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quarta-feira, 28 de março de 2012

Bibliotecários famosos: Georges Bataille

A nossa queridíssima Wikipedia no verbete Bibliotecários Famosos (http://pt.wikipedia.org/wiki/Lista_de_bibliotec%C3%A1rios)  omitiu o  biblioteccário e pensador Georges Bataille que, se não tinha formação específica (nem existia) exerceu por décadas a função e, desculpem falar de mim um pouco, ele, como eu (que não sou famosa),  generalista que era (criou o Collége de Sociologie), se dedicava a escrever sobre os mais variados temas, todos que envolvessem Humanidades.

Por esse motivo Bataille é meu ídolo, é em quem me espelho; como ele, nunca me senti confortável em qualquer especialização. Não satisfeita com Biblioteconomia - que, cá entre nós, é uma especialização - parti para Ciências Sociais em 1972, e, bem mais tarde, em 2001, para Produção Cultural. E sobre elas vivo escrevendo, de um modo ou de outro.

Mas estou aqui para falar de Georges Bataille:

Nasceu em 1897, em Billom (França). A infância foi passada em Reims, cidade onde permaneceu até 1914. Com o início da I Guerra Mundial, abandona Reims com a mãe e parte para Riom-ès-Montagnes, deixando o pai, doente, para trás (situação que o marcou profundamente e pela qual se sentia responsável). É por esta altura que se converte ao catolicismo, ingressando no Seminário de Saint-Flour em 1917. Em 1918 publica o seu primeiro escrito: Notre-Dame de Rheims, em memória da notável catedral, destruída pelos bombardeamentos. No mesmo ano concorre (e é admitido) à École des Chartes. Assim, abandona o seminário e instala-se em Paris. Em 1922 parte para Madrid, para a Escola de Altos Estudos Hispânicos (actual Casa Velásquez). Lá, apaixona-se pelas ‘corridas’ e toda a simbologia sexual em que estão envoltas. Em 1922, obtem o diploma e em 1924 inicia a sua longa carreira de bibliotecário na Biblioteca Nacional, onde trabalha durante 20 anos. Em 1937, cria o Collège de Sociologie juntamente com Roger Caillois e Michel Leiris, destinado a estudar as manifestações do sagrado na existência social.
É autor de uma vasta e diversificada obra (abrangendo formas e temas tão opostos como a poesia, a narrativa, o místico, a economia, a arte ou o erotismo), publicada em parte sob pseudónimos (Lord Auch, Pierre angélique ou Louis XXX). Possuía um grande talento interdisciplinar e uma capacidade invulgar para utilizar discursos distintos. Algumas das suas obras, consideradas “literatura de trangressão” (e, portanto, escritas sob pseudónimo, como é o caso de O Ânus Solar), foram mal aceites pela crítica. No entanto, uma análise mais cirúrgica a esses livros permite desvelar a sua profundeza filosófica e emotiva. Nos livros que escrevia procurava fornecer perspectivas paradoxais, encerrando pontos de vista divergentes e escondendo significados mais profundos por detrás do significado primeiro e aparente. A filosofia de Bataille, embora pouco conhecida durante a sua vida, foi uma influência para autores posteriores, como Foucault, Sollers e Derrida. Fundou numerosas revistas (como a Critique, de 1946, da qual era director do comité de redacção) e grupos de escritores.
Morreu em 1962, em Paris.
                                             Fonte:Assírio & Alvim  http://www.assirio.com/autor.php?id=7944&i=G

