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quarta-feira, 28 de março de 2012

Menos é mais

Há muitos esforços louváveis em favor da promoção da leitura entre crianças e adolescentes partindo do pressuposto de que 0 ato de ler é algo pessoal e transferível. Partilho, em parte, dessa posição. No entanto observo uma montanha de recursos - programas, projetos editoriais belíssimos, a associação com entretenimento - que se investem e que presumo que vão para o ralo das coisas inócuas. A espetacularização da leitura, sobre que Marisa Lajolo discorreu tão bem, a demasiada crença em eventos e marketing, a crença na infantilização da informação para alavancar o interesse da crianças em temas relevantes, enfim, de que têm que colocar um nariz de palhaço cada vez que estão diante de uma plateia que "precisa ler" é  quase devoção de que tais ações deem resultados efetivos na escolarização. Em alguns casos isolados dão. Não há dúvida de que as crianças que leem por si mesmas terão melhores resultados na escolarização, isso é facilmente comprovável, por que a competência em leitura alcança todas as disciplinas. O prazer de ler porém é pessoal, e diferentemente do ato de ler, é  intransferível. É inegável que pode haver "contaminação" deste prazer, mas jamais como fenômeno de massa, como muitos esperam. Uma feira de livros com a imagem de alegres crianças portando livrinhos é adorável, mas a afluência a esses eventos não pode se converter em um dado no desenvolvimento do leitor miúdo. Agora vamos ao ponto. O que leva ao desenvolvimento é a capacitação. Mas alto lá, a capacitação não vai garantir que o pequeno seja um "leitor formado"no sentido de consumir livros. É um direito de qualquer pessoa não gostar de ler, como acentuou Daniel Pennac em seu Decálogo do Leitor; há os que não gostam de música, de circo, de teatro, enfim das manifestações culturais, e ninguém os obriga a consumirem o que não gostam, como se faz com o livro. Mas se a pessoa não gosta de ler por opção, como é seu direito, por outro lado precisa de habilitação para ler contratos, bulas, rótulos de mercadorias, material publicitário, receitas, regulamentos e leis, discursos de políticos, notícias, manuais de instrução, operações matemáticas, e a mais variada gama de publicações de que vai precisar para exercer sua cidadania. Alguns dirão que é pouco. Não, é muito dentro do princípio inglês do Menos é Mais.  Mas não o bastante para nossa sociedade e comunidade escolar, porque o paradigma é a erudição. E essa erudição, todos sabemos, vem do alto da pirâmide letrada: a universidade. A universidade, o "ideal de todos". Evidente que a universidade representa  uma perspectiva profissional. No entanto, é triste ver  que quando se pergunta a um jovem sobre seus planos futuros, ele diga de uma maneira vaga "vou fazer uma faculdade" em vez de dizer quero ser médico, engenheiro ou professor. O que está colocado é o reconhecimento que ele deseja alcançar com uma "faculdade"- fora disso ele ele será um "mané"-  e não que tipo de habilidade é seu desejo real exercer. Insisto em capacitação. Os professores hão de ficar admirados com a audácia de uma bibliotecária, mas longe das comparações, isso me lembra uma historinha de Rui Barbosa que não sei se é verdade. Dizem que ele, quando viveu em Londres, colocou um anúncio onde dizia "Ensina-se inglês". Diante do espanto geral, ele colocou outra: "Ensina-se inglês aos ingleses". Estou mais ou menos assim, não que venha sacar métodos ou pedagogias ou grandes novidades, que muitas vezes são maravilhosas no papel, mas uma filosofia dentro do princípio do Menos é Mais talvez resulte mais promissora.
O que chamo de capacitação para a leitura é o letramento progressivo por aquisição de habilidades, que vai desde o reconhecimento dos simbolos gráficos até a completa proficiência, que é ler reconhecendo os discursos dos diferentes gêneros, ter idéia ou domínio de denotação e conotação, entonação e fluência oral adequada a cada gênero, além da produção de sentido.
A pedagogia dos materiais a se utilizarem de acordo com cada faixa etária é por conta, é claro, do professor.
A escola deveria se debruçar nesse projeto de capacitação pelos primeiros cinco anos. Por que? Porque a partir daí começa o ciclo das disciplinas. As disciplinas são os próprios discursos preponderantes. Matemática é abstrata e lógica; História é narrativa, Geografia e Ciências são preponderantemente descritivas, enfim a língua é o guia para todos os saberes, e se já não tiverem algum domínio sobre ela, não terão sobre as demais matérias. Certamente há variáveis, eu sempre tive bom domínio da língua e sempre fui péssima em Matemática. E você pode ser bom em Matemática e ruim nas demais. Mas acredito, como em tudo que boto não só fé como observação de muitos anos, que um bom desempenho na língua contamina positivamente os demais campos do saber. E anima os pequenos a lerem.
Dito assim, parece simples. Menos é Mais. Menos o que? Menos crenças. Crenças em que, reconhecidos os símbolos gráficos, estão alfabetizados. Não estão. O aluno alfabetizado não lê aos tropeços. Outra:a  crença de que reprodução é interpretação. Qualquer criança repete qualquer história que viu ou ouviu. Isso é reproduzir. Interpretar é ir além do que está explícito, claro, desde que o texto tenha afetado o leitor em algo. Por isso, incentivo-o (mostrando)a ler piadas, adivinhas, charadas e histórias em quadrinhos. O simples riso de uma criança numa dessas leituras é um sinal innequívoco de que o texto a afetou. De que ela realizou a produção de sentido.Há uma intervenção que chamo de violência: roteiros pré-formatados de leitura que saem das editoras. A recepção não pode ser programada! Outra: edulcoração de temas pela substituição por ficção, em lugar do discurso dissertativo, também protagonizada pelas editoras. É um desserviço ao reconhecimento de gênero dos discursos e à desenvoltura discursiva. Quando pedirem para os alunos falarem em Revolução industrial, serão aprovados se contarem uma historinha de ficção? E, finalmente, para açucarar um clássico fazem adaptações que deformam importantes obras da Literatura Universal que, nem de longe, é aquilo que é apresentado. Por quem? Nem precisa falar.
Quando tinha 13 anos, li Crime e Castigo, de Dostoiévski e li A Metamorfose de Kafka. Gênio? Não. Adquiri competência necessária em leitura. Simples assim.

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