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domingo, 15 de abril de 2012

Lições da montanha de livros

Fascinante como algo aparentemente sem implicações, digamos, filosóficas, que é a doação de livros para uma biblioteca, revele tanto. São lições da montanha de livros. Se eu fosse fazer uma tipologia deste material, assim classificaria, independentemente do valor literário:
Os livros doados por afetividade: Pela idade dos livros – média 40 anos-, aquele livro em que "eu estudei quando fiz o ginasial"; aquele livro que "foi do meu pai e do avô, tataravô,ou que ganhei de um ente querido; as chamadas "coleções a metro" de clássicos e grandes autores de um colecionador falecido, ou os que não cabem mais na nova casa, enfim, lidos ou não, foram guardados por muito, muito tempo.
Os livros sobrados e sossobrados que o mercado editorial jogou na praia. São geralmente de autores desconhecidos ou candidatos a escritores, que se financiam e porque não têm mercado, sobram das (suas e de outras) prateleiras. Vão desde memórias e árvores genealógicas que só interessam às próprias famílias dos ditos cujos, obras de pessoas e até políticos que "cometem" uma poesia e um romance, livros editados por academias regionais, e instituições sem caráter lucrativo, coletâneas de concursos diversos. A doação resulta de quando os egos desincham.

Os best-sellers. Em grande quantidade, esses velhos campeões são a personificação do que representam: consumo rápido. Consumidos, passa-se logo adiante. O futuro deles na biblioteca é quase sempre o sucesso, se o "sentimento" de que caíram de moda não prevalecer: "Pollyana?" , já era( ledo engano)! O Pequeno Príncipe? Mais vivo que nunca! Eventualmente, um deles vira clássico ou volta à moda. Por isso, esses nunca devem ser subestimados. Os  doados por sentimento de culpa do doador: um tratado de eletrotécnica de 1958, outro, bem bonito, de medicina e cirurgia dos anos 70, um Atlas cujas informações estão defasadas, dicionários com ortografia em desuso, um álbum de figurinhas, livros de bolso, guias turísticos, bíblias em profusão, coleções e mais coleções de banca em fascículos descontinuados, enciclopédias defasadas, estas particularmente derrotadas pela mídia eletrônica, miscelâneas e miscelâneas, a desafiar nosso senso de escolha. Porque esta escolha que o doador teme fazer envolve certo pesar dele em repassar alguns desses exemplares para sebos ou destiná-los à reciclagem de papel.

Por último, os refugos da nossa vetusta política oficial: os didáticos, expressiva parcela dessa montanha, que o contribuinte mui justamente teme se descartar. Ou porque são belos e caros exemplares de luxo que as crianças compraram e usaram, mas continuaram belos, ou porque não compraram, mas ganharam do governo e, muitas vezes não usaram, ou porque não há uma destinação para eles na escola. Aliás, em lugar nenhum. Para a biblioteca é que não foram feitos, por razões que não cabem aqui explicitar, mas que certamente esperam por um amplo e sério  debate sobre o assunto.

Essas são minhas as minha primeiras "lições da montanha"de livros.

