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quarta-feira, 3 de abril de 2013

A biblioteca e o gargalo


Insisto, há pelo menos dez anos,- e tenho apresentado inclusive em congressos -, no fato de que a "falta de hábito de ler" e logo, de frequentar bibliotecas, não está nos déficits nem de livros nem de bibliotecas (mesmo que eles existam), ou seja, no acesso: defendo a biblioteca na sua concepção tradicional: é um espaço de leitura e cultura, mesmo que essa leitura/ cultura se desenrole em diferentes suportes: mídias impressas ou multimeios, e suas linguagens próprias. Defendê-la como   espaço de lazer é propor uma competição com outros bens culturais e colocá-la de saída em séria desvantagem. Biblioteca  é onde podemos relaxar, compartilharmos de um silêncio nas salas coletivas, da concentração necessária para nosso crescimento e de uma troca entre autor e leitor de uma forma produtiva. Portanto um espaço que precisa ser marcado por sua característica própria, que há algum tempo as bibliotecas vêm perdendo. O espaço social (de eventos e atividades) deve estar circunscrito e  corresponder ao que o acervo oferece.  Porém, como tenho repetidamente colocado (e pouco tenho sido ouvida) é que temos um sério gargalo e que se refere a um requisito que os responsáveis pelas políticas têm esquecido - intencionalmente ou não - a de que para se ter leitores é necessário letramento adequado e que por mais se invista em incentivos à leitura, mantido esse quadro,os resultados serão pífios na formação do leitor usuário dos livros. Observem o trecho em destaque, principalmente, sobre o potencial leitor que "não se tornou usuário da língua escrita" e  portanto não é frequentador de bibliotecas. Vejo nesse gargalo uma das razões pelas quais as bibliotecas em geral padecem de alcance. O artigo abaixo ilustra nessa matéria publicada em 27 de março de 2013 pelo Jornal da Cultura (site abaixo): 
Vejam a matéria:
Todos os anos, o governo aplica provas desenvolvidas exclusivamente para avaliar a educação brasileira. Essa iniciativa ainda não é parâmetro de qualidade no ensino, se levado em consideração que o Brasil ocupa o 88º lugar no ranking de educação da UNESCO.
Os índices são preocupantes — de acordo com Instituto Paulo Montenegro, aproximadamente 75% das pessoas entre 15 e 64 anos não conseguem ler, escrever e calcular plenamente. Dessa porcentagem, mais de 60% são analfabetos funcionais e 7% considerados analfabetos absolutos.
Segundo um levantamento feito em 2010 pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), o Brasil possui 30.558 milhões de analfabetos funcionais.
“Os números ainda são alarmantes numa sociedade supostamente democrática. E quando a gente vai entender melhor esse quadro do analfabetismo, a gente percebe outros problemas, que não é apenas o sujeito que não sabe ler e escrever, mas aquele que passou pela escola, que supostamente deveria saber ler e escrever e não se tornou um usuário da língua escrita. A gente sabe que muitos alunos chegam no 7º anos da escola sem saber ler e escrever. Isso mostra que a escola também não está cumprindo o seu papel”, explica a Silvia Gasparian Colello, professora e pesquisadora da Universidade de São Paulo (USP).

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Um mundo sem estantes (por Arnaldo Pereira Júnior)


Nesse artigo, Arnaldo Pereira Júnior faz uma boa reflexão para colocar na mesa de profissionais do livro e informação 

