“O que sempre me fascinou nessas grandes bibliotecas públicas
é o halo de luz verde desenhando um
círculo claro, em cujo centro se encontra o livro. Você está com seu livro e
cercado de todos os livros do mundo” (Carriére, 2009, p.246)
As especulações sobre o fim do livro
e das bibliotecas físicas ensejaram
muitos debates, entre as quais destaco as publicadas no simpático Não
contem com o fim do livro, Humberto Eco e Jean-Claude Carriére[i].,
de onde surgiu a frase que inspirou a epígrafe . Mesmo descontando o fato de
que falam de bibliofilia, entendo que o “fim do livro” implicaria no fim das
bibliotecas físicas. Prendo-me aqui, e
avanço mais no meu “quadrado’, a essas bibliotecas, públicas e escolares.
Ninguém, em sã consciência ou conhecimento de causa, proclama o fim dessa fonte
inesgotável de conhecimentos, mas forçosa e abundantemente debatem-se os
efeitos da avalancha eletrônica sobre ela, nas duas últimas décadas. Visível
que as bibliotecas não só se utilizam como adotaram estratégias de convivência tecnológica, com salas disponibilizando
computadores aos usuários, algumas com
acervos digitalizados, e outras, a de ampliar seu perfil para o conceito que
chamam de “parque”, que são verdadeiros centros culturais, cujo foco não é apenas
o suporte livro, mas uma diversidade de bens culturais e mídias. Com o uso cada vez mais
alargado das mídias virtuais, as pessoas
tenderão, naturalmente, a fazer uso das possiblidades online no seu cotidiano e, cada vez menos, a se
deslocarem. Nesse “caldo” informático vieram
para ficar, o home-office, já
disseminado e as bibliotecas virtuais,
nem tanto. Em resumo, caso as condições permitirem, você pode optar por ir
pessoalmente às bibliotecas ou acessá-las,
de onde estiver. Pode? Bem, pousando os pés no chão, vemos que, a despeito das
grandes bibliotecas nacionais, universitárias
e conglomerados digitais no mundo (Amazon, Google) e plataformas privadas oferecerem
tais facilidades, a realidade virtual
esbarra na realidade social; não está ao alcance daquele público que não conta em casa com
equipamento e rede condignas para acesso à internet e que demanda políticas
públicas de inclusão digital. Independentemente, das vantagens de alcance
social, voltemos à cena em que o leitor vai à sua
biblioteca municipal ou se, docente ou aluno, à sua aconchegante biblioteca
escolar. Permitam-me usar de uma licença . Imagine que você esteja
em um lugar mágico, em que as coisas, no caso os livros,
como no País das Maravilhas, se multipliquem
e se agigantem e, de repente, e você se veja com eles a seu redor. E organizados,
sistematicamente, por todos os campos do conhecimento, e se subdividindo, de
modo infinitesimal, sem que você dimensione, mas sem que você se perca neles. Claro, é uma licença, na
verdade é do ambiente que estou
falando. A biblioteca, como uma enciclopédia,
é um índice gigante do conhecimento humano, virtual ou físico. Mas, ao
percorrer seus corredores, você está percorrendo todos os saberes e, em um só território
e a um só tempo, abertos à universalidade,
expondo-se a descobertas. Importa menos o tamanho da biblioteca. Pequena, média,
grande, é um fato. Uma biblioteca geral pode não ter um acervo completo, mas por menor que seja, todo conhecimento se encerra nela, por princípio. E é uma experiência que não se deve furtar principalmente às
crianças, curiosas e prontas a explorar tudo. Nenhum banco de dados ou acervo digitalizado
vai lhe abrir essa “enciclopédia”. Por que?
No ambiente virtual o seu acesso é pontual, o que pode, sim, abrir uma janela
para muitos títulos, mas jamais vai lhe dar essa cosmovisão. Porque é da natureza
do mundo virtual ser fragmentário. E essa é a chave diferencial para
permanência das bibliotecas físicas. E o
que importa o todo? - perguntarão. Aí o leitor é quem decide se quer ver o
mundo por uma ou por muitas janelas.
Sheila G Soares, 2021
[i] Carriére,Jean-Claude;
Eco, Humberto. Não contem com o fim do
livro. Rio de Janeiro: Record,2009.