Não contem com o fim do livro Humberto Ecco

Eletrônicos duram 10 anos; livros, 5 séculos’, diz Umberto Eco. Ensaísta e escritor italiano fala em entrevista exclusiva de seu novo trabalho, em parceria com o roteirista francês Jean-Claude Carrière,`Não Contem com o Fim do Livro’. Alguns trechos:‘
Leiam a entrevista a Ubiratan Brasil Estadão Especial Caderno 2
O livro não está condenado, como apregoam os adoradores das novas tecnologias?
O desaparecimento do livro é uma obsessão de jornalistas, que me perguntam isso há 15 anos. Mesmo eu tendo escrito um artigo sobre o tema, continua o questionamento. O livro, para mim, é como uma colher, um machado, uma tesoura, esse tipo de objeto que, uma vez inventado, não muda jamais. Continua o mesmo e é difícil de ser substituído. O livro ainda é o meio mais fácil de transportar informação. Os eletrônicos chegaram, mas percebemos que sua vida útil não passa de dez anos. Afinal, ciência significa fazer novas experiências. Assim, quem poderia afirmar, anos atrás, que não teríamos hoje computadores capazes de ler os antigos disquetes? E que, ao contrário, temos livros que sobrevivem há mais de cinco séculos? Conversei recentemente com o diretor da Biblioteca Nacional de Paris, que me disse ter escaneado praticamente todo o seu acervo, mas manteve o original em papel, como medida de segurança.
Qual a diferença entre o conteúdo disponível na internet e o de uma enorme biblioteca?
A diferença básica é que uma biblioteca é como a memória humana, cuja função não é apenas a de conservar, mas também a de filtrar – muito embora Jorge Luis Borges, em seu livro Ficções, tenha criado um personagem, Funes, cuja capacidade de memória era infinita. Já a internet é como esse personagem do escritor argentino, incapaz de selecionar o que interessa – é possível encontrar lá tanto a Bíblia como Mein Kampf, de Hitler. Esse é o problema básico da internet: depende da capacidade de quem a consulta. Sou capaz de distinguir os sites confiáveis de filosofia, mas não os de física. Imagine então um estudante fazendo uma pesquisa sobre a 2.ª Guerra Mundial: será ele capaz de escolher o site correto? É trágico, um problema para o futuro, pois não existe ainda uma ciência para resolver isso. Depende apenas da vivência pessoal. Esse será o problema crucial da educação nos próximos anos.
Não é possível prever o futuro da internet?
Não para mim. Quando comecei a usá-la, nos anos 1980, eu era obrigado a colocar disquetes, rodar programas. Hoje, basta apertar um botão. Eu não imaginava isso naquela época. Talvez, no futuro, o homem não precise escrever no computador, apenas falar e seu comando de voz será reconhecido. Ou seja, trocará o teclado pela voz. Mas realmente não sei.
Como a crescente velocidade de processar dados de um computador poderá influenciar a forma como absorvemos informação?
O cérebro humano é adaptável às necessidades. Eu me sinto bem em um carro em alta velocidade, mas meu avô ficava apavorado. Já meu neto consegue informações com mais facilidade no computador do que eu. Não podemos prever até que ponto nosso cérebro terá capacidade para entender e absorver novas informações. Até porque uma evolução física também é necessária. Atualmente, poucos conseguem viajar longas distâncias – de Paris a Nova York, por exemplo – sem sentir o desconforto do jet lag. Mas quem sabe meu neto não poderá fazer esse trajeto no futuro em meia hora e se sentir bem?
É possível existir contracultura na internet?
Sim, com certeza, e ela pode se manifestar tanto de forma revolucionária como conservadora. Veja o que acontece na China, onde a internet é um meio pelo qual é possível se manifestar e reagir contra a censura política. Enquanto aqui as pessoas gastam horas batendo papo, na China é a única forma de se manter contato com o restante do mundo.
Em um determinado trecho de ‘Não Contem Com o Fim do Livro’, o senhor e Jean-Claude Carrière discutem a função e preservação da memória – que, como se fosse um músculo, precisa ser exercitada para não atrofiar.
