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domingo, 24 de janeiro de 2016

A neutralidade não existe (...) Ricardo Mioto Folha de São Paulo 28 Nov. 2015

Imagine uma discussão após um jogo de futebol sobre um pênalti. "Ele obviamente foi empurrado", diz o torcedor de um time. "Que nada, se jogou", diz o outro.
O mais interessante: ambos acreditam no que dizem. Ou seja, não se trata de uma distorção deliberada da realidade, uma "malandragem", mas de um viés involuntariamente criado pelo cérebro.
Apostando que isso não se aplica só ao futebol, mas também a várias outras áreas (como a política), um físico e professor da USP tem se dedicado a mapear todos os mecanismos mentais que nos tornam seres tendenciosos -ele já publicou artigos sobre o tema em revistas científicas e prepara um livro. Para André Martins, isso é um problema inclusive para o método científico.
Além do viés de confirmação -primeiro escolhemos um lado, depois selecionamos os fatos que se adequam-, há muitos outros mecanismos de parcialidade no nosso cérebro (veja infográfico). Um dos mais famosos é o pensamento de grupo.
Estudos mostram que, se um voluntário desavisado é colocado em uma sala cheia de atores, eles vai concordar com eles em várias questões, mesmo que estejam obviamente errados. A maior parte dos voluntários chega a dizer que duas retas evidentemente diferentes têm o mesmo tamanho, só porque os outros concluíram isso antes deles.
"Um exemplo disso é uma assembleia estudantil", diz Martins. "Não há muita permissão para ideias próprias, só alguns pensamentos são permitidos. Dissidentes são de alguma forma humilhados".
Uma charge americana sintetiza o assunto: em uma sala de reuniões, o chefão dá o diagnóstico: "Nosso problema é que precisamos de mais opiniões divergentes" -ao que os subordinados reagem, dizendo "com certeza, chefe", "exatamente o que eu penso".
Estudos mais recentes, em que os cérebros dos voluntários são mapeados, mostram que estar isolado, discordando da maioria, ativa regiões ligadas à dor -ou seja, a rejeição de ser diferente machuca.
Em uma apresentação aberta ao público do seu trabalho na última quinta-feira na USP, Martins apontou outros tipos de viés demonstrados por pesquisas de psicologia.
Dois dos mais interessantes são a falha de calibração e a tendência humana ao pensamento rápido.
O primeiro se refere à nossa tendência de acreditar que sabemos mais sobre o assunto do que os outros. É curioso: para conseguir avaliar o tamanho da sua defasagem de conhecimento sobre determinado tema, é importante que você o entenda minimamente -ou seja, é preciso saber alguma coisa para perceber que não sabemos nada.
Os estudos sobre pensamento rápido mostram que tomamos partido muito rapidamente quando apresentados a questões polêmicas.
A explicação é evolutiva: "Na selva, você prefere ter certeza ou reagir rápido quando algo se mexe no meio do mato? Em termos evolutivos, ponderar todos os argumentos para tomar decisões embasadas nem sempre vale a pena", argumenta Martins.
Nossa inteligência, aliás, não parece ter evoluído para que encontrássemos a verdade ou desvendássemos os mistérios do Universo. Isso é só um efeito colateral útil.
"Nosso raciocínio serve é para nos permitir argumentar e convencer. Ele é um elemento de coesão social."
PARCIAL, E AÍ?
Se nosso raciocínio não é muito confiável, surgem duas perguntas. Em primeiro lugar, isso quer dizer que a ponderação é uma ilusão? Além disso, como fica a ciência?
Sobre a primeira pergunta, Martins diz existirem meios de se policiar para tentar contornar a tentação do viés.
"A mensagem é esta: ouça o outro lado. Um bom exercício, que deveríamos estimular inclusive as crianças a fazerem,é se obrigar a listar defeitos no seu ponto de vista e qualidades nas visões das quais discordamos", afirma.
"Se você acredita em A, faça a experiência de se obrigar a escrever uma defesa de B. Tem de ser algo forçado, deliberado, porque naturalmente não vamos querer fazer."
Ele cita um trabalho sobre os vieses dos juízes da Suprema Corte americana. Os pesquisadores concluíram, interessantemente, que aqueles com treinamento anterior em advocacia tinham maior tendência a ponderar argumentos dos dois lados.
Aparentemente, atuar como advogado -trabalhando para o lado que pintar, não para o que agrada mais- força o sujeito justamente a perceber que, em uma controvérsia, com frequência vários pontos de vista são defensáveis. Ou seja, aquilo que normalmente enxergamos como flexibilidade moral e que faz certa má fama dos advogados talvez seja, na verdade, um ativo.
Na ciência, a questão da tendenciosidade se aplica especialmente às áreas em que medições quantitativas não estão tão disponíveis. Os números têm essa característica maravilhosa de encerrar discussões. Bom, ao menos quando sua interpretação é consensual, como em várias áreas da física -não adianta nada ter os números e ninguém se entender sobre o que eles estão dizendo, como na economia.

