Total de visualizações de página

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Recortes de Beatriz Sarlo


 Beatriz Sarlo, renomada intelectual argentina, com quem só tive contato por fontes e indicações diversas, me surpreende, por um lado pela sincronicidade de alguns aspectos de seu pensamento com ideias que tenho defendido; por outro, pela provocação que coloca em ebulição, não intencional, mas implicitamente o papel do bibliotecário e, intencional e explicitamente, o do professor no mundo de hoje. Minhas intervenções estão entre chaves e negrito. Alguns trechos abaixo:
  
“Velhos  centros tradicionais de interação – bibliotecas populares, comitês , clubes de bairro – deixaram de ser os lugares  onde, no passado, definiam-se perfis de identidade  e sentido comunitário”(87) [Em muitos casos, interesses políticos se apropriaram deles, ou via institucional, ou por influência de grupos privados. Nós, bibliotecários e professores, como parte desses centros tradicionais, talvez devêssemos refletir sobre o nosso papel nesse contexto] ]

“Os mais jovens não encontram [ mais] nesses espaços [“Lugares ainda dominados pela Cultura da Letra [grifo 1] e pela relação individual"] nenhuma das marcas culturais que interessaram a outros jovens, trinta ou quarenta anos atrás. [... tal afirmação é verdadeira. O que se tenta hoje é reduzir-se o discurso, ou sumariamente, como na obra infantil de Monteiro Lobato e outros "clássicos" ou com adaptações, muitas de qualidade duvidosa]  Hoje a cultura juvenil é (...) a mais dinâmica das culturas populares e não populares e (...) mais do que pelo pertencimento social [desterritorialização], as experiências culturais se recortam pelas pirâmides das idades”, [no entanto] o único obstáculo eficaz contra a homogeneização cultural são as desigualdades econômicas – os desejos tendem assemelhar-se, mas sua realização não” (107) [embora a homogeneição cultural possa se dar, parcialmente, via equipamentos públicos, não há apropriação privada por esses jovens (não têm computador em casa), são "clientela" da inclusão digital, que como toda política pública tem sido entendida como acesso, enquanto acesso é só parte da inclusão; como no ensino, é necessário qualidade de acesso, com a ressalva de que a satisfação por ter acesso não é a mesma que a de ter posse] 
“Por um lado, os letrados que detinham o monopólio da legitimidade cultural, hoje se vêem desafiados por novos mecanismos de legitimidade. Não podem os letrados mais legislar sobre o gosto, [grifo 2] [Verdade. isso tem a ver com, por exemplo, uma política de leitura voltada para a Literatura e minimizando o impacto das tecnologias de informação no cotidiano dos jovens e apontando o livro na sua expressão tradicional como a "salvação"contra a homogeneização midiática] porque outros centros legitimadores ["menos nobres"] ditam a moda: a cultura audiovisual escolhe seus próprios juízes e reconhece a força do número, uma vez que seu negócio está na ampliação incessante de público, mais do que na distinção elitista de grupos”. (108)     [ também em nome de uma excelência formadora da literatura está havendo, já há algum tempo, uma aproximação do livro com formas midiáticas de promoção, via produção cultural, ludicismo e espetacularização]" Seja como for, as culturas populares desvaneceram-se; [Creio que Sarlo se refere ao amálgama de influências; isso se torna claro na expressão musical. Por outro lado, por um processo que as literaturas ditas étnicas tentam resgatar, as manifestações tradicionais acabam se folclorizando, fixando-se em calendários culturais e regionais  como as culturas de origem negra e indígena, e nesse aspecto, bibliotecas,museus instituições de ensino e setores de produção editorial se consolidam também como centros tradicionais]; também esfumaçaram os perfis estáveis que distinguiam as elites do poder.[Nossos ídolos seculares não são mais os mesmos, tendem a ser artistas "celebridades"vulgares e esportistas, enquanto os intelectuais, políticos e cientistas brilham para e entre seus pares] (...) A universalização do consumo material e a cobertura total do território pela rede audiovisual  não acabam com as diferenças sociais, mas diluem algumas manifestações subordinadas a essas diferenças (109)” [cultura e indústria fake, irradiação da moda e linguagem televisiva etc.]
“O caso das línguas é particularmente significativa. Durante décadas [talvez séculos] a língua correta era o ideal [grifo 3] da escola – hoje desaparecido(...). [Esse é o ideal da cultura letrada, legitimado pela escola, porém sem sucesso, porque em vez de empoderar o discurso do estudante, coloca-o numa postura de contemplação e admiração - oh como é bela a arte, oh que belas letras! -, e não o engaja na produção, mas na reprodução do discurso letrado, sem sentido e defasado para ele.Outra ressalva a fazer é a de que, para o sucesso ou para o insucesso, a reprodução da cultura letrada permanece como uma  ferramenta de inclusão no mercado] A vitalidade e a criação lingüística passam por caminhos completamente estranhos à cultura letrada; a homogeneização lingüística desbasta  as diferenças de região , classe ou profissão.(...)" [Objeção minha: não diria "estranheza", mas de rejeição, uma vez que a cultura letrada é encasulada dentro de cânones para resistir, não se deixar penetrar, ou garantir sua sobrevivência]
