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sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Caminho para o cadafalso

Longe de mim querer me reunir ao seleto grupo de ilustres que, em toda a História, vá lá, vociferaram contra o sistema ou sistemas e suas tenebrosas transações e foram imolados,[1]  mas é assustador saber que a minha voz é das poucas, pouquíssimas, em toda a Internet [2], que se levanta contra uma política devastadora para o ensino do país: os critérios duvidosos de produção, distribuição e uso do livro didático, o LD. Não é impensável o que tal crítica possa atrair a cólera das legiões[3], afinal essas “legiões” são ministérios, secretarias, comissões pedagógicas, câmaras setoriais, editores, autores, enfim poderosos e  milhões [4](ou bi) em investimentos. Mas em absoluto, não é neste emaranhado financeiro que uma simples e experiente bibliotecária cutuca a onça com vara curta e arrisca-se a ir para o cadafalso. Os que participam dessa corrida do ouro é que conhecem seus meandros, só conheço o que é publicado nos meios de comunicação, para mim já é o suficiente. Quero adiantar, em primeiro lugar, que os agentes dessa política se apresentam como vestais, cercados da aura do Bem,  intocáveis; e  que livro, e tudo que se refere a livro, particularmente o didático, é cercado de ação missionária, abnegação e altruísmo. Quem der uma passada pela história do livro para estudantes verá que nas primeiras obras publicadas[5] se ensinavam boas maneiras e religião e que mais tarde, pelo menos, se tornaram laicas e científicas. Mas como, o que faz uma bibliotecária, que deveria ser amante nº 1 do livro assumir tais posições? Justamente por trabalhar em bibliotecas. Nas bibliotecas brotam as ervas daninhas dessa política. Do ponto de vista administrativo, os colegas que me confirmem, todas as bibliotecas recebem refugos de livros didáticos, se assim permitirem. Quem nunca recusou livros didáticos em sua biblioteca, que venha para o ringue comigo. Principalmente os que o “mercado” - ah essa figura abstrata! – rejeitou. Excesso de estoque, coleções distribuídas e não utilizadas, fora os utilizados, “reformulados” e ultrapassados pela “última” e constante reforma ortográfica ou pedagógica e que o público doa. O público está errado? Não. Ele entende que não se descarta um bem que, para ele, passam como eterno e sagrado, e que, para ele, vai enriquecer a biblioteca “guardiã”, como qualquer outro livro. Esse é o aparato ideológico do livro transferido para o didático.Tudo porque o paradigma é falso. Tudo porque não há uma boa política de Estado para se lidar com a temporalidade deste tipo de livro, ou qualquer outra coisa temporária[6] que exista, e, já que aqui dou o meu primeiro passo para o cadafalso, faço logo uma confissão: se o público não sabe o que fazer com esse material, tampouco sabe o bibliotecário. Em geral, passa adiante, se encontrar quem queira, e/ ou manda reciclar quando encontra providenciais recicladores. E por causa do luxo das lindas ilustrações até reciclar é um "sacrilégio".[7] Ah que pena, sim, que pena! Afinal os autores “suaram”(suores muito bem pagos) para produzir o conteúdo, os ilustradores e gráficos capricharam, os editores se esmeraram na arte final, capas luxuosas, caros... Pergunto, para quê, se deixam de ser utilizados rapidamente? Se há alguma chance de mantermos em nossa biblioteca livros didáticos, são os não-consumíveis, poucos, cuja temporalidade pode se estender por mais algum tempo, como item de consulta. Os consumíveis, enfim, foram consumidos, e vão, sim, criar um  problema ambiental, que será tratado como “caso de polícia”. Por quê? Porque tudo que não se resolve vira caso de polícia. Horrorizam-se as vestais com o livro no lixo ou na rua, como se esse livro não fosse descartável , mas, sinto muito, senhores, ele é por natureza descartável, porque em pouco tempo terá cumprido sua missão.[8] Então, se é para isso, pergunto: por que edições tão caras e luxuosas, se, para exercitar poderiam, produzidos ao menor custo, com material barato como apostilas ou blocos simples, facilmente recicláveis? Ainda tem o fato de que os computadores estão aí, vindos em boa hora... A resposta eu não tenho, eu só intuo; as respostas estão com o mercado, o governo e quem participa da economia política do livro.
      Agora, aspectos pedagógicos observados na prática diária de quem trabalha na biblioteca, e que diz respeito ao livro didático,são tão ou mais graves do que os aspectos ecológicos. Essa a pior parte a expor nesse cadafalso.
