Desescolarizar a leitura, como assim? – Perguntarão,e com razão, leitores, professores e interessados. Como, se a relação da escola com a leitura é a mais próxima e constante entre todos os seus agentes. Isso significa não ler?
Como ficarão jovens e crianças sem a obrigação de ler?
Vamos por partes. Ninguém “deixará de ler” , nem os livros serão “varridos” do cotidiano das crianças. Pelo contrário, o que pretendo com a idéia de desescolarizar a leitura é principalmente introduzi-la no cotidiano, sem o estigma de que leitura é para o mestre recurso de aprendizado, e para o aluno “coisa de escola”.
Nos anos, e não poucos, em que tenho convivido com crianças e adolescentes na biblioteca, tenho tentado desvincular o livro, principalmente literário, da noção de dever e tarefa, mas na maioria das vezes tenho frustradas minhas intenções em virtude da nova prática e da crença de que a leitura resolve "por ela mesma" as deficiências de vocabulário, da sintaxe e desenvolvimento da expressão. Estou segura de que não resolve, tanto quanto estou segura de que bons alunos têm melhor desempenho em leitura. Contraditório? Parece...
Nesse tempo me foi dada a oportunidade de perceber os alunos que têm bom desempenho geral e, ao mesmo tempo, são bons leitores, não foi porque a obrigatoriedade ou a oferta da leitura foi “eficiente”; foi justamente porque adquiriram autonomia de escolha dos livros, aliada ao fato de que o que funcionou para esses alunos, foi não só a existência e oferta da literatura, mas por esta se aliar aos mecanismos de aprendizado que nada têm a ver com o “ter que ler”, mas com o domínio da língua e as linguagens a ela incorporadas.
A leitura como recurso pedagógico se constrói da necessidade de consulta de conteúdos informativos e do treinamento em análise, síntese, reconhecimento dos discursos, gêneros e suportes de informação, e realmente é necessário que lhes sejam apresentados e identificados, dentro de uma programação adequada à escolaridade.
Identificados os formatos e suportes, os jovens não necessitam necessariamente terem seus conteúdos “sabidos”(decorados) , exceto quanto ao indefectível currículo obrigatório, que obviamente necessita ser lido, – podem ser apenas folheados, e consultados os seus enunciados. Com esse domínio, fariam provas sempre com consulta (e seria o fim da "bendita" cola).
A literatura para todas as idades e faixas deve se situar entre essa intertextualldade. A intertextualidade aplicada ao aprendizado tem a função de agregar competências. Uma das dificuldades de agregar competência está no fato de que o suporte único que os alunos têm acesso na escola – o livro didático – compromete as de manusear, tocar e identificar não só diferentes suportes de informação: livros, revistas, jornais, como os diferentes gêneros de discurso, uma vez que esse livro pretende fazer a mediação entre os leitores e outros tipos de documentos, substituindo-os. Há profissionais que ressaltam o fato do aluno ter, em toda a sua vida escolar, acesso somente ao livro didático, o que é de se lamentar. Não se entra aqui no mérito da qualidade desses livros, há muitos que são bons; o que se discute é a internalização do conceito de livro como propriedade da vida escolar. Quando ouço as pessoas, tanto profissionais como leigas falarem em “paradidáticos” me pergunto se isso não dissemina um conceito difuso de livro em todas as suas particularidades: livro literário, informativo, científico e técnico, livro prático etc.. Isso equivale a dizer que se induz a pensar “livro” como se fossem de duas categorias: didático e não didático, num reducionismo tipo “existem os livros para ensino e os demais” – paradidáticos ou vulgarmente conhecidos como “extra-classe”. Como se as pessoas não carregassem o livro para suas vidas. Ou como se a única referência à leitura se resumisse à escola. Sabemos que, em diferentes momentos históricos, diferentes instituições se fizeram agentes da leitura: as aristocracias, a igreja e depois a escola. Mas, desde a descoberta da imprensa, o conhecimento se pulveriza e se dissemina no seio da sociedade, e mais ainda, a partir da Revolução industrial quando um mercado de leitores foi necessário não só para qualificação para o consumo, como para mão de obra para indústria. Sabemos que a qualificação para formação profissional se deu em proporção muito superior à para o mercado e, particularmente, o mercado editorial. Ou seja, há mais leitores para uso do livro de instrução do que o consumidor voluntário e autônomo do livro, de qualquer livro. O mercado editorial então juntou seus esforços no processo educativo, e, particularmente no Brasil, o fez de maneira que o livro dito “paradidático” vem carregado de bulas de uso: roteiros de leitura, exercícios, suplementos, enfim uma parafernália no sentido de mediar a falta de hábito desse jovem em manusear, conhecer e reconhecer, e diferenciar formatos e suportes de informação, e dando a conotação de que todo livro serve a fins escolares.
