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quarta-feira, 2 de março de 2016

Jogando a criança fora com a água da bacia


Nosso ambiente e sociedade, é sabido, historicamente,  não propiciaram o hábito de leitura de livros , porque, tanto o acesso amplo, do ponto de vista material, quanto a qualificação para ler foram tardios para nosso povo, sendo que o impulso dos primeiros programas distributivos se deu após meados dos anos sessenta, e tomou vulto expressivo na década de 90. Outro fator foi o tardio entendimento do livro como objeto de consumo e  fruição, já que ele era visto como algo ligado ao ensino, à obrigação - à seara da escola. Uma política estabelecendo, diga-se de passagem, corretamente, um papel para o livro para além de objeto de "dever", com feiras e salões, festas literárias anuais (sem contar as bienais), enfim ações exclusivas a seu favor, é algo relativamente recente. Só para lembrar, o Proler é de 1992 (quando Affonso Romano de Sant´Anna assume a Biblioteca Nacional) e o PNLL (Política Nacional do Livro e da Leitura) de 2003.
No entanto, eis  que, antes, em fins da década de 80, há uma revolução no início quase silenciosa, mas, em tempos recentes, tão avassaladora para o que diz respeito ao padrão eletivo de consumo, sem falar da expansão da tv com seu potencial de influência, quanto perturbador do processo educativo tradicional: a popularização da informática pelos computadores pessoais e Internet. Tanto que em 2006, a Folha de São Paulo (1)  divulgava uma pesquisa do IBGE sobre o crescimento dos meios de entretenimento, no qual o setor de provedores de Internet crescera entre 1999 e 2005, 207% contra 11% do mercado de livros.
Porém, mesmo diante desse quadro, a política de leitura permanece inalterada, considerando que a mídia eletrônica é "apenas acessória" e que "a verdadeira leitura está nos livros". Tal posição é conservadora, pois, evidente, até para se usar a internet é preciso tanto preparo quanto para uso do livros. A não se reconhecer esse quadro secular, cai-se numa posição de resistência, heroica e romântica, e talvez temerária, quanto a não se pensar em estratégias diante dessa avalanche da web e seus subprodutos.  Por outro lado, há uma tendência secular à espetacularização, já contaminando as práticas leitoras. Úteis, porém com o risco de mais  formar plateias do que leitores.
Para finalizar, fala-se do "leitor crítico", o que é capaz de emitir juízo de valor sobre as leituras (de livros e do mundo). Mas há certo preconceito - quando se fala deste em relação ao leitor comum, que pode ser um leitor menos culto e exigente, mas nada garante  que não possa exercer bem sua cidadania, sem ser erudito, por não ter lido obras ditas canônicas.

Antes de ser considerada "do contra" ou "contra" o incentivo ou ações culturais em leitura, adianto que, longe disso,  procurei apontar aspectos  que considero frágeis na política do e para o livro, e que podem ser debatidos, revistos e atualizados, e creio ser esta uma contribuição que uma bibliotecária  cheia de dúvidas e inquietações possa dar.