Um amigo entra na minha casa nova, vê as estantes ainda vazias e começa o bombardeio: "Para que espaço para tanto livro? Livro está acabando".
Ele não quer saber da vista, de nenhum detalhe da obra, da arquitetura ou da decoração (não que eu tivesse algo a dizer sobre essas coisas, mas, enfim, era uma casa nova). O incômodo com as estantes é maior que tudo isso.
Para me safar do cerco, banco o moderno. "Claro que eu sei, os livros eletrônicos são o futuro. Mas isso aqui é para armazenar o que eu já tenho, entende? Até hoje guardo livros na casa dos meus pais, para você ter uma ideia."
Cascata, tática diversionista. Eu sabia que, se já estava sob tiroteio pesado, tudo iria piorar quando meu amigo visse a outra face do móvel. Ali, eu dava os primeiros passos para eliminar a bagunça dos meus CDs. E "in style", à moda gringa, ordenando por sobrenome.
Um serviço que, digamos, me dava certo orgulho. Mas o sentimento só dura até o próximo balaço: "E esse monte de lugar para CDs? CD não vai existir mais".
Em busca de trégua, sugiro sairmos para jantar. Encontramos a mulher dele. Como na faixa de Gaza, o cessar-fogo tem curta duração. "O Álvaro está maluco, botou um monte de estantes na casa nova, parece que não sabe que livros e CDs estão condenados."
Isso faz alguns anos. Nem preciso dizer que, tanto para livros quanto CDs, o espaço naquelas estantes, que pareciam obsoletas, está no fim. E o mais irônico: meu amigo, profeta do apocalipse do plástico e do papel, nunca chegou a comprar um leitor eletrônico de livros. Não tem Kindle nem iPad. Continua encomendando seus volumes de papel.
Já eu, dono do móvel ultrapassado, adotei o livro digital. O encanto inicial foi grande, até escrevi sobre isso. Caminho sem volta para um mundo sem estantes? Talvez não.
Há poucos meses, o ator Bruce Willis revelou que planeja algum tipo de ação legal contra a Apple. O objetivo é garantir que sua vasta coleção de música, em grande parte baixada na loja virtual de Steve Jobs, faça parte da herança que ele deixará às filhas.
Nas entrelinhas da burocracia, Willis descobriu que as músicas não são exatamente dele, nem de ninguém que as compra. São, de certo modo, alugadas. Se ele morrer, voltam para a Apple. Não quer deixar, para as três jovens, um legado de silêncio.
O pesadelo que Willis tenta evitar, uma mulher norueguesa já enfrentou. Identificada apenas como Linn, um dia ligou seu Kindle, o leitor eletrônico da Amazon. Ao conectar o aparelho à web, o golpe: todos os livros que já tinha comprado foram apagados em um segundo.
Seguiu-se um pesadelo kafkiano. Ao contatar a Amazon, foi informada de que havia problemas de fraude em uma outra conta, também associada a ela. Como punição, todas as contas estavam sendo canceladas. Adeus, livros digitais.
Só um problema: ela não tinha nenhuma outra conta. Era claramente um engano. Mas a Amazon se recusava a dar detalhes. Linn não tinha como se defender.
Alguns escritores souberam do caso, e passaram a divulgá-lo. Só a partir daí a situação foi aparentemente resolvida. Os livros eletrônicos foram restituídos a Linn, independente do status da conta.
O futuro desse universo cada vez mais digital é cheio de riscos. Imagine: colapso na nuvem. "Crashes" de servidores, fibras ópticas rompidas, blecautes em série nos principais polos hi-tech da Terra.
Nos primórdios da web, uma situação assim teria uma consequência grave: internet fora do ar. Grave, porém única. Músicas, filmes e demais arquivos baixados pela rede estariam a salvo, guardados nos computadores das casas das pessoas.
Mas, hoje, tudo mudou. Um crash gigantesco seria muito mais devastador. Porque cada vez menos gente armazena em casa seus arquivos digitais. Está tudo em servidores poderosos, espalhados pelo mundo. Nessa nuvem, digital e amorfa.
Não é fora de propósito imaginar um cenário de perda de contato com ela. Sem livros físicos, sem CDs, os arquivos digitais perdidos na nuvem isolada. A distopia digital extrema. O mundo das ideias salvo pelas
estantes.
Fonte: Folha de São Paulo / Ilustríssima. Sábado, 08 de dezembro de 2012 p.E14

domingo, 25 de novembro de 2012

O peso dos livros (por Ronaldo Bressane)

Resumo: angústia de um bibliófilo através de uma carta.

