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quinta-feira, 29 de março de 2012

Organizando a biblioteca segundo o leitor

Relatar uma experiência que compreende, acima de tudo, observações do cotidiano em uma biblioteca sobre abordagens dos leitores, quanto à informação, é apontar os elementos de cultura técnica e do senso comum em conflito e demonstrar o quanto este pode se refletir nos processos informativos de modo a desconstruir categorias fixas e “imutáveis” herdadas da tradição e que não dão conta das necessidades do usuário, porque não respeita seus modos de abordagem, a sua linguagem e não atende a suas necessidades. Trata-se uma nova versão da máxima parafraseando a Constituição: todo poder emana do leitor e em nome dele será exercido.
Em primeiro lugar, sob aspecto organizacional, deve ser admitido como lei essa sim, a única a ser imutável, o acesso direto. A biblioteca deve ser explorada pelas crianças à exaustão. E In-loco! Só assim acontecerão as descobertas. Quantas vezes, percorrendo as estantes, elas não descobrem algo melhor do que o que estão procurando? A função nas bibliotecas escolares e públicas é de promover a familiarização, o contato, a experiência da leitura, sem restrições de acesso.
Tradicionalmente o que temos? Um sistema em que o meio (seu conteúdo impresso ou não) – o catálogo - determina a forma pela qual a informação estará disponibilizada. Assim basta que se apliquem as regras e está tudo resolvido. Invertemos. O leitor é quem vai ditar como a informação será disponibilizada. Antes de “arrumar e catalogar”, vamos observar como o leitor pergunta.Uma biblioteca deve estar preparada para dar respostas, como um oráculo. E as respostas se encontram ao se entender sua estrutura organizacional e sua visão de conjunto, mesmo quando não existam catálogos. Os catálogos, no que se refere a recuperar informação, ao contrário do que se preconiza, devem ser à imagem e semelhança do seu leitor, que não é uma entidade técnica, abstrata ou burocrática. Em minha biblioteca, precisava reunir tudo que tinha sobre Brasil. Ou criava uma categoria “Brasil”(981?) ou os livros ficariam dispersos fisicamente em suas classes política, história, geografia etc,.e o usuário dependeria do catálogo. Insisto que o uso do catálogo é importante, mas que o usuário não deve depender dele e se furtar à experiência prazeirosa e salutar do "bom vizinho"(1). O catálogo não é o espelho do desejo. Não há solução técnica para tal caso. Apenas o bom senso, uma estante e uma legenda: Brasil –de 00 a 900. Contudo, não se pode pura e simplesmente dispensar um conhecimento acumulado, quando ele serve para nortear e não obstaculizar os passos do leitor, como normalmente acontece nas bibliotecas que valorizam a complexidade técnica. A forma como está organizado o acesso por si só pode garantir uma praticidade que permite ao usuário achar a informação com relativa rapidez, mesmo quando esta é específica. É preciso criar uma estrutura partir dessas procuras, e relacioná-las ao todo a que hipoteticamente pertence. Por exemplo, uma procura pelo assunto “vacinas” , por que estará em medicina (610) e não em saúde pública (classe 300?) Saúde compreende não só categorias médicas, mas bem-estar psicológico e modo de vida (classes que estão distantes na tabela de classificação)! Então é preciso estarmos atentos às inúmeras facetas para reunirmos assuntos que aparentemente “deveriam” estar hierarquicamente dispostos como manda a disciplina, mas que na realidade não estão. Mas o que difere essa organização das chamadas tradicionais? Ela se pretende menos especializada. Assim, cada classe não será um corpo de conhecimentos fechado. São os grupos temáticos que devem prevalecer sobre as classes. Para, por exemplo, como queria Dewey, “entendermos o mundo à nossa volta”, temos as ciências da natureza (evolução,paleontologia, biologia), temos também a geopolítica e as ciências sociais juntas na mesma estante, o que em uma organização tradicional seria não menos que um absurdo. Mas não são, são um grande passo para a autonomia do leitor das tecnalidades hoje impostas.
Pode-se criar, sem nenhum desdouro para a classe biblioteconômica, uma espécie de “self-service” na Biblioteca, e assim dar a maior autonomia possível ao leitor.

