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quarta-feira, 28 de março de 2012

Caçadas de Pedrinho ou à Literatura?

A polêmica suscitada em torno do livro de Monteiro Lobato, Caçadas de Pedrinho, vem ao encontro de questões que há algum tempo levanto a respeito da escolarização da leitura literária, cujos artigos estão neste blog. O livro sofre, através da escolarização, um processo de “enquadramento”e diria até mais, de patrulhamento e dirigismo que não se compara a nenhum outro bem cultural, particularmente o livro literário. Alguém já viu esse tipo de cerco à discografia ou filmografia? Pois bem, as crianças mal começam a ler, já tem que “se orientar” pelos roteiros de leitura que vem das editoras, acompanhando as obras (e que eu sempre jogo no lixo sem a menor piedade), como se o leitor não tivesse capacidade de “decifrar” a inextricável trama ou o sentido de uma obra; já assumindo para seu público que literatura é algo “muito complexo” que precisa de ajuda para ser consumido, ou seja, a literatura vem acompanhada de bula ou manual, tanto faz, porque “não é para qualquer um”. Nessa perspectiva, também se pensa que aquele leitor, desde a tenra idade, será um crítico sagaz, se assim for “ensinado”, e, mais tarde, um erudito, ou o seu oposto, que o pequeno é um projeto de imbecil, incapaz de inferir, de tirar um ensinamento ou um princípio, por si mesmo, de qualquer coisa que leia. Ledo engano. A crítica e a erudição se fazem de acordo com a trajetória intelectual de cada um, que é tanto vocacional como do contexto social. Enquanto isso as crianças, e de todas as classes, vão lendo os Harry Potter e os Crepúsculos da vida! Sem entrar no mérito dessas obras, esses leitores já tem comprovadamente a fluência em leitura necessária para “encarar” esses calhamaços de 300, 400 páginas ou mais, se lhes agradar. Foram “apenas” e simplesmente capacitados a lê-los, e nenhum desses livros veio com bula. Quando a produção editorial entrou na “didatização” do que não precisa, como a Literatura, foi para entrar na concorrência ($) pela preferência das escolas, que, por sua vez, preferem o material “facilitado” para o professor. Dessa política, resultaram também adaptações de clássicos para crianças beirando o ridículo, como algumas de Shakespeare. Outro mostrengo para tornar palatáveis temas “espinhosos” da História e Ciências sociais, e mesmo das Ciências Naturais, foi introduzir alguma ficção nelas como “tempero”ou edulcorante, prática abundante em muitas coleções para jovens, de editoras “pedagógicas”, sem o menor respeito pela capacidade de recepção do jovem ou criança. Essa intervenção é patrulheira e castradora dos processos de recepção e, ao contrário do que preconizam, compromete a visão crítica que não é originada no leitor, é “ensinada”. Não estou aqui inovando nada, vários autores já denunciaram essas práticas, que são, na essência, disputa pelo mercado, visando tanto às escolas quanto às compras governamentais. Entre um livro “didatizado” e um não “didatizado” para jovens, qual é o preferido? Elementar, meus caros, para a contabilidade das editoras e mesmo de alguns escritores profissionais. Quanto a Monteiro Lobato e seu “Caçadas de Pedrinho”, mais um pretexto de patrulha, intervenção e o que mais vier, para tentar fazer da Literatura um nicho cada vez mais privilegiado de uma pequena aldeia de letrados que pensam que pensam por todos. Aliás, para quê, tomar chá na Academia? Liberdade para a Literatura!

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