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terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Biblioteca em ambiente escolar: cultura

Cultura aqui é um conjunto de discursos e práticas de educadores e outros profissionais com relação à biblioteca e à leitura em ambiente escolar, e muitos dos quais viraram paradigmas. Vamos a eles:

“Silêncio, você está numa biblioteca!”. Este chamo de paradigma “Biblioteca Nacional”. Ao contrário da BN, na biblioteca em ambiente escolar, as crianças podem circular, como nas livrarias, mexer  nos livros, escolher e falar normalmente no recinto, claro que dentro de certa ordem, mas as regras de respeito não são regras exclusivas “de biblioteca”, são regras de convivência em qualquer lugar. Biblioteca escolar não é igreja
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“Conhecer como funciona a Biblioteca para ser leitor de Biblioteca no futuro”. Chamo este de paradigma burocrático. Nada mais falso. Nunca minha condição de leitora foi afetada por “saber usar” bibliotecas, mas pelo meu interesse pelo livro ou pela pesquisa.  Biblioteca e Escola são meios e não fins. O importante é a criança saber, sim, que a Biblioteca  é uma das mais importantes fontes de informação, não a única, de que ela dispõe. É claro que quanto mais autônomo for o leitor, melhor. Mas cabe ao bibliotecário orientá-lo sempre. Para isso ele é, espera-se, o profissional mais habilitado.
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“Se não se comportar, vai para a Biblioteca!” . Cultura da masmorra . Biblioteca não é lugar de castigo. Ler também nunca  deve ser castigo. Nem escrever.

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Não tem nada para fazer? Então vá para a Biblioteca!” Cultura do depósito. Biblioteca não é depósito. Nem de livros, nem de crianças indisciplinadas.

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“Um livro grande é sempre melhor para as crianças”: Paradigma do volume .Metamorfose de kafka. O Velho e o Mar de Heminguay e O alienista de Machado de Assis são pequenos volumes e grandes jóias  e assim muitos outros. E livros grandes que são grandes livros, como Guerra e Paz, de Tolstoi e Crime e Castigo, de Dostoievski. Uma crença corrente é de que quanto maior volume, mais se permite assimilar vocabulário. Permite, se o jovem se envolve na leitura. Está aí o Harry Potter que não nos deixa mentir. Se o leitor não se envolve, nada, nada mesmo, acontece.
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“As crianças têm preguiça de ler” : Paradigma da preguiça. Quase sempre, a “preguiça” são dificuldades e deficiências de leitura, problemas visuais e emocionais, timidez. Preguiça dá até em adultos. Antes houvesse mais preguiça do que dificuldades!
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“Quem muito lê, escreve bem”: Muita leitura igual à boa escrita. Não obrigatoria, nem automaticamente. Escrever bem vem da prática mesma da escrita. Mas escrever muito, como na leitura, não é em quantidade (muitas linhas ou páginas), mas em frequência. Ler habitualmente e com envolvimento, sem dúvida, agrega mais vocabulário, informação e correção ortográfica à escrita. Escrever bem, porém, depende mais do pensamento articulado, de domínio do discurso (comunicar bem) do que de “somar vocabulário”.

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“Literatura para nota” ou para ensino do português. Paradigma Didático. É exploração da Literatura como exercício. Se quiserem matar o gosto de alguém para textos literários, façam isso. E pior que é prática comum. A desculpa é o “vestibular”. Os textos didáticos e textos auxiliares (gramáticas) servem para ajudar a estruturar o entendimento da língua . Mas literatura não, literatura não “ensina” a língua; deixem literatura só  para contar e ouvir, ler em voz alta ou em roda, unindo, se for o caso, prazer à leitura (inclusive dramatização e canto), ou em silêncio, individualmente. Deixem por favor a literatura em paz, que ela produz por si só seus frutos! Não a “adotem”, ela não é órfã ! E sabe onde ela está? Ali mesmo na biblioteca. Ofereçam-na, exponham-na! Os pequenos que a descubram. Quantas vezes crianças vieram a mim buscar um livro porque o viram citado na novela ou porque um coleguinha leu. Confiem nelas!
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“As crianças devem ler só os “famosos, grandes e renomados”. Paradigma da Autoridade. Filho do paradigma acima. Que bom se elas lessem com prazer todos os famosos e renomados, mas há entre esses, acreditem se quiser, alguns bem infelizes em suas experiências de escrever para jovens e, por outra, autores bem desconhecidos que são sucesso entre eles. É preciso considerar sempre a capacitação, a escolha e a recepção da criança aos autores.É um direito dela. Os professores têm tudo para incitar  crianças a amarem bons livros. Basta que os tenham lido, e os apreciado de verdade.