Querida Vilma,
perto de sua atividade febril flanando por academias, escolas, parques e jantares, sou um tiozinho sedentário. Cá estou encerrando o superferiado que passei fechado em casa organizando estantes, “desbastando-as”, como me disse há pouco na Mercearia S. Pedro (são três da manhã e estou vagamente bêbado, ou seja, vagamente vago) o Marçal Aquino, que acabou de se mudar e conseguiu corajosa e talentosamente reduzir seu acervo de 54 anos de leitura a meros três mil livros.
Afinal, Vilma, para que um sujeito deve ter mais de três mil livros, ou 300, ou apenas três? Minha última mudança (última não, a mais recente, como uma vez me disse um vagabundo de rua no Rio de Janeiro, depois que ao me pedir, mais uma vez, um cigarro, eu disse “tá, mas é o último, beleza?”, me replicou “último não, camarada. Mais recente. Nunca diga último”, um dos grandes ensinamentos que a rua me trouxe), minha mais recente mudança, da casa da minha ex-mulher, trouxe a este apartamento cerca de seis mil livros, sem contar as centenas de revistas e recortes de jornais; e é esta “poupança” que passei desbastando todo o feriado. Questões telúricas se me assoberbavam: lerei mesmo este livro? Esse monte de livros ruins que me enviaram, com dedicatórias, devolvo-os ao Grande Oceano da Informação Indiferenciada (sebos ou oficinas de reciclagem de papel), ou quem sabe me detenho sobre eles mais uma vez, abrindo qualquer exemplar ao acaso, para me deparar com a Frase Genial Perdida, aquela pela qual vivemos durante toda a nossa vida entre bibliotecas, livrarias, sebos e catálogos de velhos alfarrábios?
Resolvi que precisava dispensar ao menos quinze caixas. Os livros mais bacanas foram bater em Capão Redondo, nas mãos do Ferréz. O autor de Capão Pecado organizou, junto com o Mano Brown, uma bela biblioteca em um terreno onde antes havia funcionado uma boca de fumo – que visitei, junto com o bibliófilo José Mindlin, para uma reportagem na revista Trip (dá pra ler aqui). Quando juntei as bibliotecas com minha ex-esposa, havia muitos livros repetidos – lá se foram para a nova biblioteca que o Ferréz montava em uma casa que ele mesmo comprou, no Jardim Comercial, uma das muitas quebradas do Capão. Na separação, para sair mais leve de minha ex-casa, mandei para lá mais meia-dúzia de caixas. É reconfortante saber que meus livros “voltam” ao lar – é que morei no Capão dos 2 aos 8 anos, quando ainda era um bairro da zona sul isolado entre vastas porções de mata atlântica original, não a atual cidade de 1 milhão e 200 mil pessoas.
(Nota de Bicha Ressentida: doei/vendi cerca de cem livros que me foram enviados com dedicatória e tudo – quase todos livros que ganhei sem pedir. É triste, mas isso acontece. Antes de passá-los adiante, porém, conforme a etiqueta, arranquei as páginas com as dedicatórias. Afinal, vai que um deles reencontra o próprio livro num sebo, dedicado a mim. Imagino os bons pensamentos que o escritor me dedicaria. Já me aconteceu isso, e foi péssimo. Eu estava à toa em Porto Alegre, entrei num sebo da Rua da Praia e topei com a lomba azul de um livro meu. Abri-o e reencontrei a sensual dedicatória a uma jornalista gaúcha que havia conhecido em São Paulo. Lembrei que ela mesma tinha reiteradas vezes me implorado pelo livro, e me fez sair do bar, voltar para casa, retornar até lhe dar o mimo em mãos. Ela poderia ao menos ter sido discreta e eliminado minha dedicatória, não acha, Vilma? Comprei o livro, envelopei-o e mandei-o de volta, com uma nova dedicatória: ‘Perdeu este, querida’. Ressentida, eu?)