Um elogio ao erro (entre aspas) Arnaldo Bloch e Hugo Sukman

De O Globo - 28/05/2011 
Na literatura, na linguística, na pedagogia,  no teatro, na música, no latim, na Bíblia, normas culta e inculta, faladas e escritas, já fizeram as pazes há muito tempo.
 A questão já estava resolvida pela literatura,  pelo povo e pela ciência linguística. De repente, chegou o famigerado LIVRO DO MEC (“Por uma vida melhor”, para turmas de alunos jovens e adultos que retornam à sala de aula) e acordou o fantasma adormecido. Sua autora, Heloísa Ramos, usou um approach (como se diz em português...) ideológico e exemplos antiestéticos para,  contudo, apenas repetir o consagrado e ululante: há diferenças entre a língua falada e a língua escrita; ambas se intercomunicam, negam-se ou convergem; essa dinâmica se reflete na vida em sociedade; o errado de hoje pode ser o certo de amanhã; não é proibido pelo Código Penal falar ou escrever o que quer que seja; mas há uma norma culta a seguir, cujos efeitos para quem não a conhece nem utiliza podem ser fatais numa entrevista de emprego, numa prova, na vida. Isso em alguns parágrafos. Pois, no restante, dedica-se a  ensinar que, em sala de aula, a norma culta é a norma e ponto final. Sociolinguistas como Sílvio Possenti, da Unicamp, consideram o livro até conservador por insistir demais nisso. No Manifesto Pau Brasil, de 1922, marco do modernismo, Oswald de Andrade proclama: “Uma língua sem arcaísmos, sem erudição. Natural e neológica. 
A contribuição milionária de todos os erros”. O modernismo, aliás, do qual NELSON RODRIGUES é um prócer, é isso: a incorporação do atual, do cotidiano, da fala da rua. Nessa linha Nelson explicava o porquê da modernidade da peça “Vestido de noiva” .   
'Meu teatro trouxe a língua da rua, do botequim para os palcos até então lisboetas do Brasil'
 Isso, no nosso mundo neolatino, vem pelo menos desde São Jerônimo, com a sua Vulgata, a primeira versão em latim da Bíblia, que usa o falar cotidiano de Roma e das províncias latinizadas, pois ninguém entendia o latim culto, elegante, de Cícero. Nesse processo, o bom Jerônimo é obrigado a criar, na língua escrita, cerca de 600 neologismos no livro que seria base não apenas da propagação da fé cristã (antes coisa de doutor) como de todas as línguas neolatinas. A Bíblia de Gutenberg é uma versão revisada da Vulgata. Ou seja, as línguas neolatinas — como o português — já são degenerescências do latim, são latim “errado”, línguas do vulgo, da gentalha, da ralé. O que não é nenhuma vergonha, muito pelo contrário: é motivo de orgulho! Pelo menos para o velho BILAC, o Olavo: o homem que de trato tão refinado com a língua invejava o ourives quando escrevia:
'Última flor do Lácio, inculta e bela'
 Dissecando o citadíssimo verso de Bilac: “Última”, a mais jovem (rebelde?) ou mais remota (a mais distante do Lácio, rumo ao Ocidente, a partir de Portugal e derraman-- s e literalmente no mar); “flor do Lácio”, a filha bastarda, degenerada, do latim; “inculta”, popular, torta, vadia por natureza; e, mesmo assim, ou pour cause, bela. Como uma língua definida dessa forma pelo seu esteta supremo, severo devoto do Parnaso, pode almejar ou mesmo admitir ser dominada apenas por uma norma culta? Nessa esteira, os paradoxos vão desfilando com um jeito de piada, num cordel surrealista.
Machado de Assis, por exemplo, usa “o pessoal gostaram”. Está na norma culta, mas, por soar errado, não faltarão pretensiosos desavisados achando que é erro. A literatura e a música brasileiras sempre trataram essa questão de maneira rica e divertida, com toda a delicadeza que a língua portuguesa, nossa pátria (no grande achado de Pessoa), merece. Nessa seara, o Brasil já resolveu esse dilema entre a norma culta e as variantes há tempos. NOEL ROSA ensinou:
 'Mulata vou contá as minhas mágoa/Meu amô não tem erre/Mas é amô debaixo d’água'
  As críticas ao livro e a reação às críticas ressuscitaram uma dicotomia certo-errado que já estava enterrada também pela pedagogia: há 150 anos praticamente toda ela, de Piaget a Freinet ou Paulo Freire, gira em torno da ideia de que não se podem desprezar os saberes de cada indivíduo que entra em sala de aula. O analfabeto no caixa do armazém pode não ter ido à escola, não saber escrever, mas ele se comunica. E seguramente sabe matemática. Isso não pode ser desprezado, como se ele estivesse começando do zero. E certas particularidades de seu raciocínio adquirido no armazém serão,  eventualmente, também aprendidas pelo professor e compartilhadas. PAULO FREIRE, o educador por excelência, dizia:
'Um mestre é aquela pessoa que, de repente, aprende'
