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quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Um mundo sem estantes (por Arnaldo Pereira Júnior)


Nesse artigo, Arnaldo Pereira Júnior faz uma boa reflexão para colocar na mesa de profissionais do livro e informação 

Um amigo entra na minha casa nova, vê as estantes ainda vazias e começa o bombardeio: "Para que espaço para tanto livro? Livro está acabando".
Ele não quer saber da vista, de nenhum detalhe da obra, da arquitetura ou da decoração (não que eu tivesse algo a dizer sobre essas coisas, mas, enfim, era uma casa nova). O incômodo com as estantes é maior que tudo isso.
Para me safar do cerco, banco o moderno. "Claro que eu sei, os livros eletrônicos são o futuro. Mas isso aqui é para armazenar o que eu já tenho, entende? Até hoje guardo livros na casa dos meus pais, para você ter uma ideia."
Cascata, tática diversionista. Eu sabia que, se já estava sob tiroteio pesado, tudo iria piorar quando meu amigo visse a outra face do móvel. Ali, eu dava os primeiros passos para eliminar a bagunça dos meus CDs. E "in style", à moda gringa, ordenando por sobrenome.
Um serviço que, digamos, me dava certo orgulho. Mas o sentimento só dura até o próximo balaço: "E esse monte de lugar para CDs? CD não vai existir mais".
Em busca de trégua, sugiro sairmos para jantar. Encontramos a mulher dele. Como na faixa de Gaza, o cessar-fogo tem curta duração. "O Álvaro está maluco, botou um monte de estantes na casa nova, parece que não sabe que livros e CDs estão condenados."
Isso faz alguns anos. Nem preciso dizer que, tanto para livros quanto CDs, o espaço naquelas estantes, que pareciam obsoletas, está no fim. E o mais irônico: meu amigo, profeta do apocalipse do plástico e do papel, nunca chegou a comprar um leitor eletrônico de livros. Não tem Kindle nem iPad. Continua encomendando seus volumes de papel.
Já eu, dono do móvel ultrapassado, adotei o livro digital. O encanto inicial foi grande, até escrevi sobre isso. Caminho sem volta para um mundo sem estantes? Talvez não.
Há poucos meses, o ator Bruce Willis revelou que planeja algum tipo de ação legal contra a Apple. O objetivo é garantir que sua vasta coleção de música, em grande parte baixada na loja virtual de Steve Jobs, faça parte da herança que ele deixará às filhas.
Nas entrelinhas da burocracia, Willis descobriu que as músicas não são exatamente dele, nem de ninguém que as compra. São, de certo modo, alugadas. Se ele morrer, voltam para a Apple. Não quer deixar, para as três jovens, um legado de silêncio.
O pesadelo que Willis tenta evitar, uma mulher norueguesa já enfrentou. Identificada apenas como Linn, um dia ligou seu Kindle, o leitor eletrônico da Amazon. Ao conectar o aparelho à web, o golpe: todos os livros que já tinha comprado foram apagados em um segundo.
Seguiu-se um pesadelo kafkiano. Ao contatar a Amazon, foi informada de que havia problemas de fraude em uma outra conta, também associada a ela. Como punição, todas as contas estavam sendo canceladas. Adeus, livros digitais.
Só um problema: ela não tinha nenhuma outra conta. Era claramente um engano. Mas a Amazon se recusava a dar detalhes. Linn não tinha como se defender.
Alguns escritores souberam do caso, e passaram a divulgá-lo. Só a partir daí a situação foi aparentemente resolvida. Os livros eletrônicos foram restituídos a Linn, independente do status da conta.
O futuro desse universo cada vez mais digital é cheio de riscos. Imagine: colapso na nuvem. "Crashes" de servidores, fibras ópticas rompidas, blecautes em série nos principais polos hi-tech da Terra.
Nos primórdios da web, uma situação assim teria uma consequência grave: internet fora do ar. Grave, porém única. Músicas, filmes e demais arquivos baixados pela rede estariam a salvo, guardados nos computadores das casas das pessoas.
Mas, hoje, tudo mudou. Um crash gigantesco seria muito mais devastador. Porque cada vez menos gente armazena em casa seus arquivos digitais. Está tudo em servidores poderosos, espalhados pelo mundo. Nessa nuvem, digital e amorfa.
Não é fora de propósito imaginar um cenário de perda de contato com ela. Sem livros físicos, sem CDs, os arquivos digitais perdidos na nuvem isolada. A distopia digital extrema. O mundo das ideias salvo pelas
estantes.
Fonte: Folha de São Paulo / Ilustríssima. Sábado, 08 de dezembro de 2012 p.E14

domingo, 25 de novembro de 2012

O peso dos livros (por Ronaldo Bressane)

Resumo: angústia de um bibliófilo através de uma carta.

Querida Vilma,
perto de sua atividade febril flanando por academias, escolas, parques e jantares, sou um tiozinho sedentário. Cá estou encerrando o superferiado que passei fechado em casa organizando estantes, “desbastando-as”, como me disse há pouco na Mercearia S. Pedro (são três da manhã e estou vagamente bêbado, ou seja, vagamente vago) o Marçal Aquino, que acabou de se mudar e conseguiu corajosa e talentosamente reduzir seu acervo de 54 anos de leitura a meros três mil livros.
Afinal, Vilma, para que um sujeito deve ter mais de três mil livros, ou 300, ou apenas três? Minha última mudança (última não, a mais recente, como uma vez me disse um vagabundo de rua no Rio de Janeiro, depois que ao me pedir, mais uma vez, um cigarro, eu disse “tá, mas é o último, beleza?”, me replicou “último não, camarada. Mais recente. Nunca diga último”, um dos grandes ensinamentos que a rua me trouxe), minha mais recente mudança, da casa da minha ex-mulher, trouxe a este apartamento cerca de seis mil livros, sem contar as centenas de revistas e recortes de jornais; e é esta “poupança” que passei desbastando todo o feriado. Questões telúricas se me assoberbavam: lerei mesmo este livro? Esse monte de livros ruins que me enviaram, com dedicatórias, devolvo-os ao Grande Oceano da Informação Indiferenciada (sebos ou oficinas de reciclagem de papel), ou quem sabe me detenho sobre eles mais uma vez, abrindo qualquer exemplar ao acaso, para me deparar com a Frase Genial Perdida, aquela pela qual vivemos durante toda a nossa vida entre bibliotecas, livrarias, sebos e catálogos de velhos alfarrábios?
Resolvi que precisava dispensar ao menos quinze caixas. Os livros mais bacanas foram bater em Capão Redondo, nas mãos do Ferréz. O autor de Capão Pecado organizou, junto com o Mano Brown, uma bela biblioteca em um terreno onde antes havia funcionado uma boca de fumo – que visitei, junto com o bibliófilo José Mindlin, para uma reportagem na revista Trip (dá pra ler aqui). Quando juntei as bibliotecas com minha ex-esposa, havia muitos livros repetidos – lá se foram para a nova biblioteca que o Ferréz montava em uma casa que ele mesmo comprou, no Jardim Comercial, uma das muitas quebradas do Capão. Na separação, para sair mais leve de minha ex-casa, mandei para lá mais meia-dúzia de caixas. É reconfortante saber que meus livros “voltam” ao lar – é que morei no Capão dos 2 aos 8 anos, quando ainda era um bairro da zona sul isolado entre vastas porções de mata atlântica original, não a atual cidade de 1 milhão e 200 mil pessoas.
(Nota de Bicha Ressentida: doei/vendi cerca de cem livros que me foram enviados com dedicatória e tudo – quase todos livros que ganhei sem pedir. É triste, mas isso acontece. Antes de passá-los adiante, porém, conforme a etiqueta, arranquei as páginas com as dedicatórias. Afinal, vai que um deles reencontra o próprio livro num sebo, dedicado a mim. Imagino os bons pensamentos que o escritor me dedicaria. Já me aconteceu isso, e foi péssimo. Eu estava à toa em Porto Alegre, entrei num sebo da Rua da Praia e topei com a lomba azul de um livro meu. Abri-o e reencontrei a sensual dedicatória a uma jornalista gaúcha que havia conhecido em São Paulo. Lembrei que ela mesma tinha reiteradas vezes me implorado pelo livro, e me fez sair do bar, voltar para casa, retornar até lhe dar o mimo em mãos. Ela poderia ao menos ter sido discreta e eliminado minha dedicatória, não acha, Vilma? Comprei o livro, envelopei-o e mandei-o de volta, com uma nova dedicatória: ‘Perdeu este, querida’. Ressentida, eu?)
Enfim, Vilma, depois das primeiras desbastadas na estante, vi que ainda precisava me desfazer de mais livros, e eis-me aqui, espiando atônito todas essas lombadas coloridas. Há muita coisa que comprei ou ganhei que, por algum motivo, afetivo ou profissional, guardei, mas nunca li. Saudade do tempo em que dominava totalmente minha coleção: agora ela é uma biblioteca potencial, devo ter lido uns 60% no máximo, e há coisas que sequer folheei. Chega aquela hora de se perguntar: vou realmente ler esse troço? Pra que guardar essa enciclopédia Caudas Aulete que, sejamos sinceros, abri umas dez vezes nos últimos dez anos? Este livro de filosofia não ficaria em melhores mãos do que as minhas relapsas? E este esquisito livro de poesia que o amigo publicou, não encontrará leitor mais adequado nas futuras gerações? Vou realmente precisar das obras completas desse obscuro autor australiano? Até quando vou ficar levando esse peso nas costas?
No que caímos neste novo dilema – caímos, digo, porque você e sua biblioteca de dez mil livros devem saber como é complicado esse relacionamento –: em tempos de nuvem de informação, iPad e e-book reader, pra que ter tanto livro? Não seria muito mais ecológico, econômico e inteligente ter somente um Kindle que baixasse tudo o que precisamos pra ler? Guardar tanto livro assim não é uma veleidade pequeno-burguesa, um feito para impressionar visitas, ou, pior, para impressionar a nós mesmos?
Aconteceu algo parecido com as dezenas de envelopes e caixas com textos que juntei nas últimas décadas. Anotações, cartas, recortes, bilhetes, textos alheios, ideias para serem usadas mais tarde… mais tarde quando, Vilma? Me pegava estranhando aquele sujeito que havia guardado tanta tranqueira. Comecei a entender os “acumuladores”, aqueles radicais latifundiários de todo tipo de treco. Legião, eles têm até um programa de TV no Discovery Channel, o que quer dizer que é uma doença que se alastra: a doença das coisas (Perec tinha razão em seu As Coisas, quando radiografa os protagonistas: “No mundo deles, era quase regra desejar sempre mais do que se podia comprar”). No fim, são as coisas que guardam os guardadores, e eles não conseguem mais sair de casa, presos aos objetos que colecionaram durante anos, e dos quais não conseguem se desvencilhar. Eu os compreendo: um acumulador pretende nada menos que preservar o tempo, estacioná-lo, flexioná-lo até seu ponto de estátua – e, se o termo guardar também está relacionado com olhar (como no belo poema de Antonio Cícero, “Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por/ admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado”), o acumulador se tranquiliza apenas por olhar as coisas que juntou e vê-las ali paradas, tais como no momento em que foram colhidas, como se ele tivesse logrado, finalmente, paralisar o tempo que corre, ou, ao contrário, como se elas o tivessem encantatoriamente tornado jovem para sempre.
Há dois consolos em ver os livros enfileirados arrumadinhos nas estantes. Um é serem meus amigos (muitos são realmente pessoas com quem conversei, bebi, amei, ouvi histórias). Quem tem uma biblioteca jamais estará sozinho, eis o credo número um da Carençolândia que habitamos todos nós tarados por literatura. Outra tranquilidade me convém quando observo os livros que colecionei: a certeza de que um dia terei tempo suficiente para lê-los. Eles em si são uma cápsula do tempo futuro: lembrarão ao homem que serei que havia um homem preocupado com ele, com suas leituras, com seu tempo. Pobre homem.

