" Olhando a média nacional, o principal motivo da exclusão é a falta de interesse (33%) seguido da incapacidade de usar a Internet (31%).Esclarece ainda a pesquisa que os [ 36%] restantes são compostos pelas classes AB, localizadas em Florianópolis, a cidade campeã do país em acesso à banda larga. Ambos [fatores de exclusão]decorrem de problemas educacionais vigentes. Não bastam que os computadores caiam de paraquedas na vida das pessoas. Se navegar na rede é preciso, educar [grifo meu] também é preciso."
Podemos transportar facilmente tais conclusões para a área do uso do livro, e provavelmente encontraremos algo parecido, tanto com relação ao interesse e capacitação quanto à posse do bem cultural pelo usuário das classes AB. Por um raciocínio simples: os que detém a posse desses bens culturais tiveram -ou têm - capacitação suficiente, leia-se, educação de qualidade, para uso e fruição do objeto-livro. Tenho me debatido com essa questão há vários anos, precisamente há 13 anos. Quando se fala nas diretrizes das Políticas de Incentivo à Leitura, a meu ver há um foco equivocado quando usa a expressão "formação de leitores", como se o acesso e as práticas culturais envolvidas na leitura dessem conta do desinteresse e da escassa qualificação para ler. Não, assim como os computadores, não basta que os livros "caiam de paraquedas" como diz Neri, nem se com eles descerem bolas coloridas e bandinhas de coreto. A capacitação em leitura, ao contrário do festejo, não é prazeroso; é trabalho duro e lento - porque está irremediavelmente atrelada ao domínio da língua - poderia levar facilmente os preciosos primeiros cinco anos (perdidos?) do ensino fundamental público, só para sedimentar a base. Em outras palavras, cinco anos só para o aluno apenas ler fluentemente e escrever corretamente.
Não se pode fechar os olhos à evidência de que o livro requer habilidades não inatas; e que requer treinamento acompanhado de olhar atento e minucioso.
Enquanto isso, os programas governamentais festejam mais e mais as fartas distribuições de livros, imbuídos de duas crenças: 1ª , a de que a literatura produz por si só milagres; 2º que o não uso do livro se dá por falta de acesso.
Vejam esses dados do INAF publicada recentemente**:
Indicador de Alfabetismo Funcional População de 15 a 64 anos (em %)
2011-2012
Básico As pessoas classificadas neste nível podem ser consideradas funcionalmente alfabetizadas, Mostram, no entanto, limitações quando as operações requeridas envolvem maior número de elementos, etapas ou relações; representam pela pesquisa 47%
Podemos inferir que apenas 26% da população brasileira teriam condições de usufruir plenamente de leituras,tanto por prazer quanto para conhecimento. Qual seria então a condição para que consideremos um leitor "formado"?
Uma pesquisa como esta, aplicada à formação de leitores desmontaria facilmente algumas crenças.
* Folha de São Paulo 20 de maio de 2012 p.B9
** INAF (Inst. Nac. de Analfabetismo funcional)/Instituto Paulo Montenegro http://www.ipm.org.br/ipmb
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