O debate que envolve, além dos jornais e dos linguistas, também juristas, políticos e artistas ampliou-se, mas deixou a impressão de que se resumiu aos espectros esquerdadireita/ pobres-ricos/elites-povo, noção já superada há muito tempo pelos mais aguerridos defensores da língua. O modernista de direita MANUEL BANDEIRA, por exemplo, exalta todas as palavras, “sobretudo os barbarismos universais”, enquanto o modernista de esquerda OSWALD DE ANDRADE obser va:
'Dê-me um cigarro, diz a gramática/do professor e do aluno/e do mulato sabido/mas o bom negro e o bom branco/da nação brasileira/dizem todos os dias/deixa disso,camarada/me dá um cigarro'
O grande CARTOLA foi até ridicularizado quando escreveu, no lindo samba “Fiz por você o que pude”:
'Perdoa me a comparação/Mas fiz uma transfusão/Eis que Jesus me premeia/Surge outro compositor/Jovem de grande valor/Com o mesmo sangue na veia'
O premeia, no lugar do convencional “premia”, era um artifício do poeta para a rima com veia, claro. Mas o compositor que escrevia versos como “queixo-me às rosas” (com todas as ênclises e crases devidas) foi contrariado pelos cultos de plantão. Ele insistia, contudo, no premeia, dizendo que estava certo, e assim gravou e consagrou a música, para deboche geral em relação ao “erro”. E não é que mais tarde estudiosos encontram o premeia em texto de ninguém menos do que PADRE ANTÓNIO VIEIRA, um dos maiores criadores da língua portuguesa?
'Assim castiga, ou premeia Deus' 
Na última mudança ortográfica a palavra consta com essa variante, por ser usada em vários países que falam a língua de Camões. Ou seja, tentaram usar a norma culta para mudar Cartola, mas seu verso sobreviveu, corroborado por Vieira e pela língua falada. É claro que a norma culta confere poder e deve ser “distribuída” democraticamente para que todos tenham as mesmas oportunidades. Mas, a depender de como isso é feito e de o quanto se têm em conta os diversos falares, os efeitos colaterais podem ser graves e derivar para uma Síndrome de LADY KATE, personagem interpretada pela genial Katiuscia Canoro: na certeza de “falar errado”, ela tenta falar certo e acaba misturando os canais. O resultado é o bordão:
'Grana eu tenho, só me falta-me o glamour'
As histórias “bem contadas” que o cineasta Eduardo Coutinho foi buscar no sertão paraibano para fazer “O fim e o princípio” (2005) são narrativas de velhos analfabetos, bem construídas e até cultas (no sentido não só de seguir regras análogas à norma, mas da harmonia advinda da invenção poética da tradição oral). Além disso, a não consciência do erro e o isolamento dos meios urbanos “educados” produzem, nesses indivíduos, uma verve e uma segurança que afetam a expressividade
do discurso. Em contrapartida, tem muito bacharel por aí (ops, Drummond, tinha uma pedra no meio do caminho...), que, do alto de seu nível superior, fala português confuso, escreve errado e tem dificuldades de compreender um raciocínio mais complexo. Alheio a isso, desde o século retrasado o povo brasileiro resiste a fazer o plural aparentemente correto para o “real” quando ele é moeda. Antes era o mil “réis”, e agora o dez real, o cem real, assim mesmo, sem concordância. O real, para o brasileiro, só é plural quando significa novas realidades possíveis, realidades alternativas, reais, enfim.
Afinal, como dizia GUIMARÃES ROSA, que inventou o que já fora desinventado,
'O senhor sabe: pão ou pães é uma questão de opiniães'
Nessa discussão puramente ideológica, desconfiou-se de que o MEC quisesse impingir aos pobres alunos uma gramática, digamos, lulista. O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva decerto é um grande e inventivo orador, não há dúvida, e na sua fala até resgata vocábulos populares esquecidos, como maracutaia. Isso, é claro, não dá direito a Lula de menosprezar a educação formal, como fez (e faz) diversas vezes. Mas seus “erros” de português também não dão aos seus detratores o argumento para desqualificação do seu discurso. O medo do vulgar e do errado mesmo quando ele é porta-voz de boa expressão tem na anedota que segue uma mostra de como pode atingir e devastar mesmo o texto correto. Pois consta que uma das esposas de VINICIUS DE MORAIS implicou com os “beijinhos” e os “peixinhos” de “Chega de saudade”, achando-os por demais pedestres. “Pô, Vinicius, beijinho e peixinho é demais...” Um dos maiores sonetistas da língua brasileira se deu ao trabalho de responder à patrulha:
— Ah, deixa de ser sofisticada...
Resultado: nasceu uma peça revolucionária, das mais radicais da arte brasileira, transformadora de toda a forma de fazer letra e música, sem deixar de ser extremamente popular, no sentido da criação e no da difusão. A vulgar “Chega de saudade” é hoje um clássico. Vejam que coisa!




