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segunda-feira, 15 de julho de 2019

O RATINHO, O MORANGO VERMELHO MADURO E O GRANDE URSO ESFOMEADO: EM QUE A DRAMATURGIA PODE CONTRIBUIR PARA A INTERPRETAÇÃO TEXTUAL


                                                                                                               Sheila G Soares
1.       Introdução

Frequentei nos anos 90, dois cursos de roteiros (TV e cinema), um Seminário de Dramaturgia de teatro, e um laboratório de cinema no Sundance, Nogueira- RJ, em 2001, e, após entrar (por concurso) para o quadro de funcionários da Fundação Municipal de Educação de Niterói, em 2009, observei, ao longo do tempo, como seria útil, para as práticas de leitura textual, a introdução de princípios da dramaturgia como via de interpretação de  literatura infantojuvenil de ficção. O que será abordado aqui talvez não seja novidade para os docentes;  mas pelo que observei, desde escola particular (ONG Solar Meninos de Luz 2001-2008), bibliotecas populares da FME (3,de 2009 a 2016) e escola do Ensino Fundamental da Rede ( 2017-), não observei o uso desses recursos. De antemão, alerto que são  de  simples aplicação,  e que não é nenhum demérito que sejam consideradas “ovo de Colombo” .  Importante é que se coloque o ovo em pé.

2.       Os Limites da interpretação

Observei que a cultura chamada de “interpretação” de texto literário na escola cristaliza alguns hábitos, no momento de se avaliar a apreensão de um texto por parte das crianças.  E geralmente por “interpretação” entende-se como a reprodução de uma sequência  narrativa. As crianças têm uma  facilidade natural em reproduzir enredos e são bastante fiéis a eles. Mas não significa que tenham  “interpretado”.  Alguns  textos têm muito  material a explorar que não é  apenas factual ou apenas "enredo".  Justamente o que se chama de “interpretação”- o que vai além  da simples reprodução de uma história - requer muito mais do que memorização, que é uma apreensão essencial, mas primária.  Requer um aprofundamento em alguma questão ou problemática não explícita, que geralmente tem duas orientações: juízo de valor e produção de sentido.  O juízo de valor (quase sempre aspectos morais) encontra-se muito nas fábulas e em abundância nas histórias clássicas infantis. A desobediência é um valor implícito, embora claro, em Pinóquio e Chapeuzinho Vermelho.  A imprevidência em n´Os Três Porquinhos, a inveja em Cinderela, e assim por diante. Algumas histórias têm mais do que um juízo de valor. Já a produção de sentido se dá em obras abertas, independentemente  da extensão  da obra ou do público-alvo. Obra aberta é “a obra de arte como algo inacabado que exigiria do receptor, no ato da fruição, uma participação bastante ativa, a fim de perceber a obra como um objeto aberto a várias possibilidades interpretativas” (Eco, 1995) A produção de sentido, portanto, implica em o leitor exercer a subjetividade soberanamente, não induzida, ou seja, ele faz uso daquela narrativa de acordo com sua visão de mundo, de sua experiência de vida, de sua cultura pessoal, ou de seu inconsciente, por meio de uma elaboração individual. É a leitura do mundo de que fala Paulo Freire. Esse é um domínio difícil de interferir, porque é bastante complexo exercê-lo como prática pedagógica, ao mesmo tempo é também difícil não se ceder à tentação de induzir.  Que não seja interditado “trabalhar produção de sentido”, propor questões; mas que haja  alguns cuidados em respeito à subjetividade. Uma experiência me é cara em uma roda de leitura com crianças, quando trabalhei em uma escola de  comunidade. O livro em questão foi o famoso e singelo  Maria vai com as outras, de Sylvia Orthoff, onde a autora  coloca o impasse para uma ovelhinha decidir entre seguir o líder do rebanho e saltar de uma ribanceira, o que as demais ovelhas fizeram, ou “ouvir” seu instinto de sobrevivência, e não saltar.  Ao final da narrativa, um aluno, que devia ter seus seis anos, disse com ar reflexivo:  -  “o meu pai cheira todas e bebe todas..”  ante nossa perplexidade. Esse foi um nítido exemplo de como o texto repercutiu na sua produção de sentido. O dilema  gerou instantaneamente  nele a ideia de que o pai  não conseguira se livrar de más influências e o que resultou disso: caiu, como as ovelhas, ribanceira abaixo. É produtivo trabalhar por analogia com uma experiência real na vida de cada um, mas sem perder o foco de que esse é um terreno movediço, onde se ocultam ressentimentos e outros afetos próprios do leitor. A produção do sentido está na zona cinzenta (ou cor-de-rosa) dos afetos. O que pode ser um “limite da interpretação” para o mediador, como diria Humberto Eco. Mas como tratar a interpretação na prática pedagógica, já que se nossa meta é capacitarmos leitores para além da apreensão  literal do texto ?

