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terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

A culpa é das briófitas

Vejo-me diante de um aluno aflito de  6º ano (antiga 5ª série )  me apontando para o caderno, e mostrando-me, mal sabendo pronunciar, o tema sobre o qual devia discorrer, e que eu mesma li com dificuldade: briófitas e pterodófitas. Imediatamente perguntei-lhe se ele tinha alguma idéia, qualquer uma, do que se tratava, ele negou; insisti, não seriam espécies de animais? Novamente negou saber. O professor não deu nenhuma deixa? Não, segundo ele. Professor de que?  Arguí. Ciências. Hum... Então resolvi ir por partes. Mais pela sonoridade do que por intuição, tais nomes me remeteram aos livros didáticos da série correspondente, e especificamente Seres Vivos. Nada. Mais por intuição do que por conhecimento de causa, me perguntei – e por que raios esse menino precisa saber o que são briófitas e pterodófitas? – e mais que depressa socorri-me da Internet com a resposta pronta de tio Google, as famosas e charmosas briófitas e pterodófitas eram plantas, coisa que  do alto de meus mais de seis décadas de existência, jamais suspeitaria. Perguntei-me de novo, será que as pessoas podem morrer em paz sem saber o que são briófitas e pterodófitas? Não seria questão do Ibope fazer uma pesquisa nacional a respeito?
Enfim, localizei o livrinho que tinha os nomes científicos, e entreguei, solidária na ignorância, ao jovem aflito, que certamente terá seu problema resolvido, copiará feliz os verbetes e entregará ao mestre, ganhará algum ponto, e estarão todos gratificados com a perspectiva  de que no futuro este jovem seja um brilhante biólogo!
Uma pergunta leva a outra: mas como anda mesmo a educação no país? Com respeito ao sistema público no Brasil, está publicado que quase metade dos alunos mal compreendem um texto, mal escrevem, fazem apenas operações matemáticas simples,  e isso, até o final do primeiro ciclo (4º) ano. Aplicado a esse caso, um menino de 6º, que seria o primeiro em que são introduzidas as disciplinas, tem-se de cara que enfrentar todas as nomenclaturas, e, assim mesmo, apavorado, como se elas  fossem Et´s. E pensando bem são, se pensarmos no conjunto de inutilidades existentes nesses currículos.
Uma cena me veio logo, a da reunião dos formuladores dos currículos, em alguma sala do planalto, um deles, mãos às costas, rodando a sala e solenemente  argumentando: “não, as briófitas e as pterodófitas não podem ficar de fora. Inconcebível que  um aluno que se forma no fundamental não saiba o que sejam briófitas e pterodófitas”, e se dá a votação do programa. Briófitas e pterodófitas vencem por maioria.
Bom, se não se sabe efetivamente as causas dos resultados esquálidos do ensino no país, mas pelo menos a gente pode, por ora, botar a culpa nas briófitas e pterodófitas.

Em tempo: Exemplo de briófitas são musgos; de pterodófitas, nossas belas e banalíssimas samambaias!

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