(1) Aby Warburg criou um sistema assim para consulentes de sua biblioteca. Ver Manguel. Biblioteca  à noite . São Paulo: Cia das Letras, 2006

Pierre Bayard Como falar dos livros que não lemos? André Miranda


À primeira vista, o livro "Como falar dos livros que não lemos?" parece um guia de humor. Com esse nome curioso, capítulos intitulados “Não ter vergonha” e “Situações de discurso com o ser amado” e uma tabela de abreviações em que são sugeridas as classificações LD, LF, LO e LE — livros desconhecido, folheado, de que ouvi falar e esquecido —, o ensaio que a Editora Objetiva acaba de lançar no Brasil pode aparentar ser mais uma obra para impressionar os amigos. Mas não é nada disso, garante seu autor, o professor de literatura francês Pierre Bayard. — Há uma compreensão equivocada de que meu objetivo é desestimular as pessoas a lerem. É o contrário. Eu sou um fã dos livros. Mas eu quero que as pessoas tenham uma boa experiência com a leitura. Na escola, a gente aprende a ler somente de uma maneira. Os professores falam dos livros importantes e dizem que você precisa lê-los do início ao fim, da primeira palavra até a última. 
O que eu defendo é a liberdade na leitura — explicou Bayard, por telefone a O GLOBO.(19/01/2008)
Mais do que uma defesa sobre a liberdade, o livro de Bayard é um ensaio extremamente bem fundamentado sobre todo o processo de leitura — ou, como o autor prefere, o processo intermediário que existe entre a leitura e a não-leitura. Parece confuso, mas no texto do professor francês tudo fica extremamente agradável e simples. A partir de obras de outros escritores, ele disseca as situações pelas quais passa um leitor, de diversas origens e formações. Através de um obituário escrito pelo poeta e filósofo francês Paul Valéry na morte de Marcel Proust, por exemplo, Bayard explica que é possível falar sobre a obra de alguém mesmo sem tê-la lido por completo. Em outro momento, ele trata do enredo de "O nome da rosa”, de Umberto Eco, no qual o monge Guilherme de Baskerville investiga assassinatos cometidos num monastério. As mortes envolvem um dos volumes da “Poética”, de Aristóteles, obra no qual ele faz uma análise do riso. O detalhe que interessa a Bayard é que Baskerville deduz os crimes sem nunca ter lido a obra de Aristóteles. — Mesmo alguns livros que não lemos fazem parte de nossas vidas. São os livros sobre os quais nós ouvimos falar. Eu não devo ser capaz de dizer exatamente o que eu li sobre Hegel, Kant, Freud ou Proust. É claro que eu li muita coisas desses autores, mas é que eu também li muitos livros que falam sobre esses autores. É difícil diferenciar uma coisa da outra. É estreito o limite entre ler e não ler. Quantas pessoas podem dizer que leram da primeira linha até a última linha, da capa até a contracapa, a “Bíblia”? — questiona Bayard.
Já no capítulo “Situações de discurso diante de um professor”, o professor francês analisa o estudo da antropóloga americana Laura Bohannan com os tiv, um grupo étnico da África Ocidental. Nele, Laura relata a experiência que teve ao, oralmente, contar a alguns deles a história de “Hamlet”, de Shakespeare. O resultado foi que os tiv questionaram várias passagens do livro, por não entenderem, por exemplo, o significado de um fantasma ou não acharem estranho que a viúva Gertrudes se casasse pouquíssimo tempo depois da morte do marido.
Desconhecidos, folheados ou esquecidos... 