3.       Linguagem dramatúrgica e linguagem literária: as narrativas clássicas e abertas

Vimos que temos o juízo de valor e a produção de sentido em literatura como métodos a serem explorados na interpretação, cada um no seu território. Os princípios de  dramaturgia nos oferecem uma segunda  via de interpretação, já que não é ela mesma literatura, contudo não exclui esses dois  métodos.  Uma história como Romeu e Julieta é uma trama intrincada de fatos e afetos, mas será que Shakespeare, ao escrevê-la, não quer marcar moralmente a irracionalidade do ódio (juízo de valor) representada nas famílias Capuletto e Montecchio, como um modelo a não ser seguido pela Humanidade? Como é sabido, ele o fez, apenas através de sua famosa narrativa dramática. As inferências nós as fazemos, tipo “o ódio nada constrói”.  A dramaturgia se move pela ação. Na literatura a ação não é condição necessária, embora muito presente nos livros para jovens e crianças. Há um enorme acervo de obras literárias adaptadas para cinema, teatro e televisão, porque elas têm potencial para se transformarem em roteiros e viabilizarem uma produção.  Em resumo, a literatura tem certo grau de dramaturgia, mas é raro e inadequado a  dramaturgia reproduzir o texto literário, no palco ou nas telas. O  literário conta; o dramatúrgico  mostra. Meu grande professor José Louzeiro insistia nessa regra.  Por outro lado, a ação em dramaturgia abrange também afetos, manifestações, não só de natureza física.  Esperando Godot , de Beckett,  um clássico de teatro universal para adultos, é um exemplo típico de obra aberta, com diálogos e movimentação escassos.  Em uma obra aberta, como Esperando..., ou nos movemos por uma suposta “intenção” do autor, ou por um olhar subjetivo, aquele que tenha repercutido interiormente em nós, espectadores ou leitores. O juízo de valor são preceitos estabelecidos socialmente. São valores e normas  estabelecidas pelas leis,  pela sociedade ou pela comunidade a que pertencemos.  A Arte, porém, seja em qualquer meio de expressão, não tem compromisso com nenhum  juízo de valor ou norma estabelecida, apesar de estar comumente associada aos textos literários para o público infantojuvenil,  Porque sempre pretendem ser “educativos” e, como tal, a discussão moral  entre Bem e o Mal é  presença constante.

2.  Elementos dramatúrgicos de texto-modelo :  O Ratinho, o Morango vermelho maduro e o Grande Urso esfomeado.

A aplicação de elementos dramatúrgicos  ficam bastante claros, quando escolhemos um modelo ou exemplo. Um pequeno texto pode ser muito rico em materiais interpretativos não literais, a partir daquela premissa de não identificarmos o conteúdo de imediato. O pequeno grande livro de Don e Audrey Wood, título referido acima, é o nosso modelo-exemplo. Com o mínimo de texto, é uma trama curta e expressiva. Sinopse: um ratinho, ao encontrar um suculento morango maduro deseja-o para si, mas ao pressentir a ameaça do grande urso, vindo em seu encalço para comer a fruta, procura várias soluções rápidas para tentar escondê-la. Essa é uma sinopse de apenas três ou quatro linhas. E qual a questão envolvida? Reparem que toda a trama é apenas o esforço do pequeno em esconder a fruta, esforço em vão, porque o morango é grande e pesado para transportar, o urso é veloz e o tempo é curto. Qual o elemento dramatúrgico nessa história? O impasse. Um impasse se apresenta logo ao protagonista.  Em algumas narrativas clássicas, introduzem-se a personagem, o ambiente e época, como se vê nas histórias iniciadas por “era uma vez”, para contextualizar espaço e tempo. Mas toda e qualquer trama se desenvolve a partir de um problema e não da contextualização. Sem problemas, por menores que sejam,  não há dramaturgia. A premissa da interpretação é de imediato a identificação do problema. Precisa acontecer algo que mova as personagens a uma ação a tirá-los da normalidade, à qual retornarão (ou não) ao final.  A partir de um impasse,  a trama segue rumo a um enfrentamento e a uma resolução.  Atentem que, quase sempre, o final é feliz. Termina num casamento, uma celebração, uma recompensa etc.  Mas, examinando melhor o final do Ratinho ..., a trama não evolui como na maioria das narrativas clássicas para crianças. Voltando à linha do enredo, o ratinho procura algumas soluções para enfrentar o problema (esconder/disfarçar o morango) ; afinal,  nenhuma é satisfatória, já que a aparição do grande urso é iminente. Então ele resolve deixar a metade da fruta para o poderoso animal.  E contenta-se em ficar com a outra metade que pode carregar. Acabou o enredo. Não foi final “feliz”, porque não conseguiu a fruta só para ele; nem infeliz, porque escapou ileso.  Mas é isso?  Não. Sigamos.

2.1   Agora façamos um exercício de argumento , não é produção de sentido.

Personagens.  Um ratinho e um urso oculto.
Identifique o problema que o ratinho enfrenta. Um enorme urso quer  pegar o belo morango que o ratinho desejou. O impasse: ou deixa a fruta para o urso ou  arrisca sua vida.
Como ele enfrenta o problema, já que o urso é muita vezes mais forte do  que ele?  De duas maneiras.
 1º tentando esconder  o morango.
2º tentando disfarçá-lo.
Também duas estratégias inúteis. O urso cheira um morango a muitos km de distância.
Como ele resolve o problema? Divide então o morango em duas partes.
Uma parte ele já come. A outra deixa para o urso E assim salva sua pele.
Esse é apenas o argumento que você “compreendeu” e  está bem explícito.