De fato, é importantíssimo esse tipo de exercício, pois estamos perdendo a memória histórica. Minha geração sabia tudo sobre o passado. Eu posso detalhar sobre o que se passava na Itália 20 anos antes do meu nascimento. Se você perguntar hoje para um aluno, ele certamente não saberá nada sobre como era o país duas décadas antes de seu nascimento, pois basta dar um clique no computador para obter essa informação. Lembro que, na escola, eu era obrigado a decorar dez versos por dia. Naquele tempo, eu achava uma inutilidade, mas hoje reconheço sua importância. A cultura alfabética cedeu espaço para as fontes visuais, para os computadores que exigem leitura em alta velocidade. Assim, ao mesmo tempo que aprimora uma habilidade, a evolução põe em risco outra, como a memória. Lembro-me de uma maravilhosa história de ficção científica escrita por Isaac Asimov, nos anos 1950. É sobre uma civilização do futuro em que as máquinas fazem tudo, inclusive as mais simples contas de multiplicar. De repente, o mundo entra em guerra, acontece um tremendo blecaute e nenhuma máquina funciona mais. Instala-se o caos até que se descobre um homem do Tennessee que ainda sabe fazer contas de cabeça. Mas, em vez de representar uma salvação, ele se torna uma arma poderosa e é disputado por todos os governos – até ser capturado pelo Pentágono por causa do perigo que representa (risos). Não é maravilhoso?
No livro, o senhor e Carrière comentam sobre como a falta de leitura de alguns líderes influenciou suas errôneas decisões.
Sim, escrevi muito sobre informação cultural, algo que vem marcando a atual cultura americana que parece questionar a validade de se conhecer o passado. Veja um exemplo: se você ler a história sobre as guerras da Rússia contra o Afeganistão no século 19, vai descobrir que já era difícil combater uma civilização que conhece todos os segredos de se esconder nas montanhas. Bem, o presidente George Bush, o pai, provavelmente não leu nenhuma obra dessa natureza antes de iniciar a guerra nos anos 1990. Da mesma forma que Hitler devia desconhecer os relatos de Napoleão sobre a impossibilidade de se viajar para Moscou por terra, vindo da Europa Ocidental, antes da chegada do inverno. Por outro lado, o também presidente americano Roosevelt, durante a 2.ª Guerra, encomendou um detalhado estudo sobre o comportamento dos japoneses para Ruth Benedict, que escreveu um brilhante livro de antropologia cultural, O Crisântemo e a Espada. De uma certa forma, esse livro ajudou os americanos a evitar erros imperdoáveis de conduta com os japoneses, antes e depois da guerra. Conhecer o passado é importante para traçar o futuro.(...)
Falando agora sobre sua biblioteca, é verdade que ela conta com 50 mil volumes?
Sim, de uma forma geral. Nesse apartamento em Milão, estão apenas 30 mil – o restante está no interior da Itália, onde tenho outra casa. Mas sempre me desfaço de algumas centenas, pois, como disse antes, é preciso fazer uma filtragem.
Por que o senhor impediu sua secretária de catalogá-los?
Porque a forma como você organiza seus livros depende da sua necessidade atual. Tenho um amigo que mantém os seus em ordem alfabética de autores, o que é absolutamente estúpido, pois a obra de um historiador francês vai estar em uma estante e a de outro em um lugar diferente. Eu tenho aqui literatura contemporânea separada por ordem alfabética de países. Já a não contemporânea está dividida por séculos e pelo tipo de arte. Mas, às vezes, um determinado livro pode tanto ser considerado por mim como filosófico ou de estética da arte; depende do motivo da minha pesquisa. Assim, reorganizo minha biblioteca segundo meus critérios e somente eu, e não uma secretária, pode fazer isso. Claro que, com um acervo desse tamanho, não é fácil saber onde está cada livro. Meu método facilita, eu tenho boa memória, mas, se algum idiota da família retira alguma obra de um lugar e a coloca em outro, esse livro está perdido para sempre. É melhor comprar outro exemplar (risos).