segunda-feira, 2 de abril de 2012

Aldeia de pixels e papel entrevista de R.K. Logan a Prosa e Verso (O GLOBO) 31 /03/2012

Discípulo de McLuhan, físico canadense diz que cérebro humano precisa do impresso

Parceiro de Marshall McLuhan, físico, linguista, e especialista em comunicação, Robert K. Logan está no Rio para lançar seu mais recente livro, “Que é informação?” (Contraponto/Editora PUC, tradução de Adriana Braga), e para uma série de aulas e conferências em universidades e escolas. Quase meio século depois de seu mestre elaborar o conceito de aldeia global e a ideia de que o meio é a mensagem, O GLOBO conversou com Logan sobre este tempo em que vivemos imersos em nuvens de dados. Ele prega a ideia de que o cérebro humano é viciado em tinta e papel e fala da criação do smartbook, dispositivo que alia o impresso ao virtual.

O senhor diz que o cérebro humano é dependente de tinta e papel e que a inteligência, o estudo e o aprendizado não sobrevivem sem o impresso. Essa afirmação se baseia em quê? 
ROBERT K. LOGAN: Em estudos neurofisiológicos que comparam a leitura de textos em papel com a leitura numa tela eletronicamente configurada. No texto em papel ela é restrita ao hemisfério esquerdo, que interpreta a linguagem. Já a leitura na tela, por melhor que seja a resolução, envolve, antes, o lado direito, necessário para montar o mosaico de pixels que forma a imagem de cada letra, e, depois, o lado esquerdo, num vaivém: um lado converte pixels em letras, outro transforma letras em palavras e frases. A quantidade de tráfego através do corpo caloso é enorme e dificulta a concentração e a imersão, além de tornar a leitura mais cansativa. Não é à toa que escritores que escrevem em computador preferem imprimir e ler no papel na hora de fazer a revisão. 


É só isso, então? A coisa se resume a um fator neurofisiológico? Não, isso é um só aspecto. Outro é que a tecnologia do livro encadernado, até hoje, é a única que permite um manuseio sem o emperramento imposto pela rolagem. 


Mas o senhor é um entusiasta da internet e até a saúda como uma nova linguagem. Explique o paradoxo. Não há paradoxo. O que defendo é uma experiência conjugada no uso da internet e do papel. Por exemplo, imprimir textos e hiperlinks mais relevantes é uma prática seletiva útil, que permite que se atinjam com mais eficiência os objetivos. Ao mesmo tempo, estou participando da criação de um conceito: o dos smartbooks. É um livro impresso que contém um código que, inserido na rede, abre portas para sua cópia digital, links associados exclusivos e listas de referências. 


Como vê o fim da Enciclopédia Britânica impressa, sem uma versão online do mesmo porte? 
Não vejo drama. A Wikipedia é muito melhor que a Britânica. Tem muito mais links e aberturas para outras acepções do assunto através do hipertexto. 


Sério? E as bobagens, distorções, exacerbações que se encontram na Wikipedia? 
Ora, o que não falta na Britânica são bobagens. Essa coisa de a Britânica ser o centro referencial cosmológico da cultura era um mito. Por exemplo, não existia na Britânica um verbete sobre mim e sobre meu trabalho. Na Wikipedia há uma entrada espontânea! (Risos) 


O leitor médio hoje é capaz de contextualizar? 

Sim, claro. O hiperlink permite isso. Desde que ele tenha discernimento e uma educação à altura. 


Mas o problema não estaria aí? O leitor atual, dividido entre várias fontes, consegue se educar? 

A educação é um assunto à parte. E o que precisa haver, como eu disse, é uma boa correlação entre o impresso e o digital. Estamos numa época em que essa ideia apressada do fim do livro impresso está em transição. Ela foi criada por aqueles que acharam que aconteceria com os livros o que aconteceu com os CDs. Ora, não perceberam que a cognição auditiva é bem diferente da experiência da leitura, que exige um vínculo muito maior com o suporte, o objeto. 


Muitos estudiosos previram que o poder ficaria concentrado nas mãos de quem fosse o dono da informação. Quem são, hoje, esses donos? Hoje, todos são donos da informação, e aquele funil de editores deixou de privar milhões de pessoas de se expressarem, muitas vezes coletivamente. Os provedores, é claro, lucram com isso e têm acesso a toda a informação, mas este é um outro aspecto da discussão. 


Em seu livro o senhor trata do conceito de informação como se fosse um organismo que se replica por meio das linguagens e da cultura da mesma maneira pela qual as estruturas moleculares orgânicas propagam seus padrões de organização. Para além da esfera acadêmica, como o público percebe o conceito de informação? Não percebe. O público, com exceção da academia, é como um peixe na água: ele não capta conceito de fundo, ele apenas recebe, processa, transforma, recria e transmite a informação através de seus vários meios, sempre influenciado, cognitivamente, pelas características dos mesmos e pelo ambiente, adicionando significados que estão para além da previsibilidade e que pertencem ao domínio da incerteza. O que contraria completamente a noção que tem predominado, derivada das ideias de Shannon, de que informação é apenas transmissão direta e passiva de signos arbitrários por um receptor. 


Isso significa que a informação é orgânica? 
Não, ao contrário do que sonham os próceres da inteligência artificial e da realidade virtual: sem a interação com o ambiente não se produz vida humana. A vida está nos processos biológicos, e a mente é um estágio que resulta da soma do cérebro com a linguagem. O que esta soma produz é uma instância puramente conceitual, simbólica, que é transmitida como um organismo vivo apenas em sua dinâmica, por meio de padrões de replicação imateriais. 


