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quinta-feira, 12 de dezembro de 2013
Meu amigo íntimo
Já de algum tempo ao som de repiques, trombetas, retretas e tudo o mais vem-se fazendo o cortejo do livro. Muito barulho para dizer que" ler é bom", para dizer que "livro não morreu", "livros a mancheias", "livros ou cadeias" (rima não intencional), o que é (meia) verdade, mas para mim livro é um amigo íntimo, tão discreto que, ao ver alardeadas suas qualidades, um certo ciúme me ocorre. Um amigo reservado que dispensava plateias, queria só estar ali juntinho ao peito, aninhado ao dono e que, ao abrir-se, revelava -se ao sujeito, um sujeito que é seu mundo, seu leitor. É verdade que, desde a descoberta da imprensa que o difundiu, muitos livros viraram celebridades, saíram dos mosteiros, onde ficavam sob guarda dos monges - quem leu e viu O Nome da Rosa sabe do que estou falando. Os livros passaram a representar perigo e liberdade a partir de Gutemberg. Em meados do século XX, quando a democracia já se consolidava, nossos pais ainda escondiam de nós Bocaccio, Sade, Eça de Queirós , Henry Miller, D.H. Lawrence, Nabokov, e o jogo consistia numa excitante caça a esses tesouros pela casa. Temíamos ser surpreendidos e tal como dinheiro, alguns exemplares proibidos iam para debaixo do colchão. Quando não, às vezes recorríamos a uma espécie de "câmbio negro" entre amigos para ter acesso aos "malditos". Era um frisson essa troca. Curiosamente, até hoje, guardo uma estranha sensação de invasão quando, ao estar lendo, alguém se aproxima e lança os olhos sobre meu amigo.Um ciúme quase infantil. Chegaram novos tempos - bem-vindos, é certo, quanto à liberdade - tempos laicos, tempos de mídia, tempos de compartilhamento, de disseminação de bibliotecas, antes restritas às classes ditas letradas, e os livros se popularizaram e passaram a requerer, como tudo o mais, difusão, marketing, eventos, enfim, barulhos, talvez barulhos em excesso, gente em excesso, rodas, vozes, não interiores, mas lendo para o público. Enfim o livro passou a ser o caçador de leitores, não o caçado pelos leitores, condição definida por duas linhas: política de leitura por um lado e mercado por outra, muitas vezes simbioticamente. Quando o prazer de ler para mim era e é, sobretudo, ouvir a voz do pensamento, percorrendo as tramas ou as argumentações. A minha ida às livrarias era quase como ir à igreja, como agnóstica que sou, era a minha igreja e, lá, ficava "perdida" entre estantes por horas. Hoje uma livraria, e às vezes, uma biblioteca, fazem parte do mesmo show; é uma romaria barulhenta, são pontos de disputa de últimos lançamentos de séries popularizadas no cinema e tevê, ou autores de autoajuda, e dos indefectíveis livros indicados pela escola. Rara a presença ali do estranho-bibliófilo-de-óculos ou um leitor mais apurado, aquele que teve na leitura uma conquista gradual pelo cultivo paciente e alargamento do saber e que, quando aparece, se vê atropelado pela volúpia dos lançamentos disputados comercialmente. Ou então (experiência própria) alguns livros só estão "disponíveis por encomenda", como certas joias ou bebidas raras. Atesto. Tente um Mito de Sisifo, de Camus, O homem Comum, de Philip Roth ou Relatório a uma Academia, de Kafka. Dirão, esse é um espaço democrático, certo, porém, a verdade é que poucas são as livrarias prazerosas de se frequentar. As feiras e salões nem pensar, são eventos com alta exposição midiática. Então, da feição de coisa privada, íntima e única, o livro passou a ser - será ou revela só uma intenção ? - (mais um) objeto de consumo de massa. Mais vale o título usufruído "coletivamente". De preferência, acompanhado das trombetas e discursos. Parece certo preconceito ou passadismo meu. Pode ser. Pergunto se as gerações atuais têm o prazer de abraçar e cheirar um livro, como algo íntimo, ou se para elas o livro é mais um bem de consumo, cujo detentor, como em tudo o mais, precisa ostentá-lo a seus pares, como condição de pertencimento a um grupo ou época? Um cortejo muito concorrido, e que não seja um réquiem, onde ardem muita vaidade e exposição. Mas nem tudo está perdido. Você ainda pode pedir a vinda de seu amigo pela auspiciosa Internet. Sem retretas.
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