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domingo, 5 de julho de 2015

Escritores rejeitam nacionalidade e abraçam literatura como pátria Rachel Donadio

Escritores rejeitam nacionalidade e abraçam literatura como pátria

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Quando Dany Laferrière tomou posse na Academia Francesa, a mais excelsa instituição literária da França, o Québec e o Haiti se apressaram em celebrá-lo, numa onda de orgulho nacional. Ele nasceu e cresceu no Haiti, mas migrou para Montreal em 1970 e assumiu a cidadania canadense.
A louvação prestada a Laferrière lembrou o caso de V.S. Naipaul -nascido em Trinidad, filho de pais indianos, formado em Oxford e cidadão britânico, e por isso reivindicado por esses três países quando ganhou o Prêmio Nobel de Literatura, em 2001.
Thomas Samson/AFP
O escritor haitiano-canadense Dany Laferriere em cerimônia de posse na Academia Francesa em maio de 2015.
O escritor haitiano-canadense Dany Laferriere em cerimônia de posse na Academia Francesa em maio de 2015.
A inclusão de Laferrière na Academia e as reações que ela motivou indicam uma curiosa contradição: quem está de fora -críticos, instituições e administradores de prêmios- geralmente categoriza os autores por língua e nacionalidade. No entanto, muitos escritores pleiteiam apenas a cidadania da república das letras. Por que a insistência em rotulá-los?
"Minha impressão é que os escritores são poliamorosos quando se trata de nacionalidade, mas que o diálogo crítico, por tratar do contexto, tende ao nacionalismo", disse John Freeman, ex-editor da "Granta", editor da revista "Freeman's" e autor de "Como Ler um Escritor". "Não é que os críticos sejam patriotas, mas com frequência escrevem em fóruns -jornais, revistas- que reforçam a identidade nacional, em vez de complicá-la ou erodi-la."
Laferrière afirma que foi moldado tanto pelos livros da sua biblioteca quanto pelos países onde viveu.
De Joseph Conrad a Samuel Beckett, alguns autores encontraram suas vozes em outro idioma que não a sua língua materna. O tcheco Milan Kundera escreve em francês desde que se mudou para Paris, na década de 1970. Seu mais recente romance, "A Festa da Insignificância", foi lançado no Brasil em 2014.
Jhumpa Lahiri, contista e romancista ganhadora do Prêmio Pulitzer, mudou-se de Nova York para Roma em 2012. Em fevereiro, a editora Guanda lançou "In Altre Parole" (em outras palavras), primeiro romance dela em italiano, idioma que disse ter estudado por 20 anos.
Lahiri nasceu em Londres, filha de pais indianos, e cresceu em Rhode Island (EUA). Ela disse que durante anos sentia "culpa por ter aprendido a ler numa língua que eu não falava com meus pais". Escrever em italiano é "uma maneira de me reinventar como pessoa e como escritora, e também de assumir um enorme risco", segundo ela.
Raquel Cunha/Folhapress
A escritora inglesa Jhumpa Lahiri na Flip 2014.
A escritora inglesa Jhumpa Lahiri na Flip 2014.
A coletânea de ensaios de Lahiri é como um espelho do livro "The Other Language" (a outra língua), lançado em 2014. Trata-se de uma seleção de contos redigidos originalmente em inglês pela escritora italiana Francesca Marciano, que vive em Roma e é amiga de Lahiri. Depois que o livro de Marciano foi lançado numa tradução para o italiano, em maio, ela disse ter notado que "era vista um pouco como uma traidora" na Itália.
Marciano, que aprendeu inglês na adolescência, tornou-se romancista no Quênia, na década de 1990. "Cada um de nós confere um valor emotivo a uma língua", acrescentou. "Para mim, o inglês se tornou a língua da minha expressão ficcional."
Em 2013, a "Granta" escolheu Benjamin Markovits, nascido nos EUA, como um dos 20 melhores jovens romancistas britânicos. Mas ele só tem passaporte britânico por vínculo de casamento. A cidadania "acaba sendo uma questão tão prática quanto espiritual", disse Markovits. "Eu nunca teria entrado na lista da 'Granta' se não tivesse jurado lealdade à rainha."
Markovits mora em Londres há 15 anos, mas ambientou seu mais recente romance, "You Don't Have to Live Like This" (você não tem que viver assim), em Detroit. Ele disse que o Reino Unido, com sua complexa estrutura de classes, ainda continua sendo um pouco estrangeira para ele. "Ainda assim, não me sinto totalmente americano enquanto estiver na Inglaterra."
Às vezes, esses escritores fecham um círculo completo. Em seu discurso à Academia, Laferrière homenageou o escritor francófono de origem argentina Hector Bianciotti, que morreu em 2012 e cuja cadeira na instituição ele passou a ocupar.
Laferrière falou sobre como Bianciotti só passou a ser valorizado como escritor na Argentina depois de se mudar para Paris e se tornar um escritor francês. E lembrou-se de como, perto de morrer, Bianciotti voltou ao espanhol, "a única língua", disse Laferrière, "em que se pode expressar o silêncio". 

