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domingo, 25 de novembro de 2012

O peso dos livros (por Ronaldo Bressane)

Resumo: angústia de um bibliófilo através de uma carta.

Querida Vilma,
perto de sua atividade febril flanando por academias, escolas, parques e jantares, sou um tiozinho sedentário. Cá estou encerrando o superferiado que passei fechado em casa organizando estantes, “desbastando-as”, como me disse há pouco na Mercearia S. Pedro (são três da manhã e estou vagamente bêbado, ou seja, vagamente vago) o Marçal Aquino, que acabou de se mudar e conseguiu corajosa e talentosamente reduzir seu acervo de 54 anos de leitura a meros três mil livros.
Afinal, Vilma, para que um sujeito deve ter mais de três mil livros, ou 300, ou apenas três? Minha última mudança (última não, a mais recente, como uma vez me disse um vagabundo de rua no Rio de Janeiro, depois que ao me pedir, mais uma vez, um cigarro, eu disse “tá, mas é o último, beleza?”, me replicou “último não, camarada. Mais recente. Nunca diga último”, um dos grandes ensinamentos que a rua me trouxe), minha mais recente mudança, da casa da minha ex-mulher, trouxe a este apartamento cerca de seis mil livros, sem contar as centenas de revistas e recortes de jornais; e é esta “poupança” que passei desbastando todo o feriado. Questões telúricas se me assoberbavam: lerei mesmo este livro? Esse monte de livros ruins que me enviaram, com dedicatórias, devolvo-os ao Grande Oceano da Informação Indiferenciada (sebos ou oficinas de reciclagem de papel), ou quem sabe me detenho sobre eles mais uma vez, abrindo qualquer exemplar ao acaso, para me deparar com a Frase Genial Perdida, aquela pela qual vivemos durante toda a nossa vida entre bibliotecas, livrarias, sebos e catálogos de velhos alfarrábios?
Resolvi que precisava dispensar ao menos quinze caixas. Os livros mais bacanas foram bater em Capão Redondo, nas mãos do Ferréz. O autor de Capão Pecado organizou, junto com o Mano Brown, uma bela biblioteca em um terreno onde antes havia funcionado uma boca de fumo – que visitei, junto com o bibliófilo José Mindlin, para uma reportagem na revista Trip (dá pra ler aqui). Quando juntei as bibliotecas com minha ex-esposa, havia muitos livros repetidos – lá se foram para a nova biblioteca que o Ferréz montava em uma casa que ele mesmo comprou, no Jardim Comercial, uma das muitas quebradas do Capão. Na separação, para sair mais leve de minha ex-casa, mandei para lá mais meia-dúzia de caixas. É reconfortante saber que meus livros “voltam” ao lar – é que morei no Capão dos 2 aos 8 anos, quando ainda era um bairro da zona sul isolado entre vastas porções de mata atlântica original, não a atual cidade de 1 milhão e 200 mil pessoas.
(Nota de Bicha Ressentida: doei/vendi cerca de cem livros que me foram enviados com dedicatória e tudo – quase todos livros que ganhei sem pedir. É triste, mas isso acontece. Antes de passá-los adiante, porém, conforme a etiqueta, arranquei as páginas com as dedicatórias. Afinal, vai que um deles reencontra o próprio livro num sebo, dedicado a mim. Imagino os bons pensamentos que o escritor me dedicaria. Já me aconteceu isso, e foi péssimo. Eu estava à toa em Porto Alegre, entrei num sebo da Rua da Praia e topei com a lomba azul de um livro meu. Abri-o e reencontrei a sensual dedicatória a uma jornalista gaúcha que havia conhecido em São Paulo. Lembrei que ela mesma tinha reiteradas vezes me implorado pelo livro, e me fez sair do bar, voltar para casa, retornar até lhe dar o mimo em mãos. Ela poderia ao menos ter sido discreta e eliminado minha dedicatória, não acha, Vilma? Comprei o livro, envelopei-o e mandei-o de volta, com uma nova dedicatória: ‘Perdeu este, querida’. Ressentida, eu?)