LEIA A ENTREVISTA NA ÍNTEGRA EM:

Menos é mais

Há muitos esforços louváveis em favor da promoção da leitura entre crianças e adolescentes partindo do pressuposto de que 0 ato de ler é algo pessoal e transferível. Partilho, em parte, dessa posição. No entanto observo uma montanha de recursos - programas, projetos editoriais belíssimos, a associação com entretenimento - que se investem e que presumo que vão para o ralo das coisas inócuas. A espetacularização da leitura, sobre que Marisa Lajolo discorreu tão bem, a demasiada crença em eventos e marketing, a crença na infantilização da informação para alavancar o interesse da crianças em temas relevantes, enfim, de que têm que colocar um nariz de palhaço cada vez que estão diante de uma plateia que "precisa ler" é  quase devoção de que tais ações deem resultados efetivos na escolarização. Em alguns casos isolados dão. Não há dúvida de que as crianças que leem por si mesmas terão melhores resultados na escolarização, isso é facilmente comprovável, por que a competência em leitura alcança todas as disciplinas. O prazer de ler porém é pessoal, e diferentemente do ato de ler, é  intransferível. É inegável que pode haver "contaminação" deste prazer, mas jamais como fenômeno de massa, como muitos esperam. Uma feira de livros com a imagem de alegres crianças portando livrinhos é adorável, mas a afluência a esses eventos não pode se converter em um dado no desenvolvimento do leitor miúdo. Agora vamos ao ponto. O que leva ao desenvolvimento é a capacitação. Mas alto lá, a capacitação não vai garantir que o pequeno seja um "leitor formado"no sentido de consumir livros. É um direito de qualquer pessoa não gostar de ler, como acentuou Daniel Pennac em seu Decálogo do Leitor; há os que não gostam de música, de circo, de teatro, enfim das manifestações culturais, e ninguém os obriga a consumirem o que não gostam, como se faz com o livro. Mas se a pessoa não gosta de ler por opção, como é seu direito, por outro lado precisa de habilitação para ler contratos, bulas, rótulos de mercadorias, material publicitário, receitas, regulamentos e leis, discursos de políticos, notícias, manuais de instrução, operações matemáticas, e a mais variada gama de publicações de que vai precisar para exercer sua cidadania. Alguns dirão que é pouco. Não, é muito dentro do princípio inglês do Menos é Mais.  Mas não o bastante para nossa sociedade e comunidade escolar, porque o paradigma é a erudição. E essa erudição, todos sabemos, vem do alto da pirâmide letrada: a universidade. A universidade, o "ideal de todos". Evidente que a universidade representa  uma perspectiva profissional. No entanto, é triste ver  que quando se pergunta a um jovem sobre seus planos futuros, ele diga de uma maneira vaga "vou fazer uma faculdade" em vez de dizer quero ser médico, engenheiro ou professor. O que está colocado é o reconhecimento que ele deseja alcançar com uma "faculdade"- fora disso ele ele será um "mané"-  e não que tipo de habilidade é seu desejo real exercer. Insisto em capacitação. Os professores hão de ficar admirados com a audácia de uma bibliotecária, mas longe das comparações, isso me lembra uma historinha de Rui Barbosa que não sei se é verdade. Dizem que ele, quando viveu em Londres, colocou um anúncio onde dizia "Ensina-se inglês". Diante do espanto geral, ele colocou outra: "Ensina-se inglês aos ingleses". Estou mais ou menos assim, não que venha sacar métodos ou pedagogias ou grandes novidades, que muitas vezes são maravilhosas no papel, mas uma filosofia dentro do princípio do Menos é Mais talvez resulte mais promissora.
O que chamo de capacitação para a leitura é o letramento progressivo por aquisição de habilidades, que vai desde o reconhecimento dos simbolos gráficos até a completa proficiência, que é ler reconhecendo os discursos dos diferentes gêneros, ter idéia ou domínio de denotação e conotação, entonação e fluência oral adequada a cada gênero, além da produção de sentido.
A pedagogia dos materiais a se utilizarem de acordo com cada faixa etária é por conta, é claro, do professor.
A escola deveria se debruçar nesse projeto de capacitação pelos primeiros cinco anos. Por que? Porque a partir daí começa o ciclo das disciplinas. As disciplinas são os próprios discursos preponderantes. Matemática é abstrata e lógica; História é narrativa, Geografia e Ciências são preponderantemente descritivas, enfim a língua é o guia para todos os saberes, e se já não tiverem algum domínio sobre ela, não terão sobre as demais matérias. Certamente há variáveis, eu sempre tive bom domínio da língua e sempre fui péssima em Matemática. E você pode ser bom em Matemática e ruim nas demais. Mas acredito, como em tudo que boto não só fé como observação de muitos anos, que um bom desempenho na língua contamina positivamente os demais campos do saber. E anima os pequenos a lerem.
Dito assim, parece simples. Menos é Mais. Menos o que? Menos crenças. Crenças em que, reconhecidos os símbolos gráficos, estão alfabetizados. Não estão. O aluno alfabetizado não lê aos tropeços. Outra:a  crença de que reprodução é interpretação. Qualquer criança repete qualquer história que viu ou ouviu. Isso é reproduzir. Interpretar é ir além do que está explícito, claro, desde que o texto tenha afetado o leitor em algo. Por isso, incentivo-o (mostrando)a ler piadas, adivinhas, charadas e histórias em quadrinhos. O simples riso de uma criança numa dessas leituras é um sinal innequívoco de que o texto a afetou. De que ela realizou a produção de sentido.Há uma intervenção que chamo de violência: roteiros pré-formatados de leitura que saem das editoras. A recepção não pode ser programada! Outra: edulcoração de temas pela substituição por ficção, em lugar do discurso dissertativo, também protagonizada pelas editoras. É um desserviço ao reconhecimento de gênero dos discursos e à desenvoltura discursiva. Quando pedirem para os alunos falarem em Revolução industrial, serão aprovados se contarem uma historinha de ficção? E, finalmente, para açucarar um clássico fazem adaptações que deformam importantes obras da Literatura Universal que, nem de longe, é aquilo que é apresentado. Por quem? Nem precisa falar.
Quando tinha 13 anos, li Crime e Castigo, de Dostoiévski e li A Metamorfose de Kafka. Gênio? Não. Adquiri competência necessária em leitura. Simples assim.