 (1) Folha de São Paulo, 25 de setembro de 2006

Ler e Falar Ferreira Gullar*


O fato de que, nas provas do Enem, é cada vez menor as referências à literatura brasileira –o mesmo ocorrendo nos exames de vestibulares– causou preocupação nos membros da Academia Brasileira de Letras que, em face disso, decidiu manifestar-se sobre o assunto.
Essa questão foi trazida à ABL, no final do ano passado, por Arnaldo Niskier, que havia representado a instituição numa reunião promovida na Comissão de Educação da Câmara Federal pela deputada Maria do Rosário, do PT do Rio Grande do Sul. Ela realizou uma audiência pública para debater a situação da leitura e do ensino da literatura particularmente no ensino médio. A constatação lamentável é que, se não se estimula a leitura da literatura e seu ensino, não há razão para que a matéria faça parte dos exames e das provas.
A iniciativa da deputada em trazer à discussão esse fato merece o apoio da intelectualidade e dos cidadãos conscientes da importância da literatura para a vida nacional. Não obstante, nem todos têm essa compreensão e há mesmo, em certos setores, a tendência a ver o ensino da literatura como um resto do elitismo que deve ser eliminado da formação dos jovens.
Se minha observação for procedente, a ausência da literatura na formação da nossa juventude seria parte de um fenômeno mais amplo, que afeta outros setores da sociedade brasileira e que tem raízes mais profundas do que parece à primeira vista. Para nos atermos ao âmbito literário e do ensino, lembro da tendência entre filólogos e gramáticos de considerar que não há erros no uso da língua, mas apenas modos diversos de usá-la conforme a classe social de quem a usa. Ou seja, há a língua culta, falada pelos que têm cultura, e a língua do povo inculto, que não tem acesso à educação.
A constatação, até certo ponto, é correta, mas deduzir dela a conclusão de que tanto faz dizer "nós vamos" quanto "nós vai" é um equívoco que contraria a natureza da linguagem. Falar corretamente não é uma manifestação elitista e, sim, o resultado da necessidade humana de se expressar com coerência e clareza. Não sou linguista nem muito menos sei (alguém sabe?) como se formaram os idiomas, mas tenho certeza de que não se trata da invenção de um sujeito erudito e presunçoso que decidiu inventar as concordâncias entre sujeito e verbo, adjetivo e substantivo. Na verdade, fico fascinado ao constatar, já nas primeiras manifestações literárias, a concordância e a coerência entre os elementos da linguagem.
Como tampouco creio que os idiomas foram criados por Deus, contento-me em admitir que eles expressam, tanto quanto possível, a lógica que descobrimos no mundo e que nos ajuda a reinventá-lo. Pode ser até que a lógica da linguagem não seja a mesma do mundo –cuja complexidade excede à nossa compreensão–, mas, como nos ensina o exemplo da Torre de Babel, um idioma sem normas torna inviável o entendimento e, consequentemente, o convívio humano.
Claro que, por felicidade, estamos longe disso. O que importa aqui é afirmar que falar e escrever corretamente não são esnobismos, mas necessidades da linguagem humana.
Certamente, há que distinguir a linguagem falada da escrita. A fala coloquial, pelas circunstâncias em que se exerce, com frequência viola a correção da linguagem escrita. Tampouco teríamos que exigir, mesmo desta, um rigor sem concessões. Errar é humano e, modéstia à parte, citando a mim mesmo, cabe lembrar que "a crase não foi feita para humilhar ninguém".
Em suma, ninguém deve ser punido por errar na concordância vocabular. Tampouco é correto subestimar o homem do povo que desconhece as regras gramaticais e, por isso mesmo, fala errado.
O que, porém, não se pode aceitar é que linguistas e gramáticos afirmem que não se deve exigir que se fale e escreva corretamente, quando eles mesmos falam e escrevem conforme as regras gramaticais. 

·         Publicado na Folha de São Paulo em 26/02/2016

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Com licença, professor!