"Vários dos problemas de viés se aplicam às ciências humanas. Veja a necessidade de as teses mostraram que o que está sendo proposto já foi dito antes por alguém", afirma Martins. "Mas humanos são humanos em todos os campos. A situação é parecida nas áreas da física em que experimentos não estão disponíveis. Pense em toda a controvérsia sobre a teoria das cordas."

domingo, 17 de janeiro de 2016

De volta ao futuro por Dorrit Harrzin O Globo 17/01/2016

Dorrit Harazim, O Globo
Em artigo publicado esta semana na “Folha de S.Paulo”, o professor Luiz Armando Bagolin, diretor da Biblioteca Mário de Andrade, lamenta o fato de pedras, pichações e vandalismo voltarem a acertar a fachada da instituição. Já em 2013, também no rastro dos protestos estudantis contra o aumento de tarifas do transporte urbano, a mais importante e querida biblioteca pública de São Paulo fora danificada por black blocks ou jovens sem-noção.
Nem durante a chienlit do Maio de 1968 em Paris as manifestações visaram bibliotecas públicas. Durante o interminável movimento Occupy, que em 2011 se alastrou por 600 comunidades nos Estados Unidos, e nas incendiárias respostas da população negra americana aos abusos da polícia branca ao longo de 2014 e 2015 também não.
Ainda bem, pois hoje mais do que nunca elas talvez sejam os últimos espaços não comerciais nem religiosos, nem partidários ou excludentes que ainda podem ser frequentados sem receio por qualquer tipo de cidadão.
Um aviso para quem pensa que a geração Google e Wikipedia não tem tempo nem interesse em explorar tais espaços: pelo menos em países desenvolvidos, eles continuam a florescer, adaptados aos tempos modernos, é claro. O Pew Research Internet Project, com sede em Washington, há quatro anos estuda a mudança de papel das bibliotecas públicas na sociedade dos Estados Unidos. Segundo seu último relatório, 90% dos frequentadores mais assíduos de bibliotecas também acessam a internet diariamente, 95% deles possuem telefone celular, 46% usam tablets ou computador e 33% leem livros em e-readers.
Ou seja, mesmo tendo ao alcance da mão todo um universo de informação digital, eles não se furtam ao hábito do convívio físico com o local. Representam 30% da amostra, o que não é pouco, e foram classificados como “amantes de biblioteca” e “onívoros de informação” pelo instituto Pew.
Dois anos atrás, a centenária New York Public Library (NYPL), tão reverenciada pelos nativos quanto as catedrais europeias o são pelos seus fiéis, deu um presente de fim de ano aos 30,8 milhões de visitantes de seu website.
A equipe de bibliotecários da instituição havia descoberto uma caixa contendo um tesouro de fichas referentes a consultas recebidas entre as décadas de 1940 e 1980. Além da pergunta, cada ficha continha a data da consulta, quem a recebera, se fora feita por telefone ou pessoalmente.
À época, como hoje, o sistema consistia em tentar atender o cliente de imediato. Quando isso se revelava impossível ou quando a fonte consultada não parecia 100% confiável, a consulta permanecia em aberto para apuração posterior — uma delas por exemplo, recebida em 1940, só conseguiu ser respondida 30 anos mais tarde.
O fichário encontrado pertencia a essa categoria de consultas pendentes, e a NYPL começou a fazer postagens semanais do precioso conteúdo no Instagram, com a hashtag #letmelibrarianthatforyou. Sucesso instantâneo.
Alguns exemplos dessas inquietações de antanho deixadas em aberto:
Qual o ciclo de vida de um cílio?
Os Estados Unidos têm qual porcentagem de banheiras existentes no mundo?
Existe alguma estatística sobre longevidade de mulheres abandonadas? (consulta recebida entre 1h e 2h da madrugada de 15 de fevereiro de 1963)
Quantos grãos contém uma tonelada de trigo?
Qual a espessura de um selo americano, já com a cola adicionada? Resposta: “Não conseguiremos fornecer a informação exata rapidamente. Sugerimos recorrer ao Serviço Postal dos Estados Unidos”. Tréplica: “Aqui é o Serviço Postal dos Estados Unidos.”
Para deleite de quem quer dar uma espiadela nessa cápsula do tempo — uma era em que humanos confiavam em outros humanos — há de tudo um pouco. No lugar de aplicativos para questões profundas, comezinhas, incompreensíveis, utilitárias, de etiqueta, existenciais, bastava um bibliotecário do outro lado da mesa ou da linha telefônica.
Eles eram o Google antes do Google existir.
Segundo a bibliotecária Rosa Caballeri-Li, ainda hoje a equipe de atendentes do Departamento de Referência e Pesquisa da NYPL continua a receber uma média de 1.700 consultas por mês, seja através de chat, e-mail ou telefone, em inglês ou espanhol. “Num país tão informatizado como os Estados Unidos”, explicou à época do lançamento da hashtag no Instagram, “pode soar espantoso as pessoas procurarem refúgio na NYPL. Mas quando há respostas em demasia na internet e você não consegue distinguir o que é ficção de fato, você se sente mais seguro recorrendo a nossos serviços”.
Ou, como já disse o escritor britânico Neil Gaiman, “se o Google te dá cem mil respostas, o bom bibliotecário vai te dar uma, a resposta certa”.
Na NYPL, nenhum atendente considera consulta alguma estúpida. Procuram responder sem arrogância. “Tudo pode ser transformado em momento de aprendizado para quem não sabe”, diz Caballeri-Li. “Não estamos aqui para constranger quem quer aprender”.
É claro que nem todas as bibliotecas públicas são uma NYPL. Tampouco precisam ou poderiam ser. Mas é bom ficar de olho no que resta das nossas. Nestes tempos de blocos nas ruas brasileiras, elas precisam e devem ser protegidas dos black blocks — protegidas tanto pela polícia como pelos estudantes.

