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segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Com licença, professor!


                                                                                                   
Com referência à matéria “A educação do caráter” de Celso Niskier em O GLOBO-Opinião de 08/02/2016, * me parece que esta  segue aquele velho preceito que diz “em casa onde falta pão, todos gritam e ninguém tem razão”. Quiséramos todos tivessem razão, porque em matéria de educação, todos metem a colher. Não é mau que seja assim, porque todos partilhamos das mesmas aflições. Enfim, a despeito das ideias do Sr Celso Niskier sobre as escorregadelas na ética quanto às rotinas escolares, com as quais até concordo em parte, peço licença ao professor, “professor”, e aí se refere à classe, para chamar atenção quanto à parte que me toca. Não sou professora, sou bibliotecária. E afirmo, do alto de meus mais de trinta anos de profissão - sendo quase a metade desse tempo lidando com estudantes de comunidades ou da rede pública - que a biblioteca, seja escolar ou pública, é uma caixa de ressonância do estado de coisas do ensino. Nela é que as demandas de informação aparecem e, por tabela, as dificuldades desses jovens. Essas dificuldades vão desde a leitura deficiente até as condições em que se dão as chamadas “pesquisas escolares”. Entre aspas mesmo porque, na verdade, não são pesquisas, são consultas, às vezes (aparentemente) simples (ex.“a tia pediu uma pesquisa sobre um pais  participante  da Copa do Mundo”). - Ótimo, mas o quê ela exatamente quer que vocês saibam sobre esse país? Só citá-lo? Ou tudo? - Silêncio. Na “bula” de toda pesquisa existe, além de “o quê”, há o “porquê’, o ‘como’, o ‘quando” e o “onde”, variando de acordo com os aspectos e os contextos de cada objeto. E de novo, afirmo que a maior parte das “pesquisas”,com que me envolvi, era  genérica, nenhuma veio com aspectos (que comumente se chamam “tópicos”) para definir o limite ou abrangência do tema, fazendo esse exercício assemelhar-se a uma “olhada na enciclopédia” também genérica. Ou na Internet. E desconfio comumente que esta seja uma atividade extra para ganharem uns pontinhos “pra nota”. Daí o CRTL-C/ CTRL-V! Por que digo isso?  Ora, se você não delimita o assunto a ser pesquisado em aspectos ou contextos, vale qualquer ou toda informação sobre ele. Para que então você precisa ler, se não está procurando nada especificamente? Até porque o sentido de ler é colher.Quem não colhe algo em um texto, portanto não lê. Penso que só isso já vale como atenuante quanto à ética dos jovens na pesquisa escolar. Já me vi diante de situações bizarras de um aluno copiar à mão, sim, à mão, um texto inteiro da Internet, porque o professor “não queria que o trabalho fosse copiado da Internet”, mas era cópia e não apreensão de conteúdos, porque ele não estava colhendo dados! Não vejo esses softwares caça-piratas, sugeridos pelo professor, como uma solução para coibir tal prática. Vejo, sim, como algo que pode frutificar, e muito, o uso correto da pesquisa, o hábito sistemático da seleção (e cobrança rigorosa) dos tópicos relacionados a um tema. Lembro-me de um jogo infantil, de muito sucesso em certa época, chamado “Onde está Wally?”. O princípio mais rudimentar de pesquisa estava ali – entre milhares de “wallies”, pedia-se um que estivesse com meia listrada, ou com bolsa vermelha, ou sem óculos. Os demais critérios deveriam ser todos ignorados. Algo mais booleano impossível. A pesquisa é isso, seleção pura. Ao concentrarem-se na busca do objeto selecionado, necessariamente serão compelidos a ler para encontrá-lo, e isso faz a diferença tanto faz se na Internet ou no documento impresso. Mas, atenção, saindo do rudimentar, é necessário o estudante saber ler (ou colher).


* Vejam o artigo de Celso Niskier  em O Globo nesta data ou http://oglobo.globo.com/opiniao/a-educacao-do-carater-18633831

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Coleções de Literatura policial Raphael Montes*

  

