados, e outras, a de ampliar seu perfil para o conceito que chamam de “parque”, que são verdadeiros centros culturais, cujo foco não é apenas o suporte livro, mas uma diversidade de bens culturais e mídias. Com o uso cada vez  mais alargado das  mídias virtuais, as pessoas tenderão, naturalmente, a fazer uso das possiblidades  online  no seu cotidiano e, cada vez menos, a se deslocarem.  Nesse “caldo” informático vieram para ficar, o home-office, já disseminado  e as bibliotecas virtuais, nem tanto. Em resumo, caso as condições permitirem, você pode optar por  ir pessoalmente às bibliotecas  ou acessá-las, de onde estiver. Pode? Bem, pousando os pés no chão, vemos que, a despeito das grandes bibliotecas  nacionais, universitárias e conglomerados digitais no mundo  (Amazon, Google) e plataformas privadas oferecerem  tais facilidades, a realidade virtual esbarra na realidade social; não está ao alcance  daquele público que não conta em casa com equipamento e rede condignas para acesso à internet e que demanda políticas públicas de inclusão digital. Independentemente, das vantagens de alcance social,  voltemos à cena em que o leitor  vai à sua biblioteca municipal ou se, docente ou aluno, à sua aconchegante biblioteca escolar.  Permitam-me  usar de uma licença . Imagine que você esteja em um lugar mágico, em que as coisas, no caso  os livros, como no País das Maravilhas, se multipliquem  e se agigantem e, de repente, e você se veja com eles a seu redor. E organizados, sistematicamente, por todos os campos do conhecimento, e se subdividindo, de modo infinitesimal, sem que você dimensione, mas sem que você se perca neles. Claro, é uma licença, na verdade é do  ambiente que estou falando.  A biblioteca, como uma enciclopédia, é um índice gigante do conhecimento humano, virtual ou físico. Mas, ao percorrer seus corredores, você está percorrendo todos os saberes e, em um só território e a um só tempo, abertos à  universalidade, expondo-se a descobertas.  Importa  menos o tamanho da biblioteca. Pequena, média, grande, é um fato. Uma biblioteca geral pode não ter um acervo completo, mas por menor que seja,  todo conhecimento se encerra nela, por princípio. E é uma experiência que não se deve furtar principalmente às crianças, curiosas e prontas a explorar tudo.  Nenhum banco de dados ou acervo digitalizado vai lhe abrir essa “enciclopédia”.  Por que? No ambiente virtual o seu acesso é pontual, o que pode, sim, abrir uma janela para muitos títulos, mas jamais vai lhe dar essa cosmovisão. Porque é da natureza do mundo virtual ser fragmentário. E essa é a chave diferencial para permanência das bibliotecas físicas.  E o que importa o todo? - perguntarão. Aí o leitor é quem decide se quer ver o mundo por uma ou por muitas janelas.

  Sheila G Soares, 2021



[i] Carriére,Jean-Claude; Eco, Humberto. Não contem com o fim do livro. Rio de Janeiro: Record,2009.