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sábado, 1 de novembro de 2014

Esplendor e miséria do Best Seller Paulo Rónai


Reproduzido de O Observatório da Imprensa  http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/_ed822_esplendor_e_miseria_do_best_seller
Este texto de 1948 estava em uma pasta do acervo de Paulo Rónai (1907-92), intitulada “Material para novos livros”, e jamais foi publicado. O escritor e tradutor parte de estudos em língua inglesa para questionar se há a receita perfeita para um best-seller e se os números de vendas significam algo na qualidade dos livros.
O que é um best-seller? À primeira vista a resposta não parece difícil: o livro que mais se vende ou um dos livros que mais se vendem. Mas, ao examinarmos os casos em que se emprega essa palavra, tão frequente na crônica literária dos jornais, verificaremos que seu sentido se está enriquecendo de novas matizes.
Mais de uma vez poderemos achar-lhe uma nuança pejorativa, e esse uso não é exclusivo do Brasil. Numa resenha francesa da produção literária de 1947 encontro esta observação: “O termo best-seller entre nós vai designar, dentro em breve, não o livro que melhor se vende, mas um certo gênero’ de romance, de leitura fácil, longo, obrigatoriamente traduzido...”. E uma estudiosa inglesa não hesita em afirmar que “best-seller é um epíteto quase totalmente depreciativo entre pessoas cultas”. Não seria difícil encontrar exemplos em que o termo, por si só, equivale a uma crítica.
A palavra, evidentemente, é de sabor norte-americano (embora não me seja possível abonar-lhe a origem). A ambição “yankee” de atingir recordes em todos os domínios envolve contínuas comparações, e estas só parecem ter valor quando baseadas em objetos exprimíveis por algarismos. E assim se encontrou uma medida cômoda para confrontar as obras da arte, fenômenos por sua natureza singulares e incomparáveis.
Ninguém pode afirmar com segurança se Betty MacDonald, autora de “O Ovo e Eu”, é melhor escritor do que Samuel Shellabarger, autor de “Capitão de Castela”: em questões de gosto não há verdades absolutas. Mas é possível saber com exatidão qual dos dois livros se vendeu mais. Os editores, com grande sinceridade, anunciam as tiragens mês por mês; o frontispício, muitas vezes, ostenta o número de edições vendidas.
Na avalanche das publicações o leitor comum é cada vez menos capaz de orientar-se. Sabendo que seu gosto se parece com o da maioria de seus contemporâneos, tende facilmente a pensar que o livro mais comprado será também o melhor. (“É impossível que 500 mil pessoas sejam idiotas”). Assim, mais 500 mil comprarão o livro porque 500 mil já o compraram. E quem poderá duvidar do gosto de 1 milhão de cidadãos honestos, contribuintes e eleitores?
Saber o que é um best-seller é igualmente importante para o leitor, para o escritor e para o editor. Se um livro, sendo best-seller, é necessariamente bom, facilita muito ao leitor a escolha de suas leituras; e o conhecimento não lhe é menos útil se, como afirmam alguns, todo best-seller é fatalmente ruim.
O escritor pouco escrupuloso, se conhecesse a fórmula química do best-seller, observá-la-ia com o maior empenho; mas, se o escritor honesto a soubesse, talvez verificasse que pode produzir best-sellers sem descer a transigências e concessões. Quanto ao editor, se a tivesse na gravata, possuiria um método esplêndido para enriquecer e, caso possuísse altas ambições culturais, bastar-lhe-ia lançar três best-sellers, para depois publicar, a vida toda, Kant, Bergson e Einstein.
Científico 
Foram essas considerações que levaram o sr. Frank Luther Mott, diretor da escola de jornalismo na Universidade de Missouri, a consagrar à questão um alentado estudo [“Golden Multitudes: the Story of Best Sellers in the United States”, Multitudes douradas: a história dos best-sellers nos EUA], baseado em pesquisas pacientes e difíceis.
Com excelente espírito de método, o sr. Mott começa por definir o critério para determinar se um livro é best-seller ou não. Levar em conta meramente os totais das tiragens não seria justo: um livro que em 1850 atingia 200 mil exemplares era relativamente mais lido do que um que hoje chega a 1 milhão. Assim, pois, o sr. Mott, que principia a relação dos best-sellers em 1662, nela inclui todo livro do que durante os dez anos consecutivos ao seu aparecimento se vendeu um número de exemplares igual a 1 % da população total dos Estados Unidos.
A limitação de dez anos foi imposta pela impossibilidade de calcular a tiragem total das reedições feitas às vezes durante séculos. Uma edição de Shakespeare figura na lista de best-sellers universais, cuja lista seria ainda mais curiosa, mas pressupõe a compilação de estudos iguais ao dele em todos os países. Ainda assim, não deve ter sido fácil conseguir, mesmo aproximadamente, as tiragens, sobretudo das edições antigas.
Além disso, esse estudo traz uma série de anedotas e fatos curiosos a respeito da história dos recordes de venda na história das livrarias: acasos que contribuíram para o sucesso, surpresas e decepções dos editores, consequências do êxito sobre a vida dos autores etc. E, para rematar suas pesquisas, põe no título dos dois últimos capítulos duas perguntas do maior interesse: “Existe uma fórmula de best-sellers? O que faz vender um best-seller?”.
A resposta à primeira pergunta é francamente negativa. Procurando o elemento de atração nos títulos da sua lista, o sr. Mott assinala fatores tão diferentes como: apelo ao sentimento religioso; sensacionalismo e escândalo; caráter instrutivo; possibilidades de exibição esnobe; elemento biográfico; regras de conduta; experiência pessoal; enredo; vivacidade; caráter democrático ou popular; cor local; humor; imaginação; exotismo; sexualidade –indicando de cada vez a percentagem aproximativa de obras que contém o fator examinado.
A qualidade literária não parece fator dos mais importantes: o pesquisador declara que uma terça parte de sua coleção é de qualidade inferior, havendo dentro dela uma centena de livros desprovidos de qualquer pretensão artística. Seja como for, não há receita para best-seller, vista a diversidade extraordinária dos livros que já obtiveram esse título.