sábado, 25 de agosto de 2012

A fantasia dos computadores na escola (por Elio Gaspari)


A fantasia dos computadores nas escolas, por Elio Gaspari

Elio Gaspari, O Globo 19/08/2012
O comissário Aloizio Mercadante, que anunciou a compra de 600 mil tabuletas para professores, bem como os educatecas que lidam com encomendas de computadores para escolas, deveria pedir à Universidade Estácio de Sá uma cópia da dissertação de mestrado de Marcelo Remígio Tavares de Matos. É curta e simples. Analisa o impacto e o desempenho de 11 computadores federais colocados na periferia de Petrópolis, na escola municipal Stefan Zweig, o autor do livro "Brasil, país do futuro".
No Brasil do presente, Remígio entrevistou 164 alunos num universo de 200 jovens do segundo ciclo, mas só três dos dez professores quiseram responder ao seu questionário.
Só uma informou que usava o laboratório de informática em suas aulas. Tanto a diretora da escola como a garotada exaltam a experiência. Já os professores não receberam capacitação adequada, nem a escola dispôs de assistência para colocar uma página na internet.
Quando as máquinas chegaram, ficavam disponíveis sete dias por semana e havia um contrato de assistência. Deletaram-no, a sala foi fechada aos sábados e domingos, e sumiram os endereços eletrônicos dados aos alunos. Se um computador enguiça, o conserto leva cerca de um mês.
Em média, cada aluno tem acesso aos computadores duas horas por semana. Como eles não são bobos, ligam-se duas horas por dia em outras máquinas quando conseguem. Numa conta racional, poderiam ter cinco horas por semana na escola.
Apesar da falta de capacitação dos professores, não há má vontade de vivalma na Stefan Zweig com os computadores. O que há por lá é a fantasia segundo a qual basta comprar máquinas e, com isso, chega-se ao futuro. Capacitação de mestres dá trabalho. Compra de equipamentos dá marquetagem y otras cositas más.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

A internet como vício por Zuenir Ventura

Na sua cruzada pela difusão da leitura no país, Ziraldo provocou polêmica aqui na Bienal do Livro de SP, ao afirmar que os pais hoje não percebem que seus filhos estão ficando “idiotas”. E que a culpa é da internet.
Muita gente concordou com a afirmação, que a outros pareceu exagerada, até que o professor de física Pierluigi Piazzi disse depois mais ou menos o mesmo, com mais ênfase. Para ele, a internet está criando jovens “imbecilizados”, “deficientes mentais”, uma “geração talidomida”, a ponto de o Hospital das Clínicas ter criado, segundo ele, um departamento de “desintoxicação” desses viciados.
Citou ainda a experiência feita numa universidade dos EUA, quando, impedidos de acesso a computador e celular por três dias, usuários compulsivos desenvolveram a síndrome de abstinência, como a de qualquer dependente de drogas. “Tiveram vômitos, dor de cabeça, febre e convulsão.”
Fiquei impressionado, porque um amigo acabara de me informar que, por insistência da família, estava se tratando com um psicanalista para se libertar do celular (e, claro, da internet). Tomara consciência de que estava doente, inclusive porque era mais fácil conversar com ele por telefone do que pessoalmente, mesmo em sua presença.
Apesar de não correr o risco, porque nem celular tenho, acho que atribuir à tecnologia toda a culpa pelo pouco caso com o livro me parece injusto.
A responsabilidade tem que ser repartida também com a família e a escola. Num lar onde os pais não saem da frente do computador ou da televisão e não gostam de ler, os filhos dificilmente vão gostar, porque tendem à imitação.
O contrário funciona como estímulo: o gosto pela leitura começa em casa e pode se desenvolver na escola, desde que não seja imposta como obrigação.
Pra não dizer que não falei de Alice, minha neta prova que é possível a convivência. Ela lida tão bem com as novas tecnologias da comunicação que me dá aulas de ipad. Ao mesmo tempo, adora ler, isto é, vive pedindo que leiam para ela uma história, inclusive as do Ziraldo.
Aliás, uma vez em Porto Alegre, diante de uma plateia de professoras, eu lamentava que os jovens tivessem perdido o gosto pela leitura, quando uma delas me corrigiu: “Só se for o adolescente, porque as crianças estão lendo.”
E contou o que ocorrera na véspera, quando cerca de 2 mil leitores mirins tinham se aglomerado para ver e ouvir o autor infantil preferido deles. Seu nome: Ziraldo. Em suma, é preciso não generalizar os casos patológicos.