domingo, 5 de julho de 2015

14 coisas que todo mundo entende errado sobre bibliotecários


“Sim, eu posso te ajudar a achar todos os livros.” “Não, eu não passo o dia inteiro lendo todos os livros.”
por Arianna Rebolini, do BuzzFeed
Recentemente perguntamos a alguns bibliotecários na comunidade do BuzzFeed quais são as idéias mais erradas que as pessoas tem sobre o seu trabalho. Seguem os resultados esclarecedores!
1. Que no seu trabalho não tem stress nenhum.
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Flickr: pleeker / Creative Commons
“Odeio quando as pessoas dizem, ‘é tão silencioso aqui. seu trabalho deve ser super relaxante’. Ou assumem que você tem três horas no trabalho apenas pra ler qualquer livro que você queira”. —Jackie DeStefano, Facebook
“Especialmente durante o programa de leitura de verão*!” —Maria Slytherinn Hill, Facebook
2. Que a tecnologia faz com que seu trabalho seja redundante.
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Shironosov / Getty Images
“[As pessoas assumem] que bibliotecários e bibliotecas são obsoletos porque ‘você pode achar tudo no Google’. Há tanta informação (eletrônica ou em outro suporte) que não pode ser acessada pelo Google, e nós sabemos encontrá-la.” —AnnaBanana617
3. Que você passa os dias lendo.
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“Pessoas me disseram que elas adorariam ser bibliotecárias porque seria muito bom trabalhar com livros o dia todo. Nada disso. Não é isso que eu faço o dia todo. Eu trabalho com PESSOAS o dia inteiro – referência, programação de ensino. Às vezes isso envolve fazer com que elas encontrem livros, mas se não fosse pelas pessoas, não existiriam bibliotecários.” —Emily Lauren Mross, Facebook
4. Que você ou é assim…
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“[As pessoas acham] que você precisa ser de um certo jeito! Tenho cabelo roxo, tatuagens e um piercing no nariz.” —Maria Slytherinn Hill, Facebook
5. Ou assim:
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google.com
“Todo o combo de ‘bibliotecária sexy’ é realmente tosco.” — saraf45be50781
6. Que se o seu foco é em leitura/literatura para crianças, é sempre brincadeira.
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Purestock / Getty Images
“Detesto quando acham que bibliotecários que se envolvem com crianças (ou escolares) são babás glorificadas que fazem apenas hora do conto. Eu sou responsável por bem mais que isso, incluindo habilidades em tecnologia e ensino” — Jessica Vining Prutting, Facebook
7. Que você só trabalha em bibliotecas ou em escolas.
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“A biblioteconomia é bastante ampla em diversidade. Trabalhamos em organizações, escritórios jurídicos, institutos de pesquisa e laboratórios, no governo e nas forças armadas. Não apenas damos baixa e realocamos livros. Somos pesquisadores, especialistas em computação, desenvolvedores de coleções, arquivistas, especialistas, especialistas em metadados (fazemos com que tudo seja encontrável online e offline) e muito mais” —AnnaBanana617