A segunda resposta também consiste numa enumeração de fatores. O que contribui para fazer vender o best-seller virtual é o título bem escolhido; o desenho da capa e, em geral, a apresentação; a publicação anterior em folhetim; a distribuição prévia de exemplares a grande número de personalidades; a escolha do livro na base das provas tipográficas, por um dos clubes do livro; boas críticas; difusão de opiniões favoráveis, e anúncios na imprensa e no rádio; filmagem da história; barateamento da edição, reedições em “pocket book” ou em “soft format” (fascículo in-quarto, vendível nos balcões dos vendedores de jornais). Nem todos esses fatores estão, porém, nas mãos do editor; e, por outro lado, mesmo que se achem todos reunidos, a previsão pode falhar e o lançamento pode acabar num fracasso.
Assim, pois, o sr. Mott não pode oferecer receitas de best-seller nem para os autores nem para os editores, o que, aliás, era de prever. Ele não se preocupa, por outro lado, com indagações de ordem geral; saber, por exemplo, se as tiragens astronômicas significam um progresso para a cultura. Poderia responder a esse reparo, e com toda a razão, que a sua parte se limitava ao estudo da história dos best-sellers: cabe ao leitor tirar as conclusões.
Tiragens 
Essas, de início, são das mais otimistas. Na relação compilada vemos a ascensão vertiginosa das tiragens. Os livros mais vendidos há 200 anos eram os que tiravam 10 mil exemplares; e não havia mais de um por ano.
Hoje os best-sellers começam com 1.300.000 exemplares, e só a lista do ano 1944 contém títulos assim. Tiragens tão grandes ocasionam necessariamente a baixa dos preços: o leitor pode obter por um preço de 0,25 a 1 dólar obras que normalmente custariam 3 a 6 dólares. O número de leitores aumenta sempre, o que significa uma elevação do nível cultural.
Quanto aos escritores, as vantagens parecem ainda mais óbvias. Não mais haverá grandes escritores do tipo romântico, morrendo de fome ou de tuberculose, mourejando dia e noite; bastará ao romancista escrever um único best-seller e passará o resto da existência a gozar a opulência merecida.
Essa convicção está se generalizando de tal forma entre os homens de letras que um editor inglês, Stanley Unwin, achou necessário publicar um livro em que, com a colaboração do americano George Stevens, toma a defesa de sua classe contra os autores cujos livros não chegam a best-selller [“Best-sellers. Are They Born or Made?”, Best-sellers. Eles nascem prontos ou são feitos?].
Todos eles, com efeito, atribuem a responsabilidade desse fato a seus editores, os quais não lhes fizeram publicidade suficiente. Unwin e Stevens empenham-se em mostrar que o anúncio, por si só, não basta para fazer um best-seller; ele só pode ativar a venda dos livros que já tiveram um bom “start”, isso é, que se revelaram pelo menos “well-sellers”.
Assim sendo, só a ausência de imparcialidade determinará o emprego da palavra “best-seller” em sentido pejorativo. Antes, porém, de subscrevermos essa conclusão, examinemos melhor a relação de “livros mais vendidos” dos Estados Unidos, que o sr. Mott, com extraordinário esforço, conseguiu estabelecer desde 1662.
Tomemos, ao acaso, dez títulos sucessivos na primeira parte da relação e outros tantos na parte final.
Os dez livros mais vendidos nos Estados Unidos de 1760 a 1780 foram os seguintes (em ordem cronológica):
>> John Dickinson, “Letters from a Farmer in Pennsylvania” [Cartas de um fazendeiro da Pensilvânia];
>> Oliver Goldsmith, “O Vigário de Wakefield”;
>> Laurence Sterne, “A Vida e as Opiniões do Cavaleiro Tristram Shandy”;
>> Daniel Defoe, “Robinson Crusoé”;
>> John Gregory, “Father’s Legacy to his Daughters” [Legado de um pai para os suas filhas];
>> Philip D. Stanhope (Lord Chesterfield), “Letters to His Son” [Cartas ao filho];
>> Thomas Paine, “Senso Comum”
>> John Milton, “Paraíso Perdido”;
>> James Thomson, “The Seasons” [As estações];
>> Edward Young, “Night Thoughts” [Pensamentos noturnos];
Só dois livros dessa lista (os de Dickinson e de Paine) foram publicados pela primeira vez nos Estados Unidos: os demais vieram da Inglaterra. Ambos os livros americanos são obras de caráter político; entre os ingleses, há três romances (Goldsmith, Sterne, Defoe), três de poemas (Milton, Thomson, Young) e dois livros de orientação de conduta (“behavior books”).
Os volumes de Goldsmith, Sterne, Defoe e Milton são obras-primas de todos os tempos; os poemas de Thomson e Young, as cartas de Lord Chesterfield e o panfleto de Thomas Paine (nascido na Inglaterra) conservam, ainda hoje, lugar honroso na história da literatura inglesa. Pode-se afirmar, sem receio de erro, que pelo menos a metade desses livros são dos melhores publicados na época.
Vejamos agora os dez últimos livros da relação, publicados em 1944 e em 1945. (Os títulos vão em inglês, pois não sei se alguns já não foram traduzidos para o português e alterados.) [Introduzimos o título em português dos livros já lançados no Brasil, mesmo os esgotados, quando o autor colocou o nome original em inglês (nota dos editores).]:
>> Elizabeth Goudge, “Green Dolphin Street” [A rua do delfim verde];
>> Gwethalyn Graham, “O Céu está Muito Alto”;
>> Bob Hope, “Nunca Saí de Casa”;
>> Somerset Maugham, “O Fio da Navalha”;
>> Ernie Pyle, “Brave Men”;
>> Margery Sharp, “Cluny Brown”;
>> Thomas B. Costain, “The Black Rose” [A rosa negra];
>> Betty MacDonald, “O Ovo e Eu”;
>> Samuel Shellabarger, “Capitão de Castela”;
>> Katheleen Winsor, “Entre o Amor e o Pecado”;
Nessa lista há dois livros de guerra: um de reportagens (“Brave Men”), o outro de humor militar (“Nunca Saí de Casa”); os oito restantes são romances históricos da linhagem de “E o Vento Levou” [de Margaret Mitchell], e “Antônio Adverse” [de Hervey Allen].
Não é preciso ser crítico literário para perceber a enorme diferença de nível entre os dois grupos. É pouco provável que, entre os do segundo, haja livros que a posteridade qualifique de obras-primas; talvez nenhum seja lembrado ao cabo de 180 anos, período que pelo menos oito títulos do primeiro grupo aguentaram, firmes.