Qualquer professor há muito tempo assumiu que o LD é um facilitador, pois o libera de estar produzindo certo conteúdo, esse é um ponto pacífico. Inclusive ele tem o seu próprio “livro do professor”semelhante ao do aluno, só que com as respostas. Ele pode "passar o dever" que já está ali pronto, e cuidar de outra turma ou da sua vida, que geralmente é em outra escola. Ótimo. Acontece que esse tipo de livro é um mediador, tanto para o professor quanto para o aluno, porém no senso comum, ele não é entendido assim. Explico com a minha experiência com livros, não só profissional, mas de leitora. O conhecimento não é o que está ali naquele livro limitado. O capital intelectual se alimenta da diversidade. À exceção de matemática, Física e Química cujo conteúdo, mesmo que informativo, é de natureza experimental, os demais conhecimentos estão distribuídos por materiais  de diferentes tipos – gramáticas e textos, obras informativas, os meios físicos como na Biologia, filmes, os meios providos pelas novas tecnologias, enfim não obstante a produção anual de milhões de livros didáticos e a distribuição deles, o estudante não está diante do conhecimento e da sua potencialidade, mas da possibilidade mínima de formar competências para acessar aquele, e que se perde. Por que? Porque a fonte é única. Por que, se há alguma diversidade, é a de outros livros didáticos concorrentes. O que aponto como grave é entender-se, ainda nessa altura do milênio, que o LD pode dar conta do que esse estudante precisa para  seu desenvolvimento. O nível do sistema pergunta-e-resposta é limitado, tenta reproduzir a fala do professor ou falar por ele, e induz o estudante a uma relação automática com a matéria. O livro didático não instiga, ele pergunta se tal coisa é tal coisa. Não se considera que a pergunta precisa ser gerada pelo aluno, portanto é uma relação autoritária. E estrita. Se o leitor não tem familiaridade com os temas e assuntos correlatos, tais limites vêm dessa instrução de uma fonte só. São de grande valor as estratégias de acesso que as bibliotecas oferecem, além de outros meios de aquisição da informação, hoje, felizmente, fartamente disponíveis e mais poderosas. Um exemplo da instrução de fonte única - um aluno certo dia procurou na biblioteca algo sobre “o golpe militar de 64 no Brasil”, apresentei-lhe obras sobre História contemporânea do país, que contém  o assunto; ele encontrou nos sumários termos como “regime militar”, ‘ditadura militar”, “revolução de 64", etc. e não o termo que queria,“golpe”. Ele ficou reticente, eu lhe disse então que o golpe foi um episódio desse período. Ele me agradeceu e disse que ia "perguntar de novo ao professor" se era isso mesmo. Essa é nitidamente uma má formação com que me deparo inúmeras vezes, dado que a pesquisa, cuja prática deveria ser rotineira, não é levada a sério, todo mundo conhece o “recorta-e-cola” para aluno ganhar alguns pontos. Na pesquisa e nos trabalhos temáticos é que os alunos têm uma excelente oportunidade de desenvolver habilidades importantes de acesso, e de lidar com a diversidade de linguagens, fontes e informações.
Outra questão  que foi objeto de queixa de uma leitora é a troca do uso dos cadernos pela escola em favor dos didáticos consumíveis. É verdade, os cadernos são mal utilizados ou nem são utilizados, porque os tais didáticos consumíveis estão aí para isso. Que mal há nisso? Muito, muito mal. O papel em branco é um desafio importante que o professor precisa ajudar a criança a enfrentar, desde a prática de boa letra até um protocolo que vai ter muita utilidade no futuro, como : colocar cabeçalhos (nome da escola, da disciplina, seu nome, o do professor, a data, título do trabalho etc), e até indicar consultas feitas, se for um trabalho. Também como iniciar, enumerar e organizar tópicos de um texto, o que pode começar mesmo antes do 5º ano. Fora a vantagem de ajudar a manter o material organizado. O caderno é esta oportunidade. Ou se a escola for informatizada, o mesmo se aplica aos editores de texto. Mas um bom caderno tem muito valor, se utilizado.
Finalmente, agora com a corda apertando mais meu pescoço, a última coisa: por que tudo tem que ser tão "divertido" e "lúdico?". Essas palavras são utilizadas por 9 entre 10  professores. Tudo bem na pré-escola, mas no fundamental a criança vai ser introduzida em um mundo maravilhoso sim, mas não de fadas e duendes, mas de maravilhas da natureza, da palavra e da Ciência, que são fascinantes. Vai ser introduzida no mundo em que vai ter que se preparar, e muito bem, para atuar na vida cada vez mais exigente e competitiva. Por que a infantilização? A produção de livros informativos hoje, mediados pela literatura para “suavizar” ou facilitar as noções práticas  e reais que ela precisa desenvolver é impressionante, e absolutamente inútil e infantilizadora. Você não precisa criar uma ficção para o jovem entender o que são dinossauros, e depois, confundi-los com dragões. A natureza e as coisas criadas pelos homens são fantásticas por si só, e não precisam dessa mediação literária. O estudante precisa ter noção dos diferentes campos do conhecimento logo, e não confundi-los com disciplinas. Quando você fala em meio-ambiente, por favor, que não seja Ciências ou  Geografia! Basta usar a linguagem adequada. Esse é um filão da produção editorial atual, cada vez mais “paradidática”, onde se acredita que tudo que o se refere às coisas reais são “chatas”, e só se enfrentam essas “matérias” com as mais variadas formas de  espetacularização [9]. Mas essa já dá outra crônica.