                                                                                                   
Com referência à matéria “A educação do caráter” de Celso Niskier em O GLOBO-Opinião de 08/02/2016, * me parece que esta  segue aquele velho preceito que diz “em casa onde falta pão, todos gritam e ninguém tem razão”. Quiséramos todos tivessem razão, porque em matéria de educação, todos metem a colher. Não é mau que seja assim, porque todos partilhamos das mesmas aflições. Enfim, a despeito das ideias do Sr Celso Niskier sobre as escorregadelas na ética quanto às rotinas escolares, com as quais até concordo em parte, peço licença ao professor, “professor”, e aí se refere à classe, para chamar atenção quanto à parte que me toca. Não sou professora, sou bibliotecária. E afirmo, do alto de meus mais de trinta anos de profissão - sendo quase a metade desse tempo lidando com estudantes de comunidades ou da rede pública - que a biblioteca, seja escolar ou pública, é uma caixa de ressonância do estado de coisas do ensino. Nela é que as demandas de informação aparecem e, por tabela, as dificuldades desses jovens. Essas dificuldades vão desde a leitura deficiente até as condições em que se dão as chamadas “pesquisas escolares”. Entre aspas mesmo porque, na verdade, não são pesquisas, são consultas, às vezes (aparentemente) simples (ex.“a tia pediu uma pesquisa sobre um pais  participante  da Copa do Mundo”). - Ótimo, mas o quê ela exatamente quer que vocês saibam sobre esse país? Só citá-lo? Ou tudo? - Silêncio. Na “bula” de toda pesquisa existe, além de “o quê”, há o “porquê’, o ‘como’, o ‘quando” e o “onde”, variando de acordo com os aspectos e os contextos de cada objeto. E de novo, afirmo que a maior parte das “pesquisas”,com que me envolvi, era  genérica, nenhuma veio com aspectos (que comumente se chamam “tópicos”) para definir o limite ou abrangência do tema, fazendo esse exercício assemelhar-se a uma “olhada na enciclopédia” também genérica. Ou na Internet. E desconfio comumente que esta seja uma atividade extra para ganharem uns pontinhos “pra nota”. Daí o CRTL-C/ CTRL-V! Por que digo isso?  Ora, se você não delimita o assunto a ser pesquisado em aspectos ou contextos, vale qualquer ou toda informação sobre ele. Para que então você precisa ler, se não está procurando nada especificamente? Até porque o sentido de ler é colher.Quem não colhe algo em um texto, portanto não lê. Penso que só isso já vale como atenuante quanto à ética dos jovens na pesquisa escolar. Já me vi diante de situações bizarras de um aluno copiar à mão, sim, à mão, um texto inteiro da Internet, porque o professor “não queria que o trabalho fosse copiado da Internet”, mas era cópia e não apreensão de conteúdos, porque ele não estava colhendo dados! Não vejo esses softwares caça-piratas, sugeridos pelo professor, como uma solução para coibir tal prática. Vejo, sim, como algo que pode frutificar, e muito, o uso correto da pesquisa, o hábito sistemático da seleção (e cobrança rigorosa) dos tópicos relacionados a um tema. Lembro-me de um jogo infantil, de muito sucesso em certa época, chamado “Onde está Wally?”. O princípio mais rudimentar de pesquisa estava ali – entre milhares de “wallies”, pedia-se um que estivesse com meia listrada, ou com bolsa vermelha, ou sem óculos. Os demais critérios deveriam ser todos ignorados. Algo mais booleano impossível. A pesquisa é isso, seleção pura. Ao concentrarem-se na busca do objeto selecionado, necessariamente serão compelidos a ler para encontrá-lo, e isso faz a diferença tanto faz se na Internet ou no documento impresso. Mas, atenção, saindo do rudimentar, é necessário o estudante saber ler (ou colher).


* Vejam o artigo de Celso Niskier  em O Globo nesta data ou http://oglobo.globo.com/opiniao/a-educacao-do-carater-18633831

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Coleções de Literatura policial Raphael Montes*

  