2.2   Pensemos numa produção de sentido. Você pode tirar uma conclusão para você de uma história como essa? 

Agora imagine uma situação parecida que você tenha vivido no seu cotidiano. Isso se chama produção de sentido, que pode variar de pessoa para pessoa.
 Há livros, como falamos, que não têm nenhuma “moral” (ou juízo de valor) explícita. Esse não tem. Aqui se sugere apenas  que o ratinho foi mais astuto do que corajoso. Pense em quantas situações parecidas acontecem conosco. Don Woody nos mostra  o quanto somos limitados em nossos poderes.(essa produção de sentido é minha). Que há sempre alguém mais forte do que nós, e que o mais inteligente será negociar, perdendo alguma coisa, do que desafiar e perdermos tudo. Que há circunstâncias que nos levam a abrir mão de alguma coisa, a ceder. Quantas situações aparecem em que temos que ceder?  Em quantas situações temos que simplesmente aceitar certas condições, e esperar para superá-las em outra oportunidade?  Em quantas somos levamos a dividir algo material ou moral ? Em que momento você se viu obrigado(a) a repartir algo que deseja muito, para preservar você mesmo,  alguém ou alguma coisa, ou parte de algo que deseja?  Quando temos que avaliar as nossas reais possibilidades? Então podemos dizer que o ratinho foi medroso... ou cauteloso? Enfim, múltiplas possibilidades a explorar. Muitas narrativas enaltecem o herói.  São chamadas histórias românticas ou heroicas, em que o protagonista, com persistência ou bravura, vence um inimigo ou um antagonista muito mais forte do que ele.  Está cheio deles na literatura. Mas em geral não funciona assim na realidade. Vimos que história do ratinho há mais elementos realistas do que românticos. Ele reconhece suas desvantagens em relação ao antagonista, então prefere a estratégia à bravura. O pequeno e rico texto valeu-se de um recurso dramatúrgico que mais mostra do que descreve. Importante observar que a produção de sentido não é aquela solução apresentada pela  personagem.  É o que esta solução agregou para o leitor em termos de sua experiência. Mais importa que suscitem perguntas do que respostas.

3.       Conclusão

Como foi mencionado, para textos da literatura infantojuvenil do primeiro ciclo   (1º ao 5º ano) é bastante simples a interpretação utilizando elementos dramatúrgicos. No tripé problema ou um impasse, o enfrentamento do problema e a resolução do problema são elementos que necessariamente precisam ser identificados na trama.  Procuramos ver se existem indícios de juízo de valor, que não são complexos de explorar, e podemos parar por aí. Porém os textos podem ir além da produção do juízo de valor  - a produção de sentido –  a pergunta é o quê,  para cada um dos leitores, aquele texto associou à sua experiência?
Recomendável que seja aplicado à leitura em roda de um texto por vez, com possibilidade de gerar ricas discussões.
Mas atenção: há textos com vastíssimas possibilidades. São mais complexos e requerem recursos da dramaturgia também mais complexos. Aplicam-se aos jovens mais velhos e com mais escolaridade.

4.       Bibliografia recomendada

     Beckett, Samuel. Esperando Godot. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.

Ortoff.  Maria vai com as outras.  São Paulo: Ática, 1987.

     Pallotini, Renata. Introdução à dramaturgia. Rio de Janeiro: Brasiliense, 1983

    Propp, Vladimir. Morfologia do conto maravilhoso. São Paulo: Forense, 1984

   Vogler, Christopher. A jornada do escritor. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008

   Wood, Don e Audrey. O ratinho, o morango vermelho maduro e o grande urso esfomeado. São Paulo: Brinque book,  2008