Pronto, podem soltar as cordas!




[1] Bruxas, magos, gênios, dissidentes foram condenados à morte e à prisão, expondo-se nos cadafalsos. Na maioria das vezes esses heróis para uns, e demônios para outros, eram vozes isoladas, mas capazes de replicarem por toda a parte. Foi assim com Cristo, Galileu, Joana DÁrc, Giordano Bruno, Capitão Dreyfus, imolados e injustiçados.  E hoje, um para o Edward Snowden, coitado, cadafalso virtual...
[2] É que me disse por e-mail uma leitora do meu blog, aflita com a lista escolar dos filhos
[3] Cólera das legiões se referem a motins dos centuriões, militares do Império Romano (licença poética)
[4] Dados de compras governamentais recentes: http://noticias.terra.com.br/educacao/escolas-publicas-devem-receber-livros-didaticos-ate-fevereiro/...
[5] PILETTI, Nelson. História do livro no Brasil. Ática, 1991.
[6] A recomendação que se conhece é a de que a temporalidade média é de três anos, porém é comum doarem uma montanha de três décadas! : http://universojatoba.com.br/como-doar-livros-didaticos/)
[7] A reciclagem de muitos deles é mais complicada. Isso porque as folhas têm pigmentos coloridos e cola. Mas o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) fez alguns testes com o objetivo de ampliar o índice de reciclagem do papel no Brasil. (Fonte: idem)
[8] Missão de auxiliar o professor (em tese)
[9] Ver de Lajolo, Marisa Do mundo da Leitura para Leitura do Mundo. Ática. 1993.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Meu amigo íntimo


Já de algum tempo ao som de repiques, trombetas, retretas e tudo o mais  vem-se  fazendo o cortejo do livro. Muito barulho para dizer que" ler é bom", para dizer que "livro não morreu", "livros a mancheias", "livros ou cadeias" (rima não intencional), o que é (meia) verdade, mas para mim livro é um amigo íntimo, tão discreto que, ao ver alardeadas suas qualidades, um certo ciúme me ocorre. Um amigo reservado que dispensava plateias, queria só estar ali juntinho ao peito, aninhado ao dono e que, ao abrir-se, revelava -se ao sujeito, um sujeito que é seu mundo, seu leitor. É verdade que, desde a descoberta da imprensa que o difundiu, muitos livros viraram celebridades, saíram dos mosteiros, onde ficavam sob guarda dos monges - quem leu e viu O Nome da Rosa sabe do que estou falando. Os livros passaram a representar perigo e liberdade a partir de Gutemberg. Em meados do século XX, quando a democracia já se consolidava, nossos pais ainda escondiam de nós Bocaccio, Sade, Eça de Queirós , Henry Miller, D.H. Lawrence, Nabokov, e o jogo consistia numa excitante caça a esses tesouros pela casa. Temíamos ser surpreendidos e tal como dinheiro, alguns exemplares proibidos iam para debaixo do colchão. Quando não, às vezes recorríamos a uma espécie de  "câmbio negro" entre amigos para ter acesso aos "malditos". Era um frisson essa troca. Curiosamente, até hoje, guardo uma estranha sensação de invasão quando, ao estar lendo, alguém se aproxima e  lança os olhos sobre meu amigo.Um ciúme quase infantil.  Chegaram novos tempos - bem-vindos, é certo, quanto à liberdade -  tempos laicos, tempos de mídia, tempos de compartilhamento, de disseminação de bibliotecas, antes restritas às classes ditas letradas, e os livros  se popularizaram e passaram a requerer, como tudo o mais, difusão, marketing, eventos, enfim, barulhos, talvez barulhos em excesso, gente em excesso, rodas, vozes, não interiores, mas  lendo para o público. Enfim o livro passou a ser o caçador de leitores, não o caçado pelos leitores, condição definida por duas linhas: política de leitura por um lado e mercado por outra, muitas vezes simbioticamente. Quando o prazer de ler para mim era e é, sobretudo, ouvir a voz do pensamento, percorrendo as tramas ou as argumentações. A minha ida às livrarias era quase como ir à igreja,  como agnóstica que sou, era a minha igreja e, lá, ficava "perdida" entre estantes por horas. Hoje uma livraria, e às vezes, uma biblioteca, fazem parte do mesmo show; é uma romaria barulhenta, são pontos de disputa de últimos lançamentos de séries popularizadas no cinema e tevê, ou autores de autoajuda, e dos indefectíveis livros indicados pela escola.  Rara a presença ali do estranho-bibliófilo-de-óculos ou um leitor mais apurado, aquele que teve na leitura uma conquista gradual pelo cultivo paciente e alargamento do saber e  que, quando aparece, se vê atropelado pela volúpia dos lançamentos disputados comercialmente. Ou então (experiência própria) alguns livros só estão "disponíveis por encomenda", como certas joias ou bebidas raras. Atesto. Tente um Mito de Sisifo, de Camus, O homem Comum, de Philip Roth ou Relatório a uma Academia, de Kafka. Dirão, esse é um espaço democrático, certo, porém, a verdade é que poucas são as livrarias  prazerosas de se frequentar. As feiras e salões nem pensar, são eventos com alta exposição midiática. Então, da feição de coisa privada, íntima e única, o livro passou a ser - será ou revela só uma intenção ? - (mais um) objeto de consumo de massa. Mais vale o título usufruído "coletivamente". De preferência, acompanhado das trombetas e discursos. Parece certo preconceito ou passadismo meu. Pode ser. Pergunto se as gerações atuais têm o prazer  de abraçar e cheirar um livro, como algo íntimo, ou se  para elas o livro é mais um bem de consumo, cujo detentor, como em tudo o mais, precisa ostentá-lo a seus pares, como condição de pertencimento a um grupo ou época? Um cortejo muito concorrido, e que não seja um réquiem, onde ardem muita vaidade e exposição. Mas nem tudo está perdido. Você ainda pode pedir a vinda de seu amigo pela auspiciosa Internet. Sem retretas.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Frases de efeito por Ferreira Gullar