Enfim, Vilma, depois das primeiras desbastadas na estante, vi que ainda precisava me desfazer de mais livros, e eis-me aqui, espiando atônito todas essas lombadas coloridas. Há muita coisa que comprei ou ganhei que, por algum motivo, afetivo ou profissional, guardei, mas nunca li. Saudade do tempo em que dominava totalmente minha coleção: agora ela é uma biblioteca potencial, devo ter lido uns 60% no máximo, e há coisas que sequer folheei. Chega aquela hora de se perguntar: vou realmente ler esse troço? Pra que guardar essa enciclopédia Caudas Aulete que, sejamos sinceros, abri umas dez vezes nos últimos dez anos? Este livro de filosofia não ficaria em melhores mãos do que as minhas relapsas? E este esquisito livro de poesia que o amigo publicou, não encontrará leitor mais adequado nas futuras gerações? Vou realmente precisar das obras completas desse obscuro autor australiano? Até quando vou ficar levando esse peso nas costas?
No que caímos neste novo dilema – caímos, digo, porque você e sua biblioteca de dez mil livros devem saber como é complicado esse relacionamento –: em tempos de nuvem de informação, iPad e e-book reader, pra que ter tanto livro? Não seria muito mais ecológico, econômico e inteligente ter somente um Kindle que baixasse tudo o que precisamos pra ler? Guardar tanto livro assim não é uma veleidade pequeno-burguesa, um feito para impressionar visitas, ou, pior, para impressionar a nós mesmos?
Aconteceu algo parecido com as dezenas de envelopes e caixas com textos que juntei nas últimas décadas. Anotações, cartas, recortes, bilhetes, textos alheios, ideias para serem usadas mais tarde… mais tarde quando, Vilma? Me pegava estranhando aquele sujeito que havia guardado tanta tranqueira. Comecei a entender os “acumuladores”, aqueles radicais latifundiários de todo tipo de treco. Legião, eles têm até um programa de TV no Discovery Channel, o que quer dizer que é uma doença que se alastra: a doença das coisas (Perec tinha razão em seu As Coisas, quando radiografa os protagonistas: “No mundo deles, era quase regra desejar sempre mais do que se podia comprar”). No fim, são as coisas que guardam os guardadores, e eles não conseguem mais sair de casa, presos aos objetos que colecionaram durante anos, e dos quais não conseguem se desvencilhar. Eu os compreendo: um acumulador pretende nada menos que preservar o tempo, estacioná-lo, flexioná-lo até seu ponto de estátua – e, se o termo guardar também está relacionado com olhar (como no belo poema de Antonio Cícero, “Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por/ admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado”), o acumulador se tranquiliza apenas por olhar as coisas que juntou e vê-las ali paradas, tais como no momento em que foram colhidas, como se ele tivesse logrado, finalmente, paralisar o tempo que corre, ou, ao contrário, como se elas o tivessem encantatoriamente tornado jovem para sempre.
Há dois consolos em ver os livros enfileirados arrumadinhos nas estantes. Um é serem meus amigos (muitos são realmente pessoas com quem conversei, bebi, amei, ouvi histórias). Quem tem uma biblioteca jamais estará sozinho, eis o credo número um da Carençolândia que habitamos todos nós tarados por literatura. Outra tranquilidade me convém quando observo os livros que colecionei: a certeza de que um dia terei tempo suficiente para lê-los. Eles em si são uma cápsula do tempo futuro: lembrarão ao homem que serei que havia um homem preocupado com ele, com suas leituras, com seu tempo. Pobre homem.