8. Que você não precisa de diploma pra isso.
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Chad Baker/Jason Reed/Ryan McVay / Getty Images
“As pessoas sempre se chocam quando eu falo pra elas que eu estou me especializando para ser bibliotecária. Acredito que elas pensam que bibliotecários só precisam saber a CDD e talvez como usar o computador, de vez em quando” —Chelsea Phillips, Facebook
9. Que o trabalho é fácil.
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Purestock / Getty Images
“Sou bibliotecária de escola de ensino fundamental e é muito frustrante ouvir, ‘Seu trabalho deve ser tão fácil! Você só lê pra eles o dia todo!’. Sim. E ensino habilidades de pesquisa, de comunicação, de falar em público, entre outras. Sem contar a gestão de classe, orçamento, processamento, auxílio aos professores… Certamente não é tão fácil quanto eu faço aparentar ser!” —brittanyo4910df152
10. Que você tem aversão à tecnologia.
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“A maioria das pessoas não percebe que nós temos que ter aulas de computação bem intensas para termos um mestrado em biblioteconomia. Muitos de nós entendemos de design de bases de dados, HTML, C++, e outros códigos!” —laureno404824e16
11. Que você precisa ser de uma certa idade.
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“Eu já ouvi isso um monte de vezes: ‘Mas você é tão novinha!’ (Sou uma anomalia. A maioria das bibliotecárias nasce com 60 anos e só fica velha a partir dessa idade.)” —katrinalewine
12. Que vocês são um bando de puritanos.
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“O maior erro que já ouvi na vida é o de que bibliotecários são puritanos. Eu amo sexo! Só não curto quando eu tenho que testemunhar isso / mandar as pessoas pararem / limpar depois. Trabalhei numa biblioteca por nove anos e durante esse tempo eu costumava a flagrar pessoas transando e assistindo pornografia no computador O. TEMPO. TODO. Não quero nem começar a falar de todas as camisinhas usadas que eu encontrei entre os livros. *nojinho*” —deejuju
13. Que você é um solitário introvertido.
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Jupiterimages / Getty Images
“[As pessoas pensam] que você quer ser um bibliotecário porque você quer sentar sozinho e ler; bibliotecários sempre tem que estar disponíveis e interagindo com todo mundo desde crianças birrentas até pais e mãe, a pessoas em situação de rua procurando abrigo no inverno e ar condicionado no verão, até idosos tecnofóbicos. Nem todo mundo é bom nisso, bem como em qualquer outra profissão, mas aqueles que começam achando que vão sentar atrás de uma mesa e ler o dia todo são poucos e bem distantes!” —sarahc130
14. Que bibliotecas basicamente são uma espécie em extinção.
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Flickr: drocpsu
“[As bibliotecas] não estão morrendo — elas estão mudando.” —Sara Frye, Facebook

Escritores rejeitam nacionalidade e abraçam literatura como pátria Rachel Donadio

