Longe de mim querer me reunir ao
seleto grupo de ilustres que, em toda a História, vá lá, vociferaram contra o sistema ou sistemas e suas tenebrosas
transações e foram imolados,[1] mas é assustador saber que a minha voz é das
poucas, pouquíssimas, em toda a Internet [2], que
se levanta contra uma política devastadora para o ensino do país: os critérios duvidosos de produção, distribuição e uso do livro didático, o LD. Não é impensável o que tal crítica
possa atrair a cólera das legiões[3],
afinal essas “legiões” são ministérios, secretarias, comissões pedagógicas,
câmaras setoriais, editores, autores, enfim poderosos e milhões [4](ou
bi) em investimentos. Mas em absoluto, não é neste emaranhado financeiro que uma simples e experiente bibliotecária
cutuca a onça com vara curta e arrisca-se a ir para o cadafalso. Os que
participam dessa corrida do ouro é que conhecem seus meandros, só conheço o que
é publicado nos meios de comunicação, para mim já é o suficiente. Quero
adiantar, em primeiro lugar, que os agentes dessa política se apresentam como
vestais, cercados da aura do Bem, intocáveis;
e que livro, e tudo que se refere a
livro, particularmente o didático, é cercado de ação missionária, abnegação e
altruísmo. Quem der uma passada pela história do livro para estudantes verá que
nas primeiras obras publicadas[5] se
ensinavam boas maneiras e religião e que mais tarde, pelo menos, se tornaram
laicas e científicas. Mas como, o que faz uma bibliotecária, que deveria ser
amante nº 1 do livro assumir tais posições? Justamente por trabalhar em bibliotecas. Nas bibliotecas brotam as ervas
daninhas dessa política. Do ponto de vista administrativo, os colegas que me
confirmem, todas as bibliotecas recebem
refugos de livros didáticos, se assim permitirem. Quem nunca recusou livros
didáticos em sua biblioteca, que venha para o ringue comigo. Principalmente os
que o “mercado” - ah essa figura abstrata! – rejeitou. Excesso de estoque,
coleções distribuídas e não utilizadas, fora os utilizados, “reformulados” e
ultrapassados pela “última” e constante reforma ortográfica ou pedagógica e que
o público doa. O público está errado? Não. Ele entende que não se descarta um
bem que, para ele, passam como eterno e
sagrado, e que, para ele, vai enriquecer a biblioteca “guardiã”, como
qualquer outro livro. Esse é o aparato ideológico do livro transferido para o
didático.Tudo porque o paradigma é falso. Tudo porque não há uma boa política
de Estado para se lidar com a temporalidade deste tipo de livro, ou qualquer
outra coisa temporária[6]
que exista, e, já que aqui dou o meu primeiro passo para o cadafalso, faço logo
uma confissão: se o público não sabe o que fazer com esse material, tampouco sabe
o bibliotecário. Em geral, passa adiante, se encontrar quem queira, e/ ou manda
reciclar quando encontra providenciais recicladores. E por causa do luxo das
lindas ilustrações até reciclar é um "sacrilégio".[7] Ah
que pena, sim, que pena! Afinal os autores “suaram”(suores muito bem pagos)
para produzir o conteúdo, os ilustradores e gráficos capricharam, os editores
se esmeraram na arte final, capas luxuosas, caros... Pergunto, para quê, se
deixam de ser utilizados rapidamente? Se há alguma chance de mantermos em nossa
biblioteca livros didáticos, são os não-consumíveis, poucos, cuja temporalidade pode se estender por mais algum
tempo, como item de consulta. Os consumíveis, enfim, foram consumidos, e vão, sim,
criar um problema ambiental, que será
tratado como “caso de polícia”. Por quê? Porque tudo que não se resolve vira
caso de polícia. Horrorizam-se as vestais com o livro no lixo ou na rua, como
se esse livro não fosse descartável , mas, sinto muito, senhores, ele é por natureza descartável, porque em pouco tempo terá cumprido sua missão.[8] Então,
se é para isso, pergunto: por que edições
tão caras e luxuosas, se, para exercitar poderiam, produzidos ao menor custo, com
material barato como apostilas ou blocos simples, facilmente recicláveis? Ainda
tem o fato de que os computadores estão aí, vindos em boa hora... A resposta eu
não tenho, eu só intuo; as respostas estão com o mercado, o governo e quem
participa da economia política do livro.