Bayard desenvolve, então, um conceito que ele chama de “livro interior”, uma espécie de filtro que varia de cultura para cultura e que determinaria a recepção de novos textos por parte do leitor. — Eu acho que alguns livros importantes não o são para mim ou para você. Isso não significa que é para se sentir culpado caso você não se saia bem lendo alguma coisa. Eu digo para os meus estudantes que eu não fui bem sucedido em ler “Ulisses”, do Joyce. Talvez não fosse o livro para mim. E não me sinto culpado em não ter lido “Ulisses” e explicar do que ele se trata — diz.
Sobre os livros lidos e esquecidos, Bayard cita o ensaísta francês do século XVI Michel de Montaigne. Em seus “Ensaios”, Montaigne diz que, depois de ler um livro, detalhes “pequenos” como o autor e as palavras eram esquecidos prontamente. Até mesmo seus próprios escritos se perderiam na memória com o passar dos anos.
Bayard afirma que Montaigne teria conseguido apagar qualquer limite entre leitura e não-leitura. O autor diz que a “confissão” do ensaísta nada mais é do que um resumo da relação que todas as pessoas têm com os livros. “Não guardamos em nossa memórias livros homogêneos, mas fragmentos arrancados de leituras parciais”, escreve ele. — Existe uma situação intermediária entre apenas ler ou não-ler um livro. Os intelectuais conhecem bem essa situação porque estão acostumados a folhear os livros, a começar uma leitura e não terminá-la. Mas muitas pessoas não entendem isso — afirma Bayard. — Quando alguém vai ao meu apartamento, vê aquela quantidade imensa de livros e pergunta se eu li todos, eu francamente digo que não. A questão é que eu vivo com os meus livros, eles são minhas companhias, meus amigos. Quando eu tenho problemas, eu peço a eles a solução, mas não leio todos.
Dessa biblioteca, o professor francês tem dois volumes que podem resumir bem o espírito de liberdade pregado em "Como falar dos livros que não lemos?"(208 páginas). Um é a resposta dele à pergunta “qual o melhor livro que você não leu?”. Já o outro é uma confissão sobre um autor brasileiro.
— “Ulisses” é o livro que não li e mais gostei. Eu tenho certeza que é um ótimo livro. Há muitas garotas que são interessantes, mas que podem não ser para mim e podem ser para você. A lógica é a mesma — brinca o simpático Bayard. — Dos autores brasileiros, eu adoro Machado de Assis. O “Dom Casmurro” eu realmente li. E até o reli. Reler é também uma ótima forma de ler um livro. É importante ser um leitor criativo.
 Entrevista e comentários de André Miranda

Duas mães reclamando

Ao circular numa livraria que freqüento, ouvi o curto diálogo:

-          Absurdo, sabe quanto foi só um  livro do meu filho, do ensino médio? Oitenta e nove reais, um livro! – seguido da observação da outra:
-          Só a lista escolar de um filho foi de setecentos reais! 
Apenas essas duas linhas de diálogo  são o bastante para reflexão. A tal ‘volta às aulas” é o carnaval das editoras, a lágrima das mães e a enxaqueca dos livreiros. Fui livreira e nessa época,o Lexotan não bastava para tanto estresse. Sabíamos que havia um desconto do editor para o livreiro, variava de 20 a 30%, desconto que nos permitia  uma “margem” que porém se dissolvia em uma simples equação: o livreiro tinha 40 dias para liquidar a fatura à editora, enquanto tínha que vender ao consumidor em até seis parcelas, ou seja, seis meses. Tudo seria perfeito seria se vendêssemos todo o estoque, mas não. Era uma espécie de loteria. Muitos títulos se esgotavam e o consumidor, que sempre tem razão, não fechava a lista que estivesse incompleta. E tome prejuízo. Mas são águas passadas. Falávamos dos preços. Não é preciso ser grande especialista para entender esses preços ultra-engordados. A razão disso chama-se “compras governamentais”. O governo precisa de grandes descontos para fechar as concorrências de compra dos livros de seus programas de distribuição MEC/MinC. A lógica é essa: se o editor colocar um precinho camarada num livro, digamos, 20 reais no máximo, para o governo, vai vender ao mercado privado pela margenzinha que repassa aos livreiros, mas se ele elevar (não quero usar o termo superfaturar)o preço para o governo, esse preço já vai engordurado para o livreiro e, logo, para consumidor final. Daí o diálogo acima das duas mães. Cantilena de todo ano. Sabe-se, desde criancinha, que tudo, tudo que se vende para o governo ,e não se pode excluir livros, é cobrado por muitas vezes o valor real. E La Nave vá...  Fazer o que, muitos perguntam. Há várias coisas: auditorias para ver fiscalizar esses preços, isso no nível prático. No nível gerencial, é mudança radical na política de livros didáticos. Livros didáticos, pode-se ter, mas baratos, muito baratos, baratos de não se ter pena  de usar, jogar fora e reciclar o papel depois para se produzir novos didáticos. A política de “passe adiante seu livro didático” justifica edições luxuosas  desses livros que, afinal, são manuais de instrução,temporários por natureza, encarecendo-as e bem mais até do que os livros comuns que tem temporalidade maior. Que livro comum custa R$ 89? Não é verdade que passar o livro adiante  garanta durabilidade a esse livro. Guardem o luxo das edições para livros informativos e literários. A ciência muda, a tecnologia muda, o conhecimento evolui, os programas pedagógicos também, e tudo conspira para que o didático usado  se transforme num transtorno para as  famílias, as escolas, as bibliotecas e o meio-ambiente,  a permanecer essa política. 