quarta-feira, 20 de maio de 2015

O futuro já está perdido Clovis Rossi Folha de São Paulo 17/05/2015

Sai mais um ranking internacional e o Brasil, outra vez, passa tremenda vergonha.
Trata-se do Relatório sobre o Capital Humano, um estudo que o Fórum Econômico Mundial vem preparando desde 2013, para medir o êxito dos países em adestrar, desenvolver e preparar [para a vida] a sua gente -essa que o Fórum chama de "o grande ativo" de cada nação.
O Brasil ficou em humilhante 78º lugar entre 124 países. Por si só, já seria um vexame suficiente, mas, em se tratando de Brasil, tudo que é muito ruim sempre pode piorar.
Nesse caso, há pelo menos três itens que tornam o cenário ainda mais devastador. A saber:
1 - O que empurrou o Brasil ao fundo do ranking foi o desempenho no preparo dos menores de 15 anos, idade crucial. Nesse capítulo, a posição brasileira é de chorar: 91º lugar.
Pesou em especial o que o relatório chama de "taxa de sobrevivência em educação básica", ou seja, a capacidade de o aluno sair "vivo" (bem preparado) do ciclo básico.
Como se sabe, desde o governo Fernando Henrique Cardoso, houve um avanço considerável na universalização do ensino básico, dado obviamente positivo.
Mas o novo relatório mostra que é também insuficiente. Não basta pôr as crianças na escola; é preciso que "sobrevivam" nela.
2 - Olhando-se apenas a posição no ranking dos países latino-americanos e do Caribe, aí dá vontade de se matricular no clube dos portadores de complexo de vira-lata.
O Brasil, sétima ou oitava economia do mundo, dependendo do momento, é apenas o 13º país latino-americano/caribenho em matéria de tratamento digno de seu capital humano.
Perde para o Chile (45º), Uruguai (47º), Argentina (48º), Panamá (49º), Costa Rica (53º), México (58º), Peru (61º), Colômbia (62º), El Salvador (70º), Bolívia (73º), Paraguai (75º) e Barbados (77º).
Ficar atrás dos três primeiros já é ruim, mas até compreensível, na medida em que são países que historicamente tiveram nível educacional razoavelmente elevado.
Mas perder até para países tão pobres como El Salvador, Bolívia e Paraguai é uma obscenidade.
3 - No âmbito dos Brics, que são só cinco, o Brasil fica exatamente no meio: perde de Rússia e China, ganha de Índia e África do Sul.
Nesse grupo, um detalhe importante: por mais que a China seja um grande êxito de público e de crítica nos últimos muitos anos, sua posição no ranking de capital humano é ruim (64º posto, não muito à frente do 78º do Brasil).
Parece, pois, evidente que crescimento espetacular, por si só, não é suficiente para preparar o capital humano para os desafios do mundo moderno.
É uma impressão reforçada pelo fato de que dois países que enfrentam ou enfrentaram uma crise econômico-social terrível (Grécia, 40º lugar, e Espanha, 41º) tratam seu capital humano melhor do que a China e melhor que qualquer um dos países latino-americanos, nos quais ou não houve crise ou ela foi mais suave.
Alguém ainda acha que o ajuste fiscal de Joaquim Levy basta para mexer com esse vexame? 

terça-feira, 17 de março de 2015

A mágica e o relógio de parede

Vem-se discutindo a Era da Informação cuja expressão é atribuída a Alvin Toffler*(1) desde fim dos anos 70. Nos tempos de hoje, uma imagem comum, que o ensaísta sequer talvez tenha imaginado, é se verem crianças, desde muito pequenas, com os suportes eletrônicos à mão, fascinados digitando, não no sentido amplo, mas descobrindo que ao simples toque, acontece uma "mágica'. Lógico que, por trás dessa "mágica", monstros sagrados* da tecnologia dedicaram sua juventude e anos e anos aos estudos, como, para não falar dos antigos, Bill Gates, Micrsoft, Steve Jobs, Apple, Larry Page e Sergey Brin, discretos e poderosos criadores do Google, e o ainda jovem Mark Zuckerberg, do Facebook. Porém, nada é mais tentador pensar que com um "clique mágico", o mundo está a nossos pés, ou melhor, em  nossos dedos. Essa passagem do analógico para o digital me lembra muito o "relógio de ponteiro" versus o relógio digital. Para os leitores dos primeiros, há necessariamente uma operação mental, que passa pela (hoje desprezada) tabuada; para os relógios digitais, num nível de esforço mínimo, o reconhecimento gráfico numérico. Identifico o mesmo fenômeno na leitura de jovens e crianças nos computadores, tablets e celulares, que, arrisco, são 99% de composição imagética; filmes, desenhos e jogos, que exigem uma intervenção do leitor, não raro, baseada em automatismos, ou, senão passividade, reflexos de maior ou menor intensidade ante o produto. Evidente que esses produtos (muitos são produções de alto nível, não se discute) fascinam, entretém e os atraem pela facilidade, e evidente também que qualquer conclusão a respeito exige incursões em alta semiologia ou teoria da recepção, a que não me atrevo aqui. Arrisco sim, a atestar, não sem surpresa, que vi ao longo da convivência com inúmeras crianças e pré-adolescentes a incapacidade de "ler"o velho relógio de parede da biblioteca. O que tem a ver uma coisa com outra? Tem que essas crianças são exímias operadoras dessas novas mídias, Tem que, independentemente da boa ou má condução do ensino, operá-las não significa avanços qualitativos na aprendizagem. Uma leitura ,digamos, tradicional,  impressa, para não ir muito longe, mesmo  de obras de  ficção, tem-se apresentado aos jovens, cada vez mais como ponteiros do relógio, enigmas a decifrar, Em maior número, as publicações diminuem de tamanho - quem lê o Monteiro Lobato no "original", aquelas edições de seus alentados volumes? Há pouco li uma reportagem que metade dos leitores que adquire bestsellers não chega ao final.(2) Desconta-se daí a hipótese de que se tratava de kinders, equipamento de leitura eletrônica, mas o quanto tal fato acontece com livros impressos e que não se mensurou? Isso significa que não é o meio em si, mas o fato dele se apresentar como um texto grafado, cuja prática vem sendo negligenciada, porque requer competências próprias e formação de sentido para ser repercutida. Que a tal mágica não ressignifique a leitura como objeto ao nível da expressão reativa apenas, e sem o sentido da profundidade e introspecção que lhe foram e devem ser ínerentes.