sábado, 25 de agosto de 2012

A fantasia dos computadores na escola (por Elio Gaspari)


A fantasia dos computadores nas escolas, por Elio Gaspari

Elio Gaspari, O Globo 19/08/2012
O comissário Aloizio Mercadante, que anunciou a compra de 600 mil tabuletas para professores, bem como os educatecas que lidam com encomendas de computadores para escolas, deveria pedir à Universidade Estácio de Sá uma cópia da dissertação de mestrado de Marcelo Remígio Tavares de Matos. É curta e simples. Analisa o impacto e o desempenho de 11 computadores federais colocados na periferia de Petrópolis, na escola municipal Stefan Zweig, o autor do livro "Brasil, país do futuro".
No Brasil do presente, Remígio entrevistou 164 alunos num universo de 200 jovens do segundo ciclo, mas só três dos dez professores quiseram responder ao seu questionário.
Só uma informou que usava o laboratório de informática em suas aulas. Tanto a diretora da escola como a garotada exaltam a experiência. Já os professores não receberam capacitação adequada, nem a escola dispôs de assistência para colocar uma página na internet.
Quando as máquinas chegaram, ficavam disponíveis sete dias por semana e havia um contrato de assistência. Deletaram-no, a sala foi fechada aos sábados e domingos, e sumiram os endereços eletrônicos dados aos alunos. Se um computador enguiça, o conserto leva cerca de um mês.
Em média, cada aluno tem acesso aos computadores duas horas por semana. Como eles não são bobos, ligam-se duas horas por dia em outras máquinas quando conseguem. Numa conta racional, poderiam ter cinco horas por semana na escola.
Apesar da falta de capacitação dos professores, não há má vontade de vivalma na Stefan Zweig com os computadores. O que há por lá é a fantasia segundo a qual basta comprar máquinas e, com isso, chega-se ao futuro. Capacitação de mestres dá trabalho. Compra de equipamentos dá marquetagem y otras cositas más.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

A internet como vício por Zuenir Ventura

Na sua cruzada pela difusão da leitura no país, Ziraldo provocou polêmica aqui na Bienal do Livro de SP, ao afirmar que os pais hoje não percebem que seus filhos estão ficando “idiotas”. E que a culpa é da internet.
Muita gente concordou com a afirmação, que a outros pareceu exagerada, até que o professor de física Pierluigi Piazzi disse depois mais ou menos o mesmo, com mais ênfase. Para ele, a internet está criando jovens “imbecilizados”, “deficientes mentais”, uma “geração talidomida”, a ponto de o Hospital das Clínicas ter criado, segundo ele, um departamento de “desintoxicação” desses viciados.
Citou ainda a experiência feita numa universidade dos EUA, quando, impedidos de acesso a computador e celular por três dias, usuários compulsivos desenvolveram a síndrome de abstinência, como a de qualquer dependente de drogas. “Tiveram vômitos, dor de cabeça, febre e convulsão.”
Fiquei impressionado, porque um amigo acabara de me informar que, por insistência da família, estava se tratando com um psicanalista para se libertar do celular (e, claro, da internet). Tomara consciência de que estava doente, inclusive porque era mais fácil conversar com ele por telefone do que pessoalmente, mesmo em sua presença.
Apesar de não correr o risco, porque nem celular tenho, acho que atribuir à tecnologia toda a culpa pelo pouco caso com o livro me parece injusto.
A responsabilidade tem que ser repartida também com a família e a escola. Num lar onde os pais não saem da frente do computador ou da televisão e não gostam de ler, os filhos dificilmente vão gostar, porque tendem à imitação.
O contrário funciona como estímulo: o gosto pela leitura começa em casa e pode se desenvolver na escola, desde que não seja imposta como obrigação.
Pra não dizer que não falei de Alice, minha neta prova que é possível a convivência. Ela lida tão bem com as novas tecnologias da comunicação que me dá aulas de ipad. Ao mesmo tempo, adora ler, isto é, vive pedindo que leiam para ela uma história, inclusive as do Ziraldo.
Aliás, uma vez em Porto Alegre, diante de uma plateia de professoras, eu lamentava que os jovens tivessem perdido o gosto pela leitura, quando uma delas me corrigiu: “Só se for o adolescente, porque as crianças estão lendo.”
E contou o que ocorrera na véspera, quando cerca de 2 mil leitores mirins tinham se aglomerado para ver e ouvir o autor infantil preferido deles. Seu nome: Ziraldo. Em suma, é preciso não generalizar os casos patológicos.