               Me entristece a escassez de livros do gênero no mercado editorial de hoje

Minha coluna da semana passada sobre a autora Patricia Highsmith fez com que eu recebesse dezenas de e-mails de leitores entusiasmados recordando suas primeiras leituras de suspense na adolescência, seus autores policiais favoritos, as revistas e livros comprados em bancas de jornal e as coleções das antigas — as revistinhas “Mistério magazine de Ellery Queen” (contos) ou os exemplares da Coleção Amarela, por exemplo. Afinal, todo leitor de literatura policial que se preze adora uma boa coleção. Daí, me surgiu uma curiosidade: quando o brasileiro começou a ler romances policiais? Fui atrás da resposta e encontrei um interessante artigo escrito por Paulo de Medeiros e Albuquerque em seu valioso “O mundo emocionante do romance policial”. Ali, o autor destaca que, por anos, foram publicadas no Brasil edições isoladas de livros de mistério, mas apenas a partir dos anos 1930 surgiram as primeiras coleções de romance policial, com melhoras na apresentação gráfica, na escolha dos textos e na tradução.
Duas coleções policiais merecem destaque naquele período: a Série Negra, publicada pela Companhia Editora Nacional (São Paulo), que também editava alguns exemplares de mistério na Coleção Paratodos, e a incrível Coleção Amarela, publicada pela Editora Globo (Porto Alegre) — sem dúvida, a mais completa de todas. Responsável por publicar autores como Edgar Wallace, S.S. Van Dine e Agatha Christie, essas coleções hoje são raras e só podem ser encontradas em sebos.
Também nos sebos é que se consegue garimpar exemplares da “Mistério magazine de Ellery Queen”, publicada mensalmente no Brasil a partir de maio de 1949 (nos Estados Unidos, a “Ellery Queen mystery magazine” é publicada até hoje, lançando short stories de autores renomados ao lado de autores estreantes ou revelações). Em dezembro de 1970, a edição brasileira nº 257 abriu caminho para que autores brasileiros enviassem seus contos, mas apenas a edição nº 262 traz o primeiro conto nacional: “Ciúme”, de Nadja Bandeira.
Ao tratar da instável produção brasileira de literatura policial, o curador da revista escreve na própria edição: “Como sabem os leitores, abrimos nossas páginas ao escritor brasileiro. (...) Boa parte, é verdade, não chega a impressionar. Mas muitos são promissores e alguns bastante aceitáveis”. Nos meses seguintes, a “Ellery Queen” continuaria a publicar contos de autores brasileiros como Inês Plese, Luiz Taddeo, Vilma Guimarães Rosa, Vitto Santos, Edmundo Viotti, Plínio Cabral, J. Matos, Carlos Cesar Soares e muitos textos menos conhecidos do incrível Victor Giudice. Infelizmente, a edição brasileira parou de ser publicada em meados dos anos 1970.
Nessa mesma época, grande parte do imaginário dos jovens leitores brasileiros estava sendo construído por meio da Série Vagalume, publicada pela editora Ática, onde brilharam fantásticas histórias de mistério como “O escaravelho do diabo”, “A turma da Rua Quinze”, “O mistério do cinco estrelas”, “O rapto do garoto de ouro” e “Um cadáver ouve rádio”. Interessante observar que, enquanto a ficção policial adulta brasileira ainda era incipiente (havia — como ainda há — poucos autores dedicados ao gênero), a ficção policial infantojuvenil já era madura, com farto catálogo de autores.
      Nos anos 1990 e 2000, muitas editoras tentaram emplacar suas coleções policiais, mas sem a divulgação devida ou sem um plano de publicação eficiente para atrair o leitor. Entre elas, a Coleção Elas São De Morte (editora Rocco — só de autoras brasileiras), a Série Negra (Benvirá) e a série Suma Policial (Suma de Letras). Infelizmente, todas tiveram apenas poucos exemplares publicados. Nesses mesmos anos, eficientes foram a Coleção Negra (Record), com suas capas dark, e a Série Policial (Companhia das Letras), com suas lombadas coloridas. Nelas, foram publicados autores como Jeffery Deaver, Jo Nesbo, Fred Vargas, Dennis Lehane, Cornell Woolrich, P.D.James e James Ellroy. Entre os nacionais, Tony Bellotto, Rubens Figueiredo, Luiz Alfredo Garcia-Roza e Joaquim Nogueira. Nesse equilíbrio de nacionais e estrangeiros, autores de renome e outros menos conhecidos, essas coleções se sustentaram por muitos anos e fizeram história, até que, mais uma vez, o interesse comercial falou mais alto, e as editoras passaram apenas a publicar de modo avulso os autores que já vendiam bastante.
Atualmente, a única editora a manter uma coleção policial é a Vestígio (Grupo Autêntica), com livros de autores franceses (Alexis Aubenque, Guillaume Prévost) e nórdicos (Kristina Ohlsson e Leena Lehtolainen). Os livros publicados são todos de qualidade e merecem ser conferidos. O único defeito, a meu ver, é a ausência de autores mais renomados e de talentos brasileiros, de modo a fazer a coleção chegar ao grande público.