Tristes arremedos literários de Wilson Alves Bezerra

Esse primor de artigo, cujo conteúdo endosso na íntegra, vai no rastro da crítica que faço ao que chamo de escolarização da leitura literária. Um dos vícios capitais de muitos que se dizem "incentivadores/formadores" da leitura:

Coleção transforma pbras clássicas em tristes arremedos literários. Wilson Alves-Bezerra * O Globo - Prosa e Verso 03/07/2010 p.4

Há um divertido conto do húngaro Dezsö Kosztolányi (1885-1936) que conta a história de um cleptomaníaco que se torna tradutor. Ao traduzir o primeiro romance para o húngaro, ele compulsivamente subtrai lustres, joias, janelas e outros objetos de valor da obra original. Perfeito seria o crime se o leitor, supostamente não proficiente na língua do autor, de fato não pudesse ir ao original e comprovar o que lhe foi furtado. Tal conto nos traz alguns elementos para pensar sobre a coleção É só o começo, da L&PM. Com nove títulos publicados, de autores como Shakespeare, Cervantes, e os brasileiros Machado de Assis, Lima Barreto, Aluísio de Azevedo, entre outros, ela oferece edições com “linguagem adaptada para um público específico”, o que ela chama de “neoleitores”. O alvo são estudantes até a oitava série. O pressuposto é que o “neoleitor” não teria condições de ler os originais e que é preciso “facilitar a leitura”. Há algo inquietante na facilitação vir justamente no momento em que os leitores estão em formação. A regulação da iniciação literária dos jovens, proposta pela coleção parece desconsiderar a possibilidade da paixão literária, o arrebatamento de um primeiro amor juvenil, que poderia advir do contato com um grosso volume de uma biblioteca alheia — seja ela a da escola, da família, ou de um sebo. A brevidade e a simplicidade das versões adaptadas parece postergar para um momento incerto o contato efetivo com a literatura, como se primeiro fosse preciso “aprender a aprender a ler”, para só depois ler de fato. É a impressão que causa a edição infestada de notas de vocabulário , geografia, história, indicações de sites e filmes; com isso, o literário fica em segundo plano e o livro se torna fonte de informações enciclopédicas. Desconsiderando a hipótese da paixão pela literatura, a coleção rege-se antes pelo princípio de amor médico, higiênico de que mais prudente é contratar uma preceptora para as primeiras letras do jovem , para evitar que ele se depare com coisa pior pela rua (como o amor, o desejo). Num primeiro momento, seria de se comemorar uma edição pedagógica de Romeu e Julieta  que permite que o jovem leitor tenha acesso ao dramaturgo inglês. Mas , olhando de perto, vê-se que da peça de Shakespeare o adaptador furtou o teatro e a poesia , o encanto da linguagem, , a gilidade dos diálogos. Furtou-nos Shakespeare sem deixar dele rastro que pudesse seduzir o jovem leitor para aventuras futuras. O paradoxo é que mesmo autores de escrita fina e cativante, simples em seu tempo, e nosso,como Lima Barreto tem que atravessar o moedor da adaptação, vendo empobrecerem-se sua ironia e humor. Além disso, o texto do mestre carioca é dotado na versã "neoleitoril" de um discuros pedagógico, de todo inexistente no original. Assim, autores tão distintos como o que podem ser Shakespeare e Lima Barreto foram achatados  a um estilo médio, de um vocabulário que não excede a duas mil palavras, condensados e livres de peculariedades de estilo e que em quase nada nos lembram o original. Por que é que uma coleção que diz apostar na iniciação literária deita fora o que há de mais importante na experiência da leitura: o confronto com uma linguagem  que não se confunde com a do dia a dia, e oferece ao leitor um convite à descoberta?  Antonio Candido , num texto fundamental " A literatura e a formação do homem" (1972) lembra-nos das agruras dos jovens insones, noite adentro, sob o impacto das obras como as de Aluízio de  Azevedo. E diz que a literatura forma o homem não no sentido rasteiro de uma pedagogia do bem-viver, mas no sentido alto de confirmar-lhe a humanidade, com suas agruras e contradições. Assim pedagogizada,  as primjeiras experiências literárias ficam como que formatadas ao protocolo da leitura obrigatória, instrutiva e desinteressante. A coleção É só o Começo caiu na sedução popularesca da facilitação de acesso a alguns clássicos brasileiros e ocidentais, mas tornou-os um triste arremedo literário que subestima o jovem leitor.
*Wilson Alves Bezerra é professor de Departamento de Letras da UFSCar, tradutor e escritor