"O livro não pode sair e não pode estragar " Paradigma do livro-patrimônio. No sentido físico, o livro é apenas um suporte. Há bibliotecas que inventariam o acervo, que deveria ser uma prática só da Biblioteca Nacional. Mas nas demais, mesmo públicas, a função de guardiã não deve superar a de difusoras da Arte e do Conhecimento.  Em escolas e bibliotecas infanto-juvenis, há a se considerar, porque é inevitável, um certo grau de destrutividade e perda de livros, o qual se “trata” através do processo educativo. Salvo os livros de consulta e os  esgotados, em geral, qualquer título é recuperável. Deve-se estimular o cuidado, mas não se deve engessar a circulação de uma coleção, com medo de que o exemplar se perca ou estrague.  O prejuízo do não-uso  é muito maior. Livro que não circula é inútil.
“Computadores, televisão e quadrinhos atrapalham a leitura”. Preconceito  puro. E superado. Mas existem as resistências. As mídias devem somar e têm essa propriedade. Além do mais, não há mais como não contar com elas, no dia a dia da criança e do jovem. O melhor é tirar partido.  

        Não se devia permitir que jovens consumissem literatura “como jiló”. É crime de lesa-espírito!
                                                               

                                                      

O erro de Descartes: erro?

O erro de Descartes de Antonio Damasio havia algum tempo aguardava na fila para ser lido, e eis que resolvi enfrentar o tijolão. Peguei um sábado insosso e estabeleci a meta de lê-lo todo, mas não foi tanto sacrifício assim, pulei um caudaloso número de páginas que descreviam o sistema neural, anatômica e fisiologicamente, e não vi utilidade em reter esses dados tão minuciosos e chatíssimos. Damasio procura, com eles, e não sem ajuda de extensa bibliografia, embasar sua argumentação que consistia em mostrar que, ao contrário do que o mestre francês dizia, corpo (cérebro) e mente são entidades inseparáveis. Nem precisava de tanta firula. O argumento de Descartes (1596-1650) em primeiro lugar é filosófico, e reinvindica o princípio da dúvida como a base científica do conhecimento - cogito -penso, logo existo deve ser lido como duvido, logo existo. Ora tal primado era uma ameaça ao dogma da Igreja, em pleno período da Inquisição. Descartes foi sagaz a ponto de criar uma "metafísica" onde a entidade mente (ou razão) não tinha materialidade, ou seja era "espírito" e "alma", logo, "coisas do Reino de Deus", o que por pouco lhe permitiu escapar da fogueira em que ardera um pouco antes Giordano Bruno (1600) e do processo imputado pelo Santo Ofício a outro defensor das ideias que contrapunham-se ao dogma: Galileu Galilei (1642). Uma feliz constatação que  o próprio Damásio faz, atualizando as premissas de Descartes para os dias de hoje é a de que o cérebro funcionaria como um hardware, enquanto a mente como um software! Ponto para o mestre francês! E para fechar o raciocínio do neurocientista italiano, no posfácio ele confessa que, apesar de muitas descobertas a respeito de cérebro e mente, ainda pouco se sabe ainda para que se desvende seus mecanismos e suas relações.
Poderíamos concluir então que, se foi possível avançar em Ciência, isso se deveu, em muito, ao princípio simples e irretorquível que Descartes fundou: o da Razão com sua propriedade de pensar e duvidar. Erro? Coisa de Deus? Façam as suas escolhas.

Até tu, Paulo Coelho?


