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terça-feira, 17 de março de 2015

A mágica e o relógio de parede

Vem-se discutindo a Era da Informação cuja expressão é atribuída a Alvin Toffler*(1) desde fim dos anos 70. Nos tempos de hoje, uma imagem comum, que o ensaísta sequer talvez tenha imaginado, é se verem crianças, desde muito pequenas, com os suportes eletrônicos à mão, fascinados digitando, não no sentido amplo, mas descobrindo que ao simples toque, acontece uma "mágica'. Lógico que, por trás dessa "mágica", monstros sagrados* da tecnologia dedicaram sua juventude e anos e anos aos estudos, como, para não falar dos antigos, Bill Gates, Micrsoft, Steve Jobs, Apple, Larry Page e Sergey Brin, discretos e poderosos criadores do Google, e o ainda jovem Mark Zuckerberg, do Facebook. Porém, nada é mais tentador pensar que com um "clique mágico", o mundo está a nossos pés, ou melhor, em  nossos dedos. Essa passagem do analógico para o digital me lembra muito o "relógio de ponteiro" versus o relógio digital. Para os leitores dos primeiros, há necessariamente uma operação mental, que passa pela (hoje desprezada) tabuada; para os relógios digitais, num nível de esforço mínimo, o reconhecimento gráfico numérico. Identifico o mesmo fenômeno na leitura de jovens e crianças nos computadores, tablets e celulares, que, arrisco, são 99% de composição imagética; filmes, desenhos e jogos, que exigem uma intervenção do leitor, não raro, baseada em automatismos, ou, senão passividade, reflexos de maior ou menor intensidade ante o produto. Evidente que esses produtos (muitos são produções de alto nível, não se discute) fascinam, entretém e os atraem pela facilidade, e evidente também que qualquer conclusão a respeito exige incursões em alta semiologia ou teoria da recepção, a que não me atrevo aqui. Arrisco sim, a atestar, não sem surpresa, que vi ao longo da convivência com inúmeras crianças e pré-adolescentes a incapacidade de "ler"o velho relógio de parede da biblioteca. O que tem a ver uma coisa com outra? Tem que essas crianças são exímias operadoras dessas novas mídias, Tem que, independentemente da boa ou má condução do ensino, operá-las não significa avanços qualitativos na aprendizagem. Uma leitura ,digamos, tradicional,  impressa, para não ir muito longe, mesmo  de obras de  ficção, tem-se apresentado aos jovens, cada vez mais como ponteiros do relógio, enigmas a decifrar, Em maior número, as publicações diminuem de tamanho - quem lê o Monteiro Lobato no "original", aquelas edições de seus alentados volumes? Há pouco li uma reportagem que metade dos leitores que adquire bestsellers não chega ao final.(2) Desconta-se daí a hipótese de que se tratava de kinders, equipamento de leitura eletrônica, mas o quanto tal fato acontece com livros impressos e que não se mensurou? Isso significa que não é o meio em si, mas o fato dele se apresentar como um texto grafado, cuja prática vem sendo negligenciada, porque requer competências próprias e formação de sentido para ser repercutida. Que a tal mágica não ressignifique a leitura como objeto ao nível da expressão reativa apenas, e sem o sentido da profundidade e introspecção que lhe foram e devem ser ínerentes.

(1)Alvin Toffler (4 de Outubro de 1928) é um escritor e futurista norte-americano ... The Third Wave (A terceira vaga) ou (A terceira onda) (1980) Bantam Books  ...(wikipedia)
(2)Metade dos leitores brasileiros de um dos maiores best-sellers de 2014, "A Culpa É das Estrelas" (Intrínseca), de John Green, não concluiu a leitura do romance, a julgar por um levantamento feito pela loja de e-books Kobo . O número, relativo a 2014, pode ser medido porque as lojas de livros digitais têm acessos a dados como que e-books os leitores compraram, mas não chegaram a abrir, quais leram até o fim e quais leram mais rapidamente. A média de conclusão de leitura do romance de Green, de 50,9%, é até superior a de outros best-sellers, como "Cinquenta Tons de Cinza" (41,7% dos compradores do livro na Kobo concluíram a leitura) e "Pequeno Príncipe" (48,8%).(...) Um best-seller mais longo como "Eternidade por um Fio", de Ken Follet, com mais de mil páginas, foi completado por apenas 16,8% dos leitores, e um clássico como "O Triste Fim de Policarpo Quaresma", de Lima Barreto, por apenas 13,3%. O livro mais completado por leitores da Kobo foi "Perdendo-me", de Cora Carmack, com 86,5%. 
Fonte http://www1.folha.uol.com.br/colunas/raquelcozer/2015/03/1602434-no-meio-do-caminho.shtml