domingo, 19 de agosto de 2012

Caro Elio Gaspari, caro Zuenir

Caro Gaspari, foi bom que você tocasse no assunto ( em A fantasia dos computadores nas escolas,19/08 ) de forma provocativa. Com relação a internet  - como Zuenir Ventura também  já havia mencionado ( em A internet como vício, 18/08), é evidente que é exagero a generalização, para todos os usuários aficionados pelas mídias eletrônicas, a pecha de idiotas. E arrisco até que talvez esse seja um problema menor, em relação ao que justamente  você falou, não só o baixo uso, como a subutilização do computador, na área dos programas de inclusão digital. A ideia de que basta meninos e meninas sentarem- se em frente de um monitor de PC para serem considerados "incluídos digitais", ou que isso seja considerado inclusão digital. A inclusão digital não é o acesso. É o uso que se faz a partir  dele. As crianças são absolutamente fascinadas e ávidas por essas máquinas, e sujeitas, como os meninos das classes mais altas, a cair "no vício", mas não da Internet, mas num vício lúdico e pobre de recursos. Quando vejo a maioria delas utilizando (elas dizem "mexendo") o aparelho para joguinhos mecânicos  em que precisam apenas de seis (isso mesmo, seis!) teclas: a barra de espaços, a backspace, as quatro setas e eventualmente o mouse, porque basta apenas  certa agilidade para jogar e mais nada, fico triste. E penso: para que teclado, poderiam colocar joysticks, aquelas pecinhas de comando de jogos nos computadores destinados à "inclusão digital". Aí sim, é uma via de entrada na fantástica fábrica de deficientes mentais, como Pierluigi Piazzi, citado por Zuenir, disse. Significa uma relação lúdica, importante a um primeiro contato, mas que não pode ser só ela, nem pode se eternizar: basta ligar, acessar os ícones e jogar o tempo todo, e pronto, aí está o "milagre" da inclusão. A pergunta não é se eles usam o computador, mas que uso fazem do computador! Tudo bem, primeiro são crianças e é divertido; segundo, e o que é preocupante, porque não sabem usar as funções mais complexas, as quais requerem mais do que um incipiente grau de leitura e escrita*. Ah e requerem teclado inteiro!  Em suma, não concebem a máquina como ferramenta de informação e de inclusão na sociedade. Dirão alguns, é cedo para essas ferramentas, pode ser, mas meu temor é que quando forem chamados a usá-las, não tenham mais interesse. Explorar  os poderosos oráculos - Google e cia - , as inúmeras possibilidades de conhecimento e aplicações que tudo tem a acrescentar ao indivíduo,  treinar a escrita na rede, dialogarem com amigos, postarem imagens, curiosidades, ou, minimamente, fazerem uma pesquisa para escola ou para interesse próprio, temo que tudo isso não venha cair na expectativa dos usuários do setor público. Essas pessoas,  crianças principalmente, não têm culpa; seguindo o preceito cristão, não sabem o que fazem; nós sim, os da "política", é que sabemos (ou pensamos que); nós é que temos a obrigação de saber, de estarmos atentos para esses usos da máquina e procurar ampliá-los antes que seja tarde. Enfim, como tenho sempre observado e insistido, em leitura o mesmo acontece; não há leitor pleno sem bom conhecimento da língua. Se há, é exceção e não a regra. As políticas públicas da  área têm colocado peso excessivo no acesso às mídias tanto impressas quanto digitais. Que o Zuenir  me desculpe, mas a meu ver colocar, dois mil, cem mil ou um milhão de crianças para ouvir Ziraldo - sem demérito para o escritor - quer dizer muito pouco. Por mais que se badalem livros em caríssimos eventos, feiras e salões pelo país afora, ninguém tira a propriedade da leitura (eletiva) ser pessoal e  subjetiva. O que não é subjetivo (e é essencial) é o preparo para ela.  Do mesmo modo que o computador e, logo, a inclusão digital, exige muito mais do que "mexerem" nas seis teclinhas mágicas. Um abraço.