Agora, aspectos pedagógicos observados na
prática diária de quem trabalha na biblioteca, e que diz respeito ao livro
didático,são tão ou mais graves do que os aspectos ecológicos. Essa a pior parte a
expor nesse cadafalso.
Qualquer professor há muito tempo
assumiu que o LD é um facilitador, pois o libera de estar produzindo certo
conteúdo, esse é um ponto pacífico. Inclusive ele tem o seu próprio “livro do
professor”semelhante ao do aluno, só que com as respostas. Ele pode "passar o
dever" que já está ali pronto, e cuidar de outra turma ou da sua vida, que
geralmente é em outra escola. Ótimo. Acontece que esse tipo de livro é um
mediador, tanto para o professor quanto para o aluno, porém no senso comum, ele
não é entendido assim. Explico com a minha experiência com livros, não só profissional, mas de leitora. O conhecimento não é o que está ali naquele livro limitado. O capital intelectual
se alimenta da diversidade. À exceção de matemática, Física e Química cujo
conteúdo, mesmo que informativo, é de natureza experimental, os demais
conhecimentos estão distribuídos por materiais de diferentes tipos – gramáticas e textos,
obras informativas, os meios físicos como na Biologia, filmes, os meios
providos pelas novas tecnologias, enfim não obstante a produção anual de milhões
de livros didáticos e a distribuição deles, o estudante não está diante do conhecimento e da sua potencialidade, mas da
possibilidade mínima de formar competências para acessar aquele, e que se
perde. Por que? Porque a fonte é única. Por que, se há alguma diversidade, é a de outros livros didáticos concorrentes. O que aponto como grave é entender-se,
ainda nessa altura do milênio, que o LD pode dar conta do que esse estudante
precisa para seu desenvolvimento. O
nível do sistema pergunta-e-resposta é limitado, tenta reproduzir a fala do
professor ou falar por ele, e induz o
estudante a uma relação automática com a matéria. O livro didático não instiga,
ele pergunta se tal coisa é tal coisa. Não se considera que a pergunta precisa ser gerada
pelo aluno, portanto é uma relação
autoritária. E estrita. Se o leitor não tem familiaridade com os temas e
assuntos correlatos, tais limites vêm dessa instrução de uma fonte só. São de grande valor as estratégias de acesso que as bibliotecas oferecem, além de outros meios de
aquisição da informação, hoje, felizmente, fartamente disponíveis e mais
poderosas. Um exemplo da instrução de fonte única - um aluno certo dia procurou na biblioteca
algo sobre “o golpe militar de 64 no Brasil”, apresentei-lhe obras sobre História
contemporânea do país, que contém o
assunto; ele encontrou nos sumários termos como “regime militar”, ‘ditadura
militar”, “revolução de 64", etc. e não o termo que queria,“golpe”. Ele ficou
reticente, eu lhe disse então que o golpe foi um episódio desse período. Ele me
agradeceu e disse que ia "perguntar de novo ao professor" se era isso mesmo. Essa é nitidamente uma má formação com que me
deparo inúmeras vezes, dado que a pesquisa, cuja prática deveria ser rotineira,
não é levada a sério, todo mundo conhece o “recorta-e-cola” para aluno ganhar
alguns pontos. Na pesquisa e nos trabalhos temáticos é que os alunos têm uma excelente
oportunidade de desenvolver habilidades importantes de acesso, e de lidar com a
diversidade de linguagens, fontes e informações.