(1)Alvin Toffler (4 de Outubro de 1928) é um escritor e futurista norte-americano ... The Third Wave (A terceira vaga) ou (A terceira onda) (1980) Bantam Books  ...(wikipedia)
(2)Metade dos leitores brasileiros de um dos maiores best-sellers de 2014, "A Culpa É das Estrelas" (Intrínseca), de John Green, não concluiu a leitura do romance, a julgar por um levantamento feito pela loja de e-books Kobo . O número, relativo a 2014, pode ser medido porque as lojas de livros digitais têm acessos a dados como que e-books os leitores compraram, mas não chegaram a abrir, quais leram até o fim e quais leram mais rapidamente. A média de conclusão de leitura do romance de Green, de 50,9%, é até superior a de outros best-sellers, como "Cinquenta Tons de Cinza" (41,7% dos compradores do livro na Kobo concluíram a leitura) e "Pequeno Príncipe" (48,8%).(...) Um best-seller mais longo como "Eternidade por um Fio", de Ken Follet, com mais de mil páginas, foi completado por apenas 16,8% dos leitores, e um clássico como "O Triste Fim de Policarpo Quaresma", de Lima Barreto, por apenas 13,3%. O livro mais completado por leitores da Kobo foi "Perdendo-me", de Cora Carmack, com 86,5%. 
Fonte http://www1.folha.uol.com.br/colunas/raquelcozer/2015/03/1602434-no-meio-do-caminho.shtml

quarta-feira, 4 de março de 2015

O sucesso não depende da inteligência Folha/ New York Times

A tecnologia costuma ser apresentada como o grande equalizador educacional. Iniciativas como o One Laptop Per Child (“um laptop por criança”) e os Massive Online Open Courses (Mooc, “cursos online abertos e massivos”) deveriam servir para democratizar a aprendizagem. Mas então os laptops de US$ 400 dados a crianças pobres do mundo todo quebraram, e o índice de reprovação em alguns dos Moocs chegou a 75%.
A realidade se impôs.
Muitos acreditam que os computadores possam reduzir a defasagem educacional, mas pesquisas mostram que proporcionar acesso à internet para estudantes de famílias pobres é algo que tende a ampliar essa disparidade, conforme noticiou Susan Pinker no jornal “The New York Times”.
Jacob Vigdor e Helen Ladd, economistas da Universidade Duke, acompanharam 1 milhão de secundaristas de baixa renda durante cinco anos, a partir do momento em que eles receberam computadores. Concluíram que houve “um persistente declínio nas notas de leitura e matemática”. As notas dos meninos caíram drasticamente porque eles usavam as máquinas para jogar games, navegar nas redes sociais e baixar músicas e filmes.
A mesma coisa aconteceu no projeto One Laptop, no qual pesquisadores descobriram que as crianças passaram a dedicar menos tempo à lição de casa.
Novos estudos sugerem que os educadores devem se preocupar mais em reduzir o número de alunos por professor, intervir precocemente nos casos necessários e observar traços de personalidade.
Chicago criou um programa intensivo onde meninos negros e latinos trabalham em duplas com um tutor, e os participantes acabaram ultrapassando em até dois anos os colegas que não haviam recebido essa ajuda, contou David Kirp no “NYT”.
Muitos programas atendem a faixa etária de 0 a 3 anos, mas a adolescência pode ser igualmente importante. O psicólogo Laurence Steinberg, da Universidade Temple, observa em seu novo livro que os neurocientistas já perceberam que a adolescência, como a primeira infância, é um “período de tremenda ‘neuroplasticidade’”, durante o qual o cérebro muda graças à experiência.
Nicholas Kristof escreveu que ajudar precocemente crianças em condições desfavorecidas não só reduz a desigualdade como também pode representar economia de dinheiro público. Ele citou James Heckman, professor da Universidade de Chicago e economista ganhador do prêmio Nobel, segundo o qual a maneira mais barata de reduzir a criminalidade é investir em programas para a primeira infância. Heckman calculou que a mesma redução da criminalidade por meio da contratação de policiais exigiria cinco vezes a mesma quantia.
“Educação precoce” inclui orientar grávidas em situação de risco a não beber, fumar ou usar drogas. Após o nascimento, ajudá-las a amamentar e a ler para a criança. Aparentemente, escreveu Kristof, isso ajuda porque “os primeiros anos são a janela em que o cérebro está se formando e quando capacidades básicas, como determinação e autocontrole, se desenvolvem”.
Em algumas escolas, ter determinação, autocontrole e curiosidade são agora parte do currículo. Os cientistas dizem que a personalidade pode ser mais importante do que a inteligência.
O professor de psicologia Arthur Poropat cita dados segundo os quais a tendência a ser “diligente, obediente e trabalhador” e qualidades como criatividade e curiosidade são melhores que a inteligência como indicadores para prever o rendimento escolar de um aluno. Essa é uma boa notícia, escreveu Poropat, porque “a personalidade muda com o tempo, muito mais do que a inteligência”.
Mandy Benedix, que dá aulas sobre determinação numa escola do ensino médio em Pearland, no Texas, disse ao “NYT” que “características não cognitivas podem ser ensinadas”. “Sabemos, também, que elas são necessárias para o sucesso. Olhe para qualquer pessoa que, por um longo tempo, tenha tido sucesso. Todas exibiram em algum momento determinação para prosseguir.”
Fonte: Folha de São Paulo/ New York Times 28 de fevereiro de 2015