Como escritor e pesquisador do gênero, me entristece a escassez de coleções policiais no mercado editorial dos dias de hoje. Infelizmente, enquanto os editores não abrem os olhos, muitos autores brasileiros de mistério com livros de qualidade continuam sem casa editorial. Além disso, autores geniais como Fred Vargas, Karin Fossum, Jeffery Deaver, Cornell Woolrich e Ruth Rendell praticamente sumiram das estantes. Enquanto isso, só me resta continuar a caçar exemplares da “Ellery Queen” e da Colecção Vampiro nos sebos do Rio de Janeiro.
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domingo, 24 de janeiro de 2016

A neutralidade não existe (...) Ricardo Mioto Folha de São Paulo 28 Nov. 2015

Imagine uma discussão após um jogo de futebol sobre um pênalti. "Ele obviamente foi empurrado", diz o torcedor de um time. "Que nada, se jogou", diz o outro.
O mais interessante: ambos acreditam no que dizem. Ou seja, não se trata de uma distorção deliberada da realidade, uma "malandragem", mas de um viés involuntariamente criado pelo cérebro.
Apostando que isso não se aplica só ao futebol, mas também a várias outras áreas (como a política), um físico e professor da USP tem se dedicado a mapear todos os mecanismos mentais que nos tornam seres tendenciosos -ele já publicou artigos sobre o tema em revistas científicas e prepara um livro. Para André Martins, isso é um problema inclusive para o método científico.
Além do viés de confirmação -primeiro escolhemos um lado, depois selecionamos os fatos que se adequam-, há muitos outros mecanismos de parcialidade no nosso cérebro (veja infográfico). Um dos mais famosos é o pensamento de grupo.
Estudos mostram que, se um voluntário desavisado é colocado em uma sala cheia de atores, eles vai concordar com eles em várias questões, mesmo que estejam obviamente errados. A maior parte dos voluntários chega a dizer que duas retas evidentemente diferentes têm o mesmo tamanho, só porque os outros concluíram isso antes deles.
"Um exemplo disso é uma assembleia estudantil", diz Martins. "Não há muita permissão para ideias próprias, só alguns pensamentos são permitidos. Dissidentes são de alguma forma humilhados".
Uma charge americana sintetiza o assunto: em uma sala de reuniões, o chefão dá o diagnóstico: "Nosso problema é que precisamos de mais opiniões divergentes" -ao que os subordinados reagem, dizendo "com certeza, chefe", "exatamente o que eu penso".
Estudos mais recentes, em que os cérebros dos voluntários são mapeados, mostram que estar isolado, discordando da maioria, ativa regiões ligadas à dor -ou seja, a rejeição de ser diferente machuca.
Em uma apresentação aberta ao público do seu trabalho na última quinta-feira na USP, Martins apontou outros tipos de viés demonstrados por pesquisas de psicologia.
Dois dos mais interessantes são a falha de calibração e a tendência humana ao pensamento rápido.
O primeiro se refere à nossa tendência de acreditar que sabemos mais sobre o assunto do que os outros. É curioso: para conseguir avaliar o tamanho da sua defasagem de conhecimento sobre determinado tema, é importante que você o entenda minimamente -ou seja, é preciso saber alguma coisa para perceber que não sabemos nada.
Os estudos sobre pensamento rápido mostram que tomamos partido muito rapidamente quando apresentados a questões polêmicas.
A explicação é evolutiva: "Na selva, você prefere ter certeza ou reagir rápido quando algo se mexe no meio do mato? Em termos evolutivos, ponderar todos os argumentos para tomar decisões embasadas nem sempre vale a pena", argumenta Martins.
Nossa inteligência, aliás, não parece ter evoluído para que encontrássemos a verdade ou desvendássemos os mistérios do Universo. Isso é só um efeito colateral útil.
"Nosso raciocínio serve é para nos permitir argumentar e convencer. Ele é um elemento de coesão social."
PARCIAL, E AÍ?
Se nosso raciocínio não é muito confiável, surgem duas perguntas. Em primeiro lugar, isso quer dizer que a ponderação é uma ilusão? Além disso, como fica a ciência?
Sobre a primeira pergunta, Martins diz existirem meios de se policiar para tentar contornar a tentação do viés.
"A mensagem é esta: ouça o outro lado. Um bom exercício, que deveríamos estimular inclusive as crianças a fazerem,é se obrigar a listar defeitos no seu ponto de vista e qualidades nas visões das quais discordamos", afirma.
"Se você acredita em A, faça a experiência de se obrigar a escrever uma defesa de B. Tem de ser algo forçado, deliberado, porque naturalmente não vamos querer fazer."
Ele cita um trabalho sobre os vieses dos juízes da Suprema Corte americana. Os pesquisadores concluíram, interessantemente, que aqueles com treinamento anterior em advocacia tinham maior tendência a ponderar argumentos dos dois lados.
Aparentemente, atuar como advogado -trabalhando para o lado que pintar, não para o que agrada mais- força o sujeito justamente a perceber que, em uma controvérsia, com frequência vários pontos de vista são defensáveis. Ou seja, aquilo que normalmente enxergamos como flexibilidade moral e que faz certa má fama dos advogados talvez seja, na verdade, um ativo.
Na ciência, a questão da tendenciosidade se aplica especialmente às áreas em que medições quantitativas não estão tão disponíveis. Os números têm essa característica maravilhosa de encerrar discussões. Bom, ao menos quando sua interpretação é consensual, como em várias áreas da física -não adianta nada ter os números e ninguém se entender sobre o que eles estão dizendo, como na economia.