                                                                             

Frases de efeito                        POR FERREIRA GULLAR


Muitos anos atrás --e bota anos nisso-- escrevi uma série de aforismos sobre a crase e os publiquei no suplemento literário do extinto "Diário de Notícias", do Rio de Janeiro.
Um deles se tornou muito conhecido, a ponto de estudantes em greve, em Curitiba, o terem escolhido como lema de seu movimento. Estenderam uma faixa no refeitório da faculdade: "A crase não foi feita para humilhar ninguém".
Não demorou muito, apareceu alguém para dizer que aquela frase era de Machado de Assis. Logo surgiu outro que a atribuiu a Carlos Drummond de Andrade. Até a atribuíram a Rubem Braga, que, numa de suas crônicas, desfez o equívoco: a frase não é minha nem de Machado nem de Drummond; é do poeta Ferreira Gullar.
Não sou um frasista, muito embora algumas frases minhas tenham se tornado conhecidas. É o caso da que diz assim: "Não quero ter razão, quero ser feliz". Até agora ainda não apareceu ninguém para atribuí-la a algum escritor ou pensador famosos.
É verdade, porém, que já não sou o dono dela. Foi pelo menos o que pensei quando Cláudia, minha companheira, me trouxe de presente, no dia de meu aniversário, um copo que comprara numa loja de Ipanema: nela estava escrita a tal frase.
Eu a formulara, pela primeira vez, numa palestra que fiz na Flip. Falando sobre o conflito entre palestinos e israelenses, observei que ambos os lados alegam estarem com a razão e, enquanto isso, vêm se matando há mais de 50 anos. Acho que eles deviam parar de ter razão --disse eu então-- e fazer um acordo de paz. E contei também como, certo dia, minha namorada veio me encontrar para irmos ao cinema, mas começou uma discussão entre nós, cujo desfecho foi ela pegar a bolsa e ir embora. Eu fiquei ali, cheio de razão, mas triste para cacete. Então disse a mim mesmo: o que importa não é ter razão, mas ser feliz.
Veja bem, quando digo que não sou um frasista é porque não vivo de fato preocupado em fazer frases de efeito. De fato, o que procuro é formular de maneira mais sintética e clara possível, o que se aprende com a vida. De modo geral, as frases de efeito, quase sempre expressam, quase sempre, uma verdade aparente ou parcial, porque o que o frasista procura, menos que a verdade, é o efeito. Modéstia à parte, não é o meu caso.
Por exemplo, outra frase minha que ganhou certa popularidade diz assim: "A arte existe porque a vida não basta". Não se trata de uma sacação de feito e, sim, conforme creio, de um modo meu de ver a arte como algo que acrescenta à vida o que gostaríamos que ela tivesse.
E não é que descobriram que essa frase já tinha sido formulada por Fernando Pessoa? Confesso que não sabia disso, mas é natural que não soubesse porque o que li do grande poeta português foram os poemas.
De sua prosa, lia muito pouco, mesmo porque, se admiro ilimitadamente o poeta que ele é, não concordo com sua visão de mundo, seja espiritual, seja política. Mas fui para a internet e terminei encontrando a frase do poeta, que diz assim: "A literatura, como arte, é uma confissão de que a vida não basta". É, sem dúvida, muito parecida com a minha, mas não diz a mesma coisa.
A diferença decorre precisamente de que a minha visão de mundo não coincide com a de Pessoa: ele era espiritualista e eu, materialista.
Quando ele diz que a arte é "uma confissão de que a vida não basta", o que está afirmando é que o significado da vida não se limita à realidade material do mundo; essa realidade não lhe basta, ela só se completa com a dimensão espiritual. A arte e a literatura --particularmente a dele, Pessoa-- são uma confissão de que a vida só se completa no plano espiritual. A realidade material não basta.
Minha visão é outra e, portanto, outro o significado de minha frase. Quando digo que a arte existe porque a vida não basta, estou na verdade dizendo que a arte torna a vida mais rica, mais fascinante, mais encantadora. Mas essa frase não surgiu do nada.
Na verdade, acredito que o objetivo de arte não é, como se diz, revelar a realidade mas, sim, reinventá-la. Quando Van Gogh pinta o quadro "Noite Estrelada", está acrescentando aos milhões de noites reais, mais uma que só existe em sua tela. E reinventa, assim, a noite real.                
                                                                                                                      FOLHA DE SÃO PAULO 10/11/2013

ferreira gullar

Nostalgia por Tom Hanks

NOSTALGIA
Um prazer à moda antiga    TOM HANKS
Máquinas de escrever tornam tudo grandioso
RESUMO
Tom Hanks conhece bem o barulho atordoante que se pode tirar das máquinas de escrever. Desde 1978 o protagonista de "Forrest Gump" e "O Resgate do Soldado Ryan" coleciona várias delas. No texto a seguir, elenca três razões que, na sua visão, tornam as velhas peças robustas superiores a laptops e iPads de última geração.


