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domingo, 12 de fevereiro de 2012

Jogando a criança fora com a água da bacia I

Tive a oportunidade de ver meu trabalho aprovado no Congresso Internacional de Leitura em Havana de 25  a 29 de outubro de 2011. O que apresento aqui são comentários, pois o original foi bastante extenso e mais técnico. Minha exposição, intitulada Programas de Incentivo à Leitura: dúvidas e inquietações, pontua-se em três tópicos, que, do meu ponto-de-vista, merecem revisão das políticas. 1. Capacitação x Incentivo (Aprendizado e práticas de leitura) 2. O lugar da leitura literária (a Literatura deve se impor?) e 3. Ambiente e sociedade como propulsores da Leitura (que estratégias as políticas devem tomar em relação à crescente informatização da sociedade?).

Primeira parte: Capacitação e Incentivo (Aprendizado e Práticas de Leitura)

A um simples olhar, é nítida nas políticas de Leitura, a demarcação de duas fronteiras entre aprendizado e incentivo, uma dicotomia que vem a se fazer mais nítida, à medida que os órgãos ministeriais vinculados à Cultura e pertinentes ao livro e a Leitura, chamam para si a tarefa das práticas de leitura, uma vez acordado, entre  seus  agentes  e os da Educação, que há impossibilidade crônica ("interdição") do professor  em levá-las adiante. Tal estado de coisas é um lamentável consenso. À primeira vista parece razoável : a Educação cuida do aprendizado da leitura e a Cultura das práticas. Mas não é tão simples assim. Ocorre que, ao defender que o "as práticas, e não o aprendizado voltado para o cotidiano é que possibilitam  o leitor participar de maneira ativa da sociedade", tal postulado só seria verdade inteira, na medida que esse leitorado estivesse no domínio do letramento, ou seja que ele tivesse desenvolvido as etapas de decodificação, compreensão e produção escrita autonomamente. Ou dito de outra forma, que já estivesse vencendo, ou vencido, a linha divisória do analfabetismo funcional, condição que o ensino fundamental no país não tem  conduzido satisfatoriamente, conforme testes nacionais e internacionais de proficiência em leitura.  Defender práticas de leitura como "formação", sem essa sustentação, é como construir um edifício sem estrutura, ou como prefere o povo, "enxugar gelo". As diretrizes  políticas exageram quando afirmam que "o contato com materiais de leitura  possibilita o leitor se tornar autor de sua própria existência". Sim, mas nunca  se não estão suficientemente preparados para esse protagonismo. Não será o processo inverso - quanto mais preparado para os materiais de leitura, mais vivo será o interesse desse leitor? O fato de que o leitor necessita estar preparado para esses materiais não é científico, é constatável no cotidiano, por qualquer observador, como tenho feito há dez anos. O acesso ao livro, claro, repercute no interesse e no desejo, porém não diretamente na formação. Não podemos falar com honestidade no fato de brasileiro ler pouco atribuindo à falta de acesso ao livro no Brasil. Salvo em algumas aldeias e grotões; há, e já há algum tempo, inúmeros programas oficiais distributivos de grande porte, - e seria ocioso citá-los - voltados para escola e bibliotecas, fora as Organizações Não Governamentais atuando para esse fim. Daí  constatar-se facilmente  que o que aparenta ser "desinteresse" e "desestímulo" é tão somente falta de qualificação que a leitura requer. Recorrendo ao argumento prosaico: posso adorar automóveis ou pianos, mas como vou dominá-los, se não aprendo a utilizá-los? Fazer de conta  que leitura não é uma tecnologia é como jogar fora a água da bacia com a criança dentro, ou jogar fora a criança com a água da bacia?  Dizia Rubem Alves muito bem, "leitura sem dominar a técnica é um sofrimento". Foi simplesmente essa ideia, para muitos talvez óbvia, mas para mim simples, que tentei passar na minha exposição. Devemos sim, tentar trazer a nós , através da ação cultural, sem perder de vista os miúdos, aqueles leitores que estamos perdendo dia a dia, as verdadeiras "ovelhas desgarradas" por outros motivos, e muitos há, para não ler. Agora, os que não estão capacitados é dever moral e urgente da Educação promover : afinal, não é a esses que é negado o direito de ler, mas o de  saber ler para ser autor de sua existência.

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