Essas são as primeiras  reflexões produzidas apenas por duas mães reclamando.  

Biblioteca essa invisível

O trabalho de organização de uma biblioteca é invisível. Desafio a quem me desmentir. Muito administrador e muito do público em geral desconhecem o quanto se despende de trabalho até um livro chegar à estante. No entanto, um bibliotecário diligente precisa ter um pouco de formiga e um pouco de cigarra. Unir esforço e arte. Essa arte se compõe de feeling no que se refere à recepção das obras pelo leitor, que vai às bibliotecas (gerais) movido por suas necessidades e impulsos.  Se há invisibilidade quanto ao esforço, não há quanto à constatação de que toda biblioteca geral, por menor que seja, compreende a memória coletiva, o que em última análise é a "biblioteca coletiva", conceito de Pierre Bayard (1) onde o acervo é formado não dos livros que todos leram, mas dos que todos conhecem. Como os contos de fada, o folclore, as biografias, os clássicos e best-sellers famosos e laureados internacionalmente. No entanto, o que fazer quanto à enorme produção de novos livros que chegam às prateleiras todos os dias, querendo se "eternizar"? O que fazer para incorporá-los a essa memória?. Diz ainda Bayard que esquecemos o que lemos, daí a necessidade de cuidarmos de que a memória esteja disponivel. Sabemos também que, na proporção de dez para um, muitos livros jamais serão lidos e jamais incorporados à biblioteca coletiva. Mas como distinguir? A maneira clássica tem sido a passagem do livro pela crítica e pelas academias, mas nem sempre o que é apreciado na crítica e  academias é apreciado pelo público; então resta ao dedicado bibliotecário observar a "vida" do livro pelo uso na biblioteca. Só aberto em algum momento, e,  mesmo que apenas folheado,uma obra cai no imaginário e pode vir a ser potencialmente um título a se incorporar à biblioteca coletiva. Dessa forma, havemos de concluir que a invisibilidade é apenas um silêncio das inteligências que murmuram e que, expostos à luz do público, se farão ouvir para a posteridade.

(1) Pierre Bayard. Veja Por que falamos dos livros que não lemos?