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Como foi SÓ em 1985 que Mike McAlary começou a cobrir polícia para os tabloides de Nova York, o cenário que representava uma Redação em "Lucky Guy", peça de Nora Ephron com a qual estreei recentemente na Broadway, tinha processadores de texto, e não máquinas de escrever. Foi uma pena. Nós, da trupe, teríamos amado batucar desajeitadas, enormes máquinas de escrever, pelo simples som que elas fazem.
Bom, eu teria amado, uma vez que tenho pleno conhecimento do barulho atordoante que dá para se tirar de uma velha máquina de escrever manual. Eu uso uma dessas e também uso os correios-- quase todos os dias. Minhas vagarosas cartas e meus bilhetes de agradecimento, meus memorandos e minhas listas de afazeres, além de vagos --realmente vagos esboços de histórias são bagunçados, mas poucas coisas no meu cotidiano me satisfazem mais do que produzir esses papéis.
Confesso que, quando é trabalho de verdade o que tenho de fazer --documentos que exigem tanto rigor quanto um ensaio de fim de ano de faculdade--, eu uso um computador. O fluxo da escrita pede a fluência da tecnologia moderna, e quem não gosta de poder escolher uma nova fonte como Franklin Gothic Medium, Bernard MT Condensed ou Plantagenet Cherokee?
Para escritos desimportantes, do tipo que não vai além da sua escrivaninha ou da porta da geladeira, o prazer táctil de escrever à moda antiga não encontra comparação naquilo que se obtém de um laptop último tipo.
Teclados de computador emitem um tímido tec-tec-tec, do tipo que você ouve quando vai ao Starbucks --pode ser que o ruído venha de trabalho sério sendo produzido, mas ele parece pequeno e discreto, como agulhas de tricô das quais brotam pares de meias.
Tudo o que se datilografa numa máquina de escrever soa grandioso, as palavras se formam em miniexplosões: TCHAC, THAC, THAC. Um bilhete de agradecimento ressoa com o mesmo fragor que uma obra-prima da literatura.
O ruído produzido ao datilografar é uma boa razão para ter uma velha máquina de escrever --infelizmente, são só três razões, e nenhuma delas é conforto ou agilidade. Além do som, há o genuíno prazer físico que envolve o ato de datilografar; a sensação é tão boa quanto soa, os músculos das suas mãos controlam o volume e a cadência do assalto auditivo, de modo que o espaço ao redor ecoa o staccato das suas sinapses.
Você pode escolher o modelo da sua máquina de escrever que mais se encaixe com a sua identidade sonora.
Remingtons dos anos 30 fazem THICK THICK. Uma Midcentury Royal parece uma voz repetindo CHALK. CHALK. CHALK CHALK. Mesmo as máquinas de escrever fabricadas na aurora dos aviões a jato (suficientemente compactas para caberem nas mesinhas dos primeiros 707s), como a Smith Corona Skyriter e as joias do design da Olivetti, fazem FITT FITT FITT, como balas disparadas pela pistola automática de James Bond.
Escrever numa Groma, exportada para o Ocidente de um país comunista que não existe mais, soa a trabalho, trabalho duro. Feche os olhos enquanto você martela o teclado, e você se sentirá como um ferreiro dando forma a frases que saem, incandescentes, direto da fornalha da sua mente.
MOBY DICK
Faça essa experiência: escreva, no seu laptop, a primeira frase de "Moby Dick" e ela vai soar como chamaimeishmael. Agora repita o procedimento numa Olympia dos anos 1950 (tenho duas, caso você precise de uma) e observe: CHAMAI! ME! ISHMAEL! Use seu iPad para fazer uma lista de tarefas e ninguém vai nem notar --não que devesse. Mas datilografe a mesma lista numa velha Triumph, Voss ou Cole Steel, e o mundo saberá que você tem uma agenda a cumprir: ETIQUETAS DE BAGAGEM! EXTENSÕES! LIGAR PARA A EMMA!
Para ter uma máquina de escrever, é necessário ter espaço e renunciar ao luxo fácil da tecla "delete", mas cada centímetro do que se sacrifica em precisão se conquista em exuberância. Nem se preocupe em usar uma fita corretiva, líquido corretor ou papel translúcido, daquele que facilita apagar.
Não há por que se envergonhar das sobreposições e de cobrir com XXXXX uma palavra tão mal batida que um corretor ortográfico não seria capaz de decifrar. Essas cicatrizes serão um fator tão importante da sua escrita quanto o seu dom (ou falta de) para as palavras.
O aspecto físico da datilografia fornece a terceira razão para usar uma relíquia do passado como instrumento de escrita: permanência. Talvez somente palavras gravadas em pedra durem mais do que uma carta datilografada, porque a tinta de fato se impregna na fibra do papel, em vez de ser depositada sobre a sua superfície como acontece com um documento impresso a laser ou na definitiva IBM Selectric --o artefato que fez da máquina de escrever manual um objeto obsoleto.
Acerte um Y numa máquina alemã Erika e um verdadeiro martelo atinge a fita da máquina, levando a tinta até o âmago do papel, onde será visível para toda a eternidade, a não ser que você pinte algo por cima ou queime a folha.
Ninguém se desfaz de cartas datilografadas, pois elas são como peças de artes gráficas, tão singulares quanto impressões digitais, uma vez que nenhuma máquina manual grava o papel exatamente da mesma forma como outra.
E-mails desaparecem de qualquer servidor que não seja do Google ou da NSA. Mas saque uma Brother De Lux 895 dos anos 1960 para disparar um "A festa foi demais! Obrigada por sacudir nossos esqueletos até as três da manhã!" e daqui a 300 anos aquele bilhete ainda vai ter lugar na coleção de um aficionado, que o guardará com o mesmo zelo com que conserva uma nota fiscal de 1776 registrando a venda de 12 belos barris de cerveja.
A máquina em si pode durar tanto quanto as pedras de Stonehenge. Máquinas de escrever são peças robustas, feitas de aço, e foram pensadas para ser espancadas, como de fato são. Algumas teclas da Underwood do meu pai --comprada de segunda mão logo depois da guerra e usada durante o único ano em que frequentou a universidade-- estavam tão gastas pelo castigo infligido por seus dedos que acabaram deformadas e apagadas. A tecla S era só um cotoco. Eu a levei a uma oficina com a ideia de dar só uma limpada, mas ela voltou com todas as teclas novinhas. Adeus, papai, e maldito seja o funcionário da oficina.
De todo modo, eu ainda tenho a máquina, e ela funciona, assim como quase todas as máquinas de escrever que ocupam meu escritório, minha casa, meu depósito e o porta-malas do meu carro, uma coleção que teve início quando, em 1978, o proprietário de uma oficina se recusou a consertar a minha máquina de escrever, quase toda feita de plástico.
"Um brinquedo sem serventia!", o homem berrou. Sim, ele berrou. Ele apontou para prateleiras cheias de máquinas recondicionadas --tinham décadas de existência, mas todas funcionavam perfeitamente. "Uma máquina de escrever era uma máquina", gritou ele, "que podia ser jogada em pleno voo de um avião e continuaria a funcionar!".
Ele me ofereceu, por um bom preço, uma Hermes 2000 ("O Cadillac das máquinas de escrever!") que tinha uma alavanca para regular a tensão das teclas e cuja régua era a mais precisa e afinada que já se viu. Desde então, comprei a 3000, a Baby e a gloriosa Hermes Rocket: todas ocupam minhas prateleiras e cada uma delas é mesmo um carrão.
Não existe nenhum outro motivo --além de uma avareza mal dirigida (culpado!)-- que justifique alguém acumular centenas de máquinas de escrever velhas. Quase todas saem por uns US$ 50, a não ser que, digamos, Hemingway ou Woody Allen as tenham usado antes de você. As fitas se encontram facilmente no eBay.
Uma ou outra máquina de escrever dos anos 70 ainda pode ser deixada para seus netos ou ficar guardada numa garagem até o milênio que vem, quando um arqueólogo vai desencavá-la, limpá-la, lubrificá-la. Certamente em 3013 será possível renovar a tinta da fita, e uma carta batida a máquina poderá então ser expedida naquele exato dia --desde que a máquina não sobreviva à indústria de papel.
Pensando bem, acho que é bom eu começar a acumular itens de papelaria e rezar para que os correios sobrevivam.

