Vem-se discutindo a Era da Informação cuja expressão é atribuída a Alvin Toffler*(1) desde fim dos anos 70. Nos tempos de hoje, uma imagem comum, que o ensaísta sequer talvez tenha imaginado, é se verem crianças, desde muito pequenas, com os suportes eletrônicos à mão, fascinados digitando, não no sentido amplo, mas descobrindo que ao simples toque, acontece uma "mágica'. Lógico que, por trás dessa "mágica", monstros sagrados* da tecnologia dedicaram sua juventude e anos e anos aos estudos, como, para não falar dos antigos, Bill Gates, Micrsoft, Steve Jobs, Apple, Larry Page e Sergey Brin, discretos e poderosos criadores do Google, e o ainda jovem Mark Zuckerberg, do Facebook. Porém, nada é mais tentador pensar que com um "clique mágico", o mundo está a nossos pés, ou melhor, em nossos dedos. Essa passagem do analógico para o digital me lembra muito o "relógio de ponteiro" versus o relógio digital. Para os leitores dos primeiros, há necessariamente uma operação mental, que passa pela (hoje desprezada) tabuada; para os relógios digitais, num nível de esforço mínimo, o reconhecimento gráfico numérico. Identifico o mesmo fenômeno na leitura de jovens e crianças nos computadores, tablets e celulares, que, arrisco, são 99% de composição imagética; filmes, desenhos e jogos, que exigem uma intervenção do leitor, não raro, baseada em automatismos, ou, senão passividade, reflexos de maior ou menor intensidade ante o produto. Evidente que esses produtos (muitos são produções de alto nível, não se discute) fascinam, entretém e os atraem pela facilidade, e evidente também que qualquer conclusão a respeito exige incursões em alta semiologia ou teoria da recepção, a que não me atrevo aqui. Arrisco sim, a atestar, não sem surpresa, que vi ao longo da convivência com inúmeras crianças e pré-adolescentes a incapacidade de "ler"o velho relógio de parede da biblioteca. O que tem a ver uma coisa com outra? Tem que essas crianças são exímias operadoras dessas novas mídias, Tem que, independentemente da boa ou má condução do ensino, operá-las não significa avanços qualitativos na aprendizagem. Uma leitura ,digamos, tradicional, impressa, para não ir muito longe, mesmo de obras de ficção, tem-se apresentado aos jovens, cada vez mais como ponteiros do relógio, enigmas a decifrar, Em maior número, as publicações diminuem de tamanho - quem lê o Monteiro Lobato no "original", aquelas edições de seus alentados volumes? Há pouco li uma reportagem que metade dos leitores que adquire bestsellers não chega ao final.(2) Desconta-se daí a hipótese de que se tratava de kinders, equipamento de leitura eletrônica, mas o quanto tal fato acontece com livros impressos e que não se mensurou? Isso significa que não é o meio em si, mas o fato dele se apresentar como um texto grafado, cuja prática vem sendo negligenciada, porque requer competências próprias e formação de sentido para ser repercutida. Que a tal mágica não ressignifique a leitura como objeto ao nível da expressão reativa apenas, e sem o sentido da profundidade e introspecção que lhe foram e devem ser ínerentes.
(1)Alvin Toffler (4 de Outubro de 1928) é um escritor e futurista norte-americano ... The Third Wave (A terceira vaga) ou (A terceira onda) (1980) Bantam Books ...(wikipedia)
(2)Metade dos leitores brasileiros de um dos maiores best-sellers de 2014, "A Culpa É das Estrelas" (Intrínseca), de John Green, não concluiu a leitura do romance, a julgar por um levantamento feito pela loja de e-books Kobo . O número, relativo a 2014, pode ser medido porque as lojas de livros digitais têm acessos a dados como que e-books os leitores compraram, mas não chegaram a abrir, quais leram até o fim e quais leram mais rapidamente. A média de conclusão de leitura do romance de Green, de 50,9%, é até superior a de outros best-sellers, como "Cinquenta Tons de Cinza" (41,7% dos compradores do livro na Kobo concluíram a leitura) e "Pequeno Príncipe" (48,8%).(...) Um best-seller mais longo como "Eternidade por um Fio", de Ken Follet, com mais de mil páginas, foi completado por apenas 16,8% dos leitores, e um clássico como "O Triste Fim de Policarpo Quaresma", de Lima Barreto, por apenas 13,3%. O livro mais completado por leitores da Kobo foi "Perdendo-me", de Cora Carmack, com 86,5%.
Fonte http://www1.folha.uol.com.br/colunas/raquelcozer/2015/03/1602434-no-meio-do-caminho.shtml
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