Me entristece a escassez de livros
do gênero no mercado editorial de hoje
Minha coluna da semana passada sobre a autora Patricia
Highsmith fez com que eu recebesse dezenas de e-mails de leitores entusiasmados
recordando suas primeiras leituras de suspense na adolescência, seus autores
policiais favoritos, as revistas e livros comprados em bancas de jornal e as
coleções das antigas — as revistinhas “Mistério magazine de Ellery Queen”
(contos) ou os exemplares da Coleção Amarela, por exemplo. Afinal, todo leitor
de literatura policial que se preze adora uma boa coleção. Daí, me surgiu uma
curiosidade: quando o brasileiro começou a ler romances policiais? Fui atrás da
resposta e encontrei um interessante artigo escrito por Paulo de Medeiros e
Albuquerque em seu valioso “O mundo emocionante do romance policial”. Ali, o
autor destaca que, por anos, foram publicadas no Brasil edições isoladas de
livros de mistério, mas apenas a partir dos anos 1930 surgiram as primeiras
coleções de romance policial, com melhoras na apresentação gráfica, na escolha
dos textos e na tradução.
Duas coleções policiais merecem destaque naquele período: a
Série Negra, publicada pela Companhia Editora Nacional (São Paulo), que também
editava alguns exemplares de mistério na Coleção Paratodos, e a incrível
Coleção Amarela, publicada pela Editora Globo (Porto Alegre) — sem dúvida, a
mais completa de todas. Responsável por publicar autores como Edgar Wallace,
S.S. Van Dine e Agatha Christie, essas coleções hoje são raras e só podem ser
encontradas em sebos.
Também nos sebos é que se consegue garimpar exemplares da
“Mistério magazine de Ellery Queen”, publicada mensalmente no Brasil a partir
de maio de 1949 (nos Estados Unidos, a “Ellery Queen mystery magazine” é
publicada até hoje, lançando short stories de autores renomados ao lado de
autores estreantes ou revelações). Em dezembro de 1970, a edição brasileira nº
257 abriu caminho para que autores brasileiros enviassem seus contos, mas
apenas a edição nº 262 traz o primeiro conto nacional: “Ciúme”, de Nadja
Bandeira.
Ao tratar da instável produção brasileira de literatura
policial, o curador da revista escreve na própria edição: “Como sabem os
leitores, abrimos nossas páginas ao escritor brasileiro. (...) Boa parte, é
verdade, não chega a impressionar. Mas muitos são promissores e alguns bastante
aceitáveis”. Nos meses seguintes, a “Ellery Queen” continuaria a publicar
contos de autores brasileiros como Inês Plese, Luiz Taddeo, Vilma Guimarães
Rosa, Vitto Santos, Edmundo Viotti, Plínio Cabral, J. Matos, Carlos Cesar
Soares e muitos textos menos conhecidos do incrível Victor Giudice.
Infelizmente, a edição brasileira parou de ser publicada em meados dos anos
1970.
Nessa mesma época, grande parte do imaginário dos jovens
leitores brasileiros estava sendo construído por meio da Série Vagalume,
publicada pela editora Ática, onde brilharam fantásticas histórias de mistério
como “O escaravelho do diabo”, “A turma da Rua Quinze”, “O mistério do cinco
estrelas”, “O rapto do garoto de ouro” e “Um cadáver ouve rádio”. Interessante
observar que, enquanto a ficção policial adulta brasileira ainda era incipiente
(havia — como ainda há — poucos autores dedicados ao gênero), a ficção policial
infantojuvenil já era madura, com farto catálogo de autores.
Nos anos 1990 e
2000, muitas editoras tentaram emplacar suas coleções policiais, mas sem a
divulgação devida ou sem um plano de publicação eficiente para atrair o leitor.
Entre elas, a Coleção Elas São De Morte (editora Rocco — só de autoras
brasileiras), a Série Negra (Benvirá) e a série Suma Policial (Suma de Letras).
Infelizmente, todas tiveram apenas poucos exemplares publicados. Nesses mesmos
anos, eficientes foram a Coleção Negra (Record), com suas capas dark, e a Série Policial (Companhia das
Letras), com suas lombadas coloridas. Nelas, foram publicados autores como
Jeffery Deaver, Jo Nesbo, Fred Vargas, Dennis Lehane, Cornell Woolrich,
P.D.James e James Ellroy. Entre os nacionais, Tony Bellotto, Rubens Figueiredo,
Luiz Alfredo Garcia-Roza e Joaquim Nogueira. Nesse equilíbrio de nacionais e
estrangeiros, autores de renome e outros menos conhecidos, essas coleções se sustentaram
por muitos anos e fizeram história, até que, mais uma vez, o interesse
comercial falou mais alto, e as editoras passaram apenas a publicar de modo
avulso os autores que já vendiam bastante.
Atualmente, a única editora a manter uma coleção policial é
a Vestígio (Grupo Autêntica), com livros de autores franceses (Alexis Aubenque,
Guillaume Prévost) e nórdicos (Kristina Ohlsson e Leena Lehtolainen). Os livros
publicados são todos de qualidade e merecem ser conferidos. O único defeito, a
meu ver, é a ausência de autores mais renomados e de talentos brasileiros, de
modo a fazer a coleção chegar ao grande público.
Como escritor e
pesquisador do gênero, me entristece a escassez de coleções policiais no
mercado editorial dos dias de hoje. Infelizmente, enquanto os editores não
abrem os olhos, muitos autores brasileiros de mistério com livros de qualidade
continuam sem casa editorial. Além disso, autores geniais como Fred Vargas,
Karin Fossum, Jeffery Deaver, Cornell Woolrich e Ruth Rendell praticamente sumiram
das estantes. Enquanto isso, só me resta continuar a caçar exemplares da
“Ellery Queen” e da Colecção Vampiro nos sebos do Rio de Janeiro.
Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/cultura/colecoes-de-literatura-policial-18594580#ixzz3zENZZEfq
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