*O INAF( Instituto Nacional de Alfabetismo Funcional.) já vem acusando isso: dos 64% dos brasileiros que não usam a internet 31%  declararam desinteresse (será?), e 33%  declararam  não ser capazes de utilizar seus recursos minimamente. Ver matéria anterior publicada neste blog.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Crenças

Marcelo Neri, em um artigo a Folha de São Paulo*, intitulado Mapa da Inclusão Digital,  referindo-se a estudos realizados pelo Centro de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas e Fundação Telefônica sobre  o quanto evoluiu o binômio inclusão/ exclusão digital, conclui:
" Olhando a média nacional, o principal motivo da exclusão é a falta de interesse (33%) seguido da incapacidade de usar a Internet (31%).Esclarece ainda a pesquisa  que os [ 36%] restantes são compostos pelas classes AB, localizadas em Florianópolis, a cidade campeã do país em acesso à banda larga. Ambos [fatores de exclusão]decorrem de problemas educacionais vigentes. Não bastam que os computadores caiam de paraquedas na vida das pessoas. Se navegar na rede é preciso, educar [grifo meu] também é preciso."
Podemos transportar facilmente tais conclusões para a área do uso do livro, e provavelmente encontraremos algo parecido, tanto com relação  ao interesse e capacitação quanto à  posse do bem cultural pelo usuário das classes AB. Por um raciocínio simples: os que detém a posse desses bens culturais tiveram -ou têm - capacitação suficiente, leia-se, educação de qualidade, para  uso e fruição do objeto-livro. Tenho me debatido com essa questão há vários anos, precisamente há 13 anos. Quando se fala nas diretrizes das Políticas de Incentivo à Leitura, a meu ver há um foco equivocado quando usa a expressão "formação de leitores", como se o acesso e as práticas culturais envolvidas na leitura dessem conta do desinteresse e da escassa qualificação para ler. Não, assim como os computadores, não basta que os livros  "caiam de paraquedas" como diz Neri, nem se com eles descerem bolas coloridas e bandinhas de coreto. A capacitação em leitura, ao contrário do festejo, não é prazeroso; é trabalho duro e lento - porque está irremediavelmente atrelada ao domínio da língua  - poderia levar facilmente os preciosos primeiros cinco anos (perdidos?) do ensino fundamental público, para sedimentar a base. Em outras palavras, cinco anos só para o aluno apenas ler fluentemente e escrever corretamente.
Não se pode fechar os olhos à evidência de que o livro requer habilidades não inatas; e  que requer treinamento acompanhado de olhar atento e minucioso.
Enquanto isso, os programas governamentais festejam mais e mais as fartas distribuições de livros, imbuídos de duas crenças: 1ª , a de que a literatura produz por si só milagres; 2º que o não uso do livro se dá por falta de acesso.
Vejam esses dados do INAF publicada recentemente**:

Indicador de Alfabetismo Funcional População de 15 a 64 anos (em %)      

                                                                       2011-2012

Básico   As pessoas classificadas neste nível podem ser consideradas funcionalmente alfabetizadas, Mostram, no entanto, limitações quando as operações requeridas envolvem maior número de elementos, etapas ou relações;                                                                     representam pela pesquisa 47%

Pleno Classificadas neste nível estão as pessoas cujas habilidades não mais impõem restrições para compreender e interpretar textos em situações usuais: lêem textos mais longos, analisando e relacionando suas partes, comparam e avaliam informações, distinguem fato de opinião, realizam inferências e sínteses. Representam pela pesquisa  26%


Podemos inferir que apenas 26% da população brasileira teriam condições de usufruir plenamente de leituras,tanto por prazer quanto para conhecimento. Qual seria então a condição para que consideremos um leitor "formado"?


Uma pesquisa como esta, aplicada à formação de leitores desmontaria facilmente algumas crenças.


* Folha de São Paulo 20 de maio de 2012 p.B9
** INAF (Inst. Nac. de Analfabetismo  funcional)/Instituto Paulo Montenegro http://www.ipm.org.br/ipmb