Caçadas de Pedrinho ou à Literatura?

A polêmica suscitada em torno do livro de Monteiro Lobato, Caçadas de Pedrinho, vem ao encontro de questões que há algum tempo levanto a respeito da escolarização da leitura literária, cujos artigos estão neste blog. O livro sofre, através da escolarização, um processo de “enquadramento”e diria até mais, de patrulhamento e dirigismo que não se compara a nenhum outro bem cultural, particularmente o livro literário. Alguém já viu esse tipo de cerco à discografia ou filmografia? Pois bem, as crianças mal começam a ler, já tem que “se orientar” pelos roteiros de leitura que vem das editoras, acompanhando as obras (e que eu sempre jogo no lixo sem a menor piedade), como se o leitor não tivesse capacidade de “decifrar” a inextricável trama ou o sentido de uma obra; já assumindo para seu público que literatura é algo “muito complexo” que precisa de ajuda para ser consumido, ou seja, a literatura vem acompanhada de bula ou manual, tanto faz, porque “não é para qualquer um”. Nessa perspectiva, também se pensa que aquele leitor, desde a tenra idade, será um crítico sagaz, se assim for “ensinado”, e, mais tarde, um erudito, ou o seu oposto, que o pequeno é um projeto de imbecil, incapaz de inferir, de tirar um ensinamento ou um princípio, por si mesmo, de qualquer coisa que leia. Ledo engano. A crítica e a erudição se fazem de acordo com a trajetória intelectual de cada um, que é tanto vocacional como do contexto social. Enquanto isso as crianças, e de todas as classes, vão lendo os Harry Potter e os Crepúsculos da vida! Sem entrar no mérito dessas obras, esses leitores já tem comprovadamente a fluência em leitura necessária para “encarar” esses calhamaços de 300, 400 páginas ou mais, se lhes agradar. Foram “apenas” e simplesmente capacitados a lê-los, e nenhum desses livros veio com bula. Quando a produção editorial entrou na “didatização” do que não precisa, como a Literatura, foi para entrar na concorrência ($) pela preferência das escolas, que, por sua vez, preferem o material “facilitado” para o professor. Dessa política, resultaram também adaptações de clássicos para crianças beirando o ridículo, como algumas de Shakespeare. Outro mostrengo para tornar palatáveis temas “espinhosos” da História e Ciências sociais, e mesmo das Ciências Naturais, foi introduzir alguma ficção nelas como “tempero”ou edulcorante, prática abundante em muitas coleções para jovens, de editoras “pedagógicas”, sem o menor respeito pela capacidade de recepção do jovem ou criança. Essa intervenção é patrulheira e castradora dos processos de recepção e, ao contrário do que preconizam, compromete a visão crítica que não é originada no leitor, é “ensinada”. Não estou aqui inovando nada, vários autores já denunciaram essas práticas, que são, na essência, disputa pelo mercado, visando tanto às escolas quanto às compras governamentais. Entre um livro “didatizado” e um não “didatizado” para jovens, qual é o preferido? Elementar, meus caros, para a contabilidade das editoras e mesmo de alguns escritores profissionais. Quanto a Monteiro Lobato e seu “Caçadas de Pedrinho”, mais um pretexto de patrulha, intervenção e o que mais vier, para tentar fazer da Literatura um nicho cada vez mais privilegiado de uma pequena aldeia de letrados que pensam que pensam por todos. Aliás, para quê, tomar chá na Academia? Liberdade para a Literatura!

