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domingo, 5 de maio de 2013

O barão e o leitor





Tive a oportunidade de ler o livro O Barão Nas Árvores, do prestigiado escritor italiano Ítalo Calvino (1923-85). Nele, o autor aplica  grande parte - pelo menos as quatro primeiras -  das seis qualidades que, para ele,  apenas a literatura pode salvar - leveza, rapidez, visibilidade, multiplicidade, exatidão e consistência (1). É uma narrativa fluente, viva, e ainda nos oferece uma ambientação e um panorama dos costumes do século XVIII europeu - a Penúmbria era essa Europa -  com lances de romance de cavalaria - romantismo "capa-e-espada"- e um humor à la Cervantes, no que se refere às marchas e contramarchas, principalmente amorosas, na vida de Cosme, o Barão de Rondó. Mas o que é a marca do romance é o fato do herói (às vezes anti-herói) sobreviver em árvores, sem "jamais descer", em razão de sua resistência aos costumes e tradições autoritárias de sua família de origem fidalga. Sua experiência nessa condição, ora flertando com o Bem, ora com o Mal, mas sempre perseguindo o que considera justo, é múltipla, em razão de grande diversidade de personagens e situações. O que chama a atenção é que, à medida que se desenrola a ação,  mais Calvino exige do leitor a "suspensão da descrença", embora pareça o tempo todo tentar nos fazer crer  que é possível  sobreviver sobre árvores. Evidente que essa capacidade (de suspensão de descrenças, não de viver em árvores) é muito mais acentuada entre crianças e adolescentes, estão aí as séries, por exemplo, Senhor dos Anéis e Harry Potter, sucesso entre esses leitores jovens. Talvez Calvino tentasse uma incursão - frustrada - por aí. No entanto, mal comparando, a diferença  a destacar sobre o italiano em relação aos ficcionistas "para jovens" é o incomum refinamento descritivo que arrisca tornar o romance híbrido, ou seja, uma exuberante fantasia que o torna, por outro lado,mais apreensível pelos adultos, e adultos cultos,com certo, digamos, "verniz" para absorver uma narrativa com a mesma agilidade com que se trocam fatos e personagens históricos  ( entre eles Napoleão), idiomas diversos  e misturados às falas, e  livros, pois o protagonista os consegue de um livreiro judeu - sem jamais sair de suas árvores!  Não recomendaria, por isso, o Barão das Árvores aos jovens? Para mim, que não sou versada nem em século XVIII nem em idiomas, sim, você nem precisa ser um conhecedor dos episódios ali narrados, curtos, mas nunca  superficiais. Você  pode encarar o livro como uma alegoria na qual esses fatos estariam como que embalados pela natureza propriamente dita - as árvores como palco da ação - e pela natureza  humana, essa sim diante da qual nada é absurdo.




(1) Ítalo Calvino as descreve magistralmente essas qualidades em Seis Propostas para o Terceiro Milênio (Companhia das Letras)

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