Apesar de afirmar essa especificidade do homem enquanto produtor de significados, na sua teoria, o senhor se refere aos indivíduos por meio de palavras como instinto, cérebro, mente, moléculas, organização, emergência, processo. Mas vocábulos como amor, emoção e sentimento estão ausentes das 250 páginas. Por quê? 
Estão mesmo ausentes? Tem certeza? Bom... não sei, na verdade isso me surpreende. Não posso sequer explicar. Estou chocado. Vou ter que pensar sobre isso e já me vem uma série de palpites sobre como conectar o conceito de informação ao de amor. Você me deu uma excelente ideia para uma próxima edição do livro, ou um novo estudo... 


* Esta entrevista foi publicada no vespertino para tablet “O Globo a Mais” 

Da fala ao grunhido’, de Ferreira Gullar FSP 26 de março de 2012

Desconfio que, depois de desfrutar durante quase toda a vida da fama de rebelde, estou sendo tido, por certa gente, como conservador e reacionário. Não ligo para isso e até me divirto, lembrando a célebre frase de Millôr Fernandes, segundo o qual “todo mundo começa Rimbaud e acaba Olegário Mariano”.Divirto-me porque sei que a coisa é mais complicada do que parece e, fiel ao que sempre fui, não aceito nada sem antes pesar e examinar. Hoje é comum ser a favor de tudo o que, ontem, era contestado. Por exemplo, quando ser de esquerda dava cadeia, só alguns poucos assumiam essa posição; já agora, quando dá até emprego, todo mundo se diz de esquerda.De minha parte, pouco se me dá se o que afirmo merece essa ou aquela qualificação, pois o que me importa é se é correto e verdadeiro. Posso estar errado ou certo, claro, mas não por conveniência. Está, portanto, implícito que não me considero dono da verdade, que nem sempre tenho razão porque há questões complexas demais para meu entendimento. Por isso, às vezes, se não concordo, fico em dúvida, a me perguntar se estou certo ou não.Cito um exemplo. Outro dia, ouvi um professor de português afirmar que, em matéria de idioma, não existe certo nem errado, ou seja, tudo está certo. Tanto faz dizer “nós vamos” como “nós vai”.Ouço isso e penso: que sujeito bacana, tão modesto que é capaz de sugerir que seu saber de nada vale. Mas logo me indago: será que ele pensa isso mesmo ou está posando de bacana, de avançadinho?E se faço essa pergunta é porque me parece incongruente alguém cuja profissão é ensinar o idioma afirmar que não há erros. Se está certo dizer “dois mais dois é cinco”, então a regra gramatical, que determina a concordância do verbo com o sujeito, não vale. E, se não vale essa nem nenhuma outra ─ uma vez que tudo está certo ─, não há por que ensinar a língua.A conclusão inevitável é que o professor deveria mudar de profissão porque, se acredita que as regras não valem, não há o que ensinar.Mas esse vale-tudo é só no campo do idioma, não se adota nos demais campos do conhecimento. Não vejo um professor de medicina afirmando que a tuberculose não é doença, mas um modo diferente de saúde, e que o melhor para o pulmão é fumar charutos.É verdade que ninguém morre por falar errado, mas, certamente, dizendo “nós vai” e desconhecendo as normas da língua, nunca entrará para a universidade, como entrou o nosso professor.Devo concluir que gente pobre tem mesmo que falar errado, não estudar, não conhecer ciência e literatura? Ou isso é uma espécie de democratismo que confunde opinião crítica com preconceito?As minorias, que eram injustamente discriminadas no passado, agora estão acima do bem e do mal. Discordar disso é preconceituoso e reacionário.E, assim como para essa gente avançada não existe certo nem errado, não posso estranhar que a locutora da televisão diga “as milhares de pessoas” ou “estudou sobre as questões” ou “debateu sobre as alternativas” em vez de “os milhares de pessoas”, “estudou as questões” e “debateu as alternativas”.A palavra “sobre” virou uma mania dos locutores de televisão, que a usam como regência de todos os verbos e em todas as ocasiões imagináveis.Sei muito bem que a língua muda com o passar do tempo e que, por isso mesmo, o português de hoje não é igual ao de Camões e nem mesmo ao de Machado de Assis, bem mais próximo de nós.Uma coisa, porém, é usar certas palavras com significados diferentes, construir frases de outro modo ou mudar a regência de certos verbos. Coisa muito distinta é falar contra a lógica natural do idioma ou simplesmente cometer erros gramaticais primários.Mas a impressão que tenho é de que estou malhando em ferro frio. De que adianta escrever essas coisas que escrevo aqui se a televisão continuará a difundir a fala errada cem vezes por hora para milhões de telespectadores?Pode o leitor alegar que a época é outra, mais dinâmica, e que a globalização tende a misturar as línguas como nunca ocorreu antes. Isso de falar correto é coisa velha, e o que importa é que as pessoas se entendam, ainda que apenas grunhindo.