Foi noticiado que "O Alquimista", "O Demônio e a Srta.Prym" e "Veronika Decide Morrer" do Paulo Coelho serão "adotados" em escolas. Caiu o último bastião da resistência ao ganho fácil em literatura? É um grande negócio a adoção por escolas, já que o processo uniformiza a leitura - todos os alunos têm que ler os mesmos títulos- e os livros passam a ser adquiridos para turmas, essa compra, portanto é não só vultosa, principalmente quando apoiada pelas compras governamentais para a rede pública, como também impositiva, em consequência da escolarização da literatura. E o que é pior, os livros vem com "bula", ou seja os tenebrosos guias de leitura com o fim de "ajudar" o professor e os jovens a "interpretar" um conteúdo. Desconfio que o benefício atinja mais o professor do que o aluno. Tal fato atinge em cheio a autonomia do leitor, já que a literatura tem caráter absolutamente eletivo, ou seja, a leitura literária é fruto de escolhas pessoais. Quando a escola adota determinada obra literária, o que ela está fazendo é interferindo no direito de escolha, fundamental ao amadurecimento do leitor.
Lembro-me que em certa época dizia-se "criança não tem querer" e é justamente o que essa política educacional faz. Os adolescentes deviam refletir e argumentar com professores e administradores sobre essa questão. E simplesmente ter o direito de não querer nenhum autor imposto. Uma coisa é incentivar, divulgando o Sr. Coelho, a Sra Rowling e outros best-sellers; outra é impor. Adotar é impor.
É assim que Svetlan Todorov diz que a literatura está em perigo. Uma atitude saudável seria ter em alguns exemplares na bibliotecas para os que se interessarem pegarem por empréstimo.
A outra questão: livro não é remédio para vir com bula, que são esses guias didáticos. Essas bulas, em que o autor ou editor induz a uma "compreensão" de um texto, dando um sentido "objetivo" (igual para todos) a uma obra, nada menos que violenta o princípio básico de que o leitor, espontânea e criativamente, interage com um livro, de acordo com as suas concepções e seu universo próprio. A produção de sentido é pessoal e intransferível.
A discussão da subjetividade de cada leitor é que enriquece uma obra. Narrativa literária não é ciência exata. Portanto não precisa de bula nem de explicação.
Torço sinceramente que essa empreitada não dê certo, porque sob a aparência de incentivo à leitura, o que prevalece são interesses comerciais.

A culpa é das briófitas

Vejo-me diante de um aluno aflito de  6º ano (antiga 5ª série )  me apontando para o caderno, e mostrando-me, mal sabendo pronunciar, o tema sobre o qual devia discorrer, e que eu mesma li com dificuldade: briófitas e pterodófitas. Imediatamente perguntei-lhe se ele tinha alguma idéia, qualquer uma, do que se tratava, ele negou; insisti, não seriam espécies de animais? Novamente negou saber. O professor não deu nenhuma deixa? Não, segundo ele. Professor de que?  Arguí. Ciências. Hum... Então resolvi ir por partes. Mais pela sonoridade do que por intuição, tais nomes me remeteram aos livros didáticos da série correspondente, e especificamente Seres Vivos. Nada. Mais por intuição do que por conhecimento de causa, me perguntei – e por que raios esse menino precisa saber o que são briófitas e pterodófitas? – e mais que depressa socorri-me da Internet com a resposta pronta de tio Google, as famosas e charmosas briófitas e pterodófitas eram plantas, coisa que  do alto de meus mais de seis décadas de existência, jamais suspeitaria. Perguntei-me de novo, será que as pessoas podem morrer em paz sem saber o que são briófitas e pterodófitas? Não seria questão do Ibope fazer uma pesquisa nacional a respeito?
Enfim, localizei o livrinho que tinha os nomes científicos, e entreguei, solidária na ignorância, ao jovem aflito, que certamente terá seu problema resolvido, copiará feliz os verbetes e entregará ao mestre, ganhará algum ponto, e estarão todos gratificados com a perspectiva  de que no futuro este jovem seja um brilhante biólogo!
Uma pergunta leva a outra: mas como anda mesmo a educação no país? Com respeito ao sistema público no Brasil, está publicado que quase metade dos alunos mal compreendem um texto, mal escrevem, fazem apenas operações matemáticas simples,  e isso, até o final do primeiro ciclo (4º) ano. Aplicado a esse caso, um menino de 6º, que seria o primeiro em que são introduzidas as disciplinas, tem-se de cara que enfrentar todas as nomenclaturas, e, assim mesmo, apavorado, como se elas  fossem Et´s. E pensando bem são, se pensarmos no conjunto de inutilidades existentes nesses currículos.
Uma cena me veio logo, a da reunião dos formuladores dos currículos, em alguma sala do planalto, um deles, mãos às costas, rodando a sala e solenemente  argumentando: “não, as briófitas e as pterodófitas não podem ficar de fora. Inconcebível que  um aluno que se forma no fundamental não saiba o que sejam briófitas e pterodófitas”, e se dá a votação do programa. Briófitas e pterodófitas vencem por maioria.
Bom, se não se sabe efetivamente as causas dos resultados esquálidos do ensino no país, mas pelo menos a gente pode, por ora, botar a culpa nas briófitas e pterodófitas.

