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domingo, 15 de abril de 2012

Lições da montanha de livros

Fascinante como algo aparentemente sem implicações, digamos, filosóficas, que é a doação de livros para uma biblioteca, revele tanto. São lições da montanha de livros. Se eu fosse fazer uma tipologia deste material, assim classificaria, independentemente do valor literário:
Os livros doados por afetividade: Pela idade dos livros – média 40 anos-, aquele livro em que "eu estudei quando fiz o ginasial"; aquele livro que "foi do meu pai e do avô, tataravô,ou que ganhei de um ente querido; as chamadas "coleções a metro" de clássicos e grandes autores de um colecionador falecido, ou os que não cabem mais na nova casa, enfim, lidos ou não, foram guardados por muito, muito tempo.
Os livros sobrados e sossobrados que o mercado editorial jogou na praia. São geralmente de autores desconhecidos ou candidatos a escritores, que se financiam e porque não têm mercado, sobram das (suas e de outras) prateleiras. Vão desde memórias e árvores genealógicas que só interessam às próprias famílias dos ditos cujos, obras de pessoas e até políticos que "cometem" uma poesia e um romance, livros editados por academias regionais, e instituições sem caráter lucrativo, coletâneas de concursos diversos. A doação resulta de quando os egos desincham.

Os best-sellers. Em grande quantidade, esses velhos campeões são a personificação do que representam: consumo rápido. Consumidos, passa-se logo adiante. O futuro deles na biblioteca é quase sempre o sucesso, se o "sentimento" de que caíram de moda não prevalecer: "Pollyana?" , já era( ledo engano)! O Pequeno Príncipe? Mais vivo que nunca! Eventualmente, um deles vira clássico ou volta à moda. Por isso, esses nunca devem ser subestimados. Os  doados por sentimento de culpa do doador: um tratado de eletrotécnica de 1958, outro, bem bonito, de medicina e cirurgia dos anos 70, um Atlas cujas informações estão defasadas, dicionários com ortografia em desuso, um álbum de figurinhas, livros de bolso, guias turísticos, bíblias em profusão, coleções e mais coleções de banca em fascículos descontinuados, enciclopédias defasadas, estas particularmente derrotadas pela mídia eletrônica, miscelâneas e miscelâneas, a desafiar nosso senso de escolha. Porque esta escolha que o doador teme fazer envolve certo pesar dele em repassar alguns desses exemplares para sebos ou destiná-los à reciclagem de papel.

Por último, os refugos da nossa vetusta política oficial: os didáticos, expressiva parcela dessa montanha, que o contribuinte mui justamente teme se descartar. Ou porque são belos e caros exemplares de luxo que as crianças compraram e usaram, mas continuaram belos, ou porque não compraram, mas ganharam do governo e, muitas vezes não usaram, ou porque não há uma destinação para eles na escola. Aliás, em lugar nenhum. Para a biblioteca é que não foram feitos, por razões que não cabem aqui explicitar, mas que certamente esperam por um amplo e sério  debate sobre o assunto.

Essas são minhas as minha primeiras "lições da montanha"de livros.

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