sábado, 1 de novembro de 2014

Esplendor e miséria do Best Seller Paulo Rónai


Reproduzido de O Observatório da Imprensa  http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/_ed822_esplendor_e_miseria_do_best_seller
Este texto de 1948 estava em uma pasta do acervo de Paulo Rónai (1907-92), intitulada “Material para novos livros”, e jamais foi publicado. O escritor e tradutor parte de estudos em língua inglesa para questionar se há a receita perfeita para um best-seller e se os números de vendas significam algo na qualidade dos livros.
O que é um best-seller? À primeira vista a resposta não parece difícil: o livro que mais se vende ou um dos livros que mais se vendem. Mas, ao examinarmos os casos em que se emprega essa palavra, tão frequente na crônica literária dos jornais, verificaremos que seu sentido se está enriquecendo de novas matizes.
Mais de uma vez poderemos achar-lhe uma nuança pejorativa, e esse uso não é exclusivo do Brasil. Numa resenha francesa da produção literária de 1947 encontro esta observação: “O termo best-seller entre nós vai designar, dentro em breve, não o livro que melhor se vende, mas um certo gênero’ de romance, de leitura fácil, longo, obrigatoriamente traduzido...”. E uma estudiosa inglesa não hesita em afirmar que “best-seller é um epíteto quase totalmente depreciativo entre pessoas cultas”. Não seria difícil encontrar exemplos em que o termo, por si só, equivale a uma crítica.
A palavra, evidentemente, é de sabor norte-americano (embora não me seja possível abonar-lhe a origem). A ambição “yankee” de atingir recordes em todos os domínios envolve contínuas comparações, e estas só parecem ter valor quando baseadas em objetos exprimíveis por algarismos. E assim se encontrou uma medida cômoda para confrontar as obras da arte, fenômenos por sua natureza singulares e incomparáveis.
Ninguém pode afirmar com segurança se Betty MacDonald, autora de “O Ovo e Eu”, é melhor escritor do que Samuel Shellabarger, autor de “Capitão de Castela”: em questões de gosto não há verdades absolutas. Mas é possível saber com exatidão qual dos dois livros se vendeu mais. Os editores, com grande sinceridade, anunciam as tiragens mês por mês; o frontispício, muitas vezes, ostenta o número de edições vendidas.
Na avalanche das publicações o leitor comum é cada vez menos capaz de orientar-se. Sabendo que seu gosto se parece com o da maioria de seus contemporâneos, tende facilmente a pensar que o livro mais comprado será também o melhor. (“É impossível que 500 mil pessoas sejam idiotas”). Assim, mais 500 mil comprarão o livro porque 500 mil já o compraram. E quem poderá duvidar do gosto de 1 milhão de cidadãos honestos, contribuintes e eleitores?
Saber o que é um best-seller é igualmente importante para o leitor, para o escritor e para o editor. Se um livro, sendo best-seller, é necessariamente bom, facilita muito ao leitor a escolha de suas leituras; e o conhecimento não lhe é menos útil se, como afirmam alguns, todo best-seller é fatalmente ruim.
O escritor pouco escrupuloso, se conhecesse a fórmula química do best-seller, observá-la-ia com o maior empenho; mas, se o escritor honesto a soubesse, talvez verificasse que pode produzir best-sellers sem descer a transigências e concessões. Quanto ao editor, se a tivesse na gravata, possuiria um método esplêndido para enriquecer e, caso possuísse altas ambições culturais, bastar-lhe-ia lançar três best-sellers, para depois publicar, a vida toda, Kant, Bergson e Einstein.
Científico 
Foram essas considerações que levaram o sr. Frank Luther Mott, diretor da escola de jornalismo na Universidade de Missouri, a consagrar à questão um alentado estudo [“Golden Multitudes: the Story of Best Sellers in the United States”, Multitudes douradas: a história dos best-sellers nos EUA], baseado em pesquisas pacientes e difíceis.
Com excelente espírito de método, o sr. Mott começa por definir o critério para determinar se um livro é best-seller ou não. Levar em conta meramente os totais das tiragens não seria justo: um livro que em 1850 atingia 200 mil exemplares era relativamente mais lido do que um que hoje chega a 1 milhão. Assim, pois, o sr. Mott, que principia a relação dos best-sellers em 1662, nela inclui todo livro do que durante os dez anos consecutivos ao seu aparecimento se vendeu um número de exemplares igual a 1 % da população total dos Estados Unidos.
A limitação de dez anos foi imposta pela impossibilidade de calcular a tiragem total das reedições feitas às vezes durante séculos. Uma edição de Shakespeare figura na lista de best-sellers universais, cuja lista seria ainda mais curiosa, mas pressupõe a compilação de estudos iguais ao dele em todos os países. Ainda assim, não deve ter sido fácil conseguir, mesmo aproximadamente, as tiragens, sobretudo das edições antigas.
Além disso, esse estudo traz uma série de anedotas e fatos curiosos a respeito da história dos recordes de venda na história das livrarias: acasos que contribuíram para o sucesso, surpresas e decepções dos editores, consequências do êxito sobre a vida dos autores etc. E, para rematar suas pesquisas, põe no título dos dois últimos capítulos duas perguntas do maior interesse: “Existe uma fórmula de best-sellers? O que faz vender um best-seller?”.
A resposta à primeira pergunta é francamente negativa. Procurando o elemento de atração nos títulos da sua lista, o sr. Mott assinala fatores tão diferentes como: apelo ao sentimento religioso; sensacionalismo e escândalo; caráter instrutivo; possibilidades de exibição esnobe; elemento biográfico; regras de conduta; experiência pessoal; enredo; vivacidade; caráter democrático ou popular; cor local; humor; imaginação; exotismo; sexualidade –indicando de cada vez a percentagem aproximativa de obras que contém o fator examinado.
A qualidade literária não parece fator dos mais importantes: o pesquisador declara que uma terça parte de sua coleção é de qualidade inferior, havendo dentro dela uma centena de livros desprovidos de qualquer pretensão artística. Seja como for, não há receita para best-seller, vista a diversidade extraordinária dos livros que já obtiveram esse título.