domingo, 8 de dezembro de 2013

Comportamentos em lugares públicos (Erving Goffman)



“Ninguém pode se acomodar na falta de educação e sua brutalidade contagiosa. Livros são uma forma de paz” (Ana Candocha,  Twitter)

Neste artigo ressalto alguns pontos de reflexão importantes da obra de Erving Goffman (citada abaixo), conceituado sociólogo norte-americano, sobre situações a que "ajuntamentos sociais" – aqui sugiro as  bibliotecas públicas  - e outros estabelecimentos estão sujeitos, principalmente em sociedades marcadas por desigualdades (Brasil) e/ou  multiculturalismo (Shetland, citada pelo autor), cuja ordem, entendida como “delicadezas da conduta social”,  se encontra sob constante ameaça de desestruturação.


Conceitos aqui emitidos:

  1. Ajuntamento social – Conjunto de pessoas presentes durante um período contínuo de tempo e sua permanência, delineando uma situação social de interesse comum. Ambiente com possibilidade de monitoração em que um integrante se torna participante, em que os indivíduos modificam sua conduta, orientados normativamente. Sistema social em que as pessoas passam a sustentar transações significativas entre elas.
  2. Propriedades situacionais – conjunto de regras, expressas por idioma convencionalizado de deixas comportamentais e, nele, as pessoas descobrem sua capacidade de envolvimento ao ajuntamento.
  3. Ligação – Atenção, interesse, orientações, enfim, a capacidade de envolvimento. Pode-se entender como “pertencimento”, resguardadas as propriedades acima.

