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terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Michael Moore e os bibliotecários

         Nesse artigo, relato uma experiência muito interessante do polêmico cineasta e escritor Michael Moore com os bibliotecários. Mike estava para publicar o seu provocativo Stupid White Man , Uma Nação de Idiotas. Ás vésperas do fatídico 11 de setembro, já haviam sido enviados 50 mil exemplares do livro à gráfica para lançamento, porém não foram distribuídos às livrarias, pois, com o evento das Torres Gêmeas, o lançamento foi cancelado pela ReganBooks/Harper-Collins, alegando-se que era inoportuno naquele momento, além do que pediram que Mike mudasse boa parte dos conteúdos de teor bastante crítico, que é afinal a sua marca. Passaram-se semanas e ao interpelar a editora, a resposta categórica foi "não podemos lançar o livro do modo como está escrito", a não ser que as menções a Bush fossem "em tom mais ameno". Mike se recusou. E apesar de tentativa de acordo, a editora não arredou pé de sua posição. Então senão fosse lançado, perguntou Mike, o que fariam das 50 mil cópias impressas? "Acho que serão transformadas em polpa", responderam. Sim, destruídas! Em dezembro de 2001, Mike vai a New Jersey dar um palestra. Em vez do assunto planejado, ele resolveu revelar à plateia um sonho no qual ele se via na  situação em que jamais seus leitores leriam uma palavra de seu livro e pediu à plateia para ouvir alguns trechos. A sala assentiu. E aplaudiu calorosamente ao final.   Agora ,  narrativa de Mike:
    "...Então, um milagre aconteceu. Sem meu conhecimento, havia uma senhora sentada no fundo daquela sala, perto da entrada, que depois de ouvir minha infausta história, resolveu fazer algo. Era uma bibliotecária de Englewood, New Jersey. Ela foi para casa e começou a navegar na internet. Escreveu uma carta aos amigos bibliotecários e anexou-a a alguns sites dedicados a assuntos progressistas de bibliotecas. Ela revelou a todos o que a editora planejava fazer, Ralhou comigo (bem ao estilo  das bibliotecárias) dizendo que eu não podia ficar quieto, porque esse clima de censura não se restringia a mim, afetava a todos. A nova  Patriot Act   tornava ilegal que os bibliotecários se negassem a atender a qualquer pedido da polícia para ver o que alguém estava lendo. Ann Sparanese, [esse era seu nome] pediu que todos escrevessem à editora e exigissem que publicasse o livro de Michael Moore. E foi exatamente isso que centenas e milhares de pessoas fizeram. E eu  não tinha ideia de que isso estivesse acontecendo. Não até receber um telefonema da Harper-Collins.-O que  você disse aos bibliotecários? - interpelou a voz do outro lado da linha.-  Do que você está falando?
- respondi. - Você foi a New Jersey e contou tudo aos bibliotecários! Descobrimos pela Internet. Uma bibliotecária espalhou a história toda e agora estamos recebendo e-mails furiosos dos bibliotecários!  "Hum, pensei, os bibliotecários são um grupo terrorista com o qual ninguém quer se meter". A Publisher weekly me ligou e revelei tudo a ela sobre o calvário dos 50 mil livros reféns em Scranton. O repórter me falou sobre a bibliotecária de New Jersey que havia mexido no vespeiro. (...)Recebi uma ligação de meu agente dizendo que o livro na verdade seria lançado como estava, sem nenhuma vírgula mudada.  Evidentemente a   editora ficou fudida [sic], porque tudo tinha caído na arena pública e estava sendo vista, corretamente, como censora. Malditos bibliotecários! Graças a Deus pelos bibliotecários. Claro que não deve surpreender o fato de os bibliotecários terem encabeçado as acusações. A maioria acha que eles são reservados e quietos e que vivem dizendo "shhh" para todo mundo . Agora estou convencido de que  "shhh" é simplesmente   o barulho que sai da boca deles enquanto planejam  a revolução!É melhor acreditar. Não ganham merda [sic] nenhuma, seus postos e benefícios são continuamente reduzidos, seu orçamento  é o primeiro a ser cortado e gastam dias consertando livros de quarenta anos de idade que enchem as prateleiras. Claro que foi uma bibliotecária que viera em minha ajuda. Provou para mim novamente a diferença que uma pessoa pode fazer. (...) A Harper, mesmo assim, agendou um total de zero aparições nas redes de televisão. Uma cadeia de livrarias disse que eu não poderia ser convidado a aparecer em nenhuma delas por "razões de segurança". Escrevi como em uma era de repressão, as palavras eram tão perigosas como os terroristas. Em algumas horas, os 50 mil exemplares foram vendidos. No dia seguinte, Stupid White Men estava no topo da lista dos mais vendidos."

* Moore, Michael. Stupid white men. Uma nação de idiotas. São Paulo: Francis, 2003  Foto de Michael Moore - Fahrenheit 9 de Novembro : Foto Michael ...

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