Observa-se, pois, que os livros mais lidos do século 18 eram de qualidade infinitamente superior aos de nossos dias. Eram também muito mais variados, pois havia entre eles, além de romances, obras pertencentes a mais três gêneros, inclusive poesia (totalmente desaparecida das listas modernas de livros procurados), ao passo que a seleção atual consiste quase só em romances, havendo apenas, ao lado deles, dois trabalhos de jornalismo.
Note-se ainda que os três grandes romances do primeiro grupo são de três tipos completamente diversos, ao passo que a maioria dos oito romances do segundo grupo pertence ao tipo estandardizado do longo romance histórico da linhagem de “E o Vento Levou” e “Antônio Adverse” (gênero típico da literatura de evasão).
Essas conclusões coincidem de maneira surpreendente com as de “Fiction and the Reading Public” [Ficção e público leitor], da sra. Q.D. Leavis, publicado em 1939. A autora fez um inquérito semelhante ao do sr. Mott para conhecer as preferências do público britânico.
Leitores 
Seus resultados levaram-na a abandonar uma superstição muito espalhada, a saber, que a elevação do nível cultural esteja proporcionada ao aumento do número de leitores.
Minucioso exame das estatísticas e dos catálogos das bibliotecas circulantes, muito numerosas na Inglaterra, revelou-lhe que a grande maioria dos leitores de hoje liam exclusivamente romances da categoria mais baixa, trocando-os com frequência; muitos chegavam a ler um livro por dia. As respostas dos leitores acerca dos motivos de sua preferência mostravam que na leitura quase todos procuravam uma fuga. (O que, seja dito de passagem, não é de admirar num tempo como o nosso, em que tão pouca gente se sente à vontade). “O hábito de ler é agora, muitas vezes, uma forma de usar entorpecentes.”
O número de leitores atingiu, praticamente, o máximo (na Inglaterra há diariamente um exemplar de jornal para cada três pessoas); o nível da leitura baixa progressivamente. Outrora não havia separação nítida entre os escritores da multidão e os da elite; Sterne, Goldsmith e Defoe eram lidos e admirados pelos intelectuais e pelas caixeiras; hoje se verifica uma desagregação definitiva do público em três classes, segundo seus elementos leem obras de escritores “highbrow”, “middlebrow” ou “lowbrow” (de qualidade superior, média ou inferior). Nenhuma das três classes toma conhecimento dos escritores da outra. Os autores “highbrow” têm tiragens reduzidíssimas; para eles o best-seller começa com 15.000 exemplares; os best-sellers do “lowbrow” vão de um milhão para cima.
A sra. Leavis lembrou-se de submeter a grande número de autores populares um questionário para saber a que atribuíam o seu êxito. A maioria dos interrogados pensa ter agradado por escrever (para usarmos a definição dada por um deles) “um gênero de ficção que pode ser lido com um mínimo de esforço mental”. O que parece confirmar a desiludida tese de um estadista inglês, de que “um dos grandes males da leitura moderna consiste em desencorajar o pensamento”.
O público dos velhos tempos lia para completar a sua experiência, para enriquecer a própria vida; o de hoje lê para esquecê-la e compensar-lhe as imperfeições. Os autores de best-sellers são unânimes em afirmar que escrevem com e para o coração (e não o cérebro); que se dirigem à sensibilidade, mais que ao juízo do leitor. “À medida que o século avança, o best-seller se torna assunto menos do crítico literário que do psicólogo”.
E, como o romance adquire hegemonia quase exclusiva, absorve todos os gêneros, inclusive os livros de ciência, e torna-se transmissor único –bem inexato, está visto– de toda espécie de conhecimentos.
Não que homens de ciência não procurem transformar seus livros em best-sellers. Mas então se expõem ao perigo de cair nos processos do romancista. J.L. Russell, numa crítica dos populares livros de física e astronomia de sir James Jeans e sir Arthur Eddington, mostra como estes sábios são levados a atribuir maior importância à maneira de apresentação do que ao interesse intrínseco dos assuntos tratados, fazendo apelos contínuos à emotividade do leitor, usando indiscriminadamente recursos estilísticos, como metáforas e paralelos, e introduzindo teorias filosóficas surpreendentes.
Segundo o crítico, eles e a maioria de seus colegas chegam a favorecer a preguiça mental dos leitores, aos quais dão a impressão de que entendem a fundo um fenômeno ou uma teoria científica, quando apenas entenderam a comparação ou a pilhéria em que os autores os envolvem.
A sra. Leavis procura demonstrar, ainda, que o barateamento do livro não é puro benefício, pois constitui um golpe sério para os autores de elite, cujas tiragens não aumentam, mas que têm de reduzir os preços de seus livros para não contrastarem demais com os do resto da produção literária. No século passado, um Meredith, um Henry James podiam viver da renda discreta de seus livros: hoje não seria possível.
Aí, ela se encontra novamente com o sr. Mott, o qual admite, embora acessoriamente, que o número total de livros publicados anualmente nos Estados Unidos está em franca diminuição: os editores, seduzidos pela miragem das impressões em massa, querem de preferência publicar best-sellers potenciais e mostram-se infensos às obras que não têm probabilidade de o ser (entre os quais se encontram, precisamente, as destinadas à elite profissional e intelectual).
A comentarista assinala também o que os clubes do livro, embora aumentando o consumo da produção literária, têm de prejudicial à cultura: fazem o leitor abdicar da sua capacidade de seleção, procuram “dar ao público o que ele deseja”, e substituem-se à crítica literária, cuja importância decresce cada vez mais.
É muito provável que a maioria dos males apontados pela sra. Leavis e implicitamente assinalados no livro do sr. Mott existam realmente, sobretudo nos países de maior mercado literário, como os Estados Unidos, a Inglaterra e a França; ao mesmo tempo, porém, eles parecem tão inevitáveis como outras consequências da industrialização excessiva, a qual, destinada a melhorar a vida do homem, a está tornando cada vez menos humana.
***
Paulo Rónai (1907-92) ensaísta, tradutor e linguista nascido na Hungria. A Edições de Janeiro relança suas coletâneas “Encontros com o Brasil” e “Como Aprendi o Português e Outras Aventuras”