"Vários dos problemas de viés se aplicam às ciências humanas. Veja a necessidade de as teses mostraram que o que está sendo proposto já foi dito antes por alguém", afirma Martins. "Mas humanos são humanos em todos os campos. A situação é parecida nas áreas da física em que experimentos não estão disponíveis. Pense em toda a controvérsia sobre a teoria das cordas."

domingo, 17 de janeiro de 2016

De volta ao futuro por Dorrit Harrzin O Globo 17/01/2016

Dorrit Harazim, O Globo
Em artigo publicado esta semana na “Folha de S.Paulo”, o professor Luiz Armando Bagolin, diretor da Biblioteca Mário de Andrade, lamenta o fato de pedras, pichações e vandalismo voltarem a acertar a fachada da instituição. Já em 2013, também no rastro dos protestos estudantis contra o aumento de tarifas do transporte urbano, a mais importante e querida biblioteca pública de São Paulo fora danificada por black blocks ou jovens sem-noção.
Nem durante a chienlit do Maio de 1968 em Paris as manifestações visaram bibliotecas públicas. Durante o interminável movimento Occupy, que em 2011 se alastrou por 600 comunidades nos Estados Unidos, e nas incendiárias respostas da população negra americana aos abusos da polícia branca ao longo de 2014 e 2015 também não.
Ainda bem, pois hoje mais do que nunca elas talvez sejam os últimos espaços não comerciais nem religiosos, nem partidários ou excludentes que ainda podem ser frequentados sem receio por qualquer tipo de cidadão.
Um aviso para quem pensa que a geração Google e Wikipedia não tem tempo nem interesse em explorar tais espaços: pelo menos em países desenvolvidos, eles continuam a florescer, adaptados aos tempos modernos, é claro. O Pew Research Internet Project, com sede em Washington, há quatro anos estuda a mudança de papel das bibliotecas públicas na sociedade dos Estados Unidos. Segundo seu último relatório, 90% dos frequentadores mais assíduos de bibliotecas também acessam a internet diariamente, 95% deles possuem telefone celular, 46% usam tablets ou computador e 33% leem livros em e-readers.
Ou seja, mesmo tendo ao alcance da mão todo um universo de informação digital, eles não se furtam ao hábito do convívio físico com o local. Representam 30% da amostra, o que não é pouco, e foram classificados como “amantes de biblioteca” e “onívoros de informação” pelo instituto Pew.
Dois anos atrás, a centenária New York Public Library (NYPL), tão reverenciada pelos nativos quanto as catedrais europeias o são pelos seus fiéis, deu um presente de fim de ano aos 30,8 milhões de visitantes de seu website.
A equipe de bibliotecários da instituição havia descoberto uma caixa contendo um tesouro de fichas referentes a consultas recebidas entre as décadas de 1940 e 1980. Além da pergunta, cada ficha continha a data da consulta, quem a recebera, se fora feita por telefone ou pessoalmente.
