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quinta-feira, 29 de março de 2012

Psicologia do pequeno leitor

Fala-se  muito  em “psicologia do leitor”, mas não há estudo sistematizado que a  “embase” com um corpo teórico, então especulemos.  A observação do comportamento do leitor deve ser feita ainda desde quando pequeno,  e alguns fundamentos já podem  ser  esboçados. Naturalmente que os  editores acertam muito quanto a determinadas preferências em certas faixas etárias , mas às vezes erram, e muito feio, por não ter convívio com  leitor no acesso ao livro. Quem convive com ele poderia muito bem se lançar como editor de infanto-juvenil com alguma segurança, além do que é algo, se sabe, bem rendoso, principalmente porque conta quase sempre com substanciosa ajuda do governo.
Ironias à parte, o que se deve levar em consideração é que até os quatro, cinco  anos, o livro é na verdade um objeto  de manipulação e de apelo visual preponderantes.  Às vezes, para alguns pequenos, os livros têm asas, servem para isolar em cima do primeiro desafeto, ou jogá-los ao chão. Para os muito  pequenos é iguaria; os levam à boca. Os editores criam livros de capa resistente, com elementos de brinquedo, coloridos, com objetos e materiais  macios, “bons de apertar”, e alguns sonoros.  É claro que  as crianças gostam, mas tal coisa não só  não são livros, como tampouco farão deles “futuros leitores”, como no discurso oficial corrente. 
Sou dos que acreditam que o conceito do livro se forma quando, pela primeira vez,  o pequenino, com os olhinhos brilhando,  vê um adulto falando  e, de vez em quando,  olhando para o objeto e alternadamente para ele, como se aquele livro conduzisse  sua fala e suas emoções, a cada passagem triste, ou engraçada. Aí sim é onde se abre o mistério e encantamento , de onde saem, como mágica, as emoções, como uma caixa de Pandora.
Mais tarde, mas não muito,  começam-se a se formar os heróis e os mitos das centenas de histórias que atravessaram séculos  e continuam a encantar em mil versões: os contos de fadas. Mais adiante, ainda as histórias de ação, que hoje, torçam ou não os narizes os críticos, são magistalmente conduzidas pelos  estúdios de cinema. Bem, alguns escritores nem enxergam isso. Escrevem histórias com diálogos longos e enfadonhos ou histórias , que sob influência das novelas, tem “barrigas”. Chatíssimos! Não são as novelas, mas o cinema que atrai os pequenos para narrativas céleres e cheias de reviravoltas. Quem sacou muito bem isso  foi J.K.Rowlings com seus alentados e empolgantes Harry Potter, que os escreveu pensando no cinema. A conferir.
J K Rowling  aproveitou muito bem os sinais dos tempos: frenéticos, urgentes e mutantes. Não foi só por intermédio da mídia que ela se tornou uma autora best-seller. Seus livros têm celeridade, tem surpresas e muito colorido, seguindo a tendência do cinema, que aproveitou seus textos sem muito esforço, já que a série do Harry Potter é ela mesma cinematográfica. É claro que o perigo mora aí: ao se habituarem ao ritmo da história, os menores leitores não conseguirem usufruir de uma escrita reflexiva, mais elaborada, mais intimista, ficando reféns do ritmo da narrativa. Mas não vamos desanimar. Vamos pensar que esse seja um abrir caminhos , que desses grossos volumes possam sair leitores mais aplicados e prontos para diversificar sua cesta de leitura.

Um outro e concomitante traço de época é o comprimento da onda midiática. Os menores, de sete a oito anos, mesmo sem habilitação suficiente para saborearem Harry Potter, solicitam o empréstimo do livro que usam apenas como troféu, fetiche tipo "eu também leio Harry Potter," sem, no entanto, terem-no feito. Isso já é um componente similar à cultura livresca que fez com que muitos adultos carregassem  ou James Joyce, ou Thomas Mann (1), tantos outros, debaixo do sovaco, para exibirem um status de culto ou "antenado" com seu tempo. Jean-Pierre Bayard em Como falar dos livros que não lemos diz que não leu, mas conhece Joyce de resenhas e de comentários .  E assim se reproduz o fato de que os pequeninos também não querem ficar "por fora da onda", espécie de " terceira onda" (2) de propagação de uma obra. O que fazemos com isso? Em princípio, nada. Fingimos que não sabemos que o menino não leu, porque em poucos dias o livro é devolvido, sem  se lembrarem de desmarcar as primeiras páginas percorridas, o que é um avanço, ao menos a tentativa foi feita. Depois disto, alguns voltam a seus pequenos volumes ilustrados e de pouco texto. Outros, em menor número, dão saltos qualitativos, pulam para o juvenil  e até  querem literatura adulta. Outro dia me surpreendi  com uma aluna do Ensino Médio  solicitando O crime do Padre Amaro do Eça de Queiroz, mas por alívio constatei que foi a pedido do professor, embora a inquietação de ver uma jovem aos 16 anos encarando tal leitura fosse grande, não pelo tema em si - o romance de um padre com uma mulher - mas por tratar-se de um escritor que deveria ser recomendado para quem  já entrou na rota do desencanto,dos 40 em diante.

Enfim, o que esse professor saberia dessa aluna, das qualidades e necessidades da  "psicologia de leitor"? Que estão mais objetivos?Mais céticos?Mais realistas?Menos pacientes?Menos ou mais influenciáveis?

Evidente que a psicologia do leitor reflete o comportamento de época. E há muito ainda a  se explorar nessa área.

NOTAS
(1)  Ulysses  e A montanha mágica  respectivamente
(2) Título de livro e expressão cunhados por Alvin Toffler a  respeito da sociedade da informação

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