Escritores rejeitam nacionalidade e abraçam literatura como pátria

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Quando Dany Laferrière tomou posse na Academia Francesa, a mais excelsa instituição literária da França, o Québec e o Haiti se apressaram em celebrá-lo, numa onda de orgulho nacional. Ele nasceu e cresceu no Haiti, mas migrou para Montreal em 1970 e assumiu a cidadania canadense.
A louvação prestada a Laferrière lembrou o caso de V.S. Naipaul -nascido em Trinidad, filho de pais indianos, formado em Oxford e cidadão britânico, e por isso reivindicado por esses três países quando ganhou o Prêmio Nobel de Literatura, em 2001.
Thomas Samson/AFP
O escritor haitiano-canadense Dany Laferriere em cerimônia de posse na Academia Francesa em maio de 2015.
O escritor haitiano-canadense Dany Laferriere em cerimônia de posse na Academia Francesa em maio de 2015.
A inclusão de Laferrière na Academia e as reações que ela motivou indicam uma curiosa contradição: quem está de fora -críticos, instituições e administradores de prêmios- geralmente categoriza os autores por língua e nacionalidade. No entanto, muitos escritores pleiteiam apenas a cidadania da república das letras. Por que a insistência em rotulá-los?
"Minha impressão é que os escritores são poliamorosos quando se trata de nacionalidade, mas que o diálogo crítico, por tratar do contexto, tende ao nacionalismo", disse John Freeman, ex-editor da "Granta", editor da revista "Freeman's" e autor de "Como Ler um Escritor". "Não é que os críticos sejam patriotas, mas com frequência escrevem em fóruns -jornais, revistas- que reforçam a identidade nacional, em vez de complicá-la ou erodi-la."
Laferrière afirma que foi moldado tanto pelos livros da sua biblioteca quanto pelos países onde viveu.
De Joseph Conrad a Samuel Beckett, alguns autores encontraram suas vozes em outro idioma que não a sua língua materna. O tcheco Milan Kundera escreve em francês desde que se mudou para Paris, na década de 1970. Seu mais recente romance, "A Festa da Insignificância", foi lançado no Brasil em 2014.
Jhumpa Lahiri, contista e romancista ganhadora do Prêmio Pulitzer, mudou-se de Nova York para Roma em 2012. Em fevereiro, a editora Guanda lançou "In Altre Parole" (em outras palavras), primeiro romance dela em italiano, idioma que disse ter estudado por 20 anos.
Lahiri nasceu em Londres, filha de pais indianos, e cresceu em Rhode Island (EUA). Ela disse que durante anos sentia "culpa por ter aprendido a ler numa língua que eu não falava com meus pais". Escrever em italiano é "uma maneira de me reinventar como pessoa e como escritora, e também de assumir um enorme risco", segundo ela.
Raquel Cunha/Folhapress
A escritora inglesa Jhumpa Lahiri na Flip 2014.
A escritora inglesa Jhumpa Lahiri na Flip 2014.
A coletânea de ensaios de Lahiri é como um espelho do livro "The Other Language" (a outra língua), lançado em 2014. Trata-se de uma seleção de contos redigidos originalmente em inglês pela escritora italiana Francesca Marciano, que vive em Roma e é amiga de Lahiri. Depois que o livro de Marciano foi lançado numa tradução para o italiano, em maio, ela disse ter notado que "era vista um pouco como uma traidora" na Itália.
Marciano, que aprendeu inglês na adolescência, tornou-se romancista no Quênia, na década de 1990. "Cada um de nós confere um valor emotivo a uma língua", acrescentou. "Para mim, o inglês se tornou a língua da minha expressão ficcional."
Em 2013, a "Granta" escolheu Benjamin Markovits, nascido nos EUA, como um dos 20 melhores jovens romancistas britânicos. Mas ele só tem passaporte britânico por vínculo de casamento. A cidadania "acaba sendo uma questão tão prática quanto espiritual", disse Markovits. "Eu nunca teria entrado na lista da 'Granta' se não tivesse jurado lealdade à rainha."
Markovits mora em Londres há 15 anos, mas ambientou seu mais recente romance, "You Don't Have to Live Like This" (você não tem que viver assim), em Detroit. Ele disse que o Reino Unido, com sua complexa estrutura de classes, ainda continua sendo um pouco estrangeira para ele. "Ainda assim, não me sinto totalmente americano enquanto estiver na Inglaterra."
Às vezes, esses escritores fecham um círculo completo. Em seu discurso à Academia, Laferrière homenageou o escritor francófono de origem argentina Hector Bianciotti, que morreu em 2012 e cuja cadeira na instituição ele passou a ocupar.
Laferrière falou sobre como Bianciotti só passou a ser valorizado como escritor na Argentina depois de se mudar para Paris e se tornar um escritor francês. E lembrou-se de como, perto de morrer, Bianciotti voltou ao espanhol, "a única língua", disse Laferrière, "em que se pode expressar o silêncio". 