Como Dewey pode ajudar a educação

Não, prezados leitores, não é o Dewey- John, filósofo e educador, é o velho Dewey- Melvil, sim, o bibliotecário, criador da famosa CDD que até hoje as bibliotecas cultuam, a bíblia dos bibliotecários , o "código Hamurabi" da classificação. Pois bem, Dewey, ao construir sua indestrutível tabela, partiu de um grupo de 9 perguntas diretas e simples:

 1.De onde viemos, quem somos?
 2. Quem nos criou?
 3.Como entender o mundo à nossa volta?
 4.Como nos relacionamos?
 5. Como entender e aplicar conhecimento sobre a Natureza?
 6.Como entender e apreciar a Arte?
 7.Como nos divertir?
 8.Quem são e como são nossos heróis, personagens e fantasias?
 9.Como registrar os feitos e acontecimentos do Passado para legar às gerações do Futuro?

A primeira pergunta,- De onde viemos, quem somos? - aplicada à tabela, se refere, claro, a categorias filosóficas. É claro que não se vai ministrar filosofia aos pequeninos desde as séries mais iniciais, mas nessa rubrica já podemos introduzir elementos da identidade: seu nome, sua família e sua casa. Já a partir do fundamental (5º ano) já podemos ampliar essa identidade: elementos étnicos , costumes, crenças e folclore, a História, e tudo que nos diferencia dos demais povos. Do 6º pra frente, o homem como indivíduo físico e cultural e seu ambiente físico e cultural. Já no segundo grau, aprofundamento de História Geral e do Brasil.
A segunda pergunta  tem um viés religioso  - Quem nos criou? - porque Dewey a considerava de extrema importância, por ser cristão fervoroso, e sua tabela é predominantemente detalhada nesse quesito. Porém, a escola pode introduzir rudimentos da Criação, tanto do ponto de vista científico - o Universo, o Cosmos e os seres - tanto quanto ou também religioso, sendo esse último polêmico - Bíblia ou Darwin? Já entre as crianças (do 5º em diante) maiores, as primeiras noções de biologia. Que serão ampliadas pela pergunta 3: como entender o mundo à nossa volta? - até o 5º ano, o microcosmos social, a vizinhança, o bairro e o município, e a partir do 2º ciclo, noções mais aprofundadas sobre o Meio ambiente e biodiversidade, o meio urbano e sua complexidade, conhecimentos geográficos. No segundo grau, aspectos teóricos e críticos, envolvendo Economia, Ecologia e Política.  A 4ª,  - Como nos comunicamos? a linguagem aplicada, desde a alfabetização até a proficiência na lingua desde as etapas da palavra, frase, enunciado e discurso como construção, sendo (sugestão minha) que a análise morfológica e  sintática somente a partir só 6º ano. A 5ª,- como entender e aplicar conhecimentos sobre a natureza - se aplicaria às Ciências Exatas - Matemática, Astronomia, Ciências da Terra, Invenções e Tecnologia, desde todo o fundamental  e no segundo grau, Química, Física e Biologia aplicada, quando entram  fórmulas e conceitos, cujos rudimento o estudante já viu na 2ª pergunta. A 6ª - Como entender e apreciar a Arte  desde os primeiros até o último ciclo, seria prepará-los a tornarem-se espectadores, o que implica em ver filmes, peças, recitais, leituras,exposições e eventos. Uma variante é também praticar arte como atividade extra-curricular. Sétima pergunta, como nos divertir? - pode estar ou não incluída na anterior, mas de natureza totalmente livre e à escolha do indívíduo estudante: esportes, dança, artes marciais, informática etc. A 8ª  - Quem são nossos heróis etc. -e à qual Dewey também oferece extensa tabela é a Literatura, que se refere a conhecer autores  tanto universais quanto nacionais, não como especialistas, mas apreciadores e possíveis produtores. Tal condição exige uma capacitação apurada e dedicada do desempenho na língua ao longo do tempo proposto pela 4ª pergunta. E finalmente, a 9ª - Como registrar fatos e acontecimentos etc. - a História deve ser introduzida à medida que se estuda a nossa identidade, nossa origem e, principalmente, entendida como registro de fatos importantes para entendermos o país e a  Humanidade como ela é hoje.
As perguntas são fios condutores que podem auxiliar a montagem de currículos e não um esquema pedagógico rígido, mas certamente Dewey nos oferece uma alternativa à celebre pergunta recorrente nos estudantes sobre as disciplinas: por que estudamos isso, por que preciso disso? Uma outra coisa de grande valor é que a proposta é temática, ou seja as disciplinas vêm responder aos temas e não o contrário. A disciplina é necessária para entender determinado tema, mas os temas é que a subordinam. Não vejo nada mais inovador! E pensar que a ideia vem lá do século XIX...