domingo, 19 de agosto de 2012

Caro Elio Gaspari, caro Zuenir

Caro Gaspari, foi bom que você tocasse no assunto ( em A fantasia dos computadores nas escolas,19/08 ) de forma provocativa. Com relação a internet  - como Zuenir Ventura também  já havia mencionado ( em A internet como vício, 18/08), é evidente que é exagero a generalização, para todos os usuários aficionados pelas mídias eletrônicas, a pecha de idiotas. E arrisco até que talvez esse seja um problema menor, em relação ao que justamente  você falou, não só o baixo uso, como a subutilização do computador, na área dos programas de inclusão digital. A ideia de que basta meninos e meninas sentarem- se em frente de um monitor de PC para serem considerados "incluídos digitais", ou que isso seja considerado inclusão digital. A inclusão digital não é o acesso. É o uso que se faz a partir  dele. As crianças são absolutamente fascinadas e ávidas por essas máquinas, e sujeitas, como os meninos das classes mais altas, a cair "no vício", mas não da Internet, mas num vício lúdico e pobre de recursos. Quando vejo a maioria delas utilizando (elas dizem "mexendo") o aparelho para joguinhos mecânicos  em que precisam apenas de seis (isso mesmo, seis!) teclas: a barra de espaços, a backspace, as quatro setas e eventualmente o mouse, porque basta apenas  certa agilidade para jogar e mais nada, fico triste. E penso: para que teclado, poderiam colocar joysticks, aquelas pecinhas de comando de jogos nos computadores destinados à "inclusão digital". Aí sim, é uma via de entrada na fantástica fábrica de deficientes mentais, como Pierluigi Piazzi, citado por Zuenir, disse. Significa uma relação lúdica, importante a um primeiro contato, mas que não pode ser só ela, nem pode se eternizar: basta ligar, acessar os ícones e jogar o tempo todo, e pronto, aí está o "milagre" da inclusão. A pergunta não é se eles usam o computador, mas que uso fazem do computador! Tudo bem, primeiro são crianças e é divertido; segundo, e o que é preocupante, porque não sabem usar as funções mais complexas, as quais requerem mais do que um incipiente grau de leitura e escrita*. Ah e requerem teclado inteiro!  Em suma, não concebem a máquina como ferramenta de informação e de inclusão na sociedade. Dirão alguns, é cedo para essas ferramentas, pode ser, mas meu temor é que quando forem chamados a usá-las, não tenham mais interesse. Explorar  os poderosos oráculos - Google e cia - , as inúmeras possibilidades de conhecimento e aplicações que tudo tem a acrescentar ao indivíduo,  treinar a escrita na rede, dialogarem com amigos, postarem imagens, curiosidades, ou, minimamente, fazerem uma pesquisa para escola ou para interesse próprio, temo que tudo isso não venha cair na expectativa dos usuários do setor público. Essas pessoas,  crianças principalmente, não têm culpa; seguindo o preceito cristão, não sabem o que fazem; nós sim, os da "política", é que sabemos (ou pensamos que); nós é que temos a obrigação de saber, de estarmos atentos para esses usos da máquina e procurar ampliá-los antes que seja tarde. Enfim, como tenho sempre observado e insistido, em leitura o mesmo acontece; não há leitor pleno sem bom conhecimento da língua. Se há, é exceção e não a regra. As políticas públicas da  área têm colocado peso excessivo no acesso às mídias tanto impressas quanto digitais. Que o Zuenir  me desculpe, mas a meu ver colocar, dois mil, cem mil ou um milhão de crianças para ouvir Ziraldo - sem demérito para o escritor - quer dizer muito pouco. Por mais que se badalem livros em caríssimos eventos, feiras e salões pelo país afora, ninguém tira a propriedade da leitura (eletiva) ser pessoal e  subjetiva. O que não é subjetivo (e é essencial) é o preparo para ela.  Do mesmo modo que o computador e, logo, a inclusão digital, exige muito mais do que "mexerem" nas seis teclinhas mágicas. Um abraço.

*O INAF( Instituto Nacional de Alfabetismo Funcional.) já vem acusando isso: dos 64% dos brasileiros que não usam a internet 31%  declararam desinteresse (será?), e 33%  declararam  não ser capazes de utilizar seus recursos minimamente. Ver matéria anterior publicada neste blog.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Crenças

Marcelo Neri, em um artigo a Folha de São Paulo*, intitulado Mapa da Inclusão Digital,  referindo-se a estudos realizados pelo Centro de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas e Fundação Telefônica sobre  o quanto evoluiu o binômio inclusão/ exclusão digital, conclui:
" Olhando a média nacional, o principal motivo da exclusão é a falta de interesse (33%) seguido da incapacidade de usar a Internet (31%).Esclarece ainda a pesquisa  que os [ 36%] restantes são compostos pelas classes AB, localizadas em Florianópolis, a cidade campeã do país em acesso à banda larga. Ambos [fatores de exclusão]decorrem de problemas educacionais vigentes. Não bastam que os computadores caiam de paraquedas na vida das pessoas. Se navegar na rede é preciso, educar [grifo meu] também é preciso."
Podemos transportar facilmente tais conclusões para a área do uso do livro, e provavelmente encontraremos algo parecido, tanto com relação  ao interesse e capacitação quanto à  posse do bem cultural pelo usuário das classes AB. Por um raciocínio simples: os que detém a posse desses bens culturais tiveram -ou têm - capacitação suficiente, leia-se, educação de qualidade, para  uso e fruição do objeto-livro. Tenho me debatido com essa questão há vários anos, precisamente há 13 anos. Quando se fala nas diretrizes das Políticas de Incentivo à Leitura, a meu ver há um foco equivocado quando usa a expressão "formação de leitores", como se o acesso e as práticas culturais envolvidas na leitura dessem conta do desinteresse e da escassa qualificação para ler. Não, assim como os computadores, não basta que os livros  "caiam de paraquedas" como diz Neri, nem se com eles descerem bolas coloridas e bandinhas de coreto. A capacitação em leitura, ao contrário do festejo, não é prazeroso; é trabalho duro e lento - porque está irremediavelmente atrelada ao domínio da língua  - poderia levar facilmente os preciosos primeiros cinco anos (perdidos?) do ensino fundamental público, para sedimentar a base. Em outras palavras, cinco anos só para o aluno apenas ler fluentemente e escrever corretamente.
Não se pode fechar os olhos à evidência de que o livro requer habilidades não inatas; e  que requer treinamento acompanhado de olhar atento e minucioso.
Enquanto isso, os programas governamentais festejam mais e mais as fartas distribuições de livros, imbuídos de duas crenças: 1ª , a de que a literatura produz por si só milagres; 2º que o não uso do livro se dá por falta de acesso.
Vejam esses dados do INAF publicada recentemente**:

Indicador de Alfabetismo Funcional População de 15 a 64 anos (em %)      

                                                                       2011-2012

Básico   As pessoas classificadas neste nível podem ser consideradas funcionalmente alfabetizadas, Mostram, no entanto, limitações quando as operações requeridas envolvem maior número de elementos, etapas ou relações;                                                                     representam pela pesquisa 47%

Pleno Classificadas neste nível estão as pessoas cujas habilidades não mais impõem restrições para compreender e interpretar textos em situações usuais: lêem textos mais longos, analisando e relacionando suas partes, comparam e avaliam informações, distinguem fato de opinião, realizam inferências e sínteses. Representam pela pesquisa  26%


Podemos inferir que apenas 26% da população brasileira teriam condições de usufruir plenamente de leituras,tanto por prazer quanto para conhecimento. Qual seria então a condição para que consideremos um leitor "formado"?


Uma pesquisa como esta, aplicada à formação de leitores desmontaria facilmente algumas crenças.


* Folha de São Paulo 20 de maio de 2012 p.B9
** INAF (Inst. Nac. de Analfabetismo  funcional)/Instituto Paulo Montenegro http://www.ipm.org.br/ipmb

domingo, 15 de abril de 2012

Lições da montanha de livros

Fascinante como algo aparentemente sem implicações, digamos, filosóficas, que é a doação de livros para uma biblioteca, revele tanto. São lições da montanha de livros. Se eu fosse fazer uma tipologia deste material, assim classificaria, independentemente do valor literário:
Os livros doados por afetividade: Pela idade dos livros – média 40 anos-, aquele livro em que "eu estudei quando fiz o ginasial"; aquele livro que "foi do meu pai e do avô, tataravô,ou que ganhei de um ente querido; as chamadas "coleções a metro" de clássicos e grandes autores de um colecionador falecido, ou os que não cabem mais na nova casa, enfim, lidos ou não, foram guardados por muito, muito tempo.
Os livros sobrados e sossobrados que o mercado editorial jogou na praia. São geralmente de autores desconhecidos ou candidatos a escritores, que se financiam e porque não têm mercado, sobram das (suas e de outras) prateleiras. Vão desde memórias e árvores genealógicas que só interessam às próprias famílias dos ditos cujos, obras de pessoas e até políticos que "cometem" uma poesia e um romance, livros editados por academias regionais, e instituições sem caráter lucrativo, coletâneas de concursos diversos. A doação resulta de quando os egos desincham.

Os best-sellers. Em grande quantidade, esses velhos campeões são a personificação do que representam: consumo rápido. Consumidos, passa-se logo adiante. O futuro deles na biblioteca é quase sempre o sucesso, se o "sentimento" de que caíram de moda não prevalecer: "Pollyana?" , já era( ledo engano)! O Pequeno Príncipe? Mais vivo que nunca! Eventualmente, um deles vira clássico ou volta à moda. Por isso, esses nunca devem ser subestimados. Os  doados por sentimento de culpa do doador: um tratado de eletrotécnica de 1958, outro, bem bonito, de medicina e cirurgia dos anos 70, um Atlas cujas informações estão defasadas, dicionários com ortografia em desuso, um álbum de figurinhas, livros de bolso, guias turísticos, bíblias em profusão, coleções e mais coleções de banca em fascículos descontinuados, enciclopédias defasadas, estas particularmente derrotadas pela mídia eletrônica, miscelâneas e miscelâneas, a desafiar nosso senso de escolha. Porque esta escolha que o doador teme fazer envolve certo pesar dele em repassar alguns desses exemplares para sebos ou destiná-los à reciclagem de papel.