A segunda resposta também consiste numa enumeração de fatores. O que contribui para fazer vender o best-seller virtual é o título bem escolhido; o desenho da capa e, em geral, a apresentação; a publicação anterior em folhetim; a distribuição prévia de exemplares a grande número de personalidades; a escolha do livro na base das provas tipográficas, por um dos clubes do livro; boas críticas; difusão de opiniões favoráveis, e anúncios na imprensa e no rádio; filmagem da história; barateamento da edição, reedições em “pocket book” ou em “soft format” (fascículo in-quarto, vendível nos balcões dos vendedores de jornais). Nem todos esses fatores estão, porém, nas mãos do editor; e, por outro lado, mesmo que se achem todos reunidos, a previsão pode falhar e o lançamento pode acabar num fracasso.
Assim, pois, o sr. Mott não pode oferecer receitas de best-seller nem para os autores nem para os editores, o que, aliás, era de prever. Ele não se preocupa, por outro lado, com indagações de ordem geral; saber, por exemplo, se as tiragens astronômicas significam um progresso para a cultura. Poderia responder a esse reparo, e com toda a razão, que a sua parte se limitava ao estudo da história dos best-sellers: cabe ao leitor tirar as conclusões.
Tiragens 
Essas, de início, são das mais otimistas. Na relação compilada vemos a ascensão vertiginosa das tiragens. Os livros mais vendidos há 200 anos eram os que tiravam 10 mil exemplares; e não havia mais de um por ano.
Hoje os best-sellers começam com 1.300.000 exemplares, e só a lista do ano 1944 contém títulos assim. Tiragens tão grandes ocasionam necessariamente a baixa dos preços: o leitor pode obter por um preço de 0,25 a 1 dólar obras que normalmente custariam 3 a 6 dólares. O número de leitores aumenta sempre, o que significa uma elevação do nível cultural.
Quanto aos escritores, as vantagens parecem ainda mais óbvias. Não mais haverá grandes escritores do tipo romântico, morrendo de fome ou de tuberculose, mourejando dia e noite; bastará ao romancista escrever um único best-seller e passará o resto da existência a gozar a opulência merecida.
Essa convicção está se generalizando de tal forma entre os homens de letras que um editor inglês, Stanley Unwin, achou necessário publicar um livro em que, com a colaboração do americano George Stevens, toma a defesa de sua classe contra os autores cujos livros não chegam a best-selller [“Best-sellers. Are They Born or Made?”, Best-sellers. Eles nascem prontos ou são feitos?].
Todos eles, com efeito, atribuem a responsabilidade desse fato a seus editores, os quais não lhes fizeram publicidade suficiente. Unwin e Stevens empenham-se em mostrar que o anúncio, por si só, não basta para fazer um best-seller; ele só pode ativar a venda dos livros que já tiveram um bom “start”, isso é, que se revelaram pelo menos “well-sellers”.
Assim sendo, só a ausência de imparcialidade determinará o emprego da palavra “best-seller” em sentido pejorativo. Antes, porém, de subscrevermos essa conclusão, examinemos melhor a relação de “livros mais vendidos” dos Estados Unidos, que o sr. Mott, com extraordinário esforço, conseguiu estabelecer desde 1662.
Tomemos, ao acaso, dez títulos sucessivos na primeira parte da relação e outros tantos na parte final.
Os dez livros mais vendidos nos Estados Unidos de 1760 a 1780 foram os seguintes (em ordem cronológica):
>> John Dickinson, “Letters from a Farmer in Pennsylvania” [Cartas de um fazendeiro da Pensilvânia];
>> Oliver Goldsmith, “O Vigário de Wakefield”;
>> Laurence Sterne, “A Vida e as Opiniões do Cavaleiro Tristram Shandy”;
>> Daniel Defoe, “Robinson Crusoé”;
>> John Gregory, “Father’s Legacy to his Daughters” [Legado de um pai para os suas filhas];
>> Philip D. Stanhope (Lord Chesterfield), “Letters to His Son” [Cartas ao filho];
>> Thomas Paine, “Senso Comum”
>> John Milton, “Paraíso Perdido”;
>> James Thomson, “The Seasons” [As estações];
>> Edward Young, “Night Thoughts” [Pensamentos noturnos];
Só dois livros dessa lista (os de Dickinson e de Paine) foram publicados pela primeira vez nos Estados Unidos: os demais vieram da Inglaterra. Ambos os livros americanos são obras de caráter político; entre os ingleses, há três romances (Goldsmith, Sterne, Defoe), três de poemas (Milton, Thomson, Young) e dois livros de orientação de conduta (“behavior books”).
Os volumes de Goldsmith, Sterne, Defoe e Milton são obras-primas de todos os tempos; os poemas de Thomson e Young, as cartas de Lord Chesterfield e o panfleto de Thomas Paine (nascido na Inglaterra) conservam, ainda hoje, lugar honroso na história da literatura inglesa. Pode-se afirmar, sem receio de erro, que pelo menos a metade desses livros são dos melhores publicados na época.
Vejamos agora os dez últimos livros da relação, publicados em 1944 e em 1945. (Os títulos vão em inglês, pois não sei se alguns já não foram traduzidos para o português e alterados.) [Introduzimos o título em português dos livros já lançados no Brasil, mesmo os esgotados, quando o autor colocou o nome original em inglês (nota dos editores).]:
>> Elizabeth Goudge, “Green Dolphin Street” [A rua do delfim verde];
>> Gwethalyn Graham, “O Céu está Muito Alto”;
>> Bob Hope, “Nunca Saí de Casa”;
>> Somerset Maugham, “O Fio da Navalha”;
>> Ernie Pyle, “Brave Men”;
>> Margery Sharp, “Cluny Brown”;
>> Thomas B. Costain, “The Black Rose” [A rosa negra];
>> Betty MacDonald, “O Ovo e Eu”;
>> Samuel Shellabarger, “Capitão de Castela”;
>> Katheleen Winsor, “Entre o Amor e o Pecado”;
Nessa lista há dois livros de guerra: um de reportagens (“Brave Men”), o outro de humor militar (“Nunca Saí de Casa”); os oito restantes são romances históricos da linhagem de “E o Vento Levou” [de Margaret Mitchell], e “Antônio Adverse” [de Hervey Allen].
Não é preciso ser crítico literário para perceber a enorme diferença de nível entre os dois grupos. É pouco provável que, entre os do segundo, haja livros que a posteridade qualifique de obras-primas; talvez nenhum seja lembrado ao cabo de 180 anos, período que pelo menos oito títulos do primeiro grupo aguentaram, firmes.