quinta-feira, 29 de março de 2012

Organizando a biblioteca segundo o leitor

Relatar uma experiência que compreende, acima de tudo, observações do cotidiano em uma biblioteca sobre abordagens dos leitores, quanto à informação, é apontar os elementos de cultura técnica e do senso comum em conflito e demonstrar o quanto este pode se refletir nos processos informativos de modo a desconstruir categorias fixas e “imutáveis” herdadas da tradição e que não dão conta das necessidades do usuário, porque não respeita seus modos de abordagem, a sua linguagem e não atende a suas necessidades. Trata-se uma nova versão da máxima parafraseando a Constituição: todo poder emana do leitor e em nome dele será exercido.
Em primeiro lugar, sob aspecto organizacional, deve ser admitido como lei essa sim, a única a ser imutável, o acesso direto. A biblioteca deve ser explorada pelas crianças à exaustão. E In-loco! Só assim acontecerão as descobertas. Quantas vezes, percorrendo as estantes, elas não descobrem algo melhor do que o que estão procurando? A função nas bibliotecas escolares e públicas é de promover a familiarização, o contato, a experiência da leitura, sem restrições de acesso.
Tradicionalmente o que temos? Um sistema em que o meio (seu conteúdo impresso ou não) – o catálogo - determina a forma pela qual a informação estará disponibilizada. Assim basta que se apliquem as regras e está tudo resolvido. Invertemos. O leitor é quem vai ditar como a informação será disponibilizada. Antes de “arrumar e catalogar”, vamos observar como o leitor pergunta.Uma biblioteca deve estar preparada para dar respostas, como um oráculo. E as respostas se encontram ao se entender sua estrutura organizacional e sua visão de conjunto, mesmo quando não existam catálogos. Os catálogos, no que se refere a recuperar informação, ao contrário do que se preconiza, devem ser à imagem e semelhança do seu leitor, que não é uma entidade técnica, abstrata ou burocrática. Em minha biblioteca, precisava reunir tudo que tinha sobre Brasil. Ou criava uma categoria “Brasil”(981?) ou os livros ficariam dispersos fisicamente em suas classes política, história, geografia etc,.e o usuário dependeria do catálogo. Insisto que o uso do catálogo é importante, mas que o usuário não deve depender dele e se furtar à experiência prazeirosa e salutar do "bom vizinho"(1). O catálogo não é o espelho do desejo. Não há solução técnica para tal caso. Apenas o bom senso, uma estante e uma legenda: Brasil –de 00 a 900. Contudo, não se pode pura e simplesmente dispensar um conhecimento acumulado, quando ele serve para nortear e não obstaculizar os passos do leitor, como normalmente acontece nas bibliotecas que valorizam a complexidade técnica. A forma como está organizado o acesso por si só pode garantir uma praticidade que permite ao usuário achar a informação com relativa rapidez, mesmo quando esta é específica. É preciso criar uma estrutura partir dessas procuras, e relacioná-las ao todo a que hipoteticamente pertence. Por exemplo, uma procura pelo assunto “vacinas” , por que estará em medicina (610) e não em saúde pública (classe 300?) Saúde compreende não só categorias médicas, mas bem-estar psicológico e modo de vida (classes que estão distantes na tabela de classificação)! Então é preciso estarmos atentos às inúmeras facetas para reunirmos assuntos que aparentemente “deveriam” estar hierarquicamente dispostos como manda a disciplina, mas que na realidade não estão. Mas o que difere essa organização das chamadas tradicionais? Ela se pretende menos especializada. Assim, cada classe não será um corpo de conhecimentos fechado. São os grupos temáticos que devem prevalecer sobre as classes. Para, por exemplo, como queria Dewey, “entendermos o mundo à nossa volta”, temos as ciências da natureza (evolução,paleontologia, biologia), temos também a geopolítica e as ciências sociais juntas na mesma estante, o que em uma organização tradicional seria não menos que um absurdo. Mas não são, são um grande passo para a autonomia do leitor das tecnalidades hoje impostas.
Pode-se criar, sem nenhum desdouro para a classe biblioteconômica, uma espécie de “self-service” na Biblioteca, e assim dar a maior autonomia possível ao leitor.