Por último, os refugos da nossa vetusta política oficial: os didáticos, expressiva parcela dessa montanha, que o contribuinte mui justamente teme se descartar. Ou porque são belos e caros exemplares de luxo que as crianças compraram e usaram, mas continuaram belos, ou porque não compraram, mas ganharam do governo e, muitas vezes não usaram, ou porque não há uma destinação para eles na escola. Aliás, em lugar nenhum. Para a biblioteca é que não foram feitos, por razões que não cabem aqui explicitar, mas que certamente esperam por um amplo e sério  debate sobre o assunto.

Essas são minhas as minha primeiras "lições da montanha"de livros.

Um elogio ao erro (entre aspas) Arnaldo Bloch e Hugo Sukman

De O Globo - 28/05/2011 
Na literatura, na linguística, na pedagogia,  no teatro, na música, no latim, na Bíblia, normas culta e inculta, faladas e escritas, já fizeram as pazes há muito tempo.
 A questão já estava resolvida pela literatura,  pelo povo e pela ciência linguística. De repente, chegou o famigerado LIVRO DO MEC (“Por uma vida melhor”, para turmas de alunos jovens e adultos que retornam à sala de aula) e acordou o fantasma adormecido. Sua autora, Heloísa Ramos, usou um approach (como se diz em português...) ideológico e exemplos antiestéticos para,  contudo, apenas repetir o consagrado e ululante: há diferenças entre a língua falada e a língua escrita; ambas se intercomunicam, negam-se ou convergem; essa dinâmica se reflete na vida em sociedade; o errado de hoje pode ser o certo de amanhã; não é proibido pelo Código Penal falar ou escrever o que quer que seja; mas há uma norma culta a seguir, cujos efeitos para quem não a conhece nem utiliza podem ser fatais numa entrevista de emprego, numa prova, na vida. Isso em alguns parágrafos. Pois, no restante, dedica-se a  ensinar que, em sala de aula, a norma culta é a norma e ponto final. Sociolinguistas como Sílvio Possenti, da Unicamp, consideram o livro até conservador por insistir demais nisso. No Manifesto Pau Brasil, de 1922, marco do modernismo, Oswald de Andrade proclama: “Uma língua sem arcaísmos, sem erudição. Natural e neológica. 
A contribuição milionária de todos os erros”. O modernismo, aliás, do qual NELSON RODRIGUES é um prócer, é isso: a incorporação do atual, do cotidiano, da fala da rua. Nessa linha Nelson explicava o porquê da modernidade da peça “Vestido de noiva” .   
'Meu teatro trouxe a língua da rua, do botequim para os palcos até então lisboetas do Brasil'
 Isso, no nosso mundo neolatino, vem pelo menos desde São Jerônimo, com a sua Vulgata, a primeira versão em latim da Bíblia, que usa o falar cotidiano de Roma e das províncias latinizadas, pois ninguém entendia o latim culto, elegante, de Cícero. Nesse processo, o bom Jerônimo é obrigado a criar, na língua escrita, cerca de 600 neologismos no livro que seria base não apenas da propagação da fé cristã (antes coisa de doutor) como de todas as línguas neolatinas. A Bíblia de Gutenberg é uma versão revisada da Vulgata. Ou seja, as línguas neolatinas — como o português — já são degenerescências do latim, são latim “errado”, línguas do vulgo, da gentalha, da ralé. O que não é nenhuma vergonha, muito pelo contrário: é motivo de orgulho! Pelo menos para o velho BILAC, o Olavo: o homem que de trato tão refinado com a língua invejava o ourives quando escrevia:
'Última flor do Lácio, inculta e bela'
 Dissecando o citadíssimo verso de Bilac: “Última”, a mais jovem (rebelde?) ou mais remota (a mais distante do Lácio, rumo ao Ocidente, a partir de Portugal e derraman-- s e literalmente no mar); “flor do Lácio”, a filha bastarda, degenerada, do latim; “inculta”, popular, torta, vadia por natureza; e, mesmo assim, ou pour cause, bela. Como uma língua definida dessa forma pelo seu esteta supremo, severo devoto do Parnaso, pode almejar ou mesmo admitir ser dominada apenas por uma norma culta? Nessa esteira, os paradoxos vão desfilando com um jeito de piada, num cordel surrealista.
Machado de Assis, por exemplo, usa “o pessoal gostaram”. Está na norma culta, mas, por soar errado, não faltarão pretensiosos desavisados achando que é erro. A literatura e a música brasileiras sempre trataram essa questão de maneira rica e divertida, com toda a delicadeza que a língua portuguesa, nossa pátria (no grande achado de Pessoa), merece. Nessa seara, o Brasil já resolveu esse dilema entre a norma culta e as variantes há tempos. NOEL ROSA ensinou:
 'Mulata vou contá as minhas mágoa/Meu amô não tem erre/Mas é amô debaixo d’água'
  As críticas ao livro e a reação às críticas ressuscitaram uma dicotomia certo-errado que já estava enterrada também pela pedagogia: há 150 anos praticamente toda ela, de Piaget a Freinet ou Paulo Freire, gira em torno da ideia de que não se podem desprezar os saberes de cada indivíduo que entra em sala de aula. O analfabeto no caixa do armazém pode não ter ido à escola, não saber escrever, mas ele se comunica. E seguramente sabe matemática. Isso não pode ser desprezado, como se ele estivesse começando do zero. E certas particularidades de seu raciocínio adquirido no armazém serão,  eventualmente, também aprendidas pelo professor e compartilhadas. PAULO FREIRE, o educador por excelência, dizia:
'Um mestre é aquela pessoa que, de repente, aprende'
O debate que envolve, além dos jornais e dos linguistas, também juristas, políticos e artistas ampliou-se, mas deixou a impressão de que se resumiu aos espectros esquerdadireita/ pobres-ricos/elites-povo, noção já superada há muito tempo pelos mais aguerridos defensores da língua. O modernista de direita MANUEL BANDEIRA, por exemplo, exalta todas as palavras, “sobretudo os barbarismos universais”, enquanto o modernista de esquerda OSWALD DE ANDRADE obser va:
'Dê-me um cigarro, diz a gramática/do professor e do aluno/e do mulato sabido/mas o bom negro e o bom branco/da nação brasileira/dizem todos os dias/deixa disso,camarada/me dá um cigarro'
O grande CARTOLA foi até ridicularizado quando escreveu, no lindo samba “Fiz por você o que pude”:
'Perdoa me a comparação/Mas fiz uma transfusão/Eis que Jesus me premeia/Surge outro compositor/Jovem de grande valor/Com o mesmo sangue na veia'
O premeia, no lugar do convencional “premia”, era um artifício do poeta para a rima com veia, claro. Mas o compositor que escrevia versos como “queixo-me às rosas” (com todas as ênclises e crases devidas) foi contrariado pelos cultos de plantão. Ele insistia, contudo, no premeia, dizendo que estava certo, e assim gravou e consagrou a música, para deboche geral em relação ao “erro”. E não é que mais tarde estudiosos encontram o premeia em texto de ninguém menos do que PADRE ANTÓNIO VIEIRA, um dos maiores criadores da língua portuguesa?
'Assim castiga, ou premeia Deus' 
Na última mudança ortográfica a palavra consta com essa variante, por ser usada em vários países que falam a língua de Camões. Ou seja, tentaram usar a norma culta para mudar Cartola, mas seu verso sobreviveu, corroborado por Vieira e pela língua falada. É claro que a norma culta confere poder e deve ser “distribuída” democraticamente para que todos tenham as mesmas oportunidades. Mas, a depender de como isso é feito e de o quanto se têm em conta os diversos falares, os efeitos colaterais podem ser graves e derivar para uma Síndrome de LADY KATE, personagem interpretada pela genial Katiuscia Canoro: na certeza de “falar errado”, ela tenta falar certo e acaba misturando os canais. O resultado é o bordão:
'Grana eu tenho, só me falta-me o glamour'
As histórias “bem contadas” que o cineasta Eduardo Coutinho foi buscar no sertão paraibano para fazer “O fim e o princípio” (2005) são narrativas de velhos analfabetos, bem construídas e até cultas (no sentido não só de seguir regras análogas à norma, mas da harmonia advinda da invenção poética da tradição oral). Além disso, a não consciência do erro e o isolamento dos meios urbanos “educados” produzem, nesses indivíduos, uma verve e uma segurança que afetam a expressividade
do discurso. Em contrapartida, tem muito bacharel por aí (ops, Drummond, tinha uma pedra no meio do caminho...), que, do alto de seu nível superior, fala português confuso, escreve errado e tem dificuldades de compreender um raciocínio mais complexo. Alheio a isso, desde o século retrasado o povo brasileiro resiste a fazer o plural aparentemente correto para o “real” quando ele é moeda. Antes era o mil “réis”, e agora o dez real, o cem real, assim mesmo, sem concordância. O real, para o brasileiro, só é plural quando significa novas realidades possíveis, realidades alternativas, reais, enfim.
Afinal, como dizia GUIMARÃES ROSA, que inventou o que já fora desinventado,
'O senhor sabe: pão ou pães é uma questão de opiniães'
Nessa discussão puramente ideológica, desconfiou-se de que o MEC quisesse impingir aos pobres alunos uma gramática, digamos, lulista. O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva decerto é um grande e inventivo orador, não há dúvida, e na sua fala até resgata vocábulos populares esquecidos, como maracutaia. Isso, é claro, não dá direito a Lula de menosprezar a educação formal, como fez (e faz) diversas vezes. Mas seus “erros” de português também não dão aos seus detratores o argumento para desqualificação do seu discurso. O medo do vulgar e do errado mesmo quando ele é porta-voz de boa expressão tem na anedota que segue uma mostra de como pode atingir e devastar mesmo o texto correto. Pois consta que uma das esposas de VINICIUS DE MORAIS implicou com os “beijinhos” e os “peixinhos” de “Chega de saudade”, achando-os por demais pedestres. “Pô, Vinicius, beijinho e peixinho é demais...” Um dos maiores sonetistas da língua brasileira se deu ao trabalho de responder à patrulha:
— Ah, deixa de ser sofisticada...
Resultado: nasceu uma peça revolucionária, das mais radicais da arte brasileira, transformadora de toda a forma de fazer letra e música, sem deixar de ser extremamente popular, no sentido da criação e no da difusão. A vulgar “Chega de saudade” é hoje um clássico. Vejam que coisa!