Desescolarizar a leitura

Desescolarizar a leitura, como assim? – Perguntarão,e com razão,  leitores, professores e  interessados.  Como, se a  relação da escola com a leitura é a mais próxima  e constante entre todos os seus agentes. Isso significa não ler? 
Como ficarão jovens e crianças sem a obrigação de ler? 
Vamos por partes. Ninguém “deixará de ler” , nem os livros serão “varridos” do cotidiano das crianças. Pelo contrário, o que pretendo com a idéia de desescolarizar a leitura é principalmente  introduzi-la no cotidiano, sem o estigma  de que leitura é para o mestre recurso de aprendizado, e para o aluno “coisa de escola”.
Nos anos, e não poucos, em  que tenho convivido com crianças e adolescentes na biblioteca, tenho tentado desvincular o livro, principalmente literário, da noção de dever e tarefa, mas na maioria das vezes  tenho frustradas minhas  intenções em virtude da nova prática e da crença de que a leitura resolve "por ela mesma" as deficiências de vocabulário, da sintaxe e desenvolvimento da expressão. Estou segura de que não resolve, tanto quanto estou segura de que bons alunos têm melhor desempenho em leitura. Contraditório? Parece...
Nesse tempo me foi dada  a oportunidade de  perceber os alunos que têm bom desempenho geral e, ao mesmo tempo, são bons leitores, não foi porque  a obrigatoriedade ou a oferta da leitura foi “eficiente”; foi justamente porque adquiriram autonomia de escolha dos livros, aliada ao fato de   que    o que funcionou para esses alunos, foi  não só a existência e oferta  da literatura, mas por esta se aliar aos mecanismos de aprendizado que nada  têm a ver com o “ter que ler”, mas com o domínio da língua e as linguagens a ela incorporadas.
A leitura como recurso pedagógico se constrói da necessidade de consulta de conteúdos informativos  e do treinamento em análise, síntese, reconhecimento dos discursos, gêneros e suportes de informação, e realmente é necessário que  lhes sejam apresentados e identificados,  dentro de uma programação adequada à escolaridade.
Identificados os formatos e suportes, os jovens não  necessitam necessariamente terem seus conteúdos “sabidos”(decorados) , exceto quanto  ao indefectível currículo obrigatório, que obviamente necessita ser lido, – podem ser apenas  folheados, e consultados os seus enunciados. Com esse domínio, fariam provas sempre com consulta (e seria o fim da "bendita" cola).
A literatura para todas as idades  e faixas  deve se situar entre essa intertextualldade. A intertextualidade aplicada ao aprendizado tem a função de agregar competências. Uma das dificuldades de agregar competência está no fato de que o suporte único que os alunos têm acesso na escola – o livro didático – compromete as de manusear, tocar e identificar não só diferentes suportes de informação: livros, revistas, jornais, como os diferentes gêneros de discurso, uma vez que esse livro pretende  fazer  a mediação entre os leitores e outros tipos de documentos, substituindo-os.  Há profissionais que ressaltam o fato do aluno ter, em toda a sua vida escolar, acesso somente ao livro didático, o que é de se lamentar. Não se entra aqui no mérito da qualidade desses livros, há muitos que são bons; o que se discute é a internalização do conceito de livro como propriedade da vida escolar. Quando ouço as pessoas, tanto profissionais como leigas falarem em “paradidáticos” me pergunto se isso não dissemina um conceito difuso de livro em todas as suas particularidades: livro literário, informativo, científico e técnico, livro prático etc.. Isso equivale a dizer que se induz a pensar “livro” como se fossem de duas categorias: didático e não didático, num reducionismo tipo “existem os livros para ensino e os demais” – paradidáticos ou vulgarmente conhecidos como “extra-classe”. Como se as pessoas não carregassem o livro para suas vidas. Ou como se a única referência à leitura se resumisse à escola. Sabemos que, em diferentes momentos históricos, diferentes instituições se fizeram agentes da leitura: as aristocracias, a igreja e depois a escola.   