        Erving Goffman * nos mostra que em qualquer sociedade, situações diferentes serão cenários  das mesmas disposições normativas ou propriedades situacionais em um ajuntamento. Um indivíduo que é negligente, de alguma forma em uma situação, pode sê-lo sempre que se encontra diante de outros. Salvo uma pessoa com dificuldades de ordem orgânica  e mental (deficientes visuais e auditivos), muitas vezes ele não será capaz de manter as “gentilezas comunicativas” esperadas e serão “desajeitados” na maioria das situações. Quando o indivíduo se comporta de forma que outros considerem inapropriada, muitas vezes ele está “alienado” do ajuntamento ou “estranho” a ele. O significado que as pessoas ofendidas dão a um ato ofensivo é parcialmente determinado por sua sensação de que o ato foi intencional ou não. Entretanto, a dicotomia de seu sentido é complexa e [não é]  uma mera discussão do significado real dessas ofensas situacionais.
Podemos fazer as seguintes perguntas: o infrator terá capacidade e treinamento para entender o significado de sua ofensa? O ato é passível de controle físico do ator e se tiver esse entendimento, ele estaria disposto a mudar sua conduta, se notificado de seu significado e tivesse a oportunidade de fazê-lo? O ator tem razões atenuantes, externas para cometer a infração? Há uma classe de infração às vezes chamadas “atos de malícia” ou des(res)peito*, que implicam em arrogância, desdém e hostilidade profunda, os quais, aparentemente, sem nenhuma razão, são transmitidos aos que lhe são alvos. Esse infrator não modificaria sua conduta no momento em que recebe uma segunda chance. O que  é diferente da ofensa contingente, quando o infrator tem razão para seu ato fora de ocasião. Ele pode, por exemplo, rir ou ler algo em voz alta, não maldosamente, mas porque apenas achou algo engraçado. Quanto mais legítimas forem as razões do infrator, mais as ofensas contingentes serão desculpáveis, e menor a intencionalidade. Entre esses extremos, está o indivíduo que ofende porque está acostumado a uma linguagem e estrutura de envolvimento, diferentes daqueles sancionados pelas pessoas na situação. Ele tanto pode mudar a conduta, se compreender a significância de seus atos para os outros, como não ter o interesse, ou não estar disposto a fazê-lo. As testemunhas teriam razões para conceber o infrator como alguém que está alienado do ajuntamento e de suas regras, mas é preciso ver que as bases dessa percepção não são as mesmas. As bases para impropriedades podem ser:
 1º atos acidentais, provocadas por estados emocionais transitórios (cansaço, drogas, nervosismo, problemas) não-patológicos;
2º condições circunstanciais em que o indivíduo não está familiarizado com o idioma ritual das pessoas com quem se encontra. É fato que a relação de um indivíduo com um ajuntamento e ocasiões sociais têm a ver com suas relações com unidades mais amplas [comunidades] a que pertencem;
3º As impropriedades podem exprimir ressentimento particular do infrator a algo mais circunscrito (o estabelecimento ou alguém especificamente) do que a uma classe ou comunidade.
4º A conduta imprópria pode advir de uma resposta a uma condição (sensação) de exclusão por parte do infrator, o que pode representar uma forma de conflito entre ele e o estabelecimento. Em um estabelecimento, se um membro em particular pode servir como “guardião’ da ordem situacional, com a missão de garantir que todos os presentes mantenham um envolvimento apropriado, certos atos que são proibidos representam atos de desafio e meios de testar os limites do ajuntamento e [nele tentar estabelecer uma nova ordem]. Aquilo que o indivíduo considera “delicadezas de conduta social” são, na verdade, as regras para orientar o indivíduo em sua ligação com o ajuntamento. Mais do que famílias e clubes, o indivíduo pertence a ajuntamentos, e é melhor que ele mostre que é um membro razoável, porque a penalidade por quebrar regras é (pelo menos, em tese, deve ser) severa.

    Uma preocupação a mais, e mais grave, em relação a regras de comportamento em situações sociais, é derivado do fato de não se confiar que o infrator não vá se aproveitar de sua posição para propósitos de ataque, interferência ou abordagem, mesmo que a infração original seja inofensiva. É natural que para os que praticam o “idioma de envolvimento”que as regras sejam naturais, invioláveis e fundamentalmente corretas. As pessoas que as detém precisam de algum meio de se defender quanto a dúvidas sobre essas regras, questionadas pelas pessoas que as quebram. Não importa que falemos de um ou um grupo de infratores; a questão é se, num extremo, eles, os infratores estão em condições de impedir qualquer ação contra elas. Uma situação infracional não pode estar em posição de forçar os outros a aceitá-la. [Aí os limites da convivência foram ultrapassados].

  • O autor usou o termo “despeito” no qual cabe o conceito de “desrespeito”.
GOFFMAN, Erving. Comportamento em lugares públicos. Notas sobre a organização social dos ajuntamentos. Trad, de Fábio Rodrigues R.da Silva.  Petrópolis: Vozes, 2010.

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quarta-feira, 20 de novembro de 2013