Enfim, Vilma, depois das primeiras desbastadas na estante, vi que ainda precisava me desfazer de mais livros, e eis-me aqui, espiando atônito todas essas lombadas coloridas. Há muita coisa que comprei ou ganhei que, por algum motivo, afetivo ou profissional, guardei, mas nunca li. Saudade do tempo em que dominava totalmente minha coleção: agora ela é uma biblioteca potencial, devo ter lido uns 60% no máximo, e há coisas que sequer folheei. Chega aquela hora de se perguntar: vou realmente ler esse troço? Pra que guardar essa enciclopédia Caudas Aulete que, sejamos sinceros, abri umas dez vezes nos últimos dez anos? Este livro de filosofia não ficaria em melhores mãos do que as minhas relapsas? E este esquisito livro de poesia que o amigo publicou, não encontrará leitor mais adequado nas futuras gerações? Vou realmente precisar das obras completas desse obscuro autor australiano? Até quando vou ficar levando esse peso nas costas?
No que caímos neste novo dilema – caímos, digo, porque você e sua biblioteca de dez mil livros devem saber como é complicado esse relacionamento –: em tempos de nuvem de informação, iPad e e-book reader, pra que ter tanto livro? Não seria muito mais ecológico, econômico e inteligente ter somente um Kindle que baixasse tudo o que precisamos pra ler? Guardar tanto livro assim não é uma veleidade pequeno-burguesa, um feito para impressionar visitas, ou, pior, para impressionar a nós mesmos?
Aconteceu algo parecido com as dezenas de envelopes e caixas com textos que juntei nas últimas décadas. Anotações, cartas, recortes, bilhetes, textos alheios, ideias para serem usadas mais tarde… mais tarde quando, Vilma? Me pegava estranhando aquele sujeito que havia guardado tanta tranqueira. Comecei a entender os “acumuladores”, aqueles radicais latifundiários de todo tipo de treco. Legião, eles têm até um programa de TV no Discovery Channel, o que quer dizer que é uma doença que se alastra: a doença das coisas (Perec tinha razão em seu As Coisas, quando radiografa os protagonistas: “No mundo deles, era quase regra desejar sempre mais do que se podia comprar”). No fim, são as coisas que guardam os guardadores, e eles não conseguem mais sair de casa, presos aos objetos que colecionaram durante anos, e dos quais não conseguem se desvencilhar. Eu os compreendo: um acumulador pretende nada menos que preservar o tempo, estacioná-lo, flexioná-lo até seu ponto de estátua – e, se o termo guardar também está relacionado com olhar (como no belo poema de Antonio Cícero, “Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por/ admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado”), o acumulador se tranquiliza apenas por olhar as coisas que juntou e vê-las ali paradas, tais como no momento em que foram colhidas, como se ele tivesse logrado, finalmente, paralisar o tempo que corre, ou, ao contrário, como se elas o tivessem encantatoriamente tornado jovem para sempre.
Há dois consolos em ver os livros enfileirados arrumadinhos nas estantes. Um é serem meus amigos (muitos são realmente pessoas com quem conversei, bebi, amei, ouvi histórias). Quem tem uma biblioteca jamais estará sozinho, eis o credo número um da Carençolândia que habitamos todos nós tarados por literatura. Outra tranquilidade me convém quando observo os livros que colecionei: a certeza de que um dia terei tempo suficiente para lê-los. Eles em si são uma cápsula do tempo futuro: lembrarão ao homem que serei que havia um homem preocupado com ele, com suas leituras, com seu tempo. Pobre homem.