Em tempo: Exemplo de briófitas são musgos; de pterodófitas, nossas belas e banalíssimas samambaias!

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Jogando a criança fora com a água da bacia I

Tive a oportunidade de ver meu trabalho aprovado no Congresso Internacional de Leitura em Havana de 25  a 29 de outubro de 2011. O que apresento aqui são comentários, pois o original foi bastante extenso e mais técnico. Minha exposição, intitulada Programas de Incentivo à Leitura: dúvidas e inquietações, pontua-se em três tópicos, que, do meu ponto-de-vista, merecem revisão das políticas. 1. Capacitação x Incentivo (Aprendizado e práticas de leitura) 2. O lugar da leitura literária (a Literatura deve se impor?) e 3. Ambiente e sociedade como propulsores da Leitura (que estratégias as políticas devem tomar em relação à crescente informatização da sociedade?).

Primeira parte: Capacitação e Incentivo (Aprendizado e Práticas de Leitura)

A um simples olhar, é nítida nas políticas de Leitura, a demarcação de duas fronteiras entre aprendizado e incentivo, uma dicotomia que vem a se fazer mais nítida, à medida que os órgãos ministeriais vinculados à Cultura e pertinentes ao livro e a Leitura, chamam para si a tarefa das práticas de leitura, uma vez acordado, entre  seus  agentes  e os da Educação, que há impossibilidade crônica ("interdição") do professor  em levá-las adiante. Tal estado de coisas é um lamentável consenso. À primeira vista parece razoável : a Educação cuida do aprendizado da leitura e a Cultura das práticas. Mas não é tão simples assim. Ocorre que, ao defender que o "as práticas, e não o aprendizado voltado para o cotidiano é que possibilitam  o leitor participar de maneira ativa da sociedade", tal postulado só seria verdade inteira, na medida que esse leitorado estivesse no domínio do letramento, ou seja que ele tivesse desenvolvido as etapas de decodificação, compreensão e produção escrita autonomamente. Ou dito de outra forma, que já estivesse vencendo, ou vencido, a linha divisória do analfabetismo funcional, condição que o ensino fundamental no país não tem  conduzido satisfatoriamente, conforme testes nacionais e internacionais de proficiência em leitura.  Defender práticas de leitura como "formação", sem essa sustentação, é como construir um edifício sem estrutura, ou como prefere o povo, "enxugar gelo". As diretrizes  políticas exageram quando afirmam que "o contato com materiais de leitura  possibilita o leitor se tornar autor de sua própria existência". Sim, mas nunca  se não estão suficientemente preparados para esse protagonismo. Não será o processo inverso - quanto mais preparado para os materiais de leitura, mais vivo será o interesse desse leitor? O fato de que o leitor necessita estar preparado para esses materiais não é científico, é constatável no cotidiano, por qualquer observador, como tenho feito há dez anos. O acesso ao livro, claro, repercute no interesse e no desejo, porém não diretamente na formação. Não podemos falar com honestidade no fato de brasileiro ler pouco atribuindo à falta de acesso ao livro no Brasil. Salvo em algumas aldeias e grotões; há, e já há algum tempo, inúmeros programas oficiais distributivos de grande porte, - e seria ocioso citá-los - voltados para escola e bibliotecas, fora as Organizações Não Governamentais atuando para esse fim. Daí  constatar-se facilmente  que o que aparenta ser "desinteresse" e "desestímulo" é tão somente falta de qualificação que a leitura requer. Recorrendo ao argumento prosaico: posso adorar automóveis ou pianos, mas como vou dominá-los, se não aprendo a utilizá-los? Fazer de conta  que leitura não é uma tecnologia é como jogar fora a água da bacia com a criança dentro, ou jogar fora a criança com a água da bacia?  Dizia Rubem Alves muito bem, "leitura sem dominar a técnica é um sofrimento". Foi simplesmente essa ideia, para muitos talvez óbvia, mas para mim simples, que tentei passar na minha exposição. Devemos sim, tentar trazer a nós , através da ação cultural, sem perder de vista os miúdos, aqueles leitores que estamos perdendo dia a dia, as verdadeiras "ovelhas desgarradas" por outros motivos, e muitos há, para não ler. Agora, os que não estão capacitados é dever moral e urgente da Educação promover : afinal, não é a esses que é negado o direito de ler, mas o de  saber ler para ser autor de sua existência.