O estranho mundo das palavras cruzadas

                       Palavras cruzadas ativa, no cérebro, áreas da linguagem e memória ...                 Alguns acharão graça, outros não, enfim, entrei nesse estranho mundo das palavras cruzadas há poucos anos, movida por preocupação com falhas de memória, pois bem: me vi como Alice, não no país das maravilhas, mas no país das esquisitices. 
Passada dos setenta, tenho também um certo vocabulário de palavras mortas e enterradas, mas as revistinhas de Coquetel, pelo menos as de categoria Difícil, excedem, teimam em desenterrar termos que provavelmente não se usam desde a colônia, talvez com o único propósito de "derrubar" o leitor. Fora as pegadinhas de sentido, dou alguns exemplos, e desafio o melhor lingüista de todos a decifrá-los, sem apelar para o Houaiss ou Aurélio (grandes):
No jogo, categórico e decisivo é terminante; tascas são tabernas; ulo é gemido; amargor é travo; branquear a roupa é decoar;  vadio é valdevino; ror é multidão; escuro é lúrido; transpassado é perstransado; tendencioso é viesado; eureca é heureca com H; enjôo é enojo; ufanismo é ufania; vegetariano é vegetarista; guerra é alfitena; manifestações de afeto são mogangas(!); energia e água são edifício verde; habituado é atreito; sangue derramado é cruor; sacrílego é nefas; falsa e ilusória é mentida. E por aí vai. Quem conhece essas estranhas palavras? Acho que, de meio em meio século, deveriam dar uma varrida nos dicionários. Se tem uma coisa certa que alguém disse, se não me engano Ítalo Calvino, é que dicionários são cemitério das palavras, mas algumas bem que deveriam ir para crematórios de vez.
 Isso é só uma pequena amostra. Alguns formuladores do jogo parece que procuram no cemitério das palavras esses zumbis da língua, como se isso colocasse à prova os conhecimentos de alguém. Ou quem sabe não eles mesmos matusaléns?
    Ainda há, o que eu considero mais grave, as "pegadinhas de sentido" nos enunciados:  quem faz guerra milita  - é inexatidão, o sentido se ampliou; quem é honesto e idôneo é capaz (!)- você pode ser capaz e não ser idôneo; punição legal é vindita; continuísmo é “doutrina” política e não prática;  severo é áspero; suave é sonoro; suposto é espúrio; rubor é vergonha e não vermelhidão. Aliás, até o severo editor do Word também ficou horrorizado, sublinhando de vermelho a maioria desses exemplos!
   Em conclusão, perguntarão: por que então não abandono as Palavras Cruzadas? Respondo: por teimosia e acreditar que, em termos de terminologia, pode-se aperfeiçoar, secularizar-se, testar conhecimentos sem apelar para arcaísmos, só com o intuito de não deixar o leitor "zerar". E também alertar para o ridículo, porque é ridícula tal estratégia!

  Só para ilustrar: já pensou alguém dizendo assim: “ Nas alfitenas, há muito travo e cruor e quem milita nelas sabe que o ulo da ror não admite mogangas...”  Ninguém merece, né?

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Digressões (de Ferreira Gullar) em torno de um osso

Reproduzo aqui uma interessantíssima crônica de Ferreira Gullar: Osso pensa? (Folha de São Paulo, 8/09/2013):

Quando pela primeira vez me dei conta de que meus poemas nasciam de um estado mental imprevisível, e o defini como um espanto, estava usando uma expressão de Platão. Ele afirmara que o conhecimento nasce do espanto.(...)Quando pela primeira vez me dei conta de que meus poemas nasciam de um estado mental imprevisível, e o defini como um espanto, estava usando uma expressão de Platão. Ele afirmara que o conhecimento nasce do espanto.(...) Isso pode ser provocado por qualquer fato, do mais raro ao mais banal, corriqueiro. E é o que mais me espanta: o meu fêmur que se choca com minha bacia, o ilíaco, e me faz, perplexo: "tenho dentro de mim um enorme osso, de que não me havia dado conta até este momento, em que senti chocarem-se, dentro de mim, um contra o outro. E a pergunta que surge é: eu sou esse osso? Esse osso sou eu? Formula essa pergunta, mas e osso, ele pergunta?"(...)
Mas vamos retomar a questão principal que me fez escrever esta crônica: se o espanto é a origem tanto do conhecimento quanto do poema, significa que a filosofia e a poesia são a mesma coisa? Essa é uma pergunta difícil de responder, mas me atrevo a dizer, antes de qualquer especulação, que não, que filosofia não é a mesma coisa que poesia. Sim, não é; não obstante, não apenas ambas nascem do espanto, como ambas implicam em reflexão.
Certamente, nem toda poesia implica reflexão em nível equivalente ao da filosofia. Há poemas que nascem quase que magicamente das próprias palavras, fazendo-nos pensar que alguém, que não o poeta, é que os inventou. E há também poemas de encantamento, que se alimentam mais da fantasia e da paixão do que desse espanto que gera reflexão.
Voltando à relação dos dois espantos --o do filósofo e o do poeta-- vamos tentar deslindar o que os distingue e o que os aproxima. Até onde posso vislumbrar uma explicação para tal problema, diria que, no espanto, não há diferença entre o filósofo e o poeta, já que ambos são tomados, inesperadamente, da constatação de que não há explicação para o que acabam de perceber: osso pensa? Osso pergunta?
A diferença, então, estaria depois dessa constatação, que é diferente no filósofo e no poeta. Salvo, melhor juízo, acho que o filósofo tem necessidade de explicar o fato que o espantou, e o poeta não; o poeta quer apenas dizer que se espantou, que aquilo não tem mesmo explicação; o que ele deseja, em suma, é registrar o inexplicável, afirmar o insondável mistério da existência.
É nisso, creio eu, que os dois diferem, uma vez que seja próprio da filosofia explicar a existência. O filósofo não se conforma com inexplicabilidade do fenômeno que o espantou e, por essa razão, tem que explicá-lo, inseri-lo no sistema de pensamento que ele, filósofo, elabora na tentativa de tornar o mundo inteligível.
Admitir que não há explicação para a existência seria o fracasso da filosofia que, neste particular, situa-se no polo oposto ao da poesia. Sim, porque, para o poeta "só o que não se sabe é poesia".