Observa-se, pois, que os livros mais lidos do século 18 eram de qualidade infinitamente superior aos de nossos dias. Eram também muito mais variados, pois havia entre eles, além de romances, obras pertencentes a mais três gêneros, inclusive poesia (totalmente desaparecida das listas modernas de livros procurados), ao passo que a seleção atual consiste quase só em romances, havendo apenas, ao lado deles, dois trabalhos de jornalismo.
Note-se ainda que os três grandes romances do primeiro grupo são de três tipos completamente diversos, ao passo que a maioria dos oito romances do segundo grupo pertence ao tipo estandardizado do longo romance histórico da linhagem de “E o Vento Levou” e “Antônio Adverse” (gênero típico da literatura de evasão).
Essas conclusões coincidem de maneira surpreendente com as de “Fiction and the Reading Public” [Ficção e público leitor], da sra. Q.D. Leavis, publicado em 1939. A autora fez um inquérito semelhante ao do sr. Mott para conhecer as preferências do público britânico.
Leitores 
Seus resultados levaram-na a abandonar uma superstição muito espalhada, a saber, que a elevação do nível cultural esteja proporcionada ao aumento do número de leitores.
Minucioso exame das estatísticas e dos catálogos das bibliotecas circulantes, muito numerosas na Inglaterra, revelou-lhe que a grande maioria dos leitores de hoje liam exclusivamente romances da categoria mais baixa, trocando-os com frequência; muitos chegavam a ler um livro por dia. As respostas dos leitores acerca dos motivos de sua preferência mostravam que na leitura quase todos procuravam uma fuga. (O que, seja dito de passagem, não é de admirar num tempo como o nosso, em que tão pouca gente se sente à vontade). “O hábito de ler é agora, muitas vezes, uma forma de usar entorpecentes.”
O número de leitores atingiu, praticamente, o máximo (na Inglaterra há diariamente um exemplar de jornal para cada três pessoas); o nível da leitura baixa progressivamente. Outrora não havia separação nítida entre os escritores da multidão e os da elite; Sterne, Goldsmith e Defoe eram lidos e admirados pelos intelectuais e pelas caixeiras; hoje se verifica uma desagregação definitiva do público em três classes, segundo seus elementos leem obras de escritores “highbrow”, “middlebrow” ou “lowbrow” (de qualidade superior, média ou inferior). Nenhuma das três classes toma conhecimento dos escritores da outra. Os autores “highbrow” têm tiragens reduzidíssimas; para eles o best-seller começa com 15.000 exemplares; os best-sellers do “lowbrow” vão de um milhão para cima.
A sra. Leavis lembrou-se de submeter a grande número de autores populares um questionário para saber a que atribuíam o seu êxito. A maioria dos interrogados pensa ter agradado por escrever (para usarmos a definição dada por um deles) “um gênero de ficção que pode ser lido com um mínimo de esforço mental”. O que parece confirmar a desiludida tese de um estadista inglês, de que “um dos grandes males da leitura moderna consiste em desencorajar o pensamento”.
O público dos velhos tempos lia para completar a sua experiência, para enriquecer a própria vida; o de hoje lê para esquecê-la e compensar-lhe as imperfeições. Os autores de best-sellers são unânimes em afirmar que escrevem com e para o coração (e não o cérebro); que se dirigem à sensibilidade, mais que ao juízo do leitor. “À medida que o século avança, o best-seller se torna assunto menos do crítico literário que do psicólogo”.
E, como o romance adquire hegemonia quase exclusiva, absorve todos os gêneros, inclusive os livros de ciência, e torna-se transmissor único –bem inexato, está visto– de toda espécie de conhecimentos.
Não que homens de ciência não procurem transformar seus livros em best-sellers. Mas então se expõem ao perigo de cair nos processos do romancista. J.L. Russell, numa crítica dos populares livros de física e astronomia de sir James Jeans e sir Arthur Eddington, mostra como estes sábios são levados a atribuir maior importância à maneira de apresentação do que ao interesse intrínseco dos assuntos tratados, fazendo apelos contínuos à emotividade do leitor, usando indiscriminadamente recursos estilísticos, como metáforas e paralelos, e introduzindo teorias filosóficas surpreendentes.
Segundo o crítico, eles e a maioria de seus colegas chegam a favorecer a preguiça mental dos leitores, aos quais dão a impressão de que entendem a fundo um fenômeno ou uma teoria científica, quando apenas entenderam a comparação ou a pilhéria em que os autores os envolvem.
A sra. Leavis procura demonstrar, ainda, que o barateamento do livro não é puro benefício, pois constitui um golpe sério para os autores de elite, cujas tiragens não aumentam, mas que têm de reduzir os preços de seus livros para não contrastarem demais com os do resto da produção literária. No século passado, um Meredith, um Henry James podiam viver da renda discreta de seus livros: hoje não seria possível.
Aí, ela se encontra novamente com o sr. Mott, o qual admite, embora acessoriamente, que o número total de livros publicados anualmente nos Estados Unidos está em franca diminuição: os editores, seduzidos pela miragem das impressões em massa, querem de preferência publicar best-sellers potenciais e mostram-se infensos às obras que não têm probabilidade de o ser (entre os quais se encontram, precisamente, as destinadas à elite profissional e intelectual).
A comentarista assinala também o que os clubes do livro, embora aumentando o consumo da produção literária, têm de prejudicial à cultura: fazem o leitor abdicar da sua capacidade de seleção, procuram “dar ao público o que ele deseja”, e substituem-se à crítica literária, cuja importância decresce cada vez mais.
É muito provável que a maioria dos males apontados pela sra. Leavis e implicitamente assinalados no livro do sr. Mott existam realmente, sobretudo nos países de maior mercado literário, como os Estados Unidos, a Inglaterra e a França; ao mesmo tempo, porém, eles parecem tão inevitáveis como outras consequências da industrialização excessiva, a qual, destinada a melhorar a vida do homem, a está tornando cada vez menos humana.
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Paulo Rónai (1907-92) ensaísta, tradutor e linguista nascido na Hungria. A Edições de Janeiro relança suas coletâneas “Encontros com o Brasil” e “Como Aprendi o Português e Outras Aventuras”

