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quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Digressões (de Ferreira Gullar) em torno de um osso

Reproduzo aqui uma interessantíssima crônica de Ferreira Gullar: Osso pensa? (Folha de São Paulo, 8/09/2013):

Quando pela primeira vez me dei conta de que meus poemas nasciam de um estado mental imprevisível, e o defini como um espanto, estava usando uma expressão de Platão. Ele afirmara que o conhecimento nasce do espanto.(...)Quando pela primeira vez me dei conta de que meus poemas nasciam de um estado mental imprevisível, e o defini como um espanto, estava usando uma expressão de Platão. Ele afirmara que o conhecimento nasce do espanto.(...) Isso pode ser provocado por qualquer fato, do mais raro ao mais banal, corriqueiro. E é o que mais me espanta: o meu fêmur que se choca com minha bacia, o ilíaco, e me faz, perplexo: "tenho dentro de mim um enorme osso, de que não me havia dado conta até este momento, em que senti chocarem-se, dentro de mim, um contra o outro. E a pergunta que surge é: eu sou esse osso? Esse osso sou eu? Formula essa pergunta, mas e osso, ele pergunta?"(...)
Mas vamos retomar a questão principal que me fez escrever esta crônica: se o espanto é a origem tanto do conhecimento quanto do poema, significa que a filosofia e a poesia são a mesma coisa? Essa é uma pergunta difícil de responder, mas me atrevo a dizer, antes de qualquer especulação, que não, que filosofia não é a mesma coisa que poesia. Sim, não é; não obstante, não apenas ambas nascem do espanto, como ambas implicam em reflexão.
Certamente, nem toda poesia implica reflexão em nível equivalente ao da filosofia. Há poemas que nascem quase que magicamente das próprias palavras, fazendo-nos pensar que alguém, que não o poeta, é que os inventou. E há também poemas de encantamento, que se alimentam mais da fantasia e da paixão do que desse espanto que gera reflexão.
Voltando à relação dos dois espantos --o do filósofo e o do poeta-- vamos tentar deslindar o que os distingue e o que os aproxima. Até onde posso vislumbrar uma explicação para tal problema, diria que, no espanto, não há diferença entre o filósofo e o poeta, já que ambos são tomados, inesperadamente, da constatação de que não há explicação para o que acabam de perceber: osso pensa? Osso pergunta?
A diferença, então, estaria depois dessa constatação, que é diferente no filósofo e no poeta. Salvo, melhor juízo, acho que o filósofo tem necessidade de explicar o fato que o espantou, e o poeta não; o poeta quer apenas dizer que se espantou, que aquilo não tem mesmo explicação; o que ele deseja, em suma, é registrar o inexplicável, afirmar o insondável mistério da existência.
É nisso, creio eu, que os dois diferem, uma vez que seja próprio da filosofia explicar a existência. O filósofo não se conforma com inexplicabilidade do fenômeno que o espantou e, por essa razão, tem que explicá-lo, inseri-lo no sistema de pensamento que ele, filósofo, elabora na tentativa de tornar o mundo inteligível.
Admitir que não há explicação para a existência seria o fracasso da filosofia que, neste particular, situa-se no polo oposto ao da poesia. Sim, porque, para o poeta "só o que não se sabe é poesia".

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Viviane Mosé e a pesquisa


"Seis anos é a idade em que a criança deve começar a ser estimulada a pesquisar,pensar e formar capacidade crítica", Viviane Mosé, autora de “A escola e os desafios contemporâneos" (veja em http://www.eliomar.com.br/wp-content/uploads/2013/09/160698.pdf )
 ”

Esta parece uma constatação óbvia e até simples, mas o que Viviane defende é revolucionário: substituir a aula pachorrenta pelo exercício da curiosidade envolvida na pesquisa, coisa que lá, pelos idos do início do século 20, Bertrand Russell defendia. E por isso quero falar nela. Voltando à contemporaneidade, o que a Internet tem feito é aguçar a curiosidade. A pesquisa, uma palavra que assusta os menos avisados, é possível desde as fases iniciais do ensino. Quando estimulamos  uma criança a selecionar uma cor ou um objeto dentre outras, já é uma pesquisa em gestação. Pesquisa é um ato de recorte, de seleção e pode ser feita do modo mais simples ao mais complexo. Lembro-me de um livro-jogo que, até bem pouco tempo, fazia sucesso entre a garotada: Onde está Wally?(1) ali estava um exercício primário de seleção. Achar Wally e os objetos de Wally exigia uma acuidade e uma concentração,  tal como a leitura gráfica exige, sendo o próprio jogo uma leitura por imagens. Na pesquisa, como processo de desenvolvimento cognitivo, procuramos aqueles objetos que estão relacionados entre si e os evidenciamos, da forma como Wally estava relacionado com sua touca, seu sapato, sua bengala etc., com a diferença que a representação na pesquisa formal é verbal, são as palavras, e não as figuras, que necessariamente guardam relação entre si, como árvore e plantas; mar e peixes. Nas fases iniciais, as relações são bastante simples: a árvore pertence ao mundo das plantas; os peixes ao mundo aquático, as pedras à terra etc. e se dá por associação. À medida que a escolaridade aumenta, a pesquisa já vai tomando a forma estruturada, com os assuntos e suas relações necessariamente interligadas e mais complexas. Se eu estou tratando do clima de um país, os elementos aos quais o estudante deve se ater em um verbete  é a posição desse país na superfície terrestre, a sua latitude, seu relevo e hidrografia enfim, tudo que interfere com clima, o que deve ser orientado pelo professor, previamente ao trabalho. Esses elementos recortam o tema. Evidentemente que o professor não abrirá mão do recorte preciso em cima de qualquer tema, do contrário a pesquisa estará invalidada pelo falta de foco, será perdida. Se a pesquisa é sobre clima, não tenho que falar de culinária. Veja a pesquisa como um foco de uma lanterna, que não é difuso. Outra coisa importante é o enunciado. Se eu desejo saber sobre os meios de transporte no século XIX, eu estou querendo tudo sobre esses meios naquele século, portanto uma alentada dissertação. Se eu desejo saber quais eram os meios de transporte do século XIX , eu estou pedindo apenas para enumerar. Se eu estou pedindo para dizer como eram, eu estou pedindo para descrever. Se eu pergunto  por que assim eram, estou  exigindo uma argumentação. Cada enunciado demandará por parte do estudante um discurso diferente, o que é um dos aspectos mais importantes da pesquisa na construção textual. Então, quanto mais genérica a pesquisa, menor a seleção; quanto menos genérica, maior a seleção. Uns equívocos muito frequentes são aqueles em que a amplitude da pesquisa é imensa: o professor pediu "Europa", mas como Europa? Se o estudante consultar o verbete de enciclopédia ele vai encarar, coitado, umas dez páginas; na Internet uma profusão de sites, embora a Wikipedia forneça dados relativamente resumidos, ele é um site colaborativo e passível de erros. O importante é que se diga o que se deseja saber sobre a Europa, ex.  se se distribuir a pesquisa entre os alunos pode se pedir a um grupo que  fale do grupo de línguas de um modo geral; a outro das moedas, outros mais do IDH e das etnias, assim por diante, sempre explicando o que cada item representa. Muito se pode falar ainda de pesquisa, mas, sobretudo, quero dizer que a entrevista de Viviane Mosé me motivou a tratar do tema, uma luzinha no fim do túnel. Confiram.

(1) Onde está Wally? de Martin Handford. Publicado no Brasil pela Martins Editora.