Mas, desde a descoberta da imprensa, o conhecimento se pulveriza e se dissemina no seio da sociedade, e mais ainda, a partir da Revolução industrial quando um mercado de leitores foi necessário não só para qualificação para o consumo, como para mão de obra para indústria. Sabemos que a qualificação para formação profissional  se deu  em proporção muito superior à para o mercado e, particularmente, o mercado editorial. Ou seja, há mais leitores para uso do livro de instrução do que o consumidor voluntário e autônomo do livro, de qualquer livro. O mercado editorial então juntou seus esforços no processo educativo, e, particularmente no Brasil, o fez de maneira que o livro dito “paradidático” vem carregado de bulas de uso: roteiros de leitura, exercícios, suplementos, enfim uma parafernália no sentido de mediar a falta de hábito desse jovem em manusear, conhecer e reconhecer, e diferenciar formatos e suportes de informação, e dando a conotação de que todo livro serve a fins escolares.
Falávamos de desescolarizar a leitura como uma proposta no sentido de liberar o livro de um estigma. O de que leitura é domínio da área de formação educacional e não recurso para a vida  do indivíduo. O livro na e para a  educação é parte da cultura e não o livro na e  para  a cultura é parte da educação.
Hoje, a agravar esse quadro restritivo da leitura, o livro vem perdendo para outras formas que privilegiam o imagético e a mensagem curta, e ninguém pode apostar mais na expressão na sua forma tradicional, oral e escrita. Apesar de concordar com Humberto Eco que nada supera  a portabilidade do livro, o acesso à informação por mídia digital cada vez mais reduz o campo da mídia em papel, que hoje necessariamente se obriga a uma versão online, como acontece hoje com os principais jornais no mundo. (1)
Dirão alguns: há texto na Internet; sem dúvida, porém, pelas características dessa mídia, algumas mudanças são visíveis quanto ao modo de ler: a verticalidade, que evoca um predomínio da parte pelo todo, uma vez que o livro, ao contrário da leitura na tela, apresenta-se mais como o todo pela parte, através do ato de folhear; outra:  a necessidade de que se escreva de forma sucinta e direta no computador, o que faz com que essa exigência influencie textos em papel; na tendência  da editoração na forma de apresentação gráfica mais leve, corpo de letra maiores, fora o fato notável de que as referências em um determinado texto estão imediatamente  acessíveis, pelo hipertexto, essa sim uma  facilidade  com largas vantagens em relação à tradicional.
Por outro lado, a confiabilidade e autoridade de textos na Internet  deixam a desejar. Com os prós e os contras, essa é uma realidade textual com que nos defrontamos e sobre a qual deve-se estabelecer um debate entre seus diferentes atores.
Pesquisas mais recentes divulgadas mostram que há no Brasil um crescimento do uso do livro, de uma meia de 1, 8 livros/ano para 3,7 livros ano por habitante, mas não se divulga sob que bases  são feitos esses estudos. Se sob influência da escolarização, se sob influência de mercado, com a mídia agregada, se sob influência das políticas públicas que, eventualmente, podem fazer desses resultados uma conclusão ilusória.
Fato é que o que se vê é o seguinte quadro: mal o educando aprende as primeiras letras, forma as primeiras frases, e lê os primeiros livrinhos, defronta-se com facilidades que nunca terá, se apenas contar com o suporte em papel, daí tendendo desde cedo a dispensá-lo, assim que se vir livre da obrigatoriedade de ler e "correr"para o computador.
Não que se possa dispensar   o computador, essa realidade não tem volta, mas o impasse criado faz recrudescer as forças impositivas e, logo, restritivas da leitura, porque são forças que defendem a “facção do livro”- hoje mais as políticas de leitura do que as salas de aula - mas que, ao mesmo tempo, não podem vetar ou obstaculizar as tecnologias da informação, indissociáveis da vida moderna.
Não há repostas prontas, mas há dúvidas cada vez mais numerosas e instigantes a clamar que os envolvidos se debrucem sobre elas e, certamente, o reforço à escolarização da leitura significa um retrocesso ao tempo em que  se lia apenas nas bibliotecas dos mosteiros e nas rodas aristocráticas.