domingo, 3 de agosto de 2014

Sete razões para não escrever romances (Javier Marias)


7 razões para não escrever romances - Ilustríssima

Javier Marias
O caderno Ilustríssima da Folha de São Paulo, dia 27/07/2014, trouxe o interessante ensaio Sete razões para não escrever romances e uma para escrevê-los do escritor espanhol Javier Marías de Os Enamoramentos - livro que já resenhei aqui.

As sete razões para não escrever um romance, Javier, enumera e tomo a liberdade de resumir assim;

1) Há muitos romances por ai e muita gente também escrevendo, dessa forma, as possibilidades, levando em conta os antigos e os que são escritos anualmente, a probabilidade de ser lido é cada vez mais próxima de zero. 

2) Escrever um romance não é um mérito, qualquer pessoa pode fazê-lo. Desde poetas, jornalistas a médicos e militares. 

3) Romances não dão dinheiro. Investir tempo neste tipo de atividade, esperando por rentabilidade, é um disparate. 

4) O romance não traz fama. O autor sugere buscar formas muitas mais simples de obtê-la, caso seja seu caso.

5) Aquela história de escrever é tornar-se imortal é balela, segundo Javier. Poucos são os autores imortalizados. Leitores e críticos esquecem seus romancistas e, pior ainda, as editoras. 

6) Escrever não adula a vaidade. As pessoas leem sozinhas, os elogios, quando existem, são vistos por poucos. O escritor não é um diretor de cinema que assiste a reação automática do seu expectador. 

7) O trabalho do escritor é solitário e duela, a todo tempo, com a sintaxe, o papel em branco e seus próprios personagens, que são partes ocultas de si mesmo. 

E agora, um simples motivo para escrever um romance: 

1) Escrever possibilita ao escritor viver instalado na ficção, no reino do pode ser e nunca foi. 

Não sei como o ensaio pode bater em atuais e futuros escritores, mas não deixa de ser uma boa análise. Os fortes podem pensar em continuar seu romance, apenas na busca de distanciar-se da sua própria realidade, como tantos autores já disseram por ai. Afinal, conclui Javier, escrever é um modo de inventar um futuro que o autor não verá. 