segunda-feira, 6 de março de 2017

Compreender biblioteca e bibliotecários

                             
O que me move aqui é traduzir sucintamente esses conceitos – biblioteca e bibliotecários - tão mal compreendidos, sem introduções, históricos e teorias. Para leigos. Do modo mais simples que meus 40 anos de profissão puderem expressar. Embora recente como conhecimento profissionalmente  estabelecido, a biblioteconomia é uma das  atividades que têm mais tradição no mundo, quanto à sua idade  na História, e  dada à sua natureza,  sua origem, como salvaguarda do conhecimento. E que se transforma, claro, como tudo, e ainda bem, porque vem agregando mídias  e diferentes funções. Mas, vamos reconhecer, seu suporte e sua razão de existir é o livro. Viajei  recentemente à Inglaterra e à Suécia e visitei bibliotecas públicas municipais. Sim, é o livro, na sua dimensão social, o protagonista da biblioteca. Onde quer que ela esteja está o livro. E claro,  pessoas interagindo com ele. As bibliotecas são espaços e equipamentos culturais abertos à sociedade em busca do conhecimento. Algumas delas podem contar com ou estar em espaços culturais, mas não são centros culturais. Podem contar com atividades educativas, lato sensu, mas não são escolas.  Nelas, o que se vê são pessoas “apenas” lendo qualquer coisa, outras estudando, outras mais consultando seus computadores para diferentes fins, não necessariamente saberes, apenas informações importantes para o dia a dia, ou simples curiosidades. E sua peculiaridade, ao contrário de que muitos creem,  é de que a biblioteca  não é também equipamento de massa, como um espetáculo -  uma peça ou filme - para onde as pessoas  vão com o propósito de usufruir do mesmo objeto. Atinge cada sujeito na sua particularidade. Na extensão de sua necessidade e seu desejo, em um mesmo ambiente ou pelos meios de difusão.  Não é algo novo o que estou dizendo, mas por incrível que pareça, algo aparentemente tão simples, como um ambiente coletivo de leitura seja, ao mesmo tempo, tão estranho ao senso comum. Uma pergunta que já ouvi muitas vezes: precisa “ter faculdade pra fazer isso [arrumar livros na estante]”?
O que há nesses espaços são profissionais que atendem ao público, de forma personalizada, no que ele precisa em termos de informação e saberes, aos quais  chamamos bibliotecários “de referência”, que irão orientar o usuário sobre como/onde encontrar  a informação ou um determinado documento, mesmo fora de seu território. Para tal atividade é preciso mais que familiaridade, como
 vemos nas livrarias. O bibliotecário precisa “entender do assunto”? Não. Cumpre a ele localizá-lo em seus diferentes aspectos ou suportes (além dos livros) Por exemplo. Um médico pode procurar o assunto “aborto” sob  aspectos biológicos; um advogado sob o aspecto legal; um religioso sob o aspecto moral. Que pode estar num artigo, livro ou outro meio. Um conteúdo pode estar sob  diferentes contextos, suportes e aspectos os quais o bibliotecário deve conhecer, sob o ponto de vista da organização da informação temática e dos meios. Definido o objeto da demanda, para que o bibliotecário seja ágil em sua resposta, ele deve contar com um sistema de informação (SI) bem estruturado. Na falta dele, valerá sua experiência em classificação, o que não é suficiente. O profissional pode falhar, o sistema de informação não. E como é o sistema de informação, pode ser um catálogo? Sim, pode ser na sua forma, porém não é um simples cadastro, uma “relação de livros” ou “lista de documentos” como muitos leigos veem.  É um meio bastante complexo, pelo qual se oferecem descritores (não conteúdos) adequados a uma pesquisa ou uma simples consulta. Os bibliotecários fornecem os meios, não as respostas. Para isso, no SI existem pontos de acesso. Pontos de acesso recuperam, para o consulente, elementos tais como autores ou responsabilidades, títulos, séries, assuntos e os quesitos que satisfaçam àquela demanda e numa linguagem adequadamente representada. Esse é um dos mais importantes campos da biblioteconomia. Aqui entra a tão propalada função educativa do bibliotecário, em que ele orienta o usuário no acesso à informação e no uso do documento.  As bibliotecas, porém, para trabalharem  com sua capacidade máxima, necessitam de ferramentas que vão além de seus acervos locais, como diretórios, bibliografias, que disponibilizem recursos a nível nacional e internacional.
Antigamente (há uns trinta, quarenta anos) um sistema de informação era produzido manualmente, em fichas ou listagens impressas, trabalhosas de se atualizarem. Mas isso mudou, ainda bem, e evoluiu para softwares e bancos de dados online próprios para uso de bibliotecas, e que permitem formatos, tanto para se migrarem dados de uma biblioteca para, outra, como para intercâmbio de fontes. Esses softwares são desenvolvidos por profissionais de TI, porém a montagem deles necessita de suporte de bibliotecários, sob  pena de ficarem incompletos. Contando com um software para bibliotecas, é necessário um bibliotecário técnico para alimentação dos dados que vão compor o sistema de informação. Por que? Por que essa alimentação exige que se sigam normas internacionalmente aceitas, que são exclusivas de sua competência. Você não pode manipular uma fórmula, se você ñ é um farmacêutico, certo? É a mesma coisa. Alguns SI podem ter módulos que auxiliem no funcionamento da biblioteca como cadastro de usuários, relatórios estatísticos e controle de movimentação do acervo, que podem ser mantidos pela equipe auxiliar, mas é fundamental que, principalmente, o sistema de recuperação da informação, de responsabilidade do bibliotecário, possa repercutir também para o público externo no país e até fora dele. São conhecidas as redes de bibliotecas nacionais, estaduais e municipais que trocam informações sobre seus acervos e colaboram entre si. Sem dúvida, essa é uma das maiores conquistas da humanidade na área de informação.
O que mais faz o bibliotecário? Desenvolvimento de coleção. Ou seja, aquisição, seleção, descarte de acervo que seja adequado ao perfil do público local. E quanto mais geral o acervo, mais refinada é a seleção. Avaliar bem o perfil do público é também uma tarefa básica, que envolve conhecer e se relacionar bem com a comunidade a quem a biblioteca vai servir.
Administração. Implica planejar e  trabalhar com as equipes de colaboradores e auxiliares, e os recursos materiais, dentro de um programa de funcionamento e de atividades planejadas que deem visibilidade à biblioteca e atraiam público permanente. Em geral essas atividades contam com um grupo profissional multidisciplinar, ou da própria instituição a que é subordinada, ou contratado especialmente para eventos  e convidados voluntários. Tais atividades são estratégicas para uma boa (e necessária) receptividade da biblioteca em seu meio.
 É esperado também que os bibliotecários sejam sensíveis, particularmente os que atuam no Terceiro Mundo, às dificuldades e desafios da inclusão sociocultural, ainda presentes nos países em desenvolvimento.  E isso implica em sistemáticas ações de incentivo ao uso das bibliotecas por parte de um público iletrado ou não familiarizado com práticas leitoras.
De qualquer modo, a  finalidade de uma biblioteca é universal:  a de  que seja um espaço de  familiaridade e, no plano ideal, de fidelidade à leitura e ao saber, e onde a comunidade se veja incluída e, ao mesmo tempo,  o veja como parte do seu cotidiano.
Espero ter ajudado na compreensão de biblioteca e dos bibliotecários.
                                                                                                              Sheila G Soares 2017