À época, como hoje, o sistema consistia em tentar atender o cliente de imediato. Quando isso se revelava impossível ou quando a fonte consultada não parecia 100% confiável, a consulta permanecia em aberto para apuração posterior — uma delas por exemplo, recebida em 1940, só conseguiu ser respondida 30 anos mais tarde.
O fichário encontrado pertencia a essa categoria de consultas pendentes, e a NYPL começou a fazer postagens semanais do precioso conteúdo no Instagram, com a hashtag #letmelibrarianthatforyou. Sucesso instantâneo.
Alguns exemplos dessas inquietações de antanho deixadas em aberto:
Qual o ciclo de vida de um cílio?
Os Estados Unidos têm qual porcentagem de banheiras existentes no mundo?
Existe alguma estatística sobre longevidade de mulheres abandonadas? (consulta recebida entre 1h e 2h da madrugada de 15 de fevereiro de 1963)
Quantos grãos contém uma tonelada de trigo?
Qual a espessura de um selo americano, já com a cola adicionada? Resposta: “Não conseguiremos fornecer a informação exata rapidamente. Sugerimos recorrer ao Serviço Postal dos Estados Unidos”. Tréplica: “Aqui é o Serviço Postal dos Estados Unidos.”
Para deleite de quem quer dar uma espiadela nessa cápsula do tempo — uma era em que humanos confiavam em outros humanos — há de tudo um pouco. No lugar de aplicativos para questões profundas, comezinhas, incompreensíveis, utilitárias, de etiqueta, existenciais, bastava um bibliotecário do outro lado da mesa ou da linha telefônica.
Eles eram o Google antes do Google existir.
Segundo a bibliotecária Rosa Caballeri-Li, ainda hoje a equipe de atendentes do Departamento de Referência e Pesquisa da NYPL continua a receber uma média de 1.700 consultas por mês, seja através de chat, e-mail ou telefone, em inglês ou espanhol. “Num país tão informatizado como os Estados Unidos”, explicou à época do lançamento da hashtag no Instagram, “pode soar espantoso as pessoas procurarem refúgio na NYPL. Mas quando há respostas em demasia na internet e você não consegue distinguir o que é ficção de fato, você se sente mais seguro recorrendo a nossos serviços”.
Ou, como já disse o escritor britânico Neil Gaiman, “se o Google te dá cem mil respostas, o bom bibliotecário vai te dar uma, a resposta certa”.
Na NYPL, nenhum atendente considera consulta alguma estúpida. Procuram responder sem arrogância. “Tudo pode ser transformado em momento de aprendizado para quem não sabe”, diz Caballeri-Li. “Não estamos aqui para constranger quem quer aprender”.
É claro que nem todas as bibliotecas públicas são uma NYPL. Tampouco precisam ou poderiam ser. Mas é bom ficar de olho no que resta das nossas. Nestes tempos de blocos nas ruas brasileiras, elas precisam e devem ser protegidas dos black blocks — protegidas tanto pela polícia como pelos estudantes.

