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quarta-feira, 27 de julho de 2016

Por que Literatura?

As políticas de Livro, leitura  e programas de incentivo à Leitura têm defendido  com certo ardor de causa a ênfase  ao campo literário como se este fosse uma unanimidade. É verdade que tudo começou com a Literatura, desde as mitologias às mais antigas narrativas bíblicas e as mais diversas narrativas.  A História se funda com Homero e Heródoto e, sendo que Homero relatava proezas sem qualquer preocupação  com  inteligibilidade* e Heródoto, considerado “o pai da História”, já ensaiava um método para contrastar  fatos com a realidade e procurava não relevar as tradições mitológicas. Mas é Homero quem aparece aos doutos e mestres em Literatura como o reverenciado. E Heródoto encolhe-se no escaninho da historiografia, já que se constituiu na primeira tentativa do homem em sistematizar o conhecimento de suas ações, ao longo do tempo. Sua inovação consistiu em transformar a “linguagem dos deuses para a dos homens”, pela da investigação. Outras e muitas sistematizações e métodos, valendo-se de hipóteses e argumentos seguiram-se depois, constituindo o campo da Ciência e da Filosofia, na tentativa de aproximar o homem da “verdade” sobre sua existência. O campo da criação, imaginação e da fantasia ocupou seu lugar na Literatura, o campo da teoria e experimentação na Ciência, que expandiu-se em vários ramos, ou seja a tomarmos só a classificação de Dewey*, sete entre os dez campos do conhecimento (em bibliotecas, “assunto”) são de natureza investigativa: Filosofia, Psicologia, Ciências Sociais, Língua e Linguística, Ciências Físicas e Naturais, História, Geografia e Biografia, ao passo que Religião, Arte e Literatura- a excetuarem aí os estudos sobre - ocupam o metafísico, o fictício e  imaginário.  E tenho observado que as defesas apaixonadas da Literatura se prendem a crenças,  que vêm se consolidando, de que é através dela que se tem o “entendimento do mundo”, por não estar presa a qualquer paradigma, leis ou regras; a ciência, argumentam, está aprisionada irremediavelmente ao caráter didático , no acervo constituído para uso em sala de aula, portanto, o conhecimento científico é, por natureza, tedioso; verdadeiro em parte, porque a escola estigmatizou as ciências exatas e  humanas, cuja expressão está na visão pedagógica para os jovens, logo, nos livros didáticos, o que, a meu ver,  seria a sua pior expressão possível. Que ações de incentivo se têm implementado para o gosto da Ciência, de ler e experimentar ciência? O livro temático é a fonte primária do conhecimento. A secundária está nas coleções de referência e nos didáticos.  Daí acredita-se, com certo exagero, que a literatura irá fatalmente levar o estudante, no futuro a se interessar por obras de importância incalculável para a  Humanidade, como as de Darwin, Freud, Marx, Einstein,  e  Stephen Hawking, por exemplo. Gênios na arte como Charles Chaplin, Van Gogh, Beethoven. Da política como Maquiavel e Gandhi. Da educação como Piaget e Paulo Freire. Esses pensadores, entre muitos, foram autores e tiveram expressão escrita tão personalíssima como grandes autores da literatura. Não são meros verbetes ou citações de livros didáticos e dos quais nunca mais se falará, fechados os portões da escola. Não se trata de “matéria de aula e prova”, mas de conhecimento. Conhecimento na acepção exata do termo. E esse conhecimento, arrisco dizer, a continuarem essas políticas, passando somente pelas carteiras e por provas, estará em vias de extinção. É claro que não estou falando dos pequenos das séries iniciais, mas a partir dos 11, 12 anos em diante, é preciso mostrar que as formas de apreensão do mundo estão em todos os ramos do conhecimento e que estão também nas livrarias, bibliotecas e todas as mídias.  Acreditar-se que Literatura seja "libertadora', quando a única coisa que ela liberta de verdade é do estudante aplicar-se a “duras” tarefas de investigar os fatos e fenômenos e trabalharem  argumentos que necessitam comprovar, coisa que o devia fascinar e maravilhar e não entediar. As maravilhas da tecnologia e da ciência estão aí dadas para comprovar em que resulta o investimento em pesquisas e leitura diversificada nos países mais avançados. Literatura, como classificou Dewey, é o campo da retórica. Nada contra a retórica, ela é necessária na construção do discurso, mas a tendência preocupante, nas últimas décadas, é que a leitura dos temas de natureza científica, interessante por si só,“precisa” ser mediada pela literatura e pelos didáticos para “amenizar’ a sua “dureza”. Pessoalmente amo ler e amo literatura, confesso que me vejo em dificuldades com as ciências exatas, mais por falta de competências do que por qualquer outra razão, mas reverencio a Ciência pelo conjunto da obra que viabiliza e viabilizará o desenvolvimento da civilização; por isso defendo que, tanto ela quanto os demais ramos do conhecimento, precisam, na mesma medida, de incentivo, em todas as formas de expressão e ambientes. 

https://cpantiguidade.wordpress.com/2009/10/14/perfil-historico-herodoto/


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