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segunda-feira, 22 de julho de 2013

Recortes de Beatriz Sarlo


 Beatriz Sarlo, renomada intelectual argentina, com quem só tive contato por fontes e indicações diversas, me surpreende, por um lado pela sincronicidade de alguns aspectos de seu pensamento com ideias que tenho defendido; por outro, pela provocação que coloca em ebulição, não intencional, mas implicitamente o papel do bibliotecário e, intencional e explicitamente, o do professor no mundo de hoje. Minhas intervenções estão entre chaves e negrito. Alguns trechos abaixo:
  
“Velhos  centros tradicionais de interação – bibliotecas populares, comitês , clubes de bairro – deixaram de ser os lugares  onde, no passado, definiam-se perfis de identidade  e sentido comunitário”(87) [Em muitos casos, interesses políticos se apropriaram deles, ou via institucional, ou por influência de grupos privados. Nós, bibliotecários e professores, como parte desses centros tradicionais, talvez devêssemos refletir sobre o nosso papel nesse contexto] ]

“Os mais jovens não encontram [ mais] nesses espaços [“Lugares ainda dominados pela Cultura da Letra [grifo 1] e pela relação individual"] nenhuma das marcas culturais que interessaram a outros jovens, trinta ou quarenta anos atrás. [... tal afirmação é verdadeira. O que se tenta hoje é reduzir-se o discurso, ou sumariamente, como na obra infantil de Monteiro Lobato e outros "clássicos" ou com adaptações, muitas de qualidade duvidosa]  Hoje a cultura juvenil é (...) a mais dinâmica das culturas populares e não populares e (...) mais do que pelo pertencimento social [desterritorialização], as experiências culturais se recortam pelas pirâmides das idades”, [no entanto] o único obstáculo eficaz contra a homogeneização cultural são as desigualdades econômicas – os desejos tendem assemelhar-se, mas sua realização não” (107) [embora a homogeneição cultural possa se dar, parcialmente, via equipamentos públicos, não há apropriação privada por esses jovens (não têm computador em casa), são "clientela" da inclusão digital, que como toda política pública tem sido entendida como acesso, enquanto acesso é só parte da inclusão; como no ensino, é necessário qualidade de acesso, com a ressalva de que a satisfação por ter acesso não é a mesma que a de ter posse] 
“Por um lado, os letrados que detinham o monopólio da legitimidade cultural, hoje se vêem desafiados por novos mecanismos de legitimidade. Não podem os letrados mais legislar sobre o gosto, [grifo 2] [Verdade. isso tem a ver com, por exemplo, uma política de leitura voltada para a Literatura e minimizando o impacto das tecnologias de informação no cotidiano dos jovens e apontando o livro na sua expressão tradicional como a "salvação"contra a homogeneização midiática] porque outros centros legitimadores ["menos nobres"] ditam a moda: a cultura audiovisual escolhe seus próprios juízes e reconhece a força do número, uma vez que seu negócio está na ampliação incessante de