domingo, 5 de julho de 2015

14 coisas que todo mundo entende errado sobre bibliotecários


“Sim, eu posso te ajudar a achar todos os livros.” “Não, eu não passo o dia inteiro lendo todos os livros.”
por Arianna Rebolini, do BuzzFeed
Recentemente perguntamos a alguns bibliotecários na comunidade do BuzzFeed quais são as idéias mais erradas que as pessoas tem sobre o seu trabalho. Seguem os resultados esclarecedores!
1. Que no seu trabalho não tem stress nenhum.
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Flickr: pleeker / Creative Commons
“Odeio quando as pessoas dizem, ‘é tão silencioso aqui. seu trabalho deve ser super relaxante’. Ou assumem que você tem três horas no trabalho apenas pra ler qualquer livro que você queira”. —Jackie DeStefano, Facebook
“Especialmente durante o programa de leitura de verão*!” —Maria Slytherinn Hill, Facebook
2. Que a tecnologia faz com que seu trabalho seja redundante.
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“[As pessoas assumem] que bibliotecários e bibliotecas são obsoletos porque ‘você pode achar tudo no Google’. Há tanta informação (eletrônica ou em outro suporte) que não pode ser acessada pelo Google, e nós sabemos encontrá-la.” —AnnaBanana617
3. Que você passa os dias lendo.
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“Pessoas me disseram que elas adorariam ser bibliotecárias porque seria muito bom trabalhar com livros o dia todo. Nada disso. Não é isso que eu faço o dia todo. Eu trabalho com PESSOAS o dia inteiro – referência, programação de ensino. Às vezes isso envolve fazer com que elas encontrem livros, mas se não fosse pelas pessoas, não existiriam bibliotecários.” —Emily Lauren Mross, Facebook
4. Que você ou é assim…
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Valery Seleznev / Getty Images
“[As pessoas acham] que você precisa ser de um certo jeito! Tenho cabelo roxo, tatuagens e um piercing no nariz.” —Maria Slytherinn Hill, Facebook
5. Ou assim:
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google.com
“Todo o combo de ‘bibliotecária sexy’ é realmente tosco.” — saraf45be50781
6. Que se o seu foco é em leitura/literatura para crianças, é sempre brincadeira.
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Purestock / Getty Images
“Detesto quando acham que bibliotecários que se envolvem com crianças (ou escolares) são babás glorificadas que fazem apenas hora do conto. Eu sou responsável por bem mais que isso, incluindo habilidades em tecnologia e ensino” — Jessica Vining Prutting, Facebook
7. Que você só trabalha em bibliotecas ou em escolas.
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Ziviani / Getty Images
“A biblioteconomia é bastante ampla em diversidade. Trabalhamos em organizações, escritórios jurídicos, institutos de pesquisa e laboratórios, no governo e nas forças armadas. Não apenas damos baixa e realocamos livros. Somos pesquisadores, especialistas em computação, desenvolvedores de coleções, arquivistas, especialistas, especialistas em metadados (fazemos com que tudo seja encontrável online e offline) e muito mais” —AnnaBanana617
8. Que você não precisa de diploma pra isso.
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“As pessoas sempre se chocam quando eu falo pra elas que eu estou me especializando para ser bibliotecária. Acredito que elas pensam que bibliotecários só precisam saber a CDD e talvez como usar o computador, de vez em quando” —Chelsea Phillips, Facebook
9. Que o trabalho é fácil.
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Purestock / Getty Images
“Sou bibliotecária de escola de ensino fundamental e é muito frustrante ouvir, ‘Seu trabalho deve ser tão fácil! Você só lê pra eles o dia todo!’. Sim. E ensino habilidades de pesquisa, de comunicação, de falar em público, entre outras. Sem contar a gestão de classe, orçamento, processamento, auxílio aos professores… Certamente não é tão fácil quanto eu faço aparentar ser!” —brittanyo4910df152
10. Que você tem aversão à tecnologia.
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“A maioria das pessoas não percebe que nós temos que ter aulas de computação bem intensas para termos um mestrado em biblioteconomia. Muitos de nós entendemos de design de bases de dados, HTML, C++, e outros códigos!” —laureno404824e16
11. Que você precisa ser de uma certa idade.
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“Eu já ouvi isso um monte de vezes: ‘Mas você é tão novinha!’ (Sou uma anomalia. A maioria das bibliotecárias nasce com 60 anos e só fica velha a partir dessa idade.)” —katrinalewine
12. Que vocês são um bando de puritanos.
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Nandyphotos / Getty Images
“O maior erro que já ouvi na vida é o de que bibliotecários são puritanos. Eu amo sexo! Só não curto quando eu tenho que testemunhar isso / mandar as pessoas pararem / limpar depois. Trabalhei numa biblioteca por nove anos e durante esse tempo eu costumava a flagrar pessoas transando e assistindo pornografia no computador O. TEMPO. TODO. Não quero nem começar a falar de todas as camisinhas usadas que eu encontrei entre os livros. *nojinho*” —deejuju
13. Que você é um solitário introvertido.
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Jupiterimages / Getty Images
“[As pessoas pensam] que você quer ser um bibliotecário porque você quer sentar sozinho e ler; bibliotecários sempre tem que estar disponíveis e interagindo com todo mundo desde crianças birrentas até pais e mãe, a pessoas em situação de rua procurando abrigo no inverno e ar condicionado no verão, até idosos tecnofóbicos. Nem todo mundo é bom nisso, bem como em qualquer outra profissão, mas aqueles que começam achando que vão sentar atrás de uma mesa e ler o dia todo são poucos e bem distantes!” —sarahc130
14. Que bibliotecas basicamente são uma espécie em extinção.
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Flickr: drocpsu
“[As bibliotecas] não estão morrendo — elas estão mudando.” —Sara Frye, Facebook