domingo, 3 de agosto de 2014

Sete razões para não escrever romances (Javier Marias)


7 razões para não escrever romances - Ilustríssima

Javier Marias
O caderno Ilustríssima da Folha de São Paulo, dia 27/07/2014, trouxe o interessante ensaio Sete razões para não escrever romances e uma para escrevê-los do escritor espanhol Javier Marías de Os Enamoramentos - livro que já resenhei aqui.

As sete razões para não escrever um romance, Javier, enumera e tomo a liberdade de resumir assim;

1) Há muitos romances por ai e muita gente também escrevendo, dessa forma, as possibilidades, levando em conta os antigos e os que são escritos anualmente, a probabilidade de ser lido é cada vez mais próxima de zero. 

2) Escrever um romance não é um mérito, qualquer pessoa pode fazê-lo. Desde poetas, jornalistas a médicos e militares. 

3) Romances não dão dinheiro. Investir tempo neste tipo de atividade, esperando por rentabilidade, é um disparate. 

4) O romance não traz fama. O autor sugere buscar formas muitas mais simples de obtê-la, caso seja seu caso.

5) Aquela história de escrever é tornar-se imortal é balela, segundo Javier. Poucos são os autores imortalizados. Leitores e críticos esquecem seus romancistas e, pior ainda, as editoras. 

6) Escrever não adula a vaidade. As pessoas leem sozinhas, os elogios, quando existem, são vistos por poucos. O escritor não é um diretor de cinema que assiste a reação automática do seu expectador. 

7) O trabalho do escritor é solitário e duela, a todo tempo, com a sintaxe, o papel em branco e seus próprios personagens, que são partes ocultas de si mesmo. 

E agora, um simples motivo para escrever um romance: 

1) Escrever possibilita ao escritor viver instalado na ficção, no reino do pode ser e nunca foi. 

Não sei como o ensaio pode bater em atuais e futuros escritores, mas não deixa de ser uma boa análise. Os fortes podem pensar em continuar seu romance, apenas na busca de distanciar-se da sua própria realidade, como tantos autores já disseram por ai. Afinal, conclui Javier, escrever é um modo de inventar um futuro que o autor não verá. 

Quem quiser ler o ensaio na íntegra, clique aqui. (Fonte http://blogdocelsofaria.blogspot.com.br/2014/07/7-razoes-para-nao-escrever-romances.html)

terça-feira, 13 de maio de 2014

O que sabemos sobre o leitor? Uma pesquisa de Danielly Spindula

O leitor não é uma entidade teórica ou um dado estatístico. Podemos fazer um relatório minucioso ou um questionário completo, mas de que adianta se os engavetamos em algum arquivo? Quem é de fato nosso leitor? A biblioteca especializada faz o seu perfil de leitor,  visando uma difusão seletiva da informação, mas nós  precisamos, além da difusão geral da informação, acolher e aninhar nosso leitor em nossas estantes cheias de livros, para todos os gostos e perfis diversificados e quiçá para toda a vida . Dito isso, o que devemos ter de ferramenta, além da comunicação do dia a dia, é também um papel, mas nele se inscreve a experiência vivida pelo leitor em nossas bibliotecas. E muitas vezes a rotina não permite nos apoderarmos dela para aprofundar nosso conhecimento. Foi com alegria e grata surpresa que tive acesso a um trabalho de Danielly Spíndula*, da PUCRS, que me encantou e ofereceu boas possibilidades para estreitar esse conhecimento, partindo de perguntas simples: "Quem são esses leitores? Que leituras buscam e com que frequência? "É possível entrever uma relação entre essas leituras e suas atividades profissionais e/ou estudantis?"E citando Chartier, "em busca dos contrastes, igualmente, entre as normas e convenções de leitura que definem, para cada comunidade de leitores, os usos legítimos do livro. Contrastes, enfim, encontramos entre os diversos interesses e expectativas com os quais diferentes grupos de leitores investem a prática da leitura." E continua ela: "A organização dos dados por leitor permite que se observe o perfil de cada um desses leitores: o que eles leem e com que frequência, além de nos permitir levantar hipóteses sobre como e por que buscaram essas leituras e não outras. A organização dos dados por autor nos permite verificar quem são os leitores mais recorrentes de cada autor." Nossa limitada percepção raramente permite que façamos essa relação autor-leitor no ambiente de biblioteca., de modo que não temos recursos que cruzem essas relações. E mais "Contudo, é possível que a escola não seja a única instância a atuar sobre as escolhas desses leitores e sobre sua movimentação neste espaço de leitura, de maneira que é preciso investigar mais detalhadamente como estudantes e não estudantes usam o serviço de empréstimo dessa biblioteca. Para recolhermos mais indícios que nos ajudem a compreender as práticas desses leitores, precisamos partir para a próxima etapa da análise: verificar que leituras cada um desses grupos realiza e quais as semelhanças e/ou diferenças entre elas". Isso é mais ou menos como um mito a se desvendar: se é verdade que o tempo pelo leitor investido na biblioteca tem uma regularidade maior durante o tempo em que ele é estudante, o mesmo não se pode afirmar das escolhas individuais no uso do acervo, mesmo na condição de estudante. "Também é possível se encontrar nesse rico mundo do leitor "princípios de diferenciação, eles também plenamente sociais, poderiam dar, com maior pertinência, razão a outras distâncias culturais: pertencer a um sexo ou a uma geração, adesões religiosas, solidariedades comunitárias, tradições educativas e corporativas, etc.” Da mesma forma pode-se observar "certas regularidades e também rupturas nas práticas de leitura de um grupo e de outro, e vamos (...) em busca de ambas. Elas podem indicar se há mais leitores que foram à biblioteca neste período e levaram apenas 01 obra emprestada. Essa prática pode indicar um vínculo menor desses usuários com a biblioteca na realização de suas leituras, o que pode ocorrer, por exemplo, pelo fato de ter outras fontes de acesso aos livros. Ela pode, ainda, apontar para uma leitura escolhida com a finalidade de realizar alguma atividade prática ou voltada para a resolução de um problema mais imediato (escolar ou não)(...) É importante esclarecer que estão sendo considerados todos os empréstimos realizados pelos leitores,ainda que isso signifique a retirada de uma mesma obra em momentos distintos, dentro do período analisado, assim, se o leitor solicitou da biblioteca a mesma obra duas vezes, por exemplo, as duas vezes (desde que não seja renovação) foram contabilizadas (...) Talvez, na verdade, essas leituras sejam mais parecidas do que se possa imaginar, ou, ainda, talvez elas tenham alguns pontos de aproximação e outros de afastamento, a depender muito mais da história de leitura de cada usuário da biblioteca, considerado individualmente, que propriamente do rótulo de estudante ou da ausência dele.(...)O que dizer de leitores, como "uma leitora que realiza 14 empréstimos. Destes, 10 são divididos em apenas dois autores: Clarice Lispector e Chico Buarque."(...) Concluindo, "a leitura escolar, evidentemente, está neste espaço público também, mas entre os empréstimos de estudantes e não estudantes há muitas outras leituras que a extrapolam, denunciando que esses leitores não obedecem apenas a este “senhor”, mas há outros: o mercado, a mídia, a pertença do sujeito a outros grupos sociais longe da escola, até mesmo seu momento de vida".
O que nos envaidece, e engrandece,  é que é a biblioteca e tão somente a biblioteca  pode, mais do que qualquer outra fonte, falar do comportamento do leitor e do caráter de sua vida intelectual, quando tem nas mãos os dados preciosos para pesquisas as mais complexas, e que, muitas vezes,a gente não sabe que tem.

