"Seis anos é a idade em que a criança deve começar a ser estimulada a pesquisar,pensar e formar capacidade crítica", Viviane Mosé, autora de “A escola e os desafios contemporâneos" (veja em http://www.eliomar.com.br/wp-content/uploads/2013/09/160698.pdf )
”
Esta parece uma constatação óbvia e até simples, mas o que Viviane defende é revolucionário: substituir a aula pachorrenta pelo exercício da curiosidade envolvida na pesquisa, coisa que lá, pelos idos do início do século 20, Bertrand Russell defendia. E por isso quero falar nela. Voltando à contemporaneidade, o que a Internet tem feito é aguçar a curiosidade. A pesquisa, uma palavra que assusta os menos avisados, é possível desde as fases iniciais do ensino. Quando estimulamos uma criança a selecionar uma cor ou um objeto dentre outras, já é uma pesquisa em gestação. Pesquisa é um ato de recorte, de seleção e pode ser feita do modo mais simples ao mais complexo. Lembro-me de um livro-jogo que, até bem pouco tempo, fazia sucesso entre a garotada: Onde está Wally?(1) ali estava um exercício primário de seleção. Achar Wally e os objetos de Wally exigia uma acuidade e uma concentração, tal como a leitura gráfica exige, sendo o próprio jogo uma leitura por imagens. Na pesquisa, como processo de desenvolvimento cognitivo, procuramos aqueles objetos que estão relacionados entre si e os evidenciamos, da forma como Wally estava relacionado com sua touca, seu sapato, sua bengala etc., com a diferença que a representação na pesquisa formal é verbal, são as palavras, e não as figuras, que necessariamente guardam relação entre si, como árvore e plantas; mar e peixes. Nas fases iniciais, as relações são bastante simples: a árvore pertence ao mundo das plantas; os peixes ao mundo aquático, as pedras à terra etc. e se dá por associação. À medida que a escolaridade aumenta, a pesquisa já vai tomando a forma estruturada, com os assuntos e suas relações necessariamente interligadas e mais complexas. Se eu estou tratando do clima de um país, os elementos aos quais o estudante deve se ater em um verbete é a posição desse país na superfície terrestre, a sua latitude, seu relevo e hidrografia enfim, tudo que interfere com clima, o que deve ser orientado pelo professor, previamente ao trabalho. Esses elementos recortam o tema. Evidentemente que o professor não abrirá mão do recorte preciso em cima de qualquer tema, do contrário a pesquisa estará invalidada pelo falta de foco, será perdida. Se a pesquisa é sobre clima, não tenho que falar de culinária. Veja a pesquisa como um foco de uma lanterna, que não é difuso. Outra coisa importante é o enunciado. Se eu desejo saber sobre os meios de transporte no século XIX, eu estou querendo tudo sobre esses meios naquele século, portanto uma alentada dissertação. Se eu desejo saber quais eram os meios de transporte do século XIX , eu estou pedindo apenas para enumerar. Se eu estou pedindo para dizer como eram, eu estou pedindo para descrever. Se eu pergunto por que assim eram, estou exigindo uma argumentação. Cada enunciado demandará por parte do estudante um discurso diferente, o que é um dos aspectos mais importantes da pesquisa na construção textual. Então, quanto mais genérica a pesquisa, menor a seleção; quanto menos genérica, maior a seleção. Uns equívocos muito frequentes são aqueles em que a amplitude da pesquisa é imensa: o professor pediu "Europa", mas como Europa? Se o estudante consultar o verbete de enciclopédia ele vai encarar, coitado, umas dez páginas; na Internet uma profusão de sites, embora a Wikipedia forneça dados relativamente resumidos, ele é um site colaborativo e passível de erros. O importante é que se diga o que se deseja saber sobre a Europa, ex. se se distribuir a pesquisa entre os alunos pode se pedir a um grupo que fale do grupo de línguas de um modo geral; a outro das moedas, outros mais do IDH e das etnias, assim por diante, sempre explicando o que cada item representa. Muito se pode falar ainda de pesquisa, mas, sobretudo, quero dizer que a entrevista de Viviane Mosé me motivou a tratar do tema, uma luzinha no fim do túnel. Confiram.
(1) Onde está Wally? de Martin Handford. Publicado no Brasil pela Martins Editora.
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