quarta-feira, 20 de maio de 2015

O futuro já está perdido Clovis Rossi Folha de São Paulo 17/05/2015

Sai mais um ranking internacional e o Brasil, outra vez, passa tremenda vergonha.
Trata-se do Relatório sobre o Capital Humano, um estudo que o Fórum Econômico Mundial vem preparando desde 2013, para medir o êxito dos países em adestrar, desenvolver e preparar [para a vida] a sua gente -essa que o Fórum chama de "o grande ativo" de cada nação.
O Brasil ficou em humilhante 78º lugar entre 124 países. Por si só, já seria um vexame suficiente, mas, em se tratando de Brasil, tudo que é muito ruim sempre pode piorar.
Nesse caso, há pelo menos três itens que tornam o cenário ainda mais devastador. A saber:
1 - O que empurrou o Brasil ao fundo do ranking foi o desempenho no preparo dos menores de 15 anos, idade crucial. Nesse capítulo, a posição brasileira é de chorar: 91º lugar.
Pesou em especial o que o relatório chama de "taxa de sobrevivência em educação básica", ou seja, a capacidade de o aluno sair "vivo" (bem preparado) do ciclo básico.
Como se sabe, desde o governo Fernando Henrique Cardoso, houve um avanço considerável na universalização do ensino básico, dado obviamente positivo.
Mas o novo relatório mostra que é também insuficiente. Não basta pôr as crianças na escola; é preciso que "sobrevivam" nela.
2 - Olhando-se apenas a posição no ranking dos países latino-americanos e do Caribe, aí dá vontade de se matricular no clube dos portadores de complexo de vira-lata.
O Brasil, sétima ou oitava economia do mundo, dependendo do momento, é apenas o 13º país latino-americano/caribenho em matéria de tratamento digno de seu capital humano.
Perde para o Chile (45º), Uruguai (47º), Argentina (48º), Panamá (49º), Costa Rica (53º), México (58º), Peru (61º), Colômbia (62º), El Salvador (70º), Bolívia (73º), Paraguai (75º) e Barbados (77º).
Ficar atrás dos três primeiros já é ruim, mas até compreensível, na medida em que são países que historicamente tiveram nível educacional razoavelmente elevado.
Mas perder até para países tão pobres como El Salvador, Bolívia e Paraguai é uma obscenidade.
3 - No âmbito dos Brics, que são só cinco, o Brasil fica exatamente no meio: perde de Rússia e China, ganha de Índia e África do Sul.
Nesse grupo, um detalhe importante: por mais que a China seja um grande êxito de público e de crítica nos últimos muitos anos, sua posição no ranking de capital humano é ruim (64º posto, não muito à frente do 78º do Brasil).
Parece, pois, evidente que crescimento espetacular, por si só, não é suficiente para preparar o capital humano para os desafios do mundo moderno.
É uma impressão reforçada pelo fato de que dois países que enfrentam ou enfrentaram uma crise econômico-social terrível (Grécia, 40º lugar, e Espanha, 41º) tratam seu capital humano melhor do que a China e melhor que qualquer um dos países latino-americanos, nos quais ou não houve crise ou ela foi mais suave.
Alguém ainda acha que o ajuste fiscal de Joaquim Levy basta para mexer com esse vexame? 