sábado, 25 de agosto de 2012

A fantasia dos computadores na escola (por Elio Gaspari)


A fantasia dos computadores nas escolas, por Elio Gaspari

Elio Gaspari, O Globo 19/08/2012
O comissário Aloizio Mercadante, que anunciou a compra de 600 mil tabuletas para professores, bem como os educatecas que lidam com encomendas de computadores para escolas, deveria pedir à Universidade Estácio de Sá uma cópia da dissertação de mestrado de Marcelo Remígio Tavares de Matos. É curta e simples. Analisa o impacto e o desempenho de 11 computadores federais colocados na periferia de Petrópolis, na escola municipal Stefan Zweig, o autor do livro "Brasil, país do futuro".
No Brasil do presente, Remígio entrevistou 164 alunos num universo de 200 jovens do segundo ciclo, mas só três dos dez professores quiseram responder ao seu questionário.
Só uma informou que usava o laboratório de informática em suas aulas. Tanto a diretora da escola como a garotada exaltam a experiência. Já os professores não receberam capacitação adequada, nem a escola dispôs de assistência para colocar uma página na internet.
Quando as máquinas chegaram, ficavam disponíveis sete dias por semana e havia um contrato de assistência. Deletaram-no, a sala foi fechada aos sábados e domingos, e sumiram os endereços eletrônicos dados aos alunos. Se um computador enguiça, o conserto leva cerca de um mês.
Em média, cada aluno tem acesso aos computadores duas horas por semana. Como eles não são bobos, ligam-se duas horas por dia em outras máquinas quando conseguem. Numa conta racional, poderiam ter cinco horas por semana na escola.
Apesar da falta de capacitação dos professores, não há má vontade de vivalma na Stefan Zweig com os computadores. O que há por lá é a fantasia segundo a qual basta comprar máquinas e, com isso, chega-se ao futuro. Capacitação de mestres dá trabalho. Compra de equipamentos dá marquetagem y otras cositas más.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

A internet como vício por Zuenir Ventura

Na sua cruzada pela difusão da leitura no país, Ziraldo provocou polêmica aqui na Bienal do Livro de SP, ao afirmar que os pais hoje não percebem que seus filhos estão ficando “idiotas”. E que a culpa é da internet.
Muita gente concordou com a afirmação, que a outros pareceu exagerada, até que o professor de física Pierluigi Piazzi disse depois mais ou menos o mesmo, com mais ênfase. Para ele, a internet está criando jovens “imbecilizados”, “deficientes mentais”, uma “geração talidomida”, a ponto de o Hospital das Clínicas ter criado, segundo ele, um departamento de “desintoxicação” desses viciados.
Citou ainda a experiência feita numa universidade dos EUA, quando, impedidos de acesso a computador e celular por três dias, usuários compulsivos desenvolveram a síndrome de abstinência, como a de qualquer dependente de drogas. “Tiveram vômitos, dor de cabeça, febre e convulsão.”
Fiquei impressionado, porque um amigo acabara de me informar que, por insistência da família, estava se tratando com um psicanalista para se libertar do celular (e, claro, da internet). Tomara consciência de que estava doente, inclusive porque era mais fácil conversar com ele por telefone do que pessoalmente, mesmo em sua presença.
Apesar de não correr o risco, porque nem celular tenho, acho que atribuir à tecnologia toda a culpa pelo pouco caso com o livro me parece injusto.
A responsabilidade tem que ser repartida também com a família e a escola. Num lar onde os pais não saem da frente do computador ou da televisão e não gostam de ler, os filhos dificilmente vão gostar, porque tendem à imitação.
O contrário funciona como estímulo: o gosto pela leitura começa em casa e pode se desenvolver na escola, desde que não seja imposta como obrigação.
Pra não dizer que não falei de Alice, minha neta prova que é possível a convivência. Ela lida tão bem com as novas tecnologias da comunicação que me dá aulas de ipad. Ao mesmo tempo, adora ler, isto é, vive pedindo que leiam para ela uma história, inclusive as do Ziraldo.
Aliás, uma vez em Porto Alegre, diante de uma plateia de professoras, eu lamentava que os jovens tivessem perdido o gosto pela leitura, quando uma delas me corrigiu: “Só se for o adolescente, porque as crianças estão lendo.”
E contou o que ocorrera na véspera, quando cerca de 2 mil leitores mirins tinham se aglomerado para ver e ouvir o autor infantil preferido deles. Seu nome: Ziraldo. Em suma, é preciso não generalizar os casos patológicos.


