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terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Até tu, Paulo Coelho?


Foi noticiado que "O Alquimista", "O Demônio e a Srta.Prym" e "Veronika Decide Morrer" do Paulo Coelho serão "adotados" em escolas. Caiu o último bastião da resistência ao ganho fácil em literatura? É um grande negócio a adoção por escolas, já que o processo uniformiza a leitura - todos os alunos têm que ler os mesmos títulos- e os livros passam a ser adquiridos para turmas, essa compra, portanto é não só vultosa, principalmente quando apoiada pelas compras governamentais para a rede pública, como também impositiva, em consequência da escolarização da literatura. E o que é pior, os livros vem com "bula", ou seja os tenebrosos guias de leitura com o fim de "ajudar" o professor e os jovens a "interpretar" um conteúdo. Desconfio que o benefício atinja mais o professor do que o aluno. Tal fato atinge em cheio a autonomia do leitor, já que a literatura tem caráter absolutamente eletivo, ou seja, a leitura literária é fruto de escolhas pessoais. Quando a escola adota determinada obra literária, o que ela está fazendo é interferindo no direito de escolha, fundamental ao amadurecimento do leitor.
Lembro-me que em certa época dizia-se "criança não tem querer" e é justamente o que essa política educacional faz. Os adolescentes deviam refletir e argumentar com professores e administradores sobre essa questão. E simplesmente ter o direito de não querer nenhum autor imposto. Uma coisa é incentivar, divulgando o Sr. Coelho, a Sra Rowling e outros best-sellers; outra é impor. Adotar é impor.
É assim que Svetlan Todorov diz que a literatura está em perigo. Uma atitude saudável seria ter em alguns exemplares na bibliotecas para os que se interessarem pegarem por empréstimo.
A outra questão: livro não é remédio para vir com bula, que são esses guias didáticos. Essas bulas, em que o autor ou editor induz a uma "compreensão" de um texto, dando um sentido "objetivo" (igual para todos) a uma obra, nada menos que violenta o princípio básico de que o leitor, espontânea e criativamente, interage com um livro, de acordo com as suas concepções e seu universo próprio. A produção de sentido é pessoal e intransferível.
A discussão da subjetividade de cada leitor é que enriquece uma obra. Narrativa literária não é ciência exata. Portanto não precisa de bula nem de explicação.
Torço sinceramente que essa empreitada não dê certo, porque sob a aparência de incentivo à leitura, o que prevalece são interesses comerciais.

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