(1) Aby Warburg criou um sistema assim para consulentes de sua biblioteca. Ver Manguel. Biblioteca  à noite . São Paulo: Cia das Letras, 2006

Pierre Bayard Como falar dos livros que não lemos? André Miranda


À primeira vista, o livro "Como falar dos livros que não lemos?" parece um guia de humor. Com esse nome curioso, capítulos intitulados “Não ter vergonha” e “Situações de discurso com o ser amado” e uma tabela de abreviações em que são sugeridas as classificações LD, LF, LO e LE — livros desconhecido, folheado, de que ouvi falar e esquecido —, o ensaio que a Editora Objetiva acaba de lançar no Brasil pode aparentar ser mais uma obra para impressionar os amigos. Mas não é nada disso, garante seu autor, o professor de literatura francês Pierre Bayard. — Há uma compreensão equivocada de que meu objetivo é desestimular as pessoas a lerem. É o contrário. Eu sou um fã dos livros. Mas eu quero que as pessoas tenham uma boa experiência com a leitura. Na escola, a gente aprende a ler somente de uma maneira. Os professores falam dos livros importantes e dizem que você precisa lê-los do início ao fim, da primeira palavra até a última. 
O que eu defendo é a liberdade na leitura — explicou Bayard, por telefone a O GLOBO.(19/01/2008)
Mais do que uma defesa sobre a liberdade, o livro de Bayard é um ensaio extremamente bem fundamentado sobre todo o processo de leitura — ou, como o autor prefere, o processo intermediário que existe entre a leitura e a não-leitura. Parece confuso, mas no texto do professor francês tudo fica extremamente agradável e simples. A partir de obras de outros escritores, ele disseca as situações pelas quais passa um leitor, de diversas origens e formações. Através de um obituário escrito pelo poeta e filósofo francês Paul Valéry na morte de Marcel Proust, por exemplo, Bayard explica que é possível falar sobre a obra de alguém mesmo sem tê-la lido por completo. Em outro momento, ele trata do enredo de "O nome da rosa”, de Umberto Eco, no qual o monge Guilherme de Baskerville investiga assassinatos cometidos num monastério. As mortes envolvem um dos volumes da “Poética”, de Aristóteles, obra no qual ele faz uma análise do riso. O detalhe que interessa a Bayard é que Baskerville deduz os crimes sem nunca ter lido a obra de Aristóteles. — Mesmo alguns livros que não lemos fazem parte de nossas vidas. São os livros sobre os quais nós ouvimos falar. Eu não devo ser capaz de dizer exatamente o que eu li sobre Hegel, Kant, Freud ou Proust. É claro que eu li muita coisas desses autores, mas é que eu também li muitos livros que falam sobre esses autores. É difícil diferenciar uma coisa da outra. É estreito o limite entre ler e não ler. Quantas pessoas podem dizer que leram da primeira linha até a última linha, da capa até a contracapa, a “Bíblia”? — questiona Bayard.
Já no capítulo “Situações de discurso diante de um professor”, o professor francês analisa o estudo da antropóloga americana Laura Bohannan com os tiv, um grupo étnico da África Ocidental. Nele, Laura relata a experiência que teve ao, oralmente, contar a alguns deles a história de “Hamlet”, de Shakespeare. O resultado foi que os tiv questionaram várias passagens do livro, por não entenderem, por exemplo, o significado de um fantasma ou não acharem estranho que a viúva Gertrudes se casasse pouquíssimo tempo depois da morte do marido.
Desconhecidos, folheados ou esquecidos... 