segunda-feira, 2 de abril de 2012

Aldeia de pixels e papel entrevista de R.K. Logan a Prosa e Verso (O GLOBO) 31 /03/2012

Discípulo de McLuhan, físico canadense diz que cérebro humano precisa do impresso

Parceiro de Marshall McLuhan, físico, linguista, e especialista em comunicação, Robert K. Logan está no Rio para lançar seu mais recente livro, “Que é informação?” (Contraponto/Editora PUC, tradução de Adriana Braga), e para uma série de aulas e conferências em universidades e escolas. Quase meio século depois de seu mestre elaborar o conceito de aldeia global e a ideia de que o meio é a mensagem, O GLOBO conversou com Logan sobre este tempo em que vivemos imersos em nuvens de dados. Ele prega a ideia de que o cérebro humano é viciado em tinta e papel e fala da criação do smartbook, dispositivo que alia o impresso ao virtual.

O senhor diz que o cérebro humano é dependente de tinta e papel e que a inteligência, o estudo e o aprendizado não sobrevivem sem o impresso. Essa afirmação se baseia em quê? 
ROBERT K. LOGAN: Em estudos neurofisiológicos que comparam a leitura de textos em papel com a leitura numa tela eletronicamente configurada. No texto em papel ela é restrita ao hemisfério esquerdo, que interpreta a linguagem. Já a leitura na tela, por melhor que seja a resolução, envolve, antes, o lado direito, necessário para montar o mosaico de pixels que forma a imagem de cada letra, e, depois, o lado esquerdo, num vaivém: um lado converte pixels em letras, outro transforma letras em palavras e frases. A quantidade de tráfego através do corpo caloso é enorme e dificulta a concentração e a imersão, além de tornar a leitura mais cansativa. Não é à toa que escritores que escrevem em computador preferem imprimir e ler no papel na hora de fazer a revisão. 


É só isso, então? A coisa se resume a um fator neurofisiológico? Não, isso é um só aspecto. Outro é que a tecnologia do livro encadernado, até hoje, é a única que permite um manuseio sem o emperramento imposto pela rolagem. 


Mas o senhor é um entusiasta da internet e até a saúda como uma nova linguagem. Explique o paradoxo. Não há paradoxo. O que defendo é uma experiência conjugada no uso da internet e do papel. Por exemplo, imprimir textos e hiperlinks mais relevantes é uma prática seletiva útil, que permite que se atinjam com mais eficiência os objetivos. Ao mesmo tempo, estou participando da criação de um conceito: o dos smartbooks. É um livro impresso que contém um código que, inserido na rede, abre portas para sua cópia digital, links associados exclusivos e listas de referências. 


Como vê o fim da Enciclopédia Britânica impressa, sem uma versão online do mesmo porte? 
Não vejo drama. A Wikipedia é muito melhor que a Britânica. Tem muito mais links e aberturas para outras acepções do assunto através do hipertexto. 


Sério? E as bobagens, distorções, exacerbações que se encontram na Wikipedia? 
Ora, o que não falta na Britânica são bobagens. Essa coisa de a Britânica ser o centro referencial cosmológico da cultura era um mito. Por exemplo, não existia na Britânica um verbete sobre mim e sobre meu trabalho. Na Wikipedia há uma entrada espontânea! (Risos) 


O leitor médio hoje é capaz de contextualizar? 

Sim, claro. O hiperlink permite isso. Desde que ele tenha discernimento e uma educação à altura. 


Mas o problema não estaria aí? O leitor atual, dividido entre várias fontes, consegue se educar? 

A educação é um assunto à parte. E o que precisa haver, como eu disse, é uma boa correlação entre o impresso e o digital. Estamos numa época em que essa ideia apressada do fim do livro impresso está em transição. Ela foi criada por aqueles que acharam que aconteceria com os livros o que aconteceu com os CDs. Ora, não perceberam que a cognição auditiva é bem diferente da experiência da leitura, que exige um vínculo muito maior com o suporte, o objeto. 


Muitos estudiosos previram que o poder ficaria concentrado nas mãos de quem fosse o dono da informação. Quem são, hoje, esses donos? Hoje, todos são donos da informação, e aquele funil de editores deixou de privar milhões de pessoas de se expressarem, muitas vezes coletivamente. Os provedores, é claro, lucram com isso e têm acesso a toda a informação, mas este é um outro aspecto da discussão. 


Em seu livro o senhor trata do conceito de informação como se fosse um organismo que se replica por meio das linguagens e da cultura da mesma maneira pela qual as estruturas moleculares orgânicas propagam seus padrões de organização. Para além da esfera acadêmica, como o público percebe o conceito de informação? Não percebe. O público, com exceção da academia, é como um peixe na água: ele não capta conceito de fundo, ele apenas recebe, processa, transforma, recria e transmite a informação através de seus vários meios, sempre influenciado, cognitivamente, pelas características dos mesmos e pelo ambiente, adicionando significados que estão para além da previsibilidade e que pertencem ao domínio da incerteza. O que contraria completamente a noção que tem predominado, derivada das ideias de Shannon, de que informação é apenas transmissão direta e passiva de signos arbitrários por um receptor. 


Isso significa que a informação é orgânica? 
Não, ao contrário do que sonham os próceres da inteligência artificial e da realidade virtual: sem a interação com o ambiente não se produz vida humana. A vida está nos processos biológicos, e a mente é um estágio que resulta da soma do cérebro com a linguagem. O que esta soma produz é uma instância puramente conceitual, simbólica, que é transmitida como um organismo vivo apenas em sua dinâmica, por meio de padrões de replicação imateriais. 


Apesar de afirmar essa especificidade do homem enquanto produtor de significados, na sua teoria, o senhor se refere aos indivíduos por meio de palavras como instinto, cérebro, mente, moléculas, organização, emergência, processo. Mas vocábulos como amor, emoção e sentimento estão ausentes das 250 páginas. Por quê? 
Estão mesmo ausentes? Tem certeza? Bom... não sei, na verdade isso me surpreende. Não posso sequer explicar. Estou chocado. Vou ter que pensar sobre isso e já me vem uma série de palpites sobre como conectar o conceito de informação ao de amor. Você me deu uma excelente ideia para uma próxima edição do livro, ou um novo estudo... 


