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sábado, 10 de agosto de 2013

Ainda Beatriz Sarlo: bibliotecas, centros tradicionais de interação?

Retomo aqui algumas questões sobre as quais dialoguei com o texto de Beatriz Sarlo(1) para refleti-las, particularmente com respeito às bibliotecas:
    As bibliotecas são, de fato e direito, centros tradicionais (que segundo a autora, “deixaram de ser centros de interação”)?

1. Sim. Por sua função patrimonialista (“preservar”) e cumulativa, porém num ordenamento sistemático do conhecimento e sob paradigmas de qualidade (canônica), que norteiam o processo de formação do acervo;

1.1 – Este processo de desenvolvimento do acervo se dá segundo um critério de autoridade, estabelecida por relações de prestígio “ entre as elites letradas”, especializadas ou não, formalmente organizadas,tais como as associações de autores, universidade, editores, bibliófilos, academias e críticos,em todos os seus níveis, desde municipais, federais e internacionais; e será essa autoridade mesma que responde a um projeto de qualidade, no campo da seleção biblioteconômica;

2. A configuração tradicionalista também se reflete nos aspectos da organização, cujos meios ainda se conservam quanto à classificação (universal) e topográfica(decimal) dos livros para o público – esta é ainda uma parte devedora das bibliotecas em inovação e acessibilidade; 

 3. É, sim, tradicionalista quanto à circulação, marcada pela obsessão das “perdas e danos” (“tombar” livros ainda é uma prática comum) e certa sacralização, o que é menos observado em outros bens culturais. É lógico que, sem livros, nenhuma biblioteca existe, porém, que se oxigene essa circulação quanto a eventuais (e mais comuns do que se revela) perdas. Hoje podemos ficar muito mais seguros quanto a isso, porque a tecnologia permite preservar originais  em matrizes não impressas em papel. Não menos comum é a prática de manterem livros em desuso (não os raros) em depósitos de bibliotecas, por anos ou décadas, porque há “medo” do descarte. Tal coisa ocorre por falta de políticas públicas claras. É necessária forte profissionalização nessa área. Ao contrário do médico, o bibliotecário tem de escolher, sem fazer dessa escolha uma “escolha de Sofia”*, sábia e seguramente, qual(is)livros  e em que condições, devem(m) alimentar a cadeia de "mortais". Esse é um elemento fortemente tradicional, pois para livros também se aplicaria  uma lei de Lavoisier própria: a de que nada se perde e tudo se transforma. 

Uma frase que me deixou a meditar foi quando Sarlo diz:os desejos tendem assemelhar-se, mas sua realização não” (107) É bem verdade que o público de biblioteca a freqüenta: 1º por seu (dela) papel social – ele não pode comprar um livro;2º, ele não tem onde armazenar livros, 3º, ele só necessita de livros temporariamente; 4º, ele vê a biblioteca como mais uma possibilidade de lazer. A autora está se referindo ao acesso de um bem, no nosso caso livros, evidentemente, entre os usuários que não podem adquiri-los.Via de regra, quem os deseja e pode comprar, não irá a bibliotecas, mas às livrarias. E num segundo momento, esgotado o interesse, poderá se desfazer deles, doando às bibliotecas e quanto a isso, não foram poucos acervos primorosos a se  formarem por esse meio desse tipo de circulação. E muitos desses acervos cumprem perfeitamente a tarefa de prover os que desejaram este ou aquele título, mas que não têm a posse dele, mas somente a fruição. O que ameniza,  como ele diz, a desigualdade, mas não a supera! 

Pergunta-se: quando as desigualdades acabarem, apenas restarão as bibliotecas especializadas? Nessa hipótese de todos terem poder aquisitivo, as bibliotecas gerais  perecerão? Não, primeiro porque a capacidade das bibliotecas armazenarem obras supera  a da maioria dos colecionadores particulares. Segundo, porque seus sistemas de informação superam a capacidade dos motores de busca recuperarem seus conteúdos de modo estruturado, por mais que  os bilhões de kbytes dos sites oferecidos na Internet sejam superiores em volume aos dos bancos de dados das bibliotecas.   Ao contrário dos sistemas de bibliotecas, os recursos informacionais eletrônicos, (os chamados portais abertossão pulverizados, quânticos; nos sistemas de biblioteca esses recursos não se organizam por hipertexto e, sim, por técnicas biblioteconômicas - indexação, tesauro, catálogo etc. O usuário da informação, que não seja treinado não conta com os meios seletivos para satisfazer sua indagação  na medida de sua necessidade e perfil, e no que se refere a fontes confiáveis,  à profundidade e à adequação ao seu nível cultural. Por isso os sistemas de bibliotecas são vantajosos em relação aos portais, e o bibliotecário passa a ser fundamental em sua tarefa de educador da informação. 
Mais dramática ainda é a situação para aqueles que carecem de “ferramentas cognitivas para saberes ligados à palavra, ao raciocínio lógico e matemático, à expressão lingüística e a argumentação [retórica], indispensáveis ao [exercício] no mundo do trabalho, tecnologia e política” ( 114 ) Não são, porém, só os meios eletrônicos que ameaçam a leitura. Toda e qualquer leitura requer essas ferramentas. Concordo, no entanto, com Sarlo sobre o fato de que a rapidez da leitura [nos meios audiovisuais] não habilita o leitor para “a capacidade intelectual de longa concentração”, em tese característica do texto, para o qual é crucial não se ter pressa. Diz ela: “Aprendizado implica em dificuldade e distanciamento. Aí permanece uma necessidade de intervenção [escolar] forte e  não baseada no espontaneismo dos sujeiros (115). Esse espontaneísmo ou um "novo" autodidatismo eu venho acusando, e com preocupação, em muitos artigos nesse blog, quando as políticas de leitura vêm a reduzir a importância do aprendizado na leitura.
As bibliotecas continuarão tradicionais sim, ainda bem, no que elas tem de mais essencial: o requisito dos saberes mencionados, a universalidade, a circularidade e não pulverização do conhecimento.

* Sophie's Choice (br / pt: A Escolha de Sofia) é filme estadunidense de 1982, do gênero drama, dirigido e roteirizado por Alan J. Pakula e baseado no romance de 1979 de William Styron.(Wikipedia)
SARLO, Beatriz. Culturas Populares, Velhas e Novas. IN: Cenas da via pós-moderna/ intelectuais, arte e videocultura na Argentina. Rio e janeiro: Editora da UFRJ,P 100-22



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