Insisto, há pelo menos dez anos,- e tenho apresentado inclusive em congressos -, no fato de que a "falta de hábito de ler" e logo, de frequentar bibliotecas, não está nos déficits nem de livros nem de bibliotecas (mesmo que eles existam), ou seja, no acesso: defendo a biblioteca na sua concepção tradicional: é um espaço de leitura e cultura, mesmo que essa leitura/ cultura se desenrole em diferentes suportes: mídias impressas ou multimeios, e suas linguagens próprias. Defendê-la como espaço de lazer é propor uma competição com outros bens culturais e colocá-la de saída em séria desvantagem. Biblioteca é onde podemos relaxar, compartilharmos de um silêncio nas salas coletivas, da concentração necessária para nosso crescimento e de uma troca entre autor e leitor de uma forma produtiva. Portanto um espaço que precisa ser marcado por sua característica própria, que há algum tempo as bibliotecas vêm perdendo. O espaço social (de eventos e atividades) deve estar circunscrito e corresponder ao que o acervo oferece. Porém, como tenho repetidamente colocado (e pouco tenho sido ouvida) é que temos um sério gargalo e que se refere a um requisito que os responsáveis pelas políticas têm esquecido - intencionalmente ou não - a de que para se ter leitores é necessário letramento adequado e que por mais se invista em incentivos à leitura, mantido esse quadro,os resultados serão pífios na formação do leitor usuário dos livros. Observem o trecho em destaque, principalmente, sobre o potencial leitor que "não se tornou usuário da língua escrita" e portanto não é frequentador de bibliotecas. Vejo nesse gargalo uma das razões pelas quais as bibliotecas em geral padecem de alcance. O artigo abaixo ilustra nessa matéria publicada em 27 de março de 2013 pelo Jornal da Cultura (site abaixo):
(http://tvcultura.cmais.com.br/jornaldacultura/75-dos-brasileiros-nao-sabem-ler-e-escrever-plenamente
Vejam a matéria:
Todos os anos, o governo aplica provas desenvolvidas exclusivamente para avaliar a educação brasileira. Essa iniciativa ainda não é parâmetro de qualidade no ensino, se levado em consideração que o Brasil ocupa o 88º lugar no ranking de educação da UNESCO.
Os índices são preocupantes — de acordo com Instituto Paulo Montenegro, aproximadamente 75% das pessoas entre 15 e 64 anos não conseguem ler, escrever e calcular plenamente. Dessa porcentagem, mais de 60% são analfabetos funcionais e 7% considerados analfabetos absolutos.
Segundo um levantamento feito em 2010 pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), o Brasil possui 30.558 milhões de analfabetos funcionais.
“Os números ainda são alarmantes numa sociedade supostamente democrática. E quando a gente vai entender melhor esse quadro do analfabetismo, a gente percebe outros problemas, que não é apenas o sujeito que não sabe ler e escrever, mas aquele que passou pela escola, que supostamente deveria saber ler e escrever e não se tornou um usuário da língua escrita. A gente sabe que muitos alunos chegam no 7º anos da escola sem saber ler e escrever. Isso mostra que a escola também não está cumprindo o seu papel”, explica a Silvia Gasparian Colello, professora e pesquisadora da Universidade de São Paulo (USP).
Nenhum comentário:
Postar um comentário