* Esta entrevista foi publicada no vespertino para tablet “O Globo a Mais” 

Da fala ao grunhido’, de Ferreira Gullar FSP 26 de março de 2012

Desconfio que, depois de desfrutar durante quase toda a vida da fama de rebelde, estou sendo tido, por certa gente, como conservador e reacionário. Não ligo para isso e até me divirto, lembrando a célebre frase de Millôr Fernandes, segundo o qual “todo mundo começa Rimbaud e acaba Olegário Mariano”.Divirto-me porque sei que a coisa é mais complicada do que parece e, fiel ao que sempre fui, não aceito nada sem antes pesar e examinar. Hoje é comum ser a favor de tudo o que, ontem, era contestado. Por exemplo, quando ser de esquerda dava cadeia, só alguns poucos assumiam essa posição; já agora, quando dá até emprego, todo mundo se diz de esquerda.De minha parte, pouco se me dá se o que afirmo merece essa ou aquela qualificação, pois o que me importa é se é correto e verdadeiro. Posso estar errado ou certo, claro, mas não por conveniência. Está, portanto, implícito que não me considero dono da verdade, que nem sempre tenho razão porque há questões complexas demais para meu entendimento. Por isso, às vezes, se não concordo, fico em dúvida, a me perguntar se estou certo ou não.Cito um exemplo. Outro dia, ouvi um professor de português afirmar que, em matéria de idioma, não existe certo nem errado, ou seja, tudo está certo. Tanto faz dizer “nós vamos” como “nós vai”.Ouço isso e penso: que sujeito bacana, tão modesto que é capaz de sugerir que seu saber de nada vale. Mas logo me indago: será que ele pensa isso mesmo ou está posando de bacana, de avançadinho?E se faço essa pergunta é porque me parece incongruente alguém cuja profissão é ensinar o idioma afirmar que não há erros. Se está certo dizer “dois mais dois é cinco”, então a regra gramatical, que determina a concordância do verbo com o sujeito, não vale. E, se não vale essa nem nenhuma outra ─ uma vez que tudo está certo ─, não há por que ensinar a língua.A conclusão inevitável é que o professor deveria mudar de profissão porque, se acredita que as regras não valem, não há o que ensinar.Mas esse vale-tudo é só no campo do idioma, não se adota nos demais campos do conhecimento. Não vejo um professor de medicina afirmando que a tuberculose não é doença, mas um modo diferente de saúde, e que o melhor para o pulmão é fumar charutos.É verdade que ninguém morre por falar errado, mas, certamente, dizendo “nós vai” e desconhecendo as normas da língua, nunca entrará para a universidade, como entrou o nosso professor.Devo concluir que gente pobre tem mesmo que falar errado, não estudar, não conhecer ciência e literatura? Ou isso é uma espécie de democratismo que confunde opinião crítica com preconceito?As minorias, que eram injustamente discriminadas no passado, agora estão acima do bem e do mal. Discordar disso é preconceituoso e reacionário.E, assim como para essa gente avançada não existe certo nem errado, não posso estranhar que a locutora da televisão diga “as milhares de pessoas” ou “estudou sobre as questões” ou “debateu sobre as alternativas” em vez de “os milhares de pessoas”, “estudou as questões” e “debateu as alternativas”.A palavra “sobre” virou uma mania dos locutores de televisão, que a usam como regência de todos os verbos e em todas as ocasiões imagináveis.Sei muito bem que a língua muda com o passar do tempo e que, por isso mesmo, o português de hoje não é igual ao de Camões e nem mesmo ao de Machado de Assis, bem mais próximo de nós.Uma coisa, porém, é usar certas palavras com significados diferentes, construir frases de outro modo ou mudar a regência de certos verbos. Coisa muito distinta é falar contra a lógica natural do idioma ou simplesmente cometer erros gramaticais primários.Mas a impressão que tenho é de que estou malhando em ferro frio. De que adianta escrever essas coisas que escrevo aqui se a televisão continuará a difundir a fala errada cem vezes por hora para milhões de telespectadores?Pode o leitor alegar que a época é outra, mais dinâmica, e que a globalização tende a misturar as línguas como nunca ocorreu antes. Isso de falar correto é coisa velha, e o que importa é que as pessoas se entendam, ainda que apenas grunhindo.

quinta-feira, 29 de março de 2012

Organizando a biblioteca segundo o leitor

Relatar uma experiência que compreende, acima de tudo, observações do cotidiano em uma biblioteca sobre abordagens dos leitores, quanto à informação, é apontar os elementos de cultura técnica e do senso comum em conflito e demonstrar o quanto este pode se refletir nos processos informativos de modo a desconstruir categorias fixas e “imutáveis” herdadas da tradição e que não dão conta das necessidades do usuário, porque não respeita seus modos de abordagem, a sua linguagem e não atende a suas necessidades. Trata-se uma nova versão da máxima parafraseando a Constituição: todo poder emana do leitor e em nome dele será exercido.
Em primeiro lugar, sob aspecto organizacional, deve ser admitido como lei essa sim, a única a ser imutável, o acesso direto. A biblioteca deve ser explorada pelas crianças à exaustão. E In-loco! Só assim acontecerão as descobertas. Quantas vezes, percorrendo as estantes, elas não descobrem algo melhor do que o que estão procurando? A função nas bibliotecas escolares e públicas é de promover a familiarização, o contato, a experiência da leitura, sem restrições de acesso.
Tradicionalmente o que temos? Um sistema em que o meio (seu conteúdo impresso ou não) – o catálogo - determina a forma pela qual a informação estará disponibilizada. Assim basta que se apliquem as regras e está tudo resolvido. Invertemos. O leitor é quem vai ditar como a informação será disponibilizada. Antes de “arrumar e catalogar”, vamos observar como o leitor pergunta.Uma biblioteca deve estar preparada para dar respostas, como um oráculo. E as respostas se encontram ao se entender sua estrutura organizacional e sua visão de conjunto, mesmo quando não existam catálogos. Os catálogos, no que se refere a recuperar informação, ao contrário do que se preconiza, devem ser à imagem e semelhança do seu leitor, que não é uma entidade técnica, abstrata ou burocrática. Em minha biblioteca, precisava reunir tudo que tinha sobre Brasil. Ou criava uma categoria “Brasil”(981?) ou os livros ficariam dispersos fisicamente em suas classes política, história, geografia etc,.e o usuário dependeria do catálogo. Insisto que o uso do catálogo é importante, mas que o usuário não deve depender dele e se furtar à experiência prazeirosa e salutar do "bom vizinho"(1). O catálogo não é o espelho do desejo. Não há solução técnica para tal caso. Apenas o bom senso, uma estante e uma legenda: Brasil –de 00 a 900. Contudo, não se pode pura e simplesmente dispensar um conhecimento acumulado, quando ele serve para nortear e não obstaculizar os passos do leitor, como normalmente acontece nas bibliotecas que valorizam a complexidade técnica. A forma como está organizado o acesso por si só pode garantir uma praticidade que permite ao usuário achar a informação com relativa rapidez, mesmo quando esta é específica. É preciso criar uma estrutura partir dessas procuras, e relacioná-las ao todo a que hipoteticamente pertence. Por exemplo, uma procura pelo assunto “vacinas” , por que estará em medicina (610) e não em saúde pública (classe 300?) Saúde compreende não só categorias médicas, mas bem-estar psicológico e modo de vida (classes que estão distantes na tabela de classificação)! Então é preciso estarmos atentos às inúmeras facetas para reunirmos assuntos que aparentemente “deveriam” estar hierarquicamente dispostos como manda a disciplina, mas que na realidade não estão. Mas o que difere essa organização das chamadas tradicionais? Ela se pretende menos especializada. Assim, cada classe não será um corpo de conhecimentos fechado. São os grupos temáticos que devem prevalecer sobre as classes. Para, por exemplo, como queria Dewey, “entendermos o mundo à nossa volta”, temos as ciências da natureza (evolução,paleontologia, biologia), temos também a geopolítica e as ciências sociais juntas na mesma estante, o que em uma organização tradicional seria não menos que um absurdo. Mas não são, são um grande passo para a autonomia do leitor das tecnalidades hoje impostas.
Pode-se criar, sem nenhum desdouro para a classe biblioteconômica, uma espécie de “self-service” na Biblioteca, e assim dar a maior autonomia possível ao leitor.

(1) Aby Warburg criou um sistema assim para consulentes de sua biblioteca. Ver Manguel. Biblioteca  à noite . São Paulo: Cia das Letras, 2006