O conselho de Tolstói

Tolstói anotou em seu diário: “Escrever não é difícil, o difícil é não escrever”. Essa frase deveria ser o lema da literatura contemporânea” (Ricardo Piglia, 2011)
Poderíamos dizer que  não foi exatamente um “conselho de Tolstói” mas um exemplo ele ter abandonado a literatura, coisa que certamente seria de se lamentar e não se regozijar. Quantos deveriam ter o dever moral da fazer tal renúncia, mas não o fazem. Parecem escrever “a metro” e usando a expressão um tanto rasteirinha, escrevem muito e muitos dos quais são uma bela porcaria.
 Ah, mas o que é "porcaria" para você  e uma "porcaria" para mim?
Ranganathan dizia que “há sempre um leitor para um livro”, hum... o mesmo que “um chinelo velho para um pé cansado”, mas o ilustre bibliotecário não especificou o quanto esse leitor é pouco exigente ou pouco instruído..
Pois é, fica complicado, mas não é tão difícil  assim   estabelecer algum parâmetro, porque todos têm aquela “honrosa” exceção, mas vamos tentar:
a)      A desconfiança de que o que você escreve não é bom o bastante é quando é recusado por um punhado de editoras; atenção, há honrosas exceções deste caso entre grandes escritores; não desanime, você pode ser um deles;
b)      Quando você, ignorando o parecer de boas editoras, mesmo assim edita sem selo, ou inventa um selo para publicar; e gasta uma baba! Aí começa o perigo...
c)      Quando você ignora que nove entre dez livros autoeditados não são bons o bastante. Leia apenas um de seus pares para se certificar;
d)      Quando você participa de uma coletaneazinha de ilustres desconhecidos, entrando com uma graninha de co-participação;
e)      Quando o que você publica fica estocado na sua casa, depois de distribuído a todos os amigos e familiares de graça;
f)        Quando o “grosso” de sua tiragem vai parar na coitada da biblioteca,  que cuida rapidamente de passá-la adiante. Nunca vi um “estoque” de  Guimarães Rosa  ou Clarice Lispector aparecerem na minha biblioteca!
g)      Quando você se vale de algum prestígio pessoal para publicar, de um patrocínio, ou de algum cargo político, que franqueia edições para você como a editoras instituccionais, por exemplo;
h)      Quando você se vê tentado a “cometer” uma literatura infanto-juvenil para angariar patrocínios oficiais e “adoção” pelas escolas. Literatura infanto-juvenil é o sonho dourado de maus (e bons também) escritores, por ser uma mina de ouro!
i)        Finalmente, quando você se vale de um tema que tem “mídia” para escrever um livro: aí é marketing, não literatura. Ex. Bullying!

Enfim, apontei um bom número de  indicadores – e creio que há mais - em que você pode facilmente se enquadrar.
Para não ser tão radical, sinceramente, não acredito que, se você fez alguma dessas coisas, tenha sido por mal:  foi só por vaidade!

Não que você vá seguir à risca o exemplo do grande Tolstói, mas como não escrever é difícil, faça como eu: use à vontade a Internet, essa bênção da modernidade.

* Nota: aos amigos que publicam apenas por diversão, em pequenas tiragens, esse artigo não é para vocês, é para os pretensiosos.