“Os símbolos de mercado, igualmente acessíveis a todos, tendem a desvanecer os símbolos da velha dominação. (...) Não geram o mesmo tipo de diferenciação  incontornável [tanto faz ] o usufruto de uma biblioteca familiar ou a posse de uma motocicleta japonesa. (...) Aquilo que era cultura letrada – então a única cultura legítima – já não organiza a hierarquia das culturas e subculturas. [Confinam-se nos centros tradicionais de irradiação de cultura, porém ainda dão as cartas quanto à inclusão social] Os letrados diante disso lamentam o naufrágio de valores  sobre os quais estava baseada sua hegemonia ; (...) desconfiam  das [e temem]as promessas do presente; os segundos, neopopulistas, (...) acreditam fervorosamente nelas. [Tanto os tradicionais quanto os pós-modernos pecam por acreditar no espontaneísmo, os primeiros via leitura e os segundos via tecnologias] (...) " Primeiro, os apocalípticos, velhos legitimistas, defensores irredutíveis das modalidades culturais prévias à organização audiovisual; segundo os integrados (2), defensores assalariados vocacionais das indústrias audiovisuais e sua nova legitimidade cultural. Na maioria dos países da América Latina, a escola pública é hoje o lugar da pobreza simbólica, onde professores, currículos e meios materiais concorrem com [eu diria perdem para]os meios de comunicação, q são [também]de acesso gratuito e abarcam os territórios nacionais [e internacionais] (...) A cultura letrada está em  falência no mundo – os norte-americanos vêem com inveja os resultados de exames de crianças japonesas submetidas a regime de samurai para evitar o declínio do desempenho; a escola francesa lamenta a queda dos padrões (...); multiplicam-se os exemplos mais tardios das capacidades elementares [vejam os estudos de defasagem em todos os níveis no Brasil, que repetidas vezes apontei como obstáculo À leitura(112); vivemos uma crise de alfabetização e, com ela, da cultura da letra, embora os otimistas [integrados] celebrem as habilidades adquiridas com o zapping e os videogames(...) Afirma-se que a escola não estava estruturada para advento da cultura audiovisual, nem as estruturas educacionais foram modificadas, com velocidade, às transformações dos últimos anos. (...) Não se trata apenas da questão de instrumento técnico e sim de mutação cultural (113): a escola poderia beneficiar-se das habilidades adquiridas no videogame, dos conteúdos da mídia, da velocidade das respostas à superposições de imagens; (...) [E importante]pode-se questionar se tais habilidades são suficientes  como ferramentas para saberes ligados à palavra, ao raciocínio lógico e matemático, à expressão lingüística e a argumentação [retórica], indispensáveis ao [exercício] no mundo do trabalho, tecnologia e política.[grifo 6] [Essa capacitação não se dá nem na cultura dita letrada hoje. Essa é a essência de toda dificuldade em relação ao produto ou bem cultural livro de que tenho falado] A rapidez da leitura [nos meios audiovisuais] não habilita para a capacidade intelectual de longa concentração [grifo 7] (...), nem preparam para o manejo de sofisticadíssimos programas como hipertexto [ A maioria dos usuários fazem uso da Internet como consumidores, sem atentar para os processos].(...) A aquisição de uma cultura comum  - ideal democrático – pode ser reinventado com um sentido de maior pluralismo  e respeito às diferenças, ao estranho e supõe uma série de recortes, e não, de continuidade frente ao cotidiano (...) Aprendizado implica em dificuldade e distanciamento [frente ao desconhecido]; permanece aí uma necessidade de intervenção forte e  não baseada no espontaneismo dos sujeiros (115) 
O adestramento dos espectadores de Xuxa ou dos pensadores de videogames pode ser utilizado até certo ponto: logo, logo, esses espectadores e  jogadores deverão tornar-se leitores de uma página que requer habilidades ausentes nesse mundo [midiático]. Numa escola forte e intervencionista, os letrados impuseram aos setores populares muitos valores, histórias e tradições. Aquele também foi um espaço laico, gratuito e igualitário, onde os setores populares puderam apropriar-se de instrumentos culturais para empregar em seus próprios interesses (118)”
Assim como as culturas letradas não tornam a seus clássicos, senão por meio de transformação,deformação e ironia [grifo 9: adaptações, provavelmente na expressão argentina], as culturas populares não podem pensar mais nas suas origens, a não ser a partir do presente e, de todo modo, pressupor suas origens já é algo problemático.(119)“Se se quer criar condições para a livre manifestação dos diferentes níveis culturais de uma sociedade, a primeira dessas condições deve ser a garantia de acesso democrático aos armazéns [grifo 11] onde estão guardadas as ferramentas : forte escolaridade e amplas oportunidades de opção entre diferentes ofertas audiovisuais [públicas?]que concorram com as repetidas ofertas dos meios capitalistas (121)”[Ou seja: parafraseando Maquiavel, "se não puderes derrotar teus inimigos, junta-te a eles].

 SARLO, Beatriz. Culturas Populares, Velhas e Novas. IN: Cenas da via pós-moderna/ intelectuais, arte e videocultura na Argentina. Rio e janeiro: Editora da UFRJ,P 100-22

                                                                                     


Nenhum comentário:

Postar um comentário