terça-feira, 17 de março de 2015

A mágica e o relógio de parede

Vem-se discutindo a Era da Informação cuja expressão é atribuída a Alvin Toffler*(1) desde fim dos anos 70. Nos tempos de hoje, uma imagem comum, que o ensaísta sequer talvez tenha imaginado, é se verem crianças, desde muito pequenas, com os suportes eletrônicos à mão, fascinados digitando, não no sentido amplo, mas descobrindo que ao simples toque, acontece uma "mágica'. Lógico que, por trás dessa "mágica", monstros sagrados* da tecnologia dedicaram sua juventude e anos e anos aos estudos, como, para não falar dos antigos, Bill Gates, Micrsoft, Steve Jobs, Apple, Larry Page e Sergey Brin, discretos e poderosos criadores do Google, e o ainda jovem Mark Zuckerberg, do Facebook. Porém, nada é mais tentador pensar que com um "clique mágico", o mundo está a nossos pés, ou melhor, em  nossos dedos. Essa passagem do analógico para o digital me lembra muito o "relógio de ponteiro" versus o relógio digital. Para os leitores dos primeiros, há necessariamente uma operação mental, que passa pela (hoje desprezada) tabuada; para os relógios digitais, num nível de esforço mínimo, o reconhecimento gráfico numérico. Identifico o mesmo fenômeno na leitura de jovens e crianças nos computadores, tablets e celulares, que, arrisco, são 99% de composição imagética; filmes, desenhos e jogos, que exigem uma intervenção do leitor, não raro, baseada em automatismos, ou, senão passividade, reflexos de maior ou menor intensidade ante o produto. Evidente que esses produtos (muitos são produções de alto nível, não se discute) fascinam, entretém e os atraem pela facilidade, e evidente também que qualquer conclusão a respeito exige incursões em alta semiologia ou teoria da recepção, a que não me atrevo aqui. Arrisco sim, a atestar, não sem surpresa, que vi ao longo da convivência com inúmeras crianças e pré-adolescentes a incapacidade de "ler"o velho relógio de parede da biblioteca. O que tem a ver uma coisa com outra? Tem que essas crianças são exímias operadoras dessas novas mídias, Tem que, independentemente da boa ou má condução do ensino, operá-las não significa avanços qualitativos na aprendizagem. Uma leitura ,digamos, tradicional,  impressa, para não ir muito longe, mesmo  de obras de  ficção, tem-se apresentado aos jovens, cada vez mais como ponteiros do relógio, enigmas a decifrar, Em maior número, as publicações diminuem de tamanho - quem lê o Monteiro Lobato no "original", aquelas edições de seus alentados volumes? Há pouco li uma reportagem que metade dos leitores que adquire bestsellers não chega ao final.(2) Desconta-se daí a hipótese de que se tratava de kinders, equipamento de leitura eletrônica, mas o quanto tal fato acontece com livros impressos e que não se mensurou? Isso significa que não é o meio em si, mas o fato dele se apresentar como um texto grafado, cuja prática vem sendo negligenciada, porque requer competências próprias e formação de sentido para ser repercutida. Que a tal mágica não ressignifique a leitura como objeto ao nível da expressão reativa apenas, e sem o sentido da profundidade e introspecção que lhe foram e devem ser ínerentes.

(1)Alvin Toffler (4 de Outubro de 1928) é um escritor e futurista norte-americano ... The Third Wave (A terceira vaga) ou (A terceira onda) (1980) Bantam Books  ...(wikipedia)
(2)Metade dos leitores brasileiros de um dos maiores best-sellers de 2014, "A Culpa É das Estrelas" (Intrínseca), de John Green, não concluiu a leitura do romance, a julgar por um levantamento feito pela loja de e-books Kobo . O número, relativo a 2014, pode ser medido porque as lojas de livros digitais têm acessos a dados como que e-books os leitores compraram, mas não chegaram a abrir, quais leram até o fim e quais leram mais rapidamente. A média de conclusão de leitura do romance de Green, de 50,9%, é até superior a de outros best-sellers, como "Cinquenta Tons de Cinza" (41,7% dos compradores do livro na Kobo concluíram a leitura) e "Pequeno Príncipe" (48,8%).(...) Um best-seller mais longo como "Eternidade por um Fio", de Ken Follet, com mais de mil páginas, foi completado por apenas 16,8% dos leitores, e um clássico como "O Triste Fim de Policarpo Quaresma", de Lima Barreto, por apenas 13,3%. O livro mais completado por leitores da Kobo foi "Perdendo-me", de Cora Carmack, com 86,5%. 
Fonte http://www1.folha.uol.com.br/colunas/raquelcozer/2015/03/1602434-no-meio-do-caminho.shtml