quarta-feira, 4 de março de 2015

O sucesso não depende da inteligência Folha/ New York Times

A tecnologia costuma ser apresentada como o grande equalizador educacional. Iniciativas como o One Laptop Per Child (“um laptop por criança”) e os Massive Online Open Courses (Mooc, “cursos online abertos e massivos”) deveriam servir para democratizar a aprendizagem. Mas então os laptops de US$ 400 dados a crianças pobres do mundo todo quebraram, e o índice de reprovação em alguns dos Moocs chegou a 75%.
A realidade se impôs.
Muitos acreditam que os computadores possam reduzir a defasagem educacional, mas pesquisas mostram que proporcionar acesso à internet para estudantes de famílias pobres é algo que tende a ampliar essa disparidade, conforme noticiou Susan Pinker no jornal “The New York Times”.
Jacob Vigdor e Helen Ladd, economistas da Universidade Duke, acompanharam 1 milhão de secundaristas de baixa renda durante cinco anos, a partir do momento em que eles receberam computadores. Concluíram que houve “um persistente declínio nas notas de leitura e matemática”. As notas dos meninos caíram drasticamente porque eles usavam as máquinas para jogar games, navegar nas redes sociais e baixar músicas e filmes.
A mesma coisa aconteceu no projeto One Laptop, no qual pesquisadores descobriram que as crianças passaram a dedicar menos tempo à lição de casa.
Novos estudos sugerem que os educadores devem se preocupar mais em reduzir o número de alunos por professor, intervir precocemente nos casos necessários e observar traços de personalidade.
Chicago criou um programa intensivo onde meninos negros e latinos trabalham em duplas com um tutor, e os participantes acabaram ultrapassando em até dois anos os colegas que não haviam recebido essa ajuda, contou David Kirp no “NYT”.
Muitos programas atendem a faixa etária de 0 a 3 anos, mas a adolescência pode ser igualmente importante. O psicólogo Laurence Steinberg, da Universidade Temple, observa em seu novo livro que os neurocientistas já perceberam que a adolescência, como a primeira infância, é um “período de tremenda ‘neuroplasticidade’”, durante o qual o cérebro muda graças à experiência.
Nicholas Kristof escreveu que ajudar precocemente crianças em condições desfavorecidas não só reduz a desigualdade como também pode representar economia de dinheiro público. Ele citou James Heckman, professor da Universidade de Chicago e economista ganhador do prêmio Nobel, segundo o qual a maneira mais barata de reduzir a criminalidade é investir em programas para a primeira infância. Heckman calculou que a mesma redução da criminalidade por meio da contratação de policiais exigiria cinco vezes a mesma quantia.
“Educação precoce” inclui orientar grávidas em situação de risco a não beber, fumar ou usar drogas. Após o nascimento, ajudá-las a amamentar e a ler para a criança. Aparentemente, escreveu Kristof, isso ajuda porque “os primeiros anos são a janela em que o cérebro está se formando e quando capacidades básicas, como determinação e autocontrole, se desenvolvem”.
Em algumas escolas, ter determinação, autocontrole e curiosidade são agora parte do currículo. Os cientistas dizem que a personalidade pode ser mais importante do que a inteligência.
O professor de psicologia Arthur Poropat cita dados segundo os quais a tendência a ser “diligente, obediente e trabalhador” e qualidades como criatividade e curiosidade são melhores que a inteligência como indicadores para prever o rendimento escolar de um aluno. Essa é uma boa notícia, escreveu Poropat, porque “a personalidade muda com o tempo, muito mais do que a inteligência”.
Mandy Benedix, que dá aulas sobre determinação numa escola do ensino médio em Pearland, no Texas, disse ao “NYT” que “características não cognitivas podem ser ensinadas”. “Sabemos, também, que elas são necessárias para o sucesso. Olhe para qualquer pessoa que, por um longo tempo, tenha tido sucesso. Todas exibiram em algum momento determinação para prosseguir.”
Fonte: Folha de São Paulo/ New York Times 28 de fevereiro de 2015