terça-feira, 25 de outubro de 2016

Nobel a Bob Dylan: esnobismo nórdico ou injustiça artística Leonardo Padura

                                                                                
                 Estou mergulhado há dois anos na redação de um novo romance. Mesmo quando um escritor já pratica seu ofício há muito tempo, escrever um novo romance é sempre um exercício árduo e extenuante –e acredito que seja assim para quase todos os escritores que respeitam a si e a seus leitores.
Eu precisei de quatro anos para concluir "Hereges" e cinco para pôr o ponto final em "O Homem que Amava os Cachorros". Por que é tão difícil escrever um romance? Por que o escritor, ainda mais o escritor profissional, sente que nunca disse o que pretendia dizer da melhor maneira em que é capaz de dizê-lo, e retorna várias vezes sobre o que escreveu, transpira, duvida, receia?
Hemingway confessou certa vez que tinha escrito o final de "Adeus às Armas" quase 40 vezes. Quando lhe perguntaram qual tinha sido o problema, ele deu uma resposta tão simples quanto terrível e reveladora: o problema era a ordem das palavras. Porque, na realidade, tudo se resume a isto: a colocar uma palavra atrás de outra para conseguir expressar algo que tenha um sentido e consegui-lo do modo mais belo e claro possível. O difícil é consegui-lo.
Milan Kundera, por sua vez, falou de uma característica peculiar da arte do romance: é que o autor que começa a escrever esse livro é diferente do que terminou de escrevê-lo. Por duas razões: o processo de escrever um romance, de tirar tantas coisas de dentro de si para falar dos mistérios da condição humana, muda você, quer você queira, quer não. E a outra razão é ainda mais dramática: para escrever um romance você pode precisar de dois, três, cinco anos, às vezes mais. O tempo transcorrido faz com que você não seja mais o mesmo entre um momento e outro. É a lei da vida.
Gabriel García Márquez contou várias vezes o que precisou fazer para escrever "Cem Anos de Solidão". O romancista renunciou a todos seus trabalhos de sobrevivência, encerrou-se com seus cafés e seus cigarros para escrever e confiou que poderia acontecer alguma coisa com seu livro, pois, do contrário, sua família estaria do outro lado da beira da falência. E assim escreveu durante anos.
Parece evidente que o ofício literário requer essa dose de masoquismo, de autoimolação, um processo com dor ao longo do qual o artista tem que combater todos os demônios que sejamos capazes de imaginar. Eu me refiro aos verdadeiros escritores, àqueles que fazem de sua arte um instrumento para penetrar "a alma das coisas", como pedia Flaubert. Mas esse verdadeiro escritor assume os riscos e se empenha em sua tarefa. Por quê? Porque não pode deixar de fazê-lo.
Estou convencido de que nunca serei um escritor com as qualidades de Hemingway, Kundera, García Márquez ou Flaubert. Mas, se aprendi alguma coisa em meus quase 40 anos lutando com a escrita, é que escrever literatura é um ofício tremendamente difícil, às vezes lacerante, repleto de incertezas e geralmente, depois de tanto esforço, premiado com a indiferença. Porque apenas um bom livro entre muitos bons livros consegue chegar a se converter em referência, em sucesso comercial (que está mais ao alcance de alguns maus livros).
Os poetas, esses seres empenhados em nos fazer descobrir que a vida pode ser expressa com outras palavras, dedicam-se à sua obra sabendo, de modo geral, que não receberão recompensas por seu trabalho. A poesia nunca vendeu bem e, embora em determinadas épocas e conjunturas históricas os poetas tenham gozado de grande prestígio social e cultural, seu empenho raramente alcança ressonância maior. Mas os poetas existem, sonham, burilam os idiomas, iluminam a mente. Porque são poetas e não podem evitá-lo.
E os dramaturgos? Como no caso da poesia, a experiência pessoal não me acompanha em minha opinião, mas o fato de mover personagens diante dos olhos de outros e contar por meio das palavras deles algo tão difícil de armar como um verdadeiro drama implica, sem dúvida, um esforço criativo maiúsculo.
Direi apenas que vi com surpresa como se concedeu a recompensa literária que se supõe ser a mais importante do mundo a um escritor de letras de canções. Um dos maiores e mais influentes. Um poeta da canção. Claro, o grande Bob Dylan, o
 Prêmio Nobel de Literatura. Esnobismo nórdico ou injustiça artística? Não sei, mas acho que não teria ocorrido a ninguém entregar um Prêmio Grammy a um poeta, um romancista ou um dramaturgo, graças à musicalidade de seus textos. Alejo Carpentier e Carlos Fuentes morreram sem o Nobel de Literatura. Milan Kundera e Philip Roth esperam pelos deles... Mais do que nunca, a resposta da Academia Sueca está boiando no ar.

                                                  L.P.      Folha de São Paulo, 22/10/2016

quarta-feira, 27 de julho de 2016

Por que Literatura?