* http://ebooks.pucrs.br/edipucrs/anais/IIICILLIJ/Trabalhos/Trabalhos/S8/daniellyespindula.pdf



sexta-feira, 18 de abril de 2014

Gabo, o gigante




Gabriel Garcia Marques era tão desmesuradamente grande que conseguiu a proeza de se fazer íntimo de cada leitor que o chamava de Gabo, como se fosse um amigo, um parente, um colega de todos e isso não sem motivo.
 Cada leitor se apoderou do "seu" Gabo a seu modo. E mesmo quem não foi seu leitor, ouviu falar desse gigante da Literatura pelas quatro letrinhas do nome. Seu Cem Anos de Solidão é uma dessas obras que se incorporaram à memória coletiva, como tantos outros, porém poucos são os latino-americanos que, como Gabo ou Machado de Assis, também conhecido por "apenas" Machado, ou Borges que se notabilizaram por nomes únicos ou apelidos.
Certas obras fazem a Roda Gigante da literatura circundando a terra, nas cadeirinhas marcadas por um único nome ou sobrenome e lá  vão girando Shakespeare, Cervantes, Flaubert,  Poe, Kafka, Eça, Dostoiévski, Tostói, Joyce, e  outros, mas não tantos; esses que, se não estão inteiros na memória, porque sua obra não se esgota no tempo, estão por propagação, pela força de seu personagem, de uma trama, de uma originalidade como a saga da família Buendia em Cem Anos... ou o amor de Florentino ou Firmina de Amor em Tempos de Cólera, ou Capitu de Dom Casmurro, e pela urdidura da narrativa, tecelões do texto, cada um com sua trama e suas tintas. Gabo era (e é ) assim, fazendo você ser capaz de ler colorido, e de despertar nossos sentidos em sua literatura viva, pulsante,como poucas.
 Gabo morreu, está bem, não, não estou inconformada, pelo contrário, sua obra ganhou o mundo nessa roda da imortalidade, não essas das academias, outorgadas, mas a verdadeira, querem ver? Daqui a pouco estaremos comemorando os 100 anos de Gabo. Morreu, quem disse?

quarta-feira, 12 de março de 2014


Para brasileiros, mídia é a entidade mais confiável

  • ‘Estudo Edelman 2013’ entrevistou mil pessoas no país
O GLOBO (EMAIL·FACEBOOK·TWITTER)
Publicado:
SÃO PAULO — Em meio a diversos questionamentos sobre a credibilidade das instituições no país, a mídia é a entidade mais confiável para a maior parte dos brasileiros, de acordo com o “Estudo de confiança Edelman 2013”. Segundo o levantamento, que ouviu 31 mil pessoas em 26 países, mil delas no Brasil, veículos de comunicação são confiáveis para 66% dos brasileiros. Em seguida, estão as empresas (64%), ONGs (59%) e governo (33%).
O resultado segue a mesma tendência da pesquisa sobre corrupção no mundo divulgada semana passada pela Transparência Internacional, segundo a qual a percepção sobre corrupção envolvendo a mídia no país é menor na comparação com a maioria dos países.
— São medições diferentes, mas que convergem ao demonstrar a confiança que a mídia tem por parte da população — disse o diretor executivo da Associação Nacional de Jornais (ANJ), Ricardo Pedreira.
Crença no governo se mantém baixa, diz pesquisa
O Estudo de Confiança Edelman, divulgado em março, é realizado desde 2001 com pessoas de diferentes classes sociais e idades. Entre 2007 e 2012, o primeiro lugar na confiança dos brasileiros era ocupado pelas empresas. É a primeira vez que a mídia ocupa o primeiro lugar neste índice de confiança.
— É um dado muito eloquente que demonstra reconhecimento da opinião pública em relação ao bom trabalho da mídia de melhor informar as pessoas, buscar cobertura de todos os assuntos, investigar aquilo que precisa ser investigado — diz o diretor executivo da Associação Nacional de Jornais (ANJ), Ricardo Pedreira, para quem a continuidade do exercício do jornalismo feito com profissionalismo e independência fortalece o resultado da pesquisa.
Para o vice-presidente executivo do Instituto Ethos, Paulo Itacarambi, a liderança da mídia no ranking deste ano pode ser associada à cobertura ampla de temas ligados ao combate à corrupção, em especial em 2012, quando houve o julgamento do mensalão.
— A mídia toda trabalhou a questão do combate à corrupção, acho que isso explica um pouco o fato de ela ter ascendido e o índice do governo se manter baixo — diz Itacarambi.
A mesma pesquisa mostrou que os entrevistados confiam mais em “pessoas comuns”, como empregados, funcionários públicos, especialistas e acadêmicos, do que nos CEOs de empresas ou funcionários de alto escalão de um governo.
— Isso demonstra que as pessoas acreditam mais em quem não tem interesse político ou financeiro envolvido — conclui o dirigente do Ethos.
Já de acordo com o ranking da Transparência, o índice de percepção da mídia como instituição corrupta no Brasil é de 38%, próximo do registrado em países como Suíça (36%), Bélgica (37%) e Espanha (41%). O índice é bem mais alto em países como México (55%), Estados Unidos (58%), Reino Unido (69%) e Egito (80%).


Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/pais/para-brasileiros-midia-a-entidade-mais-confiavel-9031543#ixzz2vkuogz2A 
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terça-feira, 11 de março de 2014

Uma profissão de futuro por Hagar Espanha Gomes

                                                       Autor:                 Hagar Espanha Gomes

À medida que a sociedade evolui, profissões e ocupações
desaparecem para dar lugar a outras. Algumas, no entanto, conseguem
acompanhar a evolução porque sua função social permanece mudando
ou não sua denominação.
Dentre estas, cumpre destacar o bibliotecário. Poderíamos nos
deter aqui a defender este profissional, presos que estaríamos à sua
denominação. Esta abordagem não nos parece adequada pois, como
afirmamos anteriormente, é a função social que conta. Sua
permanência, no entanto, depende de acuidade suficiente para as
demandas da sociedade por informação e para as novas formas e canais
de comunicação.
O profissional de informação pode ter inúmeras denominações
que, de fato, enfatizam o tipo, a técnica, a modalidade de ação, ou
qualquer outro aspecto. Assim, ele pode se chamar bibliotecário,
documentalista, técnico de informação, analista de informação, corretor
de informação, para citar os mais corriqueiros. Com toda essa
diversidade, então, o que é que caracteriza tal profissional? Seu objeto
de trabalho e seus métodos e técnicas.
O bibliotecário, mesmo nos países desenvolvidos, reivindica mais
atenção para seu exercício profissional e mais reconhecimento. Como
diz uma colega, talvez por que nossa profissão seja "yin", e estamos
numa sociedade "yang". Para ganhar mais prestígio, procuramos alterar
a denominação e assim passamos a reivindicar o nome documentalista,
e agora, profissional de informação. Independentemente de considerar
isto bom ou ruim, precisamos nos voltar para nosso objeto de trabalho.
Se estamos numa biblioteca, o livro (lato sensu) é nosso objeto. Se
estamos num centro especializado, nosso objeto é o documento. Mas o
livro não é um documento? Então onde está a diferença?
E o jornalista? Não é ele também um profissional de informação?
O jornalista produz notícia, informação, que gera registro (documento).
Este é o campo que nos interessa, pois não há informação sem
documento, nem documento sem informação. Então, nosso métier é
Informação - Documento -I-D.
O advento de múltiplas novas tecnologias vem mudando os tipos e
formas dos documentos e em particular o sistema social em que são
escritos e lidos. Elas têm afetado seu modo de produção e também seu
uso pelas pessoas. Sua forma e modo de disponibilização e acesso se
constituem em grande preocupação dos profissionais de I-D.
A Internet, vista por alguns como uma grande biblioteca, já que
constituída de milhões de documentos - acervo não é uma característica da biblioteca? -
 é, ainda, de fato, uma grande miscelânea que
freqüentemente deixa seus usuários perdidos no ciberespaço. Cientistas
da computação, junto com bibliotecários estão em busca da solução
para estes problemas estudando metadados, que nada mais são do que
indicações de categorias de dados para que os browsers possam
encontrar as informações requeridas pelos usuários.
Para tanto, grande cuidado está sendo devotado ao estudo das
estruturas dos documentos, de forma que os bibliotecários estão sendo
visto por outros especialistas como "arquitetos de informação" .Este
nome demonstra a relevância de sua contribuição para a solução do
disciplinamento da produção de documentos eletrônicos e sua
disponibilização nas bibliotecas digitais.
Este é, sem dúvida, um aspecto novo para uma velha técnica, a
catalogação - já agora em outro contexto e forma, mas basicamente
com a mesma finalidade. Mas esta não é a única novidade. O serviço de
referência, por exemplo, agora pode ser exercido via correio eletrônico
ou nas caixas de ajuda dos serviços e produtos informacionais
disponibilizados em meio eletrônico, como catálogos, bibliografias,
cadastros.
Se sairmos do ambiente biblioteca e formos para as organizações,
cujos documentos produzidos são em grande parte a base para
diagnósticos de atuação e para a tomada de decisão, também aí o
profissional de I-D vai estar presente na concepção do modelo
conceitual dos sistemas de informação que já não se contentam com a
emissão de relatórios, mas precisam de serviços de recuperação de
informação e de indicadores.
Uma alteração profunda em sua forma de atuação é que agora o
profissional de I-D atua em parceria com os profissionais de informática
e precisa, ele mesmo, ter grande domínio dos aplicativos.
Agora que os serviços podem ser acessados até na casa dos
interessados, o profissional de I-D- longe de se sentir inútil-ganha mais
um papel: o de treinador do usuário nas técnicas de recuperação de
informação. Embora muitos usuários prefiram, eles mesmos fazer as
buscas, uma grande quantidade não tem tempo ou disposição. E aqui,
novo espaço se abre para o profissional de I-D atuar como "information
broker" (corretor/intermediário).
Técnicas novas, não necessariamente ligadas ao processamento
de informação, precisam ser dominadas para que o profissional de I-D
otimize seus produtos e serviços. A mais relevante, a nosso ver, é a de
hipertexto, fundamental para que ele apresente os "sites". Usei
propositadamente o verbo "apresentar", porque a "construção" de um
"site" requer a adoção de princípios que os bibliotecários já dominam de
há muito, pois o que é um "site", senão um "guia de informação"?Estes são apenas
 alguns dos aspectos que mostram a rica possibilidade de atuação dos profissionais
de I-D, novo patamar que os bibliotecários devem buscar. É fácil? Não. É um desafio.
Sobretudo requer atuação em parceria com profissionais da informática. Parceria
tumultuada, no início, mas muito proveitosa para ambos, em seguida.
É um privilégio podermos participar desta mudança em curso. Por
tudo isto, creio que estamos todos de parabéns por sermos
bibliotecários.
Fonte: http://www8.fgv.br/bibliodata/geral/docs/Profiss%C3%A3odeFuturo.pdf