quarta-feira, 4 de março de 2015

O sucesso não depende da inteligência Folha/ New York Times

A tecnologia costuma ser apresentada como o grande equalizador educacional. Iniciativas como o One Laptop Per Child (“um laptop por criança”) e os Massive Online Open Courses (Mooc, “cursos online abertos e massivos”) deveriam servir para democratizar a aprendizagem. Mas então os laptops de US$ 400 dados a crianças pobres do mundo todo quebraram, e o índice de reprovação em alguns dos Moocs chegou a 75%.
A realidade se impôs.
Muitos acreditam que os computadores possam reduzir a defasagem educacional, mas pesquisas mostram que proporcionar acesso à internet para estudantes de famílias pobres é algo que tende a ampliar essa disparidade, conforme noticiou Susan Pinker no jornal “The New York Times”.
Jacob Vigdor e Helen Ladd, economistas da Universidade Duke, acompanharam 1 milhão de secundaristas de baixa renda durante cinco anos, a partir do momento em que eles receberam computadores. Concluíram que houve “um persistente declínio nas notas de leitura e matemática”. As notas dos meninos caíram drasticamente porque eles usavam as máquinas para jogar games, navegar nas redes sociais e baixar músicas e filmes.
A mesma coisa aconteceu no projeto One Laptop, no qual pesquisadores descobriram que as crianças passaram a dedicar menos tempo à lição de casa.
Novos estudos sugerem que os educadores devem se preocupar mais em reduzir o número de alunos por professor, intervir precocemente nos casos necessários e observar traços de personalidade.
Chicago criou um programa intensivo onde meninos negros e latinos trabalham em duplas com um tutor, e os participantes acabaram ultrapassando em até dois anos os colegas que não haviam recebido essa ajuda, contou David Kirp no “NYT”.
Muitos programas atendem a faixa etária de 0 a 3 anos, mas a adolescência pode ser igualmente importante. O psicólogo Laurence Steinberg, da Universidade Temple, observa em seu novo livro que os neurocientistas já perceberam que a adolescência, como a primeira infância, é um “período de tremenda ‘neuroplasticidade’”, durante o qual o cérebro muda graças à experiência.
Nicholas Kristof escreveu que ajudar precocemente crianças em condições desfavorecidas não só reduz a desigualdade como também pode representar economia de dinheiro público. Ele citou James Heckman, professor da Universidade de Chicago e economista ganhador do prêmio Nobel, segundo o qual a maneira mais barata de reduzir a criminalidade é investir em programas para a primeira infância. Heckman calculou que a mesma redução da criminalidade por meio da contratação de policiais exigiria cinco vezes a mesma quantia.
“Educação precoce” inclui orientar grávidas em situação de risco a não beber, fumar ou usar drogas. Após o nascimento, ajudá-las a amamentar e a ler para a criança. Aparentemente, escreveu Kristof, isso ajuda porque “os primeiros anos são a janela em que o cérebro está se formando e quando capacidades básicas, como determinação e autocontrole, se desenvolvem”.
Em algumas escolas, ter determinação, autocontrole e curiosidade são agora parte do currículo. Os cientistas dizem que a personalidade pode ser mais importante do que a inteligência.
O professor de psicologia Arthur Poropat cita dados segundo os quais a tendência a ser “diligente, obediente e trabalhador” e qualidades como criatividade e curiosidade são melhores que a inteligência como indicadores para prever o rendimento escolar de um aluno. Essa é uma boa notícia, escreveu Poropat, porque “a personalidade muda com o tempo, muito mais do que a inteligência”.
Mandy Benedix, que dá aulas sobre determinação numa escola do ensino médio em Pearland, no Texas, disse ao “NYT” que “características não cognitivas podem ser ensinadas”. “Sabemos, também, que elas são necessárias para o sucesso. Olhe para qualquer pessoa que, por um longo tempo, tenha tido sucesso. Todas exibiram em algum momento determinação para prosseguir.”
Fonte: Folha de São Paulo/ New York Times 28 de fevereiro de 2015