 (1) Ler a esse respeito Beckett.SuperMedia: save the jornalism so it can save the world (William-Bleckwell) e Sant´Anna. O destino do jornal (Record) ambos recém-lançados.


Sem pressa e sempre


Muitos se impressionam com o potencial de oferta de livros, não só no mercado quanto nas bibliotecas e  o reduzido número de consumidores do livro. Pode-se dizer  que um  terço dos leitores use a biblioteca por força de estudos necessários à  qualificação profissional; outros são pesquisadores, e um número bem menor é de curiosos ou leitores, digamos “de fruição” ou bibliófilos.
Os  leitores de fruição que procuram bibliotecas  certamente estão entre aquela camada que não tem meios de adquirir livros, e têm algum tempo para freqüentá-las, o que reduz este universo mais ainda. Dito isto, a possibilidade de uma biblioteca ser um órgão difusor “de massa” é mínima. Daí temos que, no conjunto,  esperar que se vá  contar com um número sempre reduzido de demanda de leitores  em relação à oferta de de obras.
Uma  estratégia que se tem usado é instalarem-se bibliotecas em lugares de alta circulação, como metrô, e nos bairros, uma estratégia salutar, mas que não mexe muito nos índices de  fruição entre o livro e outras mídias, pois pessoas que “poderiam estar lendo” estão no computador, ou celular.  E a tentativa de mudar este quadro é inócua.
Deve-se, por isso, simplesmente  desistir?
Nunca! A biblioteca jamais perderá  o papel  de memória de uma cultura. Mas de que vale esse papel, se  o livro está  apenas disponível, porém intocado?  Considere-se, no entanto que o registro de sua existência possa, a qualquer momento, acionar o seu uso. Assim é imprescindível que os livros estejam fisicamente dispostos em  algum lugar,  para tornar possível o seu acesso e a informação sobre eles em algum meio.  Isso é elementar em biblioteconomia. Hoje há a biblioteca virtual e o acesso via Internet , mas nem tudo está disposto na Internet, há problemas como  portabilidade e inclusão digital.
Deste ponto de vista, contrariando os prognósticos que já se tornam comuns , não será em pouco tempo – podemos arriscar séculos-  que a biblioteconomia desaparecerá.  Certamente, o pressuposto  está certo  quanto à relação cada vez mais diminuta  leitores /obras .
Se a  biblioteconomia não vai desaparecer, no entanto as funções  intrínsecas devem ser alteradas. O bibliotecário já tem, como nas redes, à sua disposição sistemas em que migrem dados,  já nos formatos-padrão, que “hospedem” seus banco de dados . Ele deve apenas adaptar   esses dados à sua realidade local, como notações mais simplificadas e  ordenamentos mais  flexíveis da coleção.
A grande vantagem desses novos desafios é que  o novo  profissional deverá ficar mais livre para repensar as estratégias de ganhar e manter leitores. Desse modo, ele será um "caçador de leitores" e, para isso, deverá reunir qualidades pessoais de encantador, técnicas de marketing, cultura geral  e  de comunicação.
Esse futuro está muito perto mas, ao contrário da velocidade que a época exige, o que é preciso ter em mente é que tudo que cerca o livro é algo para se ter sem pressa e sempre !