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Entrevista com Clarice Lispector (1977)

I

Intrigante, absolutamente surpreendente, vale a pena conferir uma escritora que diz escrever com raiva, raiva de quem? Dela mesma. Foi a entrevista dada pouco antes de morrer, e aparentava (e se queixava de) cansaço. Fumava muito.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Caminho para o cadafalso

Longe de mim querer me reunir ao seleto grupo de ilustres que, em toda a História, vá lá, vociferaram contra o sistema ou sistemas e suas tenebrosas transações e foram imolados,[1]  mas é assustador saber que a minha voz é das poucas, pouquíssimas, em toda a Internet [2], que se levanta contra uma política devastadora para o ensino do país: os critérios duvidosos de produção, distribuição e uso do livro didático, o LD. Não é impensável o que tal crítica possa atrair a cólera das legiões[3], afinal essas “legiões” são ministérios, secretarias, comissões pedagógicas, câmaras setoriais, editores, autores, enfim poderosos e  milhões [4](ou bi) em investimentos. Mas em absoluto, não é neste emaranhado financeiro que uma simples e experiente bibliotecária cutuca a onça com vara curta e arrisca-se a ir para o cadafalso. Os que participam dessa corrida do ouro é que conhecem seus meandros, só conheço o que é publicado nos meios de comunicação, para mim já é o suficiente. Quero adiantar, em primeiro lugar, que os agentes dessa política se apresentam como vestais, cercados da aura do Bem,  intocáveis; e  que livro, e tudo que se refere a livro, particularmente o didático, é cercado de ação missionária, abnegação e altruísmo. Quem der uma passada pela história do livro para estudantes verá que nas primeiras obras publicadas[5] se ensinavam boas maneiras e religião e que mais tarde, pelo menos, se tornaram laicas e científicas. Mas como, o que faz uma bibliotecária, que deveria ser amante nº 1 do livro assumir tais posições? Justamente por trabalhar em bibliotecas. Nas bibliotecas brotam as ervas daninhas dessa política. Do ponto de vista administrativo, os colegas que me confirmem, todas as bibliotecas recebem refugos de livros didáticos, se assim permitirem. Quem nunca recusou livros didáticos em sua biblioteca, que venha para o ringue comigo. Principalmente os que o “mercado” - ah essa figura abstrata! – rejeitou. Excesso de estoque, coleções distribuídas e não utilizadas, fora os utilizados, “reformulados” e ultrapassados pela “última” e constante reforma ortográfica ou pedagógica e que o público doa. O público está errado? Não. Ele entende que não se descarta um bem que, para ele, passam como eterno e sagrado, e que, para ele, vai enriquecer a biblioteca “guardiã”, como qualquer outro livro. Esse é o aparato ideológico do livro transferido para o didático.Tudo porque o paradigma é falso. Tudo porque não há uma boa política de Estado para se lidar com a temporalidade deste tipo de livro, ou qualquer outra coisa temporária[6] que exista, e, já que aqui dou o meu primeiro passo para o cadafalso, faço logo uma confissão: se o público não sabe o que fazer com esse material, tampouco sabe o bibliotecário. Em geral, passa adiante, se encontrar quem queira, e/ ou manda reciclar quando encontra providenciais recicladores. E por causa do luxo das lindas ilustrações até reciclar é um "sacrilégio".[7] Ah que pena, sim, que pena! Afinal os autores “suaram”(suores muito bem pagos) para produzir o conteúdo, os ilustradores e gráficos capricharam, os editores se esmeraram na arte final, capas luxuosas, caros... Pergunto, para quê, se deixam de ser utilizados rapidamente? Se há alguma chance de mantermos em nossa biblioteca livros didáticos, são os não-consumíveis, poucos, cuja temporalidade pode se estender por mais algum tempo, como item de consulta. Os consumíveis, enfim, foram consumidos, e vão, sim, criar um  problema ambiental, que será tratado como “caso de polícia”. Por quê? Porque tudo que não se resolve vira caso de polícia. Horrorizam-se as vestais com o livro no lixo ou na rua, como se esse livro não fosse descartável , mas, sinto muito, senhores, ele é por natureza descartável, porque em pouco tempo terá cumprido sua missão.[8] Então, se é para isso, pergunto: por que edições tão caras e luxuosas, se, para exercitar poderiam, produzidos ao menor custo, com material barato como apostilas ou blocos simples, facilmente recicláveis? Ainda tem o fato de que os computadores estão aí, vindos em boa hora... A resposta eu não tenho, eu só intuo; as respostas estão com o mercado, o governo e quem participa da economia política do livro.
      Agora, aspectos pedagógicos observados na prática diária de quem trabalha na biblioteca, e que diz respeito ao livro didático,são tão ou mais graves do que os aspectos ecológicos. Essa a pior parte a expor nesse cadafalso.
Qualquer professor há muito tempo assumiu que o LD é um facilitador, pois o libera de estar produzindo certo conteúdo, esse é um ponto pacífico. Inclusive ele tem o seu próprio “livro do professor”semelhante ao do aluno, só que com as respostas. Ele pode "passar o dever" que já está ali pronto, e cuidar de outra turma ou da sua vida, que geralmente é em outra escola. Ótimo. Acontece que esse tipo de livro é um mediador, tanto para o professor quanto para o aluno, porém no senso comum, ele não é entendido assim. Explico com a minha experiência com livros, não só profissional, mas de leitora. O conhecimento não é o que está ali naquele livro limitado. O capital intelectual se alimenta da diversidade. À exceção de matemática, Física e Química cujo conteúdo, mesmo que informativo, é de natureza experimental, os demais conhecimentos estão distribuídos por materiais  de diferentes tipos – gramáticas e textos, obras informativas, os meios físicos como na Biologia, filmes, os meios providos pelas novas tecnologias, enfim não obstante a produção anual de milhões de livros didáticos e a distribuição deles, o estudante não está diante do conhecimento e da sua potencialidade, mas da possibilidade mínima de formar competências para acessar aquele, e que se perde. Por que? Porque a fonte é única. Por que, se há alguma diversidade, é a de outros livros didáticos concorrentes. O que aponto como grave é entender-se, ainda nessa altura do milênio, que o LD pode dar conta do que esse estudante precisa para  seu desenvolvimento. O nível do sistema pergunta-e-resposta é limitado, tenta reproduzir a fala do professor ou falar por ele, e induz o estudante a uma relação automática com a matéria. O livro didático não instiga, ele pergunta se tal coisa é tal coisa. Não se considera que a pergunta precisa ser gerada pelo aluno, portanto é uma relação autoritária. E estrita. Se o leitor não tem familiaridade com os temas e assuntos correlatos, tais limites vêm dessa instrução de uma fonte só. São de grande valor as estratégias de acesso que as bibliotecas oferecem, além de outros meios de aquisição da informação, hoje, felizmente, fartamente disponíveis e mais poderosas. Um exemplo da instrução de fonte única - um aluno certo dia procurou na biblioteca algo sobre “o golpe militar de 64 no Brasil”, apresentei-lhe obras sobre História contemporânea do país, que contém  o assunto; ele encontrou nos sumários termos como “regime militar”, ‘ditadura militar”, “revolução de 64", etc. e não o termo que queria,“golpe”. Ele ficou reticente, eu lhe disse então que o golpe foi um episódio desse período. Ele me agradeceu e disse que ia "perguntar de novo ao professor" se era isso mesmo. Essa é nitidamente uma má formação com que me deparo inúmeras vezes, dado que a pesquisa, cuja prática deveria ser rotineira, não é levada a sério, todo mundo conhece o “recorta-e-cola” para aluno ganhar alguns pontos. Na pesquisa e nos trabalhos temáticos é que os alunos têm uma excelente oportunidade de desenvolver habilidades importantes de acesso, e de lidar com a diversidade de linguagens, fontes e informações.
Outra questão  que foi objeto de queixa de uma leitora é a troca do uso dos cadernos pela escola em favor dos didáticos consumíveis. É verdade, os cadernos são mal utilizados ou nem são utilizados, porque os tais didáticos consumíveis estão aí para isso. Que mal há nisso? Muito, muito mal. O papel em branco é um desafio importante que o professor precisa ajudar a criança a enfrentar, desde a prática de boa letra até um protocolo que vai ter muita utilidade no futuro, como : colocar cabeçalhos (nome da escola, da disciplina, seu nome, o do professor, a data, título do trabalho etc), e até indicar consultas feitas, se for um trabalho. Também como iniciar, enumerar e organizar tópicos de um texto, o que pode começar mesmo antes do 5º ano. Fora a vantagem de ajudar a manter o material organizado. O caderno é esta oportunidade. Ou se a escola for informatizada, o mesmo se aplica aos editores de texto. Mas um bom caderno tem muito valor, se utilizado.
Finalmente, agora com a corda apertando mais meu pescoço, a última coisa: por que tudo tem que ser tão "divertido" e "lúdico?". Essas palavras são utilizadas por 9 entre 10  professores. Tudo bem na pré-escola, mas no fundamental a criança vai ser introduzida em um mundo maravilhoso sim, mas não de fadas e duendes, mas de maravilhas da natureza, da palavra e da Ciência, que são fascinantes. Vai ser introduzida no mundo em que vai ter que se preparar, e muito bem, para atuar na vida cada vez mais exigente e competitiva. Por que a infantilização? A produção de livros informativos hoje, mediados pela literatura para “suavizar” ou facilitar as noções práticas  e reais que ela precisa desenvolver é impressionante, e absolutamente inútil e infantilizadora. Você não precisa criar uma ficção para o jovem entender o que são dinossauros, e depois, confundi-los com dragões. A natureza e as coisas criadas pelos homens são fantásticas por si só, e não precisam dessa mediação literária. O estudante precisa ter noção dos diferentes campos do conhecimento logo, e não confundi-los com disciplinas. Quando você fala em meio-ambiente, por favor, que não seja Ciências ou  Geografia! Basta usar a linguagem adequada. Esse é um filão da produção editorial atual, cada vez mais “paradidática”, onde se acredita que tudo que o se refere às coisas reais são “chatas”, e só se enfrentam essas “matérias” com as mais variadas formas de  espetacularização [9]. Mas essa já dá outra crônica.