Falávamos de desescolarizar a leitura como uma proposta no sentido de liberar o livro de um estigma. O de que leitura é domínio da área de formação educacional e não recurso para a vida do indivíduo. O livro na e para a educação é parte da cultura e não o livro na e para a cultura é parte da educação.
Hoje, a agravar esse quadro restritivo da leitura, o livro vem perdendo para outras formas que privilegiam o imagético e a mensagem curta, e ninguém pode apostar mais na expressão na sua forma tradicional, oral e escrita. Apesar de concordar com Humberto Eco que nada supera a portabilidade do livro, o acesso à informação por mídia digital cada vez mais reduz o campo da mídia em papel, que hoje necessariamente se obriga a uma versão online, como acontece hoje com os principais jornais no mundo. (1)
Dirão alguns: há texto na Internet; sem dúvida, porém, pelas características dessa mídia, algumas mudanças são visíveis quanto ao modo de ler: a verticalidade, que evoca um predomínio da parte pelo todo, uma vez que o livro, ao contrário da leitura na tela, apresenta-se mais como o todo pela parte, através do ato de folhear; outra: a necessidade de que se escreva de forma sucinta e direta no computador, o que faz com que essa exigência influencie textos em papel; na tendência da editoração na forma de apresentação gráfica mais leve, corpo de letra maiores, fora o fato notável de que as referências em um determinado texto estão imediatamente acessíveis, pelo hipertexto, essa sim uma facilidade com largas vantagens em relação à tradicional.
Por outro lado, a confiabilidade e autoridade de textos na Internet deixam a desejar. Com os prós e os contras, essa é uma realidade textual com que nos defrontamos e sobre a qual deve-se estabelecer um debate entre seus diferentes atores.
Pesquisas mais recentes divulgadas mostram que há no Brasil um crescimento do uso do livro, de uma meia de 1, 8 livros/ano para 3,7 livros ano por habitante, mas não se divulga sob que bases são feitos esses estudos. Se sob influência da escolarização, se sob influência de mercado, com a mídia agregada, se sob influência das políticas públicas que, eventualmente, podem fazer desses resultados uma conclusão ilusória.
Fato é que o que se vê é o seguinte quadro: mal o educando aprende as primeiras letras, forma as primeiras frases, e lê os primeiros livrinhos, defronta-se com facilidades que nunca terá, se apenas contar com o suporte em papel, daí tendendo desde cedo a dispensá-lo, assim que se vir livre da obrigatoriedade de ler e "correr"para o computador.
Não que se possa dispensar o computador, essa realidade não tem volta, mas o impasse criado faz recrudescer as forças impositivas e, logo, restritivas da leitura, porque são forças que defendem a “facção do livro”- hoje mais as políticas de leitura do que as salas de aula - mas que, ao mesmo tempo, não podem vetar ou obstaculizar as tecnologias da informação, indissociáveis da vida moderna.
Não há repostas prontas, mas há dúvidas cada vez mais numerosas e instigantes a clamar que os envolvidos se debrucem sobre elas e, certamente, o reforço à escolarização da leitura significa um retrocesso ao tempo em que se lia apenas nas bibliotecas dos mosteiros e nas rodas aristocráticas.
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