As políticas de Livro, leitura  e programas de incentivo à Leitura têm defendido  com certo ardor de causa a ênfase  ao campo literário como se este fosse uma unanimidade. É verdade que tudo começou com a Literatura, desde as mitologias às mais antigas narrativas bíblicas e as mais diversas narrativas.  A História se funda com Homero e Heródoto e, sendo que Homero relatava proezas sem qualquer preocupação  com  inteligibilidade* e Heródoto, considerado “o pai da História”, já ensaiava um método para contrastar  fatos com a realidade e procurava não relevar as tradições mitológicas. Mas é Homero quem aparece aos doutos e mestres em Literatura como o reverenciado. E Heródoto encolhe-se no escaninho da historiografia, já que se constituiu na primeira tentativa do homem em sistematizar o conhecimento de suas ações, ao longo do tempo. Sua inovação consistiu em transformar a “linguagem dos deuses para a dos homens”, pela da investigação. Outras e muitas sistematizações e métodos, valendo-se de hipóteses e argumentos seguiram-se depois, constituindo o campo da Ciência e da Filosofia, na tentativa de aproximar o homem da “verdade” sobre sua existência. O campo da criação, imaginação e da fantasia ocupou seu lugar na Literatura, o campo da teoria e experimentação na Ciência, que expandiu-se em vários ramos, ou seja a tomarmos só a classificação de Dewey*, sete entre os dez campos do conhecimento (em bibliotecas, “assunto”) são de natureza investigativa: Filosofia, Psicologia, Ciências Sociais, Língua e Linguística, Ciências Físicas e Naturais, História, Geografia e Biografia, ao passo que Religião, Arte e Literatura- a excetuarem aí os estudos sobre - ocupam o metafísico, o fictício e  imaginário.  E tenho observado que as defesas apaixonadas da Literatura se prendem a crenças,  que vêm se consolidando, de que é através dela que se tem o “entendimento do mundo”, por não estar presa a qualquer paradigma, leis ou regras; a ciência, argumentam, está aprisionada irremediavelmente ao caráter didático , no acervo constituído para uso em sala de aula, portanto, o conhecimento científico é, por natureza, tedioso; verdadeiro em parte, porque a escola estigmatizou as ciências exatas e  humanas, cuja expressão está na visão pedagógica para os jovens, logo, nos livros didáticos, o que, a meu ver,  seria a sua pior expressão possível. Que ações de incentivo se têm implementado para o gosto da Ciência, de ler e experimentar ciência? O livro temático é a fonte primária do conhecimento. A secundária está nas coleções de referência e nos didáticos.  Daí acredita-se, com certo exagero, que a literatura irá fatalmente levar o estudante, no futuro a se interessar por obras de importância incalculável para a  Humanidade, como as de Darwin, Freud, Marx, Einstein,  e  Stephen Hawking, por exemplo. Gênios na arte como Charles Chaplin, Van Gogh, Beethoven. Da política como Maquiavel e Gandhi. Da educação como Piaget e Paulo Freire. Esses pensadores, entre muitos, foram autores e tiveram expressão escrita tão personalíssima como grandes autores da literatura. Não são meros verbetes ou citações de livros didáticos e dos quais nunca mais se falará, fechados os portões da escola. Não se trata de “matéria de aula e prova”, mas de conhecimento. Conhecimento na acepção exata do termo. E esse conhecimento, arrisco dizer, a continuarem essas políticas, passando somente pelas carteiras e por provas, estará em vias de extinção. É claro que não estou falando dos pequenos das séries iniciais, mas a partir dos 11, 12 anos em diante, é preciso mostrar que as formas de apreensão do mundo estão em todos os ramos do conhecimento e que estão também nas livrarias, bibliotecas e todas as mídias.  Acreditar-se que Literatura seja "libertadora', quando a única coisa que ela liberta de verdade é do estudante aplicar-se a “duras” tarefas de investigar os fatos e fenômenos e trabalharem  argumentos que necessitam comprovar, coisa que o devia fascinar e maravilhar e não entediar. As maravilhas da tecnologia e da ciência estão aí dadas para comprovar em que resulta o investimento em pesquisas e leitura diversificada nos países mais avançados. Literatura, como classificou Dewey, é o campo da retórica. Nada contra a retórica, ela é necessária na construção do discurso, mas a tendência preocupante, nas últimas décadas, é que a leitura dos temas de natureza científica, interessante por si só,“precisa” ser mediada pela literatura e pelos didáticos para “amenizar’ a sua “dureza”. Pessoalmente amo ler e amo literatura, confesso que me vejo em dificuldades com as ciências exatas, mais por falta de competências do que por qualquer outra razão, mas reverencio a Ciência pelo conjunto da obra que viabiliza e viabilizará o desenvolvimento da civilização; por isso defendo que, tanto ela quanto os demais ramos do conhecimento, precisam, na mesma medida, de incentivo, em todas as formas de expressão e ambientes. 

https://cpantiguidade.wordpress.com/2009/10/14/perfil-historico-herodoto/


quinta-feira, 14 de julho de 2016

Biblioteca e pedagogia bibliotecária Sheila G. Soares


O aprendizado se dá em qualquer espaço na vida.  Porém, ocioso dizer, a escola é o espaço  de aprendizado por excelência, pela necessidade de instruir,  desenvolver competências  e principalmente inserir o indivíduo no mundo letrado, através das práticas pedagógicas.  Já a biblioteca propicia o acesso a objetos informacionais, que são objetos físicos e virtuais, que podem não ser necessariamente  de natureza pedagógica, cujo acesso exige ferramentas facilitadoras. Nesse sentido, a informação cumpre a função de gerar conhecimento. A informação é parte do corpo do conhecimento, não é ele próprio. Assim a biblioteca cumpre um papel de mediação, não entre o “usuário/ utente/ consulente”    e o conhecimento propriamente dito, como é próprio da escola; é a mediação entre aquele e as formas de acesso a conteúdos,  através de sistemas de informação. Os sistemas de informação são estruturas que dispõem de pontos de acesso - como autor, título e assunto - para atender ao desejo, ou a uma necessidade  que tenha gerado uma busca  por parte do indivíduo. Já  o leitor, na sua definição léxica de  ”aquele que lê”, ou se propõe a ler, na ou através da biblioteca, é aquele usuário que é membro ativo e faz parte da comunidade de leitores, integrado à instituição.  Há correntes que  inclusive chegam a chamá-lo “sócio” ou “cliente”. É quando  aparece o termo leitor na biblioteca, a partir da atividade interessada de um usuário neste espaço. Os demais serão potenciais leitores.  Pode-se dizer que uma das expectativas mais comuns nas bibliotecas é fazer de um usuário, apenas visitante ou frequentador, um leitor; daí as atividades culturais em uma biblioteca  serem uma estratégia importante para atrair o usuário ou potencial leitor para o uso frequente da coleção ou acervo ou para serviços além dela. Como pensar o papel do bibliotecário? Desde as políticas de leitura tenta-se “pedagogizar” as funções bibliotecárias para o que chamam de “formar leitores”. No Brasil essa tendência surge em fins da década de 90 do século passado, com os planos e políticas de leitura (PNLLs), que ganham força pelo país afora, e  cujo viés pedagógico surge com força. Isso implica (e está expressamente colocado nas diretrizes do Proler) que as bibliotecas ( e os profissionais) precisam "dar mais atenção" ao usuário do que às atividades que os ocupam tradicionalmente como o tratamento da coleção, as atividades de classificação, catalogação, referência etc. Não que o bibliotecário não possa se envolver em atividades culturais ou pedagógicas, como acontece em bibliotecas escolares, é bom que se envolvam, mas tradicionalmente, para este profissional não é requisito explorar conteúdos, embora tenha que ter/fornecer referência deles;  ao contrário do que ocorre com o professor, que ministra os conteúdos. "Grande cuidado está sendo devotado ao estudo das estruturas dos documentos, [...] de forma que os bibliotecários estão sendo vistos por outros especialistas como `arquitetos de informação". (GOMES,2010)¹ É como o arquiteto que projeta um hospital, desconhece  matéria médica, mas entende as necessidades de um hospital. No máximo, ele precisa se informar sobre o  que é essencial ao edifício para dar-lhe segurança, conforto e acessibilidade. Ou seja, ele reúne informações para que o projeto seja executado à perfeição. Por analogia, o bibliotecário projeta um "edifício" do conhecimento universal, para que as portas se abram à cultura e/ou ao aperfeiçoamento dos sujeitos.  A diferença do bibliotecário para o arquiteto é que, em vez de ferramentas matemáticas e o desenho, ele usará códigos, tabelas e índices. Por isso é tido como um profissional técnico, mas nada obsta que atue com conteúdos, sem que se descaracterizem os fundamentos de sua profissão e as atribuições previstas em lei². Que o bibliotecário tivesse uma  expertise na área de conhecimento em que atua seria o ideal, mas é impossível, porque é um profissional que atua, tal como o arquiteto, em diferentes áreas do conhecimento. O conteúdo  deve ser o suficiente para construir "pontes" de informação, por onde transitam diferentes e múltiplos interesses. Ou seja, sua responsabilidade é estar atento às potencialidades e dificuldades do seu público em relação ao acesso a  que a instituição pode oferecer, para que resulte, cada vez mais, na disseminação do conhecimento e no desenvolvimento das  pessoas e dos  saberes na sociedade.