Pronto, podem soltar as cordas!




[1] Bruxas, magos, gênios, dissidentes foram condenados à morte e à prisão, expondo-se nos cadafalsos. Na maioria das vezes esses heróis para uns, e demônios para outros, eram vozes isoladas, mas capazes de replicarem por toda a parte. Foi assim com Cristo, Galileu, Joana DÁrc, Giordano Bruno, Capitão Dreyfus, imolados e injustiçados.  E hoje, um para o Edward Snowden, coitado, cadafalso virtual...
[2] É que me disse por e-mail uma leitora do meu blog, aflita com a lista escolar dos filhos
[3] Cólera das legiões se referem a motins dos centuriões, militares do Império Romano (licença poética)
[4] Dados de compras governamentais recentes: http://noticias.terra.com.br/educacao/escolas-publicas-devem-receber-livros-didaticos-ate-fevereiro/...
[5] PILETTI, Nelson. História do livro no Brasil. Ática, 1991.
[6] A recomendação que se conhece é a de que a temporalidade média é de três anos, porém é comum doarem uma montanha de três décadas! : http://universojatoba.com.br/como-doar-livros-didaticos/)
[7] A reciclagem de muitos deles é mais complicada. Isso porque as folhas têm pigmentos coloridos e cola. Mas o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) fez alguns testes com o objetivo de ampliar o índice de reciclagem do papel no Brasil. (Fonte: idem)
[8] Missão de auxiliar o professor (em tese)
[9] Ver de Lajolo, Marisa Do mundo da Leitura para Leitura do Mundo. Ática. 1993.