               Me entristece a escassez de livros do gênero no mercado editorial de hoje

Minha coluna da semana passada sobre a autora Patricia Highsmith fez com que eu recebesse dezenas de e-mails de leitores entusiasmados recordando suas primeiras leituras de suspense na adolescência, seus autores policiais favoritos, as revistas e livros comprados em bancas de jornal e as coleções das antigas — as revistinhas “Mistério magazine de Ellery Queen” (contos) ou os exemplares da Coleção Amarela, por exemplo. Afinal, todo leitor de literatura policial que se preze adora uma boa coleção. Daí, me surgiu uma curiosidade: quando o brasileiro começou a ler romances policiais? Fui atrás da resposta e encontrei um interessante artigo escrito por Paulo de Medeiros e Albuquerque em seu valioso “O mundo emocionante do romance policial”. Ali, o autor destaca que, por anos, foram publicadas no Brasil edições isoladas de livros de mistério, mas apenas a partir dos anos 1930 surgiram as primeiras coleções de romance policial, com melhoras na apresentação gráfica, na escolha dos textos e na tradução.
Duas coleções policiais merecem destaque naquele período: a Série Negra, publicada pela Companhia Editora Nacional (São Paulo), que também editava alguns exemplares de mistério na Coleção Paratodos, e a incrível Coleção Amarela, publicada pela Editora Globo (Porto Alegre) — sem dúvida, a mais completa de todas. Responsável por publicar autores como Edgar Wallace, S.S. Van Dine e Agatha Christie, essas coleções hoje são raras e só podem ser encontradas em sebos.
Também nos sebos é que se consegue garimpar exemplares da “Mistério magazine de Ellery Queen”, publicada mensalmente no Brasil a partir de maio de 1949 (nos Estados Unidos, a “Ellery Queen mystery magazine” é publicada até hoje, lançando short stories de autores renomados ao lado de autores estreantes ou revelações). Em dezembro de 1970, a edição brasileira nº 257 abriu caminho para que autores brasileiros enviassem seus contos, mas apenas a edição nº 262 traz o primeiro conto nacional: “Ciúme”, de Nadja Bandeira.
Ao tratar da instável produção brasileira de literatura policial, o curador da revista escreve na própria edição: “Como sabem os leitores, abrimos nossas páginas ao escritor brasileiro. (...) Boa parte, é verdade, não chega a impressionar. Mas muitos são promissores e alguns bastante aceitáveis”. Nos meses seguintes, a “Ellery Queen” continuaria a publicar contos de autores brasileiros como Inês Plese, Luiz Taddeo, Vilma Guimarães Rosa, Vitto Santos, Edmundo Viotti, Plínio Cabral, J. Matos, Carlos Cesar Soares e muitos textos menos conhecidos do incrível Victor Giudice. Infelizmente, a edição brasileira parou de ser publicada em meados dos anos 1970.
Nessa mesma época, grande parte do imaginário dos jovens leitores brasileiros estava sendo construído por meio da Série Vagalume, publicada pela editora Ática, onde brilharam fantásticas histórias de mistério como “O escaravelho do diabo”, “A turma da Rua Quinze”, “O mistério do cinco estrelas”, “O rapto do garoto de ouro” e “Um cadáver ouve rádio”. Interessante observar que, enquanto a ficção policial adulta brasileira ainda era incipiente (havia — como ainda há — poucos autores dedicados ao gênero), a ficção policial infantojuvenil já era madura, com farto catálogo de autores.
      Nos anos 1990 e 2000, muitas editoras tentaram emplacar suas coleções policiais, mas sem a divulgação devida ou sem um plano de publicação eficiente para atrair o leitor. Entre elas, a Coleção Elas São De Morte (editora Rocco — só de autoras brasileiras), a Série Negra (Benvirá) e a série Suma Policial (Suma de Letras). Infelizmente, todas tiveram apenas poucos exemplares publicados. Nesses mesmos anos, eficientes foram a Coleção Negra (Record), com suas capas dark, e a Série Policial (Companhia das Letras), com suas lombadas coloridas. Nelas, foram publicados autores como Jeffery Deaver, Jo Nesbo, Fred Vargas, Dennis Lehane, Cornell Woolrich, P.D.James e James Ellroy. Entre os nacionais, Tony Bellotto, Rubens Figueiredo, Luiz Alfredo Garcia-Roza e Joaquim Nogueira. Nesse equilíbrio de nacionais e estrangeiros, autores de renome e outros menos conhecidos, essas coleções se sustentaram por muitos anos e fizeram história, até que, mais uma vez, o interesse comercial falou mais alto, e as editoras passaram apenas a publicar de modo avulso os autores que já vendiam bastante.
Atualmente, a única editora a manter uma coleção policial é a Vestígio (Grupo Autêntica), com livros de autores franceses (Alexis Aubenque, Guillaume Prévost) e nórdicos (Kristina Ohlsson e Leena Lehtolainen). Os livros publicados são todos de qualidade e merecem ser conferidos. O único defeito, a meu ver, é a ausência de autores mais renomados e de talentos brasileiros, de modo a fazer a coleção chegar ao grande público.

Como escritor e pesquisador do gênero, me entristece a escassez de coleções policiais no mercado editorial dos dias de hoje. Infelizmente, enquanto os editores não abrem os olhos, muitos autores brasileiros de mistério com livros de qualidade continuam sem casa editorial. Além disso, autores geniais como Fred Vargas, Karin Fossum, Jeffery Deaver, Cornell Woolrich e Ruth Rendell praticamente sumiram das estantes. Enquanto isso, só me resta continuar a caçar exemplares da “Ellery Queen” e da Colecção Vampiro nos sebos do Rio de Janeiro.
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