Quem quiser ler o ensaio na íntegra, clique aqui. (Fonte http://blogdocelsofaria.blogspot.com.br/2014/07/7-razoes-para-nao-escrever-romances.html)

terça-feira, 13 de maio de 2014

O que sabemos sobre o leitor? Uma pesquisa de Danielly Spindula

O leitor não é uma entidade teórica ou um dado estatístico. Podemos fazer um relatório minucioso ou um questionário completo, mas de que adianta se os engavetamos em algum arquivo? Quem é de fato nosso leitor? A biblioteca especializada faz o seu perfil de leitor,  visando uma difusão seletiva da informação, mas nós  precisamos, além da difusão geral da informação, acolher e aninhar nosso leitor em nossas estantes cheias de livros, para todos os gostos e perfis diversificados e quiçá para toda a vida . Dito isso, o que devemos ter de ferramenta, além da comunicação do dia a dia, é também um papel, mas nele se inscreve a experiência vivida pelo leitor em nossas bibliotecas. E muitas vezes a rotina não permite nos apoderarmos dela para aprofundar nosso conhecimento. Foi com alegria e grata surpresa que tive acesso a um trabalho de Danielly Spíndula*, da PUCRS, que me encantou e ofereceu boas possibilidades para estreitar esse conhecimento, partindo de perguntas simples: "Quem são esses leitores? Que leituras buscam e com que frequência? "É possível entrever uma relação entre essas leituras e suas atividades profissionais e/ou estudantis?"E citando Chartier, "em busca dos contrastes, igualmente, entre as normas e convenções de leitura que definem, para cada comunidade de leitores, os usos legítimos do livro. Contrastes, enfim, encontramos entre os diversos interesses e expectativas com os quais diferentes grupos de leitores investem a prática da leitura." E continua ela: "A organização dos dados por leitor permite que se observe o perfil de cada um desses leitores: o que eles leem e com que frequência, além de nos permitir levantar hipóteses sobre como e por que buscaram essas leituras e não outras. A organização dos dados por autor nos permite verificar quem são os leitores mais recorrentes de cada autor." Nossa limitada percepção raramente permite que façamos essa relação autor-leitor no ambiente de biblioteca., de modo que não temos recursos que cruzem essas relações. E mais "Contudo, é possível que a escola não seja a única instância a atuar sobre as escolhas desses leitores e sobre sua movimentação neste espaço de leitura, de maneira que é preciso investigar mais detalhadamente como estudantes e não estudantes usam o serviço de empréstimo dessa biblioteca. Para recolhermos mais indícios que nos ajudem a compreender as práticas desses leitores, precisamos partir para a próxima etapa da análise: verificar que leituras cada um desses grupos realiza e quais as semelhanças e/ou diferenças entre elas". Isso é mais ou menos como um mito a se desvendar: se é verdade que o tempo pelo leitor investido na biblioteca tem uma regularidade maior durante o tempo em que ele é estudante, o mesmo não se pode afirmar das escolhas individuais no uso do acervo, mesmo na condição de estudante. "Também é possível se encontrar nesse rico mundo do leitor "princípios de diferenciação, eles também plenamente sociais, poderiam dar, com maior pertinência, razão a outras distâncias culturais: pertencer a um sexo ou a uma geração, adesões religiosas, solidariedades comunitárias, tradições educativas e corporativas, etc.” Da mesma forma pode-se observar "certas regularidades e também rupturas nas práticas de leitura de um grupo e de outro, e vamos (...) em busca de ambas. Elas podem indicar se há mais leitores que foram à biblioteca neste período e levaram apenas 01 obra emprestada. Essa prática pode indicar um vínculo menor desses usuários com a biblioteca na realização de suas leituras, o que pode ocorrer, por exemplo, pelo fato de ter outras fontes de acesso aos livros. Ela pode, ainda, apontar para uma leitura escolhida com a finalidade de realizar alguma atividade prática ou voltada para a resolução de um problema mais imediato (escolar ou não)(...) É importante esclarecer que estão sendo considerados todos os empréstimos realizados pelos leitores,ainda que isso signifique a retirada de uma mesma obra em momentos distintos, dentro do período analisado, assim, se o leitor solicitou da biblioteca a mesma obra duas vezes, por exemplo, as duas vezes (desde que não seja renovação) foram contabilizadas (...) Talvez, na verdade, essas leituras sejam mais parecidas do que se possa imaginar, ou, ainda, talvez elas tenham alguns pontos de aproximação e outros de afastamento, a depender muito mais da história de leitura de cada usuário da biblioteca, considerado individualmente, que propriamente do rótulo de estudante ou da ausência dele.(...)O que dizer de leitores, como "uma leitora que realiza 14 empréstimos. Destes, 10 são divididos em apenas dois autores: Clarice Lispector e Chico Buarque."(...) Concluindo, "a leitura escolar, evidentemente, está neste espaço público também, mas entre os empréstimos de estudantes e não estudantes há muitas outras leituras que a extrapolam, denunciando que esses leitores não obedecem apenas a este “senhor”, mas há outros: o mercado, a mídia, a pertença do sujeito a outros grupos sociais longe da escola, até mesmo seu momento de vida".
O que nos envaidece, e engrandece,  é que é a biblioteca e tão somente a biblioteca  pode, mais do que qualquer outra fonte, falar do comportamento do leitor e do caráter de sua vida intelectual, quando tem nas mãos os dados preciosos para pesquisas as mais complexas, e que, muitas vezes,a gente não sabe que tem.

* http://ebooks.pucrs.br/edipucrs/anais/IIICILLIJ/Trabalhos/Trabalhos/S8/daniellyespindula.pdf