domingo, 19 de agosto de 2012

Caro Elio Gaspari, caro Zuenir

Caro Gaspari, foi bom que você tocasse no assunto ( em A fantasia dos computadores nas escolas,19/08 ) de forma provocativa. Com relação a internet  - como Zuenir Ventura também  já havia mencionado ( em A internet como vício, 18/08), é evidente que é exagero a generalização, para todos os usuários aficionados pelas mídias eletrônicas, a pecha de idiotas. E arrisco até que talvez esse seja um problema menor, em relação ao que justamente  você falou, não só o baixo uso, como a subutilização do computador, na área dos programas de inclusão digital. A ideia de que basta meninos e meninas sentarem- se em frente de um monitor de PC para serem considerados "incluídos digitais", ou que isso seja considerado inclusão digital. A inclusão digital não é o acesso. É o uso que se faz a partir  dele. As crianças são absolutamente fascinadas e ávidas por essas máquinas, e sujeitas, como os meninos das classes mais altas, a cair "no vício", mas não da Internet, mas num vício lúdico e pobre de recursos. Quando vejo a maioria delas utilizando (elas dizem "mexendo") o aparelho para joguinhos mecânicos  em que precisam apenas de seis (isso mesmo, seis!) teclas: a barra de espaços, a backspace, as quatro setas e eventualmente o mouse, porque basta apenas  certa agilidade para jogar e mais nada, fico triste. E penso: para que teclado, poderiam colocar joysticks, aquelas pecinhas de comando de jogos nos computadores destinados à "inclusão digital". Aí sim, é uma via de entrada na fantástica fábrica de deficientes mentais, como Pierluigi Piazzi, citado por Zuenir, disse. Significa uma relação lúdica, importante a um primeiro contato, mas que não pode ser só ela, nem pode se eternizar: basta ligar, acessar os ícones e jogar o tempo todo, e pronto, aí está o "milagre" da inclusão. A pergunta não é se eles usam o computador, mas que uso fazem do computador! Tudo bem, primeiro são crianças e é divertido; segundo, e o que é preocupante, porque não sabem usar as funções mais complexas, as quais requerem mais do que um incipiente grau de leitura e escrita*. Ah e requerem teclado inteiro!  Em suma, não concebem a máquina como ferramenta de informação e de inclusão na sociedade. Dirão alguns, é cedo para essas ferramentas, pode ser, mas meu temor é que quando forem chamados a usá-las, não tenham mais interesse. Explorar  os poderosos oráculos - Google e cia - , as inúmeras possibilidades de conhecimento e aplicações que tudo tem a acrescentar ao indivíduo,  treinar a escrita na rede, dialogarem com amigos, postarem imagens, curiosidades, ou, minimamente, fazerem uma pesquisa para escola ou para interesse próprio, temo que tudo isso não venha cair na expectativa dos usuários do setor público. Essas pessoas,  crianças principalmente, não têm culpa; seguindo o preceito cristão, não sabem o que fazem; nós sim, os da "política", é que sabemos (ou pensamos que); nós é que temos a obrigação de saber, de estarmos atentos para esses usos da máquina e procurar ampliá-los antes que seja tarde. Enfim, como tenho sempre observado e insistido, em leitura o mesmo acontece; não há leitor pleno sem bom conhecimento da língua. Se há, é exceção e não a regra. As políticas públicas da  área têm colocado peso excessivo no acesso às mídias tanto impressas quanto digitais. Que o Zuenir  me desculpe, mas a meu ver colocar, dois mil, cem mil ou um milhão de crianças para ouvir Ziraldo - sem demérito para o escritor - quer dizer muito pouco. Por mais que se badalem livros em caríssimos eventos, feiras e salões pelo país afora, ninguém tira a propriedade da leitura (eletiva) ser pessoal e  subjetiva. O que não é subjetivo (e é essencial) é o preparo para ela.  Do mesmo modo que o computador e, logo, a inclusão digital, exige muito mais do que "mexerem" nas seis teclinhas mágicas. Um abraço.