1. Gomes, Hagar E. ver em http:// www.bibliodata.ibict.br/ geral/docs/ProfissaodoFuturo.pdf
 2..Ver referências sobre  atribuições e papel  do bibliotecário (sugestão) em http://www.cfb.org.br/institucional.php?codigo=7http://archive.ifla.org/VII/s8/unesco/port.htm 

sábado, 9 de julho de 2016

Afinal o que é ser leitor? por Carlos Alberto Gianotti

                                                                                    
Em seu recente livro A civilização do espetáculo (Objetiva), Mario Vargas Llosa é concludente: vivemos um tempo de banalização da cultura, um tempo de metamorfose daquilo que se entendia por cultura, na época em que era alimentada e preservada por uma elite (cultural) e a ela mesma se destinava. Diz Llosa que essa concepção de cultura inapelavelmente acabou, e que estamos em plena civilização do espetáculo, do entretenimento fútil, do falatório mediante vocabulário glamourizado e da irrelevância da criatividade estética. Seguindo-se um pouco além por esta trilha do Nobel peruano, pode-se perceber a mencionada espetacularização também na atividade empresarial, na educacional escolarizada e na esportiva, amadora ou profissional. Enfim, bem se analisando, constatar-se-á que tudo se move visando um espetáculo sempre alimentador de vaidades.
Nunca encontrei alguém instruído que, pelo menos da boca para fora, não considerasse a leitura como essencial para a vida das criaturas. A leitura aparece, para além do mero entretenimento, como fator de aprimoramento individual, de formação da pessoa humana integral. Muitos especialistas dizem que, suplementarmente, pela leitura, além de outros proveitos, o ledor torna sua imaginação mais frenética; isto é, quanto mais se lê, mais imaginativo se fica, ou os que lêem bastante restam com a imaginação mais arguta do que aqueles que pouco ou nada lêem. E ter imaginação fértil, dizem, é um refrigério para o intrapsíquico. Em outras palavras, a capacidade imaginativa das criaturas precisa ser irrigada com doses de leitura, para crescer como uma planta. Uma tal quantificação parece-me ela mesma imaginária, coisa que é bonita de se dizer, mas que não se pode efetivamente aferir.

Formar leitores?
Algumas semanas atrás, o reputado jornalista, editor e escritor espanhol Juan Cruz, quando esteve em Buenos Aires para o lançamento do último de seus livros, em entrevista ao caderno Ñ, do Clarín, saiu-se com esta: “La tarea del editor es decirle a la gente por qué debe ler um libro y no irse a la playa”. Parecem-me tais ações irrelacionáveis (ler ou ir à praia; soa como se a atividade de ler estivesse acima de qualquer outro fazer), mas indiscutivelmente, como assertiva, rende dividendos na comunidade bem-comportada dos intelectuais do bem. São as verdades que mentem. Vargas Llosa, ao falar na civilização do espetáculo, identifica-a também na miríade de manifestações absurdas, a exemplo da de Cruz, tidas como “culturais”, com que somos bombardeados continua e impiedosamente.

Conforme pude constatar durante mais de trinta anos de magistério, sempre foi intenção de meus colegas docentes das disciplinas de Língua Portuguesa e de Literatura fazer com que seus alunos se tornassem leitores, apreciadores da leitura. Continuam eles ainda hoje a asseverar pelas salas de aula, num psitacismo que enuncia uma verdade que lhes é válida, que é indispensável ler, porque é por meio da leitura que se lapida o espírito crítico, se aprimora o redigir, se acura o bom gosto e se estará apto a exercer com discernimento a cidadania — seja lá isso o que for. Pode-se, entretanto, constatar que esses professores, no que se refere a tal intenção, têm alcançado o mais absoluto insucesso: basta notar que 38% dos brasileiros com curso superior, hoje, não conseguem entender um texto simples ou escrever algumas linhas sem solecismo e de forma coerente (Indicador de Analfabetismo Funcional 2012, dado pelo Instituto Paulo Montenegro, ONG Ação Educativa), como um bilhete para (des)marcar um churrasco com amigos — que acaba por sair em garranchos e ao estilo semântico daquele do Samba do Arnesto, de Adoniran Barbosa. (Nessas condições, leitor destas linhas, noto que há uma nada desprezível probabilidade de o seu médico ter-lhe prescrito aquela medicação sem haver entendido perfeitamente o que diz a bula.)