Bayard desenvolve, então, um conceito que ele chama de “livro interior”, uma espécie de filtro que varia de cultura para cultura e que determinaria a recepção de novos textos por parte do leitor. — Eu acho que alguns livros importantes não o são para mim ou para você. Isso não significa que é para se sentir culpado caso você não se saia bem lendo alguma coisa. Eu digo para os meus estudantes que eu não fui bem sucedido em ler “Ulisses”, do Joyce. Talvez não fosse o livro para mim. E não me sinto culpado em não ter lido “Ulisses” e explicar do que ele se trata — diz.
Sobre os livros lidos e esquecidos, Bayard cita o ensaísta francês do século XVI Michel de Montaigne. Em seus “Ensaios”, Montaigne diz que, depois de ler um livro, detalhes “pequenos” como o autor e as palavras eram esquecidos prontamente. Até mesmo seus próprios escritos se perderiam na memória com o passar dos anos.
Bayard afirma que Montaigne teria conseguido apagar qualquer limite entre leitura e não-leitura. O autor diz que a “confissão” do ensaísta nada mais é do que um resumo da relação que todas as pessoas têm com os livros. “Não guardamos em nossa memórias livros homogêneos, mas fragmentos arrancados de leituras parciais”, escreve ele. — Existe uma situação intermediária entre apenas ler ou não-ler um livro. Os intelectuais conhecem bem essa situação porque estão acostumados a folhear os livros, a começar uma leitura e não terminá-la. Mas muitas pessoas não entendem isso — afirma Bayard. — Quando alguém vai ao meu apartamento, vê aquela quantidade imensa de livros e pergunta se eu li todos, eu francamente digo que não. A questão é que eu vivo com os meus livros, eles são minhas companhias, meus amigos. Quando eu tenho problemas, eu peço a eles a solução, mas não leio todos.
Dessa biblioteca, o professor francês tem dois volumes que podem resumir bem o espírito de liberdade pregado em "Como falar dos livros que não lemos?"(208 páginas). Um é a resposta dele à pergunta “qual o melhor livro que você não leu?”. Já o outro é uma confissão sobre um autor brasileiro.
— “Ulisses” é o livro que não li e mais gostei. Eu tenho certeza que é um ótimo livro. Há muitas garotas que são interessantes, mas que podem não ser para mim e podem ser para você. A lógica é a mesma — brinca o simpático Bayard. — Dos autores brasileiros, eu adoro Machado de Assis. O “Dom Casmurro” eu realmente li. E até o reli. Reler é também uma ótima forma de ler um livro. É importante ser um leitor criativo.
 Entrevista e comentários de André Miranda

Duas mães reclamando

Ao circular numa livraria que freqüento, ouvi o curto diálogo:

-          Absurdo, sabe quanto foi só um  livro do meu filho, do ensino médio? Oitenta e nove reais, um livro! – seguido da observação da outra:
-          Só a lista escolar de um filho foi de setecentos reais! 
Apenas essas duas linhas de diálogo  são o bastante para reflexão. A tal ‘volta às aulas” é o carnaval das editoras, a lágrima das mães e a enxaqueca dos livreiros. Fui livreira e nessa época,o Lexotan não bastava para tanto estresse. Sabíamos que havia um desconto do editor para o livreiro, variava de 20 a 30%, desconto que nos permitia  uma “margem” que porém se dissolvia em uma simples equação: o livreiro tinha 40 dias para liquidar a fatura à editora, enquanto tínha que vender ao consumidor em até seis parcelas, ou seja, seis meses. Tudo seria perfeito seria se vendêssemos todo o estoque, mas não. Era uma espécie de loteria. Muitos títulos se esgotavam e o consumidor, que sempre tem razão, não fechava a lista que estivesse incompleta. E tome prejuízo. Mas são águas passadas. Falávamos dos preços. Não é preciso ser grande especialista para entender esses preços ultra-engordados. A razão disso chama-se “compras governamentais”. O governo precisa de grandes descontos para fechar as concorrências de compra dos livros de seus programas de distribuição MEC/MinC. A lógica é essa: se o editor colocar um precinho camarada num livro, digamos, 20 reais no máximo, para o governo, vai vender ao mercado privado pela margenzinha que repassa aos livreiros, mas se ele elevar (não quero usar o termo superfaturar)o preço para o governo, esse preço já vai engordurado para o livreiro e, logo, para consumidor final. Daí o diálogo acima das duas mães. Cantilena de todo ano. Sabe-se, desde criancinha, que tudo, tudo que se vende para o governo ,e não se pode excluir livros, é cobrado por muitas vezes o valor real. E La Nave vá...  Fazer o que, muitos perguntam. Há várias coisas: auditorias para ver fiscalizar esses preços, isso no nível prático. No nível gerencial, é mudança radical na política de livros didáticos. Livros didáticos, pode-se ter, mas baratos, muito baratos, baratos de não se ter pena  de usar, jogar fora e reciclar o papel depois para se produzir novos didáticos. A política de “passe adiante seu livro didático” justifica edições luxuosas  desses livros que, afinal, são manuais de instrução,temporários por natureza, encarecendo-as e bem mais até do que os livros comuns que tem temporalidade maior. Que livro comum custa R$ 89? Não é verdade que passar o livro adiante  garanta durabilidade a esse livro. Guardem o luxo das edições para livros informativos e literários. A ciência muda, a tecnologia muda, o conhecimento evolui, os programas pedagógicos também, e tudo conspira para que o didático usado  se transforme num transtorno para as  famílias, as escolas, as bibliotecas e o meio-ambiente,  a permanecer essa política. 

Essas são as primeiras  reflexões produzidas apenas por duas mães reclamando.