Pierre Bayard Como falar dos livros que não lemos? André Miranda


À primeira vista, o livro "Como falar dos livros que não lemos?" parece um guia de humor. Com esse nome curioso, capítulos intitulados “Não ter vergonha” e “Situações de discurso com o ser amado” e uma tabela de abreviações em que são sugeridas as classificações LD, LF, LO e LE — livros desconhecido, folheado, de que ouvi falar e esquecido —, o ensaio que a Editora Objetiva acaba de lançar no Brasil pode aparentar ser mais uma obra para impressionar os amigos. Mas não é nada disso, garante seu autor, o professor de literatura francês Pierre Bayard. — Há uma compreensão equivocada de que meu objetivo é desestimular as pessoas a lerem. É o contrário. Eu sou um fã dos livros. Mas eu quero que as pessoas tenham uma boa experiência com a leitura. Na escola, a gente aprende a ler somente de uma maneira. Os professores falam dos livros importantes e dizem que você precisa lê-los do início ao fim, da primeira palavra até a última. 
O que eu defendo é a liberdade na leitura — explicou Bayard, por telefone a O GLOBO.(19/01/2008)
Mais do que uma defesa sobre a liberdade, o livro de Bayard é um ensaio extremamente bem fundamentado sobre todo o processo de leitura — ou, como o autor prefere, o processo intermediário que existe entre a leitura e a não-leitura. Parece confuso, mas no texto do professor francês tudo fica extremamente agradável e simples. A partir de obras de outros escritores, ele disseca as situações pelas quais passa um leitor, de diversas origens e formações. Através de um obituário escrito pelo poeta e filósofo francês Paul Valéry na morte de Marcel Proust, por exemplo, Bayard explica que é possível falar sobre a obra de alguém mesmo sem tê-la lido por completo. Em outro momento, ele trata do enredo de "O nome da rosa”, de Umberto Eco, no qual o monge Guilherme de Baskerville investiga assassinatos cometidos num monastério. As mortes envolvem um dos volumes da “Poética”, de Aristóteles, obra no qual ele faz uma análise do riso. O detalhe que interessa a Bayard é que Baskerville deduz os crimes sem nunca ter lido a obra de Aristóteles. — Mesmo alguns livros que não lemos fazem parte de nossas vidas. São os livros sobre os quais nós ouvimos falar. Eu não devo ser capaz de dizer exatamente o que eu li sobre Hegel, Kant, Freud ou Proust. É claro que eu li muita coisas desses autores, mas é que eu também li muitos livros que falam sobre esses autores. É difícil diferenciar uma coisa da outra. É estreito o limite entre ler e não ler. Quantas pessoas podem dizer que leram da primeira linha até a última linha, da capa até a contracapa, a “Bíblia”? — questiona Bayard.
Já no capítulo “Situações de discurso diante de um professor”, o professor francês analisa o estudo da antropóloga americana Laura Bohannan com os tiv, um grupo étnico da África Ocidental. Nele, Laura relata a experiência que teve ao, oralmente, contar a alguns deles a história de “Hamlet”, de Shakespeare. O resultado foi que os tiv questionaram várias passagens do livro, por não entenderem, por exemplo, o significado de um fantasma ou não acharem estranho que a viúva Gertrudes se casasse pouquíssimo tempo depois da morte do marido.
Desconhecidos, folheados ou esquecidos... 

Bayard desenvolve, então, um conceito que ele chama de “livro interior”, uma espécie de filtro que varia de cultura para cultura e que determinaria a recepção de novos textos por parte do leitor. — Eu acho que alguns livros importantes não o são para mim ou para você. Isso não significa que é para se sentir culpado caso você não se saia bem lendo alguma coisa. Eu digo para os meus estudantes que eu não fui bem sucedido em ler “Ulisses”, do Joyce. Talvez não fosse o livro para mim. E não me sinto culpado em não ter lido “Ulisses” e explicar do que ele se trata — diz.
Sobre os livros lidos e esquecidos, Bayard cita o ensaísta francês do século XVI Michel de Montaigne. Em seus “Ensaios”, Montaigne diz que, depois de ler um livro, detalhes “pequenos” como o autor e as palavras eram esquecidos prontamente. Até mesmo seus próprios escritos se perderiam na memória com o passar dos anos.
Bayard afirma que Montaigne teria conseguido apagar qualquer limite entre leitura e não-leitura. O autor diz que a “confissão” do ensaísta nada mais é do que um resumo da relação que todas as pessoas têm com os livros. “Não guardamos em nossa memórias livros homogêneos, mas fragmentos arrancados de leituras parciais”, escreve ele. — Existe uma situação intermediária entre apenas ler ou não-ler um livro. Os intelectuais conhecem bem essa situação porque estão acostumados a folhear os livros, a começar uma leitura e não terminá-la. Mas muitas pessoas não entendem isso — afirma Bayard. — Quando alguém vai ao meu apartamento, vê aquela quantidade imensa de livros e pergunta se eu li todos, eu francamente digo que não. A questão é que eu vivo com os meus livros, eles são minhas companhias, meus amigos. Quando eu tenho problemas, eu peço a eles a solução, mas não leio todos.
Dessa biblioteca, o professor francês tem dois volumes que podem resumir bem o espírito de liberdade pregado em "Como falar dos livros que não lemos?"(208 páginas). Um é a resposta dele à pergunta “qual o melhor livro que você não leu?”. Já o outro é uma confissão sobre um autor brasileiro.
— “Ulisses” é o livro que não li e mais gostei. Eu tenho certeza que é um ótimo livro. Há muitas garotas que são interessantes, mas que podem não ser para mim e podem ser para você. A lógica é a mesma — brinca o simpático Bayard. — Dos autores brasileiros, eu adoro Machado de Assis. O “Dom Casmurro” eu realmente li. E até o reli. Reler é também uma ótima forma de ler um livro. É importante ser um leitor criativo.
 Entrevista e comentários de André Miranda

Duas mães reclamando

Ao circular numa livraria que freqüento, ouvi o curto diálogo:

-          Absurdo, sabe quanto foi só um  livro do meu filho, do ensino médio? Oitenta e nove reais, um livro! – seguido da observação da outra:
-          Só a lista escolar de um filho foi de setecentos reais! 
Apenas essas duas linhas de diálogo  são o bastante para reflexão. A tal ‘volta às aulas” é o carnaval das editoras, a lágrima das mães e a enxaqueca dos livreiros. Fui livreira e nessa época,o Lexotan não bastava para tanto estresse. Sabíamos que havia um desconto do editor para o livreiro, variava de 20 a 30%, desconto que nos permitia  uma “margem” que porém se dissolvia em uma simples equação: o livreiro tinha 40 dias para liquidar a fatura à editora, enquanto tínha que vender ao consumidor em até seis parcelas, ou seja, seis meses. Tudo seria perfeito seria se vendêssemos todo o estoque, mas não. Era uma espécie de loteria. Muitos títulos se esgotavam e o consumidor, que sempre tem razão, não fechava a lista que estivesse incompleta. E tome prejuízo. Mas são águas passadas. Falávamos dos preços. Não é preciso ser grande especialista para entender esses preços ultra-engordados. A razão disso chama-se “compras governamentais”. O governo precisa de grandes descontos para fechar as concorrências de compra dos livros de seus programas de distribuição MEC/MinC. A lógica é essa: se o editor colocar um precinho camarada num livro, digamos, 20 reais no máximo, para o governo, vai vender ao mercado privado pela margenzinha que repassa aos livreiros, mas se ele elevar (não quero usar o termo superfaturar)o preço para o governo, esse preço já vai engordurado para o livreiro e, logo, para consumidor final. Daí o diálogo acima das duas mães. Cantilena de todo ano. Sabe-se, desde criancinha, que tudo, tudo que se vende para o governo ,e não se pode excluir livros, é cobrado por muitas vezes o valor real. E La Nave vá...  Fazer o que, muitos perguntam. Há várias coisas: auditorias para ver fiscalizar esses preços, isso no nível prático. No nível gerencial, é mudança radical na política de livros didáticos. Livros didáticos, pode-se ter, mas baratos, muito baratos, baratos de não se ter pena  de usar, jogar fora e reciclar o papel depois para se produzir novos didáticos. A política de “passe adiante seu livro didático” justifica edições luxuosas  desses livros que, afinal, são manuais de instrução,temporários por natureza, encarecendo-as e bem mais até do que os livros comuns que tem temporalidade maior. Que livro comum custa R$ 89? Não é verdade que passar o livro adiante  garanta durabilidade a esse livro. Guardem o luxo das edições para livros informativos e literários. A ciência muda, a tecnologia muda, o conhecimento evolui, os programas pedagógicos também, e tudo conspira para que o didático usado  se transforme num transtorno para as  famílias, as escolas, as bibliotecas e o meio-ambiente,  a permanecer essa política. 

Essas são as primeiras  reflexões produzidas apenas por duas mães reclamando.  

Biblioteca essa invisível

O trabalho de organização de uma biblioteca é invisível. Desafio a quem me desmentir. Muito administrador e muito do público em geral desconhecem o quanto se despende de trabalho até um livro chegar à estante. No entanto, um bibliotecário diligente precisa ter um pouco de formiga e um pouco de cigarra. Unir esforço e arte. Essa arte se compõe de feeling no que se refere à recepção das obras pelo leitor, que vai às bibliotecas (gerais) movido por suas necessidades e impulsos.  Se há invisibilidade quanto ao esforço, não há quanto à constatação de que toda biblioteca geral, por menor que seja, compreende a memória coletiva, o que em última análise é a "biblioteca coletiva", conceito de Pierre Bayard (1) onde o acervo é formado não dos livros que todos leram, mas dos que todos conhecem. Como os contos de fada, o folclore, as biografias, os clássicos e best-sellers famosos e laureados internacionalmente. No entanto, o que fazer quanto à enorme produção de novos livros que chegam às prateleiras todos os dias, querendo se "eternizar"? O que fazer para incorporá-los a essa memória?. Diz ainda Bayard que esquecemos o que lemos, daí a necessidade de cuidarmos de que a memória esteja disponivel. Sabemos também que, na proporção de dez para um, muitos livros jamais serão lidos e jamais incorporados à biblioteca coletiva. Mas como distinguir? A maneira clássica tem sido a passagem do livro pela crítica e pelas academias, mas nem sempre o que é apreciado na crítica e  academias é apreciado pelo público; então resta ao dedicado bibliotecário observar a "vida" do livro pelo uso na biblioteca. Só aberto em algum momento, e,  mesmo que apenas folheado,uma obra cai no imaginário e pode vir a ser potencialmente um título a se incorporar à biblioteca coletiva. Dessa forma, havemos de concluir que a invisibilidade é apenas um silêncio das inteligências que murmuram e que, expostos à luz do público, se farão ouvir para a posteridade.