Outra questão que foi objeto
de queixa de uma leitora é a troca do uso dos cadernos pela escola em favor dos
didáticos consumíveis. É verdade, os cadernos são mal utilizados ou nem são
utilizados, porque os tais didáticos consumíveis estão aí para isso. Que mal há
nisso? Muito, muito mal. O papel em branco é um desafio importante que o
professor precisa ajudar a criança a enfrentar, desde a prática de boa letra
até um protocolo que vai ter muita utilidade no futuro, como : colocar
cabeçalhos (nome da escola, da disciplina, seu nome, o do professor, a data,
título do trabalho etc), e até indicar consultas feitas, se for um trabalho.
Também como iniciar, enumerar e organizar tópicos de um texto, o que pode começar
mesmo antes do 5º ano. Fora a vantagem de ajudar a manter o material organizado. O
caderno é esta oportunidade. Ou se a escola for informatizada, o mesmo se
aplica aos editores de texto. Mas um bom caderno tem muito valor, se utilizado.
Finalmente, agora com a corda
apertando mais meu pescoço, a última coisa: por que tudo tem que ser tão "divertido" e "lúdico?". Essas palavras são utilizadas por 9 entre 10 professores. Tudo bem na pré-escola, mas no fundamental a criança vai ser
introduzida em um mundo maravilhoso sim, mas não de fadas e duendes, mas de
maravilhas da natureza, da palavra e da Ciência, que são fascinantes. Vai ser
introduzida no mundo em que vai ter
que se preparar, e muito bem, para atuar na vida cada vez mais exigente e
competitiva. Por que a infantilização? A produção de livros informativos hoje, mediados pela literatura
para “suavizar” ou facilitar as noções práticas e
reais que ela precisa desenvolver é impressionante, e absolutamente inútil e infantilizadora. Você não precisa criar uma ficção para o jovem entender o que são dinossauros, e depois, confundi-los com dragões. A natureza e as coisas criadas pelos homens são fantásticas por si só, e não
precisam dessa mediação literária. O estudante precisa ter noção dos diferentes campos do conhecimento logo, e não confundi-los com disciplinas. Quando você fala em meio-ambiente, por favor, que não seja Ciências ou Geografia! Basta usar a
linguagem adequada. Esse é um filão da produção editorial atual, cada vez mais “paradidática”, onde se acredita que tudo que o se refere às coisas reais são “chatas”,
e só se enfrentam essas “matérias” com as mais variadas formas de espetacularização [9]. Mas
essa já dá outra crônica.
Pronto, podem soltar as cordas!
[1] Bruxas,
magos, gênios, dissidentes foram condenados à morte e à prisão, expondo-se nos
cadafalsos. Na maioria das vezes esses heróis para uns, e demônios para outros,
eram vozes isoladas, mas capazes de replicarem por toda a parte. Foi assim com
Cristo, Galileu, Joana DÁrc, Giordano Bruno, Capitão Dreyfus, imolados e
injustiçados. E hoje, um para o Edward Snowden,
coitado, cadafalso virtual...
[2] É que me
disse por e-mail uma leitora do meu blog, aflita com a lista escolar dos filhos
[3] Cólera
das legiões se referem a motins dos centuriões, militares do Império Romano
(licença poética)
[4] Dados de
compras governamentais recentes:
http://noticias.terra.com.br/educacao/escolas-publicas-devem-receber-livros-didaticos-ate-fevereiro/...
[5] PILETTI,
Nelson. História do livro no Brasil. Ática, 1991.
[6] A
recomendação que se conhece é a de que a temporalidade média é de três anos,
porém é comum doarem uma montanha de três décadas! : http://universojatoba.com.br/como-doar-livros-didaticos/)
[7] A reciclagem de muitos deles é mais
complicada. Isso porque as folhas têm pigmentos coloridos e cola. Mas o
Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) fez alguns testes com o objetivo de
ampliar o índice de reciclagem do papel no Brasil. (Fonte: idem)
[8] Missão
de auxiliar o professor (em tese)
[9] Ver de
Lajolo, Marisa Do mundo da Leitura para Leitura do Mundo. Ática. 1993.
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