domingo, 15 de abril de 2012

Lições da montanha de livros

Fascinante como algo aparentemente sem implicações, digamos, filosóficas, que é a doação de livros para uma biblioteca, revele tanto. São lições da montanha de livros. Se eu fosse fazer uma tipologia deste material, assim classificaria, independentemente do valor literário:
Os livros doados por afetividade: Pela idade dos livros – média 40 anos-, aquele livro em que "eu estudei quando fiz o ginasial"; aquele livro que "foi do meu pai e do avô, tataravô,ou que ganhei de um ente querido; as chamadas "coleções a metro" de clássicos e grandes autores de um colecionador falecido, ou os que não cabem mais na nova casa, enfim, lidos ou não, foram guardados por muito, muito tempo.
Os livros sobrados e sossobrados que o mercado editorial jogou na praia. São geralmente de autores desconhecidos ou candidatos a escritores, que se financiam e porque não têm mercado, sobram das (suas e de outras) prateleiras. Vão desde memórias e árvores genealógicas que só interessam às próprias famílias dos ditos cujos, obras de pessoas e até políticos que "cometem" uma poesia e um romance, livros editados por academias regionais, e instituições sem caráter lucrativo, coletâneas de concursos diversos. A doação resulta de quando os egos desincham.

Os best-sellers. Em grande quantidade, esses velhos campeões são a personificação do que representam: consumo rápido. Consumidos, passa-se logo adiante. O futuro deles na biblioteca é quase sempre o sucesso, se o "sentimento" de que caíram de moda não prevalecer: "Pollyana?" , já era( ledo engano)! O Pequeno Príncipe? Mais vivo que nunca! Eventualmente, um deles vira clássico ou volta à moda. Por isso, esses nunca devem ser subestimados. Os  doados por sentimento de culpa do doador: um tratado de eletrotécnica de 1958, outro, bem bonito, de medicina e cirurgia dos anos 70, um Atlas cujas informações estão defasadas, dicionários com ortografia em desuso, um álbum de figurinhas, livros de bolso, guias turísticos, bíblias em profusão, coleções e mais coleções de banca em fascículos descontinuados, enciclopédias defasadas, estas particularmente derrotadas pela mídia eletrônica, miscelâneas e miscelâneas, a desafiar nosso senso de escolha. Porque esta escolha que o doador teme fazer envolve certo pesar dele em repassar alguns desses exemplares para sebos ou destiná-los à reciclagem de papel.

Por último, os refugos da nossa vetusta política oficial: os didáticos, expressiva parcela dessa montanha, que o contribuinte mui justamente teme se descartar. Ou porque são belos e caros exemplares de luxo que as crianças compraram e usaram, mas continuaram belos, ou porque não compraram, mas ganharam do governo e, muitas vezes não usaram, ou porque não há uma destinação para eles na escola. Aliás, em lugar nenhum. Para a biblioteca é que não foram feitos, por razões que não cabem aqui explicitar, mas que certamente esperam por um amplo e sério  debate sobre o assunto.

Essas são minhas as minha primeiras "lições da montanha"de livros.

