Com
referência à matéria “A educação do
caráter” de Celso Niskier em O GLOBO-Opinião de 08/02/2016, * me parece que
esta segue aquele velho preceito que diz
“em casa onde falta pão, todos gritam e ninguém tem razão”. Quiséramos todos
tivessem razão, porque em matéria de educação, todos metem a colher. Não é mau
que seja assim, porque todos partilhamos das mesmas aflições. Enfim, a despeito
das ideias do Sr Celso Niskier sobre as escorregadelas na ética quanto às
rotinas escolares, com as quais até concordo em parte, peço licença ao
professor, “professor”, e aí se refere à classe, para chamar atenção quanto à
parte que me toca. Não sou professora, sou bibliotecária. E afirmo, do alto de
meus mais de trinta anos de profissão - sendo quase a metade desse tempo
lidando com estudantes de comunidades ou da rede pública - que a biblioteca,
seja escolar ou pública, é uma caixa de ressonância do estado de coisas do
ensino. Nela é que as demandas de informação aparecem e, por tabela, as dificuldades
desses jovens. Essas dificuldades vão desde a leitura deficiente até as
condições em que se dão as chamadas “pesquisas escolares”. Entre aspas mesmo porque,
na verdade, não são pesquisas, são consultas, às vezes (aparentemente) simples
(ex.“a tia pediu uma pesquisa sobre um pais
participante da Copa do Mundo”).
- Ótimo, mas o quê ela exatamente
quer que vocês saibam sobre esse país? Só citá-lo? Ou tudo? - Silêncio. Na “bula”
de toda pesquisa existe, além de “o quê”, há o “porquê’, o ‘como’, o ‘quando” e
o “onde”, variando de acordo com os aspectos e os contextos de cada objeto. E
de novo, afirmo que a maior parte das “pesquisas”,com que me envolvi, era genérica, nenhuma veio com aspectos (que
comumente se chamam “tópicos”) para definir o limite ou abrangência do tema,
fazendo esse exercício assemelhar-se a uma “olhada na enciclopédia” também genérica. Ou na
Internet. E desconfio comumente que esta seja uma atividade extra para ganharem
uns pontinhos “pra nota”. Daí o CRTL-C/ CTRL-V! Por que digo isso? Ora, se você não delimita o assunto a ser
pesquisado em aspectos ou contextos, vale qualquer
ou toda informação sobre ele. Para
que então você precisa ler, se não está procurando nada especificamente? Até porque o sentido de ler é colher.Quem não colhe algo em um texto, portanto não lê. Penso que só isso já vale como atenuante
quanto à ética dos jovens na pesquisa escolar. Já me vi diante de situações
bizarras de um aluno copiar à mão, sim, à
mão, um texto inteiro da Internet, porque o professor “não queria que o
trabalho fosse copiado da Internet”, mas era cópia e não apreensão de conteúdos, porque ele não estava colhendo
dados! Não vejo esses softwares caça-piratas, sugeridos pelo professor, como
uma solução para coibir tal prática. Vejo, sim, como algo que pode frutificar,
e muito, o uso correto da pesquisa, o
hábito sistemático da seleção (e cobrança rigorosa) dos tópicos relacionados a
um tema. Lembro-me de um jogo infantil, de muito sucesso em certa época,
chamado “Onde está Wally?”. O princípio mais rudimentar de pesquisa estava ali
– entre milhares de “wallies”, pedia-se um
que estivesse com meia listrada, ou com
bolsa vermelha, ou sem óculos. Os
demais critérios deveriam ser todos ignorados. Algo mais booleano impossível. A
pesquisa é isso, seleção pura. Ao concentrarem-se na busca do objeto
selecionado, necessariamente serão compelidos a ler para encontrá-lo, e isso faz a diferença tanto faz se na Internet ou no documento impresso. Mas, atenção, saindo do
rudimentar, é necessário o estudante saber
ler (ou colher).
* Vejam o artigo de Celso Niskier em O Globo nesta data ou http://oglobo.globo.com/opiniao/a-educacao-do-carater-18633831
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