Ao mesmo tempo de magistério, pude também constatar que colegas professores de Educação Física, alguns deles mesmos com sobrepeso corporal e que não arredavam pé da vida sedentária (porque isso não depende apenas de uma vontade racional), viviam a incentivar seus alunos à prática de esportes e de exercícios físicos para a vida saudável, para um longo e bem viver. Igualmente se pode constatar o insucesso das elocuções desses educadores físicos, a se julgar pelo hábito de realizar exercícios entre os adultos de hoje: quantos entre nós mantemos continuadamente a prática recomendada por nosso antigo professor do colégio?

Fazer exercícios físicos regrados depende de força de vontade, de disciplina, de continuidade por parte do praticante, o motivo indubitável de a maioria manter-se sedentária; a leitura, por sua vez, impõe ao leitor disciplina, atenção, reflexão, razões pelas quais tantos são os refratários a ela. É certo que ler ficção popular, como a de Paulo Coelho, literatura de auto-ajuda ou policial requer miúda aplicação intelectual; já literatura de proposta, de problematização, exige do leitor, além de um vocabulário mais amplo e refinado, um espírito sutil, uma capacidade de entendimento esmerada, um pensamento criativo bem-conformado; reclama a faculdade da abstração e demanda estabelecimento de relações — como para ler Proust, Macedonio Fernández, Pessoa, Bernhard, Kafka, Musil —, condições que, por sua vez, se aprimoram com o continuado deleite com autores como esses.

Então, fazer com que as pessoas passem a apreciar a atividade de ler parece-me um homólogo de fazer com que as pessoas venham a gostar de praticar exercícios físicos sistemáticos. A primeira para uma vida crítica, “cidadã”; a outra para uma longevidade daquela vida crítica: mens sana in corpore sano. Assim, os que não leem estariam para o âmbito da cultura como os sedentários estão para o do fisicultura.

Preliminares
Agora, chegou-me às mãos um exemplar da recém-lançada publicação Plano Estadual do Livro, Leitura e Literatura (PELL), 2013-2023, do Rio Grande do Sul, que, como outros projetos similares, estabelece as bases para uma ação coletiva visando o incremento do hábito de ler. Documento burocrático, fala sobre a importância da leitura, assevera que as escolas devem formar leitores e que sua difusão deve começar na família. Tudo muito bonito. Porém, como costuma acontecer sempre que se fala em fomentar a leitura, o que não diz também este documento é o que vem a ser “a leitura”, o que é “ser leitor”. Parece-me esta uma indagação preliminar essencial quando no Brasil se fala tanto em “formação de leitores”, pois não é possível formá-los se não se tem noção exata do que é ser leitor. Portanto, quais seriam os critérios para considerar uma pessoa como leitora e outra como não leitora? O que caracterizaria como leitor, por exemplo, um eletricista, um desembargador, uma embaixadora, um contador, um bombeiro, uma taquígrafa, um engenheiro, um delegado, um caixa de banco, uma manicure?

Será leitor o oficial do tabelionato que passa o dia lendo escrituras de compra e venda de imóveis? Será leitora a telefonista que, entre um e outro atendimento, examina a Contigo e a Caras de que é assinante? Ou a dona de casa que apenas folheia o jornal diário, atenta especialmente ao obituário? Será leitor o escrivão de polícia que se entretém com literatura policial nos momentos de folga do plantão da calada da noite? Ou o ascensorista que, em seu irremediável sobe e desce, lê e relê as recomendações dos compêndios de Lair Ribeiro? Ou o professor de Literatura que apenas lê os livros que recomenda a seus alunos? Ou aqueles que leem tudo considerado fundamental pela intelligentsia nacional, desde Homero, Ovídio, Camões e Cesário Verde até Verissimo, Caio Abreu, Ruffato e Galera? Ou aquele que, não sendo muito afeito à poesia e à ficção, é, entretanto, estudioso inveterado de filosofia — Platão, Kant, Nietzsche, Hegel, Heidegger, com algumas passadinhas ligeiras por Freud e Lacan?

Poder-se-ia estabelecer, sem auto-engano, que, para ser considerado “leitor”, a criatura deverá ler aquilo que a intelectualidade, aqueles que tanto dizem ler, estabeleça como escritos dignos de serem lidos?

Poder-se-ia também conjecturar, não sem coragem, mas com desentusiasmo, que o hábito de ler será reservado à elite cultural, àqueles a quem foi conferido o dom de apreciar a leitura, com disciplina, atenção, análise, num paralelo àquele dizer de Vargas Llosa que considera a cultura algo a ser preservado e apreciado apenas pelas elites culturais, que realmente se deleitam lendo o que há de bom?
Ou, ainda, aceitar que seja provável que aqueles que não gostam de ler jamais virão a fazê-lo, simplesmente porque acham isso chato ou despiciendo, como quem não gosta de exercitar-se fisicamente nunca irá além da poltrona.
Enfim, o que é ser leitor?

Carlos Alberto Gianotti é professor de Física, é editor-executivo da Editora Unisinos. Autor Um rio circunferencial (WS Editor). Vive em Porto Alegre (RS).​
Fonte: http://www.sul21.com.br/jornal/afinal-o-que-e-ser-leitor/