O que me move
aqui é traduzir sucintamente esses conceitos – biblioteca e bibliotecários - tão
mal compreendidos, sem introduções, históricos e teorias. Para leigos. Do modo
mais simples que meus 40 anos de profissão puderem expressar. Embora recente
como conhecimento profissionalmente estabelecido,
a biblioteconomia é uma das atividades que
têm mais tradição no mundo, quanto à sua idade na História, e
dada à sua natureza, sua origem, como salvaguarda do conhecimento. E que
se transforma, claro, como tudo, e ainda bem, porque vem agregando mídias e diferentes funções. Mas, vamos reconhecer,
seu suporte e sua razão de existir é o livro. Viajei recentemente à Inglaterra e à Suécia e
visitei bibliotecas públicas municipais. Sim, é o livro, na sua dimensão
social, o protagonista da biblioteca. Onde quer que ela esteja está o livro. E
claro, pessoas interagindo com ele. As
bibliotecas são espaços e equipamentos culturais abertos à sociedade em busca do
conhecimento. Algumas delas podem contar com ou estar em espaços culturais, mas
não são centros culturais. Podem contar com atividades educativas, lato sensu,
mas não são escolas. Nelas, o que se vê
são pessoas “apenas” lendo qualquer coisa, outras estudando, outras mais
consultando seus computadores para diferentes fins, não necessariamente
saberes, apenas informações importantes para o dia a dia, ou simples
curiosidades. E sua peculiaridade, ao contrário de que muitos creem, é de que a biblioteca não é também equipamento de massa, como um espetáculo
- uma peça ou filme - para onde as
pessoas vão com o propósito de usufruir
do mesmo objeto. Atinge cada sujeito na sua particularidade. Na extensão de sua
necessidade e seu desejo, em um mesmo ambiente ou pelos meios de difusão. Não é algo novo o que estou dizendo, mas por
incrível que pareça, algo aparentemente tão simples, como um ambiente coletivo de
leitura seja, ao mesmo tempo, tão estranho ao senso comum. Uma pergunta que já
ouvi muitas vezes: precisa “ter faculdade pra fazer isso [arrumar livros na estante]”?
O que há nesses
espaços são profissionais que atendem ao público, de forma personalizada, no
que ele precisa em termos de informação e saberes, aos quais chamamos bibliotecários “de referência”, que
irão orientar o usuário sobre como/onde encontrar a informação ou um determinado documento,
mesmo fora de seu território. Para tal atividade é preciso mais que
familiaridade, como
vemos nas livrarias. O bibliotecário precisa “entender do
assunto”? Não. Cumpre a ele localizá-lo em seus diferentes aspectos ou suportes
(além dos livros) Por exemplo. Um médico pode procurar o assunto “aborto” sob aspectos biológicos; um advogado sob o aspecto
legal; um religioso sob o aspecto moral. Que pode estar num artigo, livro ou
outro meio. Um conteúdo pode estar sob diferentes
contextos, suportes e aspectos os quais o bibliotecário deve conhecer, sob o
ponto de vista da organização da informação temática e dos meios. Definido o
objeto da demanda, para que o bibliotecário seja ágil em sua resposta, ele deve
contar com um sistema de informação (SI) bem estruturado. Na falta dele, valerá
sua experiência em classificação, o que não é suficiente. O profissional pode
falhar, o sistema de informação não. E como é o sistema de informação, pode ser
um catálogo? Sim, pode ser na sua forma, porém não é um simples cadastro, uma
“relação de livros” ou “lista de documentos” como muitos leigos veem. É um meio bastante complexo, pelo qual se
oferecem descritores (não conteúdos) adequados a uma pesquisa ou uma simples
consulta. Os bibliotecários fornecem os meios, não as respostas. Para isso, no
SI existem pontos de acesso. Pontos de acesso recuperam, para o consulente,
elementos tais como autores ou responsabilidades, títulos, séries, assuntos e
os quesitos que satisfaçam àquela demanda e numa linguagem adequadamente
representada. Esse é um dos mais importantes campos da biblioteconomia. Aqui
entra a tão propalada função educativa do bibliotecário, em que ele orienta o
usuário no acesso à informação e no uso do documento. As bibliotecas, porém, para trabalharem com sua capacidade máxima, necessitam de
ferramentas que vão além de seus acervos locais, como diretórios,
bibliografias, que disponibilizem recursos a nível nacional e internacional.
Antigamente (há
uns trinta, quarenta anos) um sistema de informação era produzido manualmente,
em fichas ou listagens impressas, trabalhosas de se atualizarem. Mas isso mudou,
ainda bem, e evoluiu para softwares e bancos de dados online próprios para uso
de bibliotecas, e que permitem formatos, tanto para se migrarem dados de uma
biblioteca para, outra, como para intercâmbio de fontes. Esses softwares são
desenvolvidos por profissionais de TI, porém a montagem deles necessita de
suporte de bibliotecários, sob pena de
ficarem incompletos. Contando com um software para bibliotecas, é necessário um
bibliotecário técnico para alimentação dos dados que vão compor o sistema de
informação. Por que? Por que essa alimentação exige que se sigam normas
internacionalmente aceitas, que são exclusivas de sua competência. Você não
pode manipular uma fórmula, se você ñ é um farmacêutico, certo? É a mesma coisa. Alguns
SI podem ter módulos que auxiliem no funcionamento da biblioteca como cadastro
de usuários, relatórios estatísticos e controle de movimentação do acervo, que
podem ser mantidos pela equipe auxiliar, mas é fundamental que, principalmente,
o sistema de recuperação da informação, de responsabilidade do bibliotecário, possa
repercutir também para o público externo no país e até fora dele. São
conhecidas as redes de bibliotecas nacionais, estaduais e municipais que trocam
informações sobre seus acervos e colaboram entre si. Sem dúvida, essa é uma das
maiores conquistas da humanidade na área de informação.
O que mais faz
o bibliotecário? Desenvolvimento de coleção. Ou seja, aquisição, seleção,
descarte de acervo que seja adequado ao perfil do público local. E quanto mais
geral o acervo, mais refinada é a seleção. Avaliar bem o perfil do público é
também uma tarefa básica, que envolve conhecer e se relacionar bem com a comunidade
a quem a biblioteca vai servir.
Administração.
Implica planejar e trabalhar com as
equipes de colaboradores e auxiliares, e os recursos materiais, dentro de um
programa de funcionamento e de atividades planejadas que deem visibilidade à
biblioteca e atraiam público permanente. Em geral essas atividades contam com um
grupo profissional multidisciplinar, ou da própria instituição a que é
subordinada, ou contratado especialmente para eventos e convidados voluntários. Tais atividades são
estratégicas para uma boa (e necessária) receptividade da biblioteca em seu
meio.
É esperado também que os bibliotecários sejam
sensíveis, particularmente os que atuam no Terceiro Mundo, às dificuldades e
desafios da inclusão sociocultural, ainda presentes nos países em
desenvolvimento. E isso implica em
sistemáticas ações de incentivo ao uso das bibliotecas por parte de um público
iletrado ou não familiarizado com práticas leitoras.
De qualquer
modo, a finalidade de uma biblioteca é
universal: a de que seja um espaço de familiaridade e, no plano ideal, de fidelidade
à leitura e ao saber, e onde a comunidade se veja incluída e, ao mesmo tempo, o veja como parte do seu cotidiano.
Espero ter
ajudado na compreensão de biblioteca e dos bibliotecários.
Sheila G
Soares 2017