*O INAF( Instituto Nacional de Alfabetismo Funcional.) já vem acusando isso: dos 64% dos brasileiros que não usam a internet 31%  declararam desinteresse (será?), e 33%  declararam  não ser capazes de utilizar seus recursos minimamente. Ver matéria anterior publicada neste blog.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Crenças

Marcelo Neri, em um artigo a Folha de São Paulo*, intitulado Mapa da Inclusão Digital,  referindo-se a estudos realizados pelo Centro de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas e Fundação Telefônica sobre  o quanto evoluiu o binômio inclusão/ exclusão digital, conclui:
" Olhando a média nacional, o principal motivo da exclusão é a falta de interesse (33%) seguido da incapacidade de usar a Internet (31%).Esclarece ainda a pesquisa  que os [ 36%] restantes são compostos pelas classes AB, localizadas em Florianópolis, a cidade campeã do país em acesso à banda larga. Ambos [fatores de exclusão]decorrem de problemas educacionais vigentes. Não bastam que os computadores caiam de paraquedas na vida das pessoas. Se navegar na rede é preciso, educar [grifo meu] também é preciso."
Podemos transportar facilmente tais conclusões para a área do uso do livro, e provavelmente encontraremos algo parecido, tanto com relação  ao interesse e capacitação quanto à  posse do bem cultural pelo usuário das classes AB. Por um raciocínio simples: os que detém a posse desses bens culturais tiveram -ou têm - capacitação suficiente, leia-se, educação de qualidade, para  uso e fruição do objeto-livro. Tenho me debatido com essa questão há vários anos, precisamente há 13 anos. Quando se fala nas diretrizes das Políticas de Incentivo à Leitura, a meu ver há um foco equivocado quando usa a expressão "formação de leitores", como se o acesso e as práticas culturais envolvidas na leitura dessem conta do desinteresse e da escassa qualificação para ler. Não, assim como os computadores, não basta que os livros  "caiam de paraquedas" como diz Neri, nem se com eles descerem bolas coloridas e bandinhas de coreto. A capacitação em leitura, ao contrário do festejo, não é prazeroso; é trabalho duro e lento - porque está irremediavelmente atrelada ao domínio da língua  - poderia levar facilmente os preciosos primeiros cinco anos (perdidos?) do ensino fundamental público, para sedimentar a base. Em outras palavras, cinco anos só para o aluno apenas ler fluentemente e escrever corretamente.
Não se pode fechar os olhos à evidência de que o livro requer habilidades não inatas; e  que requer treinamento acompanhado de olhar atento e minucioso.
Enquanto isso, os programas governamentais festejam mais e mais as fartas distribuições de livros, imbuídos de duas crenças: 1ª , a de que a literatura produz por si só milagres; 2º que o não uso do livro se dá por falta de acesso.
Vejam esses dados do INAF publicada recentemente**:

Indicador de Alfabetismo Funcional População de 15 a 64 anos (em %)      

                                                                       2011-2012

Básico   As pessoas classificadas neste nível podem ser consideradas funcionalmente alfabetizadas, Mostram, no entanto, limitações quando as operações requeridas envolvem maior número de elementos, etapas ou relações;                                                                     representam pela pesquisa 47%

Pleno Classificadas neste nível estão as pessoas cujas habilidades não mais impõem restrições para compreender e interpretar textos em situações usuais: lêem textos mais longos, analisando e relacionando suas partes, comparam e avaliam informações, distinguem fato de opinião, realizam inferências e sínteses. Representam pela pesquisa  26%


Podemos inferir que apenas 26% da população brasileira teriam condições de usufruir plenamente de leituras,tanto por prazer quanto para conhecimento. Qual seria então a condição para que consideremos um leitor "formado"?


Uma pesquisa como esta, aplicada à formação de leitores desmontaria facilmente algumas crenças.


* Folha de São Paulo 20 de maio de 2012 p.B9
** INAF (Inst. Nac. de Analfabetismo  funcional)/Instituto Paulo Montenegro http://www.ipm.org.br/ipmb