Alguns acharão graça, outros não,
enfim, entrei nesse estranho mundo das palavras cruzadas há poucos anos, movida
por preocupação com falhas de memória, pois bem: me vi como Alice, não no país
das maravilhas, mas no país das esquisitices.
Passada dos setenta, tenho também
um certo vocabulário de palavras mortas e enterradas, mas as revistinhas de
Coquetel, pelo menos as de categoria Difícil, excedem, teimam em desenterrar
termos que provavelmente não se usam desde a colônia, talvez com o único
propósito de "derrubar" o leitor. Fora as pegadinhas de sentido, dou alguns
exemplos, e desafio o melhor lingüista de todos a decifrá-los, sem apelar para o Houaiss
ou Aurélio (grandes):
No jogo, categórico e decisivo é terminante; tascas são tabernas; ulo
é gemido; amargor é travo; branquear
a roupa é decoar; vadio é valdevino;
ror é multidão; escuro é lúrido; transpassado é perstransado; tendencioso é viesado; eureca é heureca com H; enjôo é enojo;
ufanismo é ufania; vegetariano é vegetarista; guerra é alfitena; manifestações de afeto são mogangas(!); energia e água são edifício verde; habituado é atreito; sangue derramado é cruor; sacrílego é nefas; falsa e ilusória é mentida. E por aí vai. Quem conhece essas estranhas palavras? Acho que, de meio em meio século, deveriam dar uma varrida nos dicionários. Se tem uma coisa certa que alguém disse, se não me engano Ítalo Calvino, é que dicionários são cemitério das palavras, mas algumas bem que deveriam ir para crematórios de vez.
Isso é só uma pequena amostra. Alguns formuladores do jogo
parece que procuram no cemitério das palavras esses zumbis da língua, como se
isso colocasse à prova os conhecimentos de alguém. Ou quem sabe não eles mesmos matusaléns?
Ainda há, o que eu considero mais grave, as "pegadinhas de sentido" nos enunciados: quem faz guerra milita - é inexatidão, o sentido se ampliou; quem é honesto e idôneo é capaz (!)- você pode ser capaz e não ser idôneo; punição legal é vindita; continuísmo é “doutrina” política e não prática; severo é áspero; suave é sonoro; suposto é espúrio; rubor é vergonha e não vermelhidão. Aliás, até o severo editor do Word também ficou horrorizado, sublinhando de vermelho a maioria desses exemplos!
Ainda há, o que eu considero mais grave, as "pegadinhas de sentido" nos enunciados: quem faz guerra milita - é inexatidão, o sentido se ampliou; quem é honesto e idôneo é capaz (!)- você pode ser capaz e não ser idôneo; punição legal é vindita; continuísmo é “doutrina” política e não prática; severo é áspero; suave é sonoro; suposto é espúrio; rubor é vergonha e não vermelhidão. Aliás, até o severo editor do Word também ficou horrorizado, sublinhando de vermelho a maioria desses exemplos!
Em conclusão,
perguntarão: por que então não abandono as Palavras Cruzadas? Respondo: por teimosia
e acreditar que, em termos de terminologia, pode-se aperfeiçoar, secularizar-se, testar conhecimentos sem apelar para arcaísmos, só com o intuito de não deixar o leitor "zerar". E também alertar para o ridículo, porque é ridícula tal estratégia!
Só para ilustrar: já pensou alguém dizendo assim: “ Nas alfitenas, há muito travo e cruor e quem milita
nelas sabe que o ulo da ror não admite mogangas...” Ninguém merece,
né?
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