(1) Pierre Bayard. Veja Por que falamos dos livros que não lemos?

Desescolarizar a leitura

Desescolarizar a leitura, como assim? – Perguntarão,e com razão,  leitores, professores e  interessados.  Como, se a  relação da escola com a leitura é a mais próxima  e constante entre todos os seus agentes. Isso significa não ler? 
Como ficarão jovens e crianças sem a obrigação de ler? 
Vamos por partes. Ninguém “deixará de ler” , nem os livros serão “varridos” do cotidiano das crianças. Pelo contrário, o que pretendo com a idéia de desescolarizar a leitura é principalmente  introduzi-la no cotidiano, sem o estigma  de que leitura é para o mestre recurso de aprendizado, e para o aluno “coisa de escola”.
Nos anos, e não poucos, em  que tenho convivido com crianças e adolescentes na biblioteca, tenho tentado desvincular o livro, principalmente literário, da noção de dever e tarefa, mas na maioria das vezes  tenho frustradas minhas  intenções em virtude da nova prática e da crença de que a leitura resolve "por ela mesma" as deficiências de vocabulário, da sintaxe e desenvolvimento da expressão. Estou segura de que não resolve, tanto quanto estou segura de que bons alunos têm melhor desempenho em leitura. Contraditório? Parece...
Nesse tempo me foi dada  a oportunidade de  perceber os alunos que têm bom desempenho geral e, ao mesmo tempo, são bons leitores, não foi porque  a obrigatoriedade ou a oferta da leitura foi “eficiente”; foi justamente porque adquiriram autonomia de escolha dos livros, aliada ao fato de   que    o que funcionou para esses alunos, foi  não só a existência e oferta  da literatura, mas por esta se aliar aos mecanismos de aprendizado que nada  têm a ver com o “ter que ler”, mas com o domínio da língua e as linguagens a ela incorporadas.
A leitura como recurso pedagógico se constrói da necessidade de consulta de conteúdos informativos  e do treinamento em análise, síntese, reconhecimento dos discursos, gêneros e suportes de informação, e realmente é necessário que  lhes sejam apresentados e identificados,  dentro de uma programação adequada à escolaridade.
Identificados os formatos e suportes, os jovens não  necessitam necessariamente terem seus conteúdos “sabidos”(decorados) , exceto quanto  ao indefectível currículo obrigatório, que obviamente necessita ser lido, – podem ser apenas  folheados, e consultados os seus enunciados. Com esse domínio, fariam provas sempre com consulta (e seria o fim da "bendita" cola).
A literatura para todas as idades  e faixas  deve se situar entre essa intertextualldade. A intertextualidade aplicada ao aprendizado tem a função de agregar competências. Uma das dificuldades de agregar competência está no fato de que o suporte único que os alunos têm acesso na escola – o livro didático – compromete as de manusear, tocar e identificar não só diferentes suportes de informação: livros, revistas, jornais, como os diferentes gêneros de discurso, uma vez que esse livro pretende  fazer  a mediação entre os leitores e outros tipos de documentos, substituindo-os.  Há profissionais que ressaltam o fato do aluno ter, em toda a sua vida escolar, acesso somente ao livro didático, o que é de se lamentar. Não se entra aqui no mérito da qualidade desses livros, há muitos que são bons; o que se discute é a internalização do conceito de livro como propriedade da vida escolar. Quando ouço as pessoas, tanto profissionais como leigas falarem em “paradidáticos” me pergunto se isso não dissemina um conceito difuso de livro em todas as suas particularidades: livro literário, informativo, científico e técnico, livro prático etc.. Isso equivale a dizer que se induz a pensar “livro” como se fossem de duas categorias: didático e não didático, num reducionismo tipo “existem os livros para ensino e os demais” – paradidáticos ou vulgarmente conhecidos como “extra-classe”. Como se as pessoas não carregassem o livro para suas vidas. Ou como se a única referência à leitura se resumisse à escola. Sabemos que, em diferentes momentos históricos, diferentes instituições se fizeram agentes da leitura: as aristocracias, a igreja e depois a escola.   Mas, desde a descoberta da imprensa, o conhecimento se pulveriza e se dissemina no seio da sociedade, e mais ainda, a partir da Revolução industrial quando um mercado de leitores foi necessário não só para qualificação para o consumo, como para mão de obra para indústria. Sabemos que a qualificação para formação profissional  se deu  em proporção muito superior à para o mercado e, particularmente, o mercado editorial. Ou seja, há mais leitores para uso do livro de instrução do que o consumidor voluntário e autônomo do livro, de qualquer livro. O mercado editorial então juntou seus esforços no processo educativo, e, particularmente no Brasil, o fez de maneira que o livro dito “paradidático” vem carregado de bulas de uso: roteiros de leitura, exercícios, suplementos, enfim uma parafernália no sentido de mediar a falta de hábito desse jovem em manusear, conhecer e reconhecer, e diferenciar formatos e suportes de informação, e dando a conotação de que todo livro serve a fins escolares.
Falávamos de desescolarizar a leitura como uma proposta no sentido de liberar o livro de um estigma. O de que leitura é domínio da área de formação educacional e não recurso para a vida  do indivíduo. O livro na e para a  educação é parte da cultura e não o livro na e  para  a cultura é parte da educação.
Hoje, a agravar esse quadro restritivo da leitura, o livro vem perdendo para outras formas que privilegiam o imagético e a mensagem curta, e ninguém pode apostar mais na expressão na sua forma tradicional, oral e escrita. Apesar de concordar com Humberto Eco que nada supera  a portabilidade do livro, o acesso à informação por mídia digital cada vez mais reduz o campo da mídia em papel, que hoje necessariamente se obriga a uma versão online, como acontece hoje com os principais jornais no mundo. (1)
Dirão alguns: há texto na Internet; sem dúvida, porém, pelas características dessa mídia, algumas mudanças são visíveis quanto ao modo de ler: a verticalidade, que evoca um predomínio da parte pelo todo, uma vez que o livro, ao contrário da leitura na tela, apresenta-se mais como o todo pela parte, através do ato de folhear; outra:  a necessidade de que se escreva de forma sucinta e direta no computador, o que faz com que essa exigência influencie textos em papel; na tendência  da editoração na forma de apresentação gráfica mais leve, corpo de letra maiores, fora o fato notável de que as referências em um determinado texto estão imediatamente  acessíveis, pelo hipertexto, essa sim uma  facilidade  com largas vantagens em relação à tradicional.
Por outro lado, a confiabilidade e autoridade de textos na Internet  deixam a desejar. Com os prós e os contras, essa é uma realidade textual com que nos defrontamos e sobre a qual deve-se estabelecer um debate entre seus diferentes atores.
Pesquisas mais recentes divulgadas mostram que há no Brasil um crescimento do uso do livro, de uma meia de 1, 8 livros/ano para 3,7 livros ano por habitante, mas não se divulga sob que bases  são feitos esses estudos. Se sob influência da escolarização, se sob influência de mercado, com a mídia agregada, se sob influência das políticas públicas que, eventualmente, podem fazer desses resultados uma conclusão ilusória.
Fato é que o que se vê é o seguinte quadro: mal o educando aprende as primeiras letras, forma as primeiras frases, e lê os primeiros livrinhos, defronta-se com facilidades que nunca terá, se apenas contar com o suporte em papel, daí tendendo desde cedo a dispensá-lo, assim que se vir livre da obrigatoriedade de ler e "correr"para o computador.
Não que se possa dispensar   o computador, essa realidade não tem volta, mas o impasse criado faz recrudescer as forças impositivas e, logo, restritivas da leitura, porque são forças que defendem a “facção do livro”- hoje mais as políticas de leitura do que as salas de aula - mas que, ao mesmo tempo, não podem vetar ou obstaculizar as tecnologias da informação, indissociáveis da vida moderna.
Não há repostas prontas, mas há dúvidas cada vez mais numerosas e instigantes a clamar que os envolvidos se debrucem sobre elas e, certamente, o reforço à escolarização da leitura significa um retrocesso ao tempo em que  se lia apenas nas bibliotecas dos mosteiros e nas rodas aristocráticas.

 (1) Ler a esse respeito Beckett.SuperMedia: save the jornalism so it can save the world (William-Bleckwell) e Sant´Anna. O destino do jornal (Record) ambos recém-lançados.