Psicologia do pequeno leitor

Fala-se  muito  em “psicologia do leitor”, mas não há estudo sistematizado que a  “embase” com um corpo teórico, então especulemos.  A observação do comportamento do leitor deve ser feita ainda desde quando pequeno,  e alguns fundamentos já podem  ser  esboçados. Naturalmente que os  editores acertam muito quanto a determinadas preferências em certas faixas etárias , mas às vezes erram, e muito feio, por não ter convívio com  leitor no acesso ao livro. Quem convive com ele poderia muito bem se lançar como editor de infanto-juvenil com alguma segurança, além do que é algo, se sabe, bem rendoso, principalmente porque conta quase sempre com substanciosa ajuda do governo.
Ironias à parte, o que se deve levar em consideração é que até os quatro, cinco  anos, o livro é na verdade um objeto  de manipulação e de apelo visual preponderantes.  Às vezes, para alguns pequenos, os livros têm asas, servem para isolar em cima do primeiro desafeto, ou jogá-los ao chão. Para os muito  pequenos é iguaria; os levam à boca. Os editores criam livros de capa resistente, com elementos de brinquedo, coloridos, com objetos e materiais  macios, “bons de apertar”, e alguns sonoros.  É claro que  as crianças gostam, mas tal coisa não só  não são livros, como tampouco farão deles “futuros leitores”, como no discurso oficial corrente. 
Sou dos que acreditam que o conceito do livro se forma quando, pela primeira vez,  o pequenino, com os olhinhos brilhando,  vê um adulto falando  e, de vez em quando,  olhando para o objeto e alternadamente para ele, como se aquele livro conduzisse  sua fala e suas emoções, a cada passagem triste, ou engraçada. Aí sim é onde se abre o mistério e encantamento , de onde saem, como mágica, as emoções, como uma caixa de Pandora.
Mais tarde, mas não muito,  começam-se a se formar os heróis e os mitos das centenas de histórias que atravessaram séculos  e continuam a encantar em mil versões: os contos de fadas. Mais adiante, ainda as histórias de ação, que hoje, torçam ou não os narizes os críticos, são magistalmente conduzidas pelos  estúdios de cinema. Bem, alguns escritores nem enxergam isso. Escrevem histórias com diálogos longos e enfadonhos ou histórias , que sob influência das novelas, tem “barrigas”. Chatíssimos! Não são as novelas, mas o cinema que atrai os pequenos para narrativas céleres e cheias de reviravoltas. Quem sacou muito bem isso  foi J.K.Rowlings com seus alentados e empolgantes Harry Potter, que os escreveu pensando no cinema. A conferir.
J K Rowling  aproveitou muito bem os sinais dos tempos: frenéticos, urgentes e mutantes. Não foi só por intermédio da mídia que ela se tornou uma autora best-seller. Seus livros têm celeridade, tem surpresas e muito colorido, seguindo a tendência do cinema, que aproveitou seus textos sem muito esforço, já que a série do Harry Potter é ela mesma cinematográfica. É claro que o perigo mora aí: ao se habituarem ao ritmo da história, os menores leitores não conseguirem usufruir de uma escrita reflexiva, mais elaborada, mais intimista, ficando reféns do ritmo da narrativa. Mas não vamos desanimar. Vamos pensar que esse seja um abrir caminhos , que desses grossos volumes possam sair leitores mais aplicados e prontos para diversificar sua cesta de leitura.

Um outro e concomitante traço de época é o comprimento da onda midiática. Os menores, de sete a oito anos, mesmo sem habilitação suficiente para saborearem Harry Potter, solicitam o empréstimo do livro que usam apenas como troféu, fetiche tipo "eu também leio Harry Potter," sem, no entanto, terem-no feito. Isso já é um componente similar à cultura livresca que fez com que muitos adultos carregassem  ou James Joyce, ou Thomas Mann (1), tantos outros, debaixo do sovaco, para exibirem um status de culto ou "antenado" com seu tempo. Jean-Pierre Bayard em Como falar dos livros que não lemos diz que não leu, mas conhece Joyce de resenhas e de comentários .  E assim se reproduz o fato de que os pequeninos também não querem ficar "por fora da onda", espécie de " terceira onda" (2) de propagação de uma obra. O que fazemos com isso? Em princípio, nada. Fingimos que não sabemos que o menino não leu, porque em poucos dias o livro é devolvido, sem  se lembrarem de desmarcar as primeiras páginas percorridas, o que é um avanço, ao menos a tentativa foi feita. Depois disto, alguns voltam a seus pequenos volumes ilustrados e de pouco texto. Outros, em menor número, dão saltos qualitativos, pulam para o juvenil  e até  querem literatura adulta. Outro dia me surpreendi  com uma aluna do Ensino Médio  solicitando O crime do Padre Amaro do Eça de Queiroz, mas por alívio constatei que foi a pedido do professor, embora a inquietação de ver uma jovem aos 16 anos encarando tal leitura fosse grande, não pelo tema em si - o romance de um padre com uma mulher - mas por tratar-se de um escritor que deveria ser recomendado para quem  já entrou na rota do desencanto,dos 40 em diante.

Enfim, o que esse professor saberia dessa aluna, das qualidades e necessidades da  "psicologia de leitor"? Que estão mais objetivos?Mais céticos?Mais realistas?Menos pacientes?Menos ou mais influenciáveis?

Evidente que a psicologia do leitor reflete o comportamento de época. E há muito ainda a  se explorar nessa área.

NOTAS
(1)  Ulysses  e A montanha mágica  respectivamente
(2) Título de livro e expressão cunhados por Alvin Toffler a  respeito da sociedade da informação