Um elogio ao erro (entre aspas) Arnaldo Bloch e Hugo Sukman

De O Globo - 28/05/2011 
Na literatura, na linguística, na pedagogia,  no teatro, na música, no latim, na Bíblia, normas culta e inculta, faladas e escritas, já fizeram as pazes há muito tempo.
 A questão já estava resolvida pela literatura,  pelo povo e pela ciência linguística. De repente, chegou o famigerado LIVRO DO MEC (“Por uma vida melhor”, para turmas de alunos jovens e adultos que retornam à sala de aula) e acordou o fantasma adormecido. Sua autora, Heloísa Ramos, usou um approach (como se diz em português...) ideológico e exemplos antiestéticos para,  contudo, apenas repetir o consagrado e ululante: há diferenças entre a língua falada e a língua escrita; ambas se intercomunicam, negam-se ou convergem; essa dinâmica se reflete na vida em sociedade; o errado de hoje pode ser o certo de amanhã; não é proibido pelo Código Penal falar ou escrever o que quer que seja; mas há uma norma culta a seguir, cujos efeitos para quem não a conhece nem utiliza podem ser fatais numa entrevista de emprego, numa prova, na vida. Isso em alguns parágrafos. Pois, no restante, dedica-se a  ensinar que, em sala de aula, a norma culta é a norma e ponto final. Sociolinguistas como Sílvio Possenti, da Unicamp, consideram o livro até conservador por insistir demais nisso. No Manifesto Pau Brasil, de 1922, marco do modernismo, Oswald de Andrade proclama: “Uma língua sem arcaísmos, sem erudição. Natural e neológica. 
A contribuição milionária de todos os erros”. O modernismo, aliás, do qual NELSON RODRIGUES é um prócer, é isso: a incorporação do atual, do cotidiano, da fala da rua. Nessa linha Nelson explicava o porquê da modernidade da peça “Vestido de noiva” .   
'Meu teatro trouxe a língua da rua, do botequim para os palcos até então lisboetas do Brasil'
 Isso, no nosso mundo neolatino, vem pelo menos desde São Jerônimo, com a sua Vulgata, a primeira versão em latim da Bíblia, que usa o falar cotidiano de Roma e das províncias latinizadas, pois ninguém entendia o latim culto, elegante, de Cícero. Nesse processo, o bom Jerônimo é obrigado a criar, na língua escrita, cerca de 600 neologismos no livro que seria base não apenas da propagação da fé cristã (antes coisa de doutor) como de todas as línguas neolatinas. A Bíblia de Gutenberg é uma versão revisada da Vulgata. Ou seja, as línguas neolatinas — como o português — já são degenerescências do latim, são latim “errado”, línguas do vulgo, da gentalha, da ralé. O que não é nenhuma vergonha, muito pelo contrário: é motivo de orgulho! Pelo menos para o velho BILAC, o Olavo: o homem que de trato tão refinado com a língua invejava o ourives quando escrevia:
'Última flor do Lácio, inculta e bela'
 Dissecando o citadíssimo verso de Bilac: “Última”, a mais jovem (rebelde?) ou mais remota (a mais distante do Lácio, rumo ao Ocidente, a partir de Portugal e derraman-- s e literalmente no mar); “flor do Lácio”, a filha bastarda, degenerada, do latim; “inculta”, popular, torta, vadia por natureza; e, mesmo assim, ou pour cause, bela. Como uma língua definida dessa forma pelo seu esteta supremo, severo devoto do Parnaso, pode almejar ou mesmo admitir ser dominada apenas por uma norma culta? Nessa esteira, os paradoxos vão desfilando com um jeito de piada, num cordel surrealista.
Machado de Assis, por exemplo, usa “o pessoal gostaram”. Está na norma culta, mas, por soar errado, não faltarão pretensiosos desavisados achando que é erro. A literatura e a música brasileiras sempre trataram essa questão de maneira rica e divertida, com toda a delicadeza que a língua portuguesa, nossa pátria (no grande achado de Pessoa), merece. Nessa seara, o Brasil já resolveu esse dilema entre a norma culta e as variantes há tempos. NOEL ROSA ensinou:
 'Mulata vou contá as minhas mágoa/Meu amô não tem erre/Mas é amô debaixo d’água'
  As críticas ao livro e a reação às críticas ressuscitaram uma dicotomia certo-errado que já estava enterrada também pela pedagogia: há 150 anos praticamente toda ela, de Piaget a Freinet ou Paulo Freire, gira em torno da ideia de que não se podem desprezar os saberes de cada indivíduo que entra em sala de aula. O analfabeto no caixa do armazém pode não ter ido à escola, não saber escrever, mas ele se comunica. E seguramente sabe matemática. Isso não pode ser desprezado, como se ele estivesse começando do zero. E certas particularidades de seu raciocínio adquirido no armazém serão,  eventualmente, também aprendidas pelo professor e compartilhadas. PAULO FREIRE, o educador por excelência, dizia:
'Um mestre é aquela pessoa que, de repente, aprende'
O debate que envolve, além dos jornais e dos linguistas, também juristas, políticos e artistas ampliou-se, mas deixou a impressão de que se resumiu aos espectros esquerdadireita/ pobres-ricos/elites-povo, noção já superada há muito tempo pelos mais aguerridos defensores da língua. O modernista de direita MANUEL BANDEIRA, por exemplo, exalta todas as palavras, “sobretudo os barbarismos universais”, enquanto o modernista de esquerda OSWALD DE ANDRADE obser va:
'Dê-me um cigarro, diz a gramática/do professor e do aluno/e do mulato sabido/mas o bom negro e o bom branco/da nação brasileira/dizem todos os dias/deixa disso,camarada/me dá um cigarro'
O grande CARTOLA foi até ridicularizado quando escreveu, no lindo samba “Fiz por você o que pude”:
'Perdoa me a comparação/Mas fiz uma transfusão/Eis que Jesus me premeia/Surge outro compositor/Jovem de grande valor/Com o mesmo sangue na veia'
O premeia, no lugar do convencional “premia”, era um artifício do poeta para a rima com veia, claro. Mas o compositor que escrevia versos como “queixo-me às rosas” (com todas as ênclises e crases devidas) foi contrariado pelos cultos de plantão. Ele insistia, contudo, no premeia, dizendo que estava certo, e assim gravou e consagrou a música, para deboche geral em relação ao “erro”. E não é que mais tarde estudiosos encontram o premeia em texto de ninguém menos do que PADRE ANTÓNIO VIEIRA, um dos maiores criadores da língua portuguesa?
'Assim castiga, ou premeia Deus' 
Na última mudança ortográfica a palavra consta com essa variante, por ser usada em vários países que falam a língua de Camões. Ou seja, tentaram usar a norma culta para mudar Cartola, mas seu verso sobreviveu, corroborado por Vieira e pela língua falada. É claro que a norma culta confere poder e deve ser “distribuída” democraticamente para que todos tenham as mesmas oportunidades. Mas, a depender de como isso é feito e de o quanto se têm em conta os diversos falares, os efeitos colaterais podem ser graves e derivar para uma Síndrome de LADY KATE, personagem interpretada pela genial Katiuscia Canoro: na certeza de “falar errado”, ela tenta falar certo e acaba misturando os canais. O resultado é o bordão:
'Grana eu tenho, só me falta-me o glamour'
As histórias “bem contadas” que o cineasta Eduardo Coutinho foi buscar no sertão paraibano para fazer “O fim e o princípio” (2005) são narrativas de velhos analfabetos, bem construídas e até cultas (no sentido não só de seguir regras análogas à norma, mas da harmonia advinda da invenção poética da tradição oral). Além disso, a não consciência do erro e o isolamento dos meios urbanos “educados” produzem, nesses indivíduos, uma verve e uma segurança que afetam a expressividade
do discurso. Em contrapartida, tem muito bacharel por aí (ops, Drummond, tinha uma pedra no meio do caminho...), que, do alto de seu nível superior, fala português confuso, escreve errado e tem dificuldades de compreender um raciocínio mais complexo. Alheio a isso, desde o século retrasado o povo brasileiro resiste a fazer o plural aparentemente correto para o “real” quando ele é moeda. Antes era o mil “réis”, e agora o dez real, o cem real, assim mesmo, sem concordância. O real, para o brasileiro, só é plural quando significa novas realidades possíveis, realidades alternativas, reais, enfim.
Afinal, como dizia GUIMARÃES ROSA, que inventou o que já fora desinventado,
'O senhor sabe: pão ou pães é uma questão de opiniães'
Nessa discussão puramente ideológica, desconfiou-se de que o MEC quisesse impingir aos pobres alunos uma gramática, digamos, lulista. O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva decerto é um grande e inventivo orador, não há dúvida, e na sua fala até resgata vocábulos populares esquecidos, como maracutaia. Isso, é claro, não dá direito a Lula de menosprezar a educação formal, como fez (e faz) diversas vezes. Mas seus “erros” de português também não dão aos seus detratores o argumento para desqualificação do seu discurso. O medo do vulgar e do errado mesmo quando ele é porta-voz de boa expressão tem na anedota que segue uma mostra de como pode atingir e devastar mesmo o texto correto. Pois consta que uma das esposas de VINICIUS DE MORAIS implicou com os “beijinhos” e os “peixinhos” de “Chega de saudade”, achando-os por demais pedestres. “Pô, Vinicius, beijinho e peixinho é demais...” Um dos maiores sonetistas da língua brasileira se deu ao trabalho de responder à patrulha:
— Ah, deixa de ser sofisticada...
Resultado: nasceu uma peça revolucionária, das mais radicais da arte brasileira, transformadora de toda a forma de fazer letra e música, sem deixar de ser extremamente popular, no sentido da criação e no da difusão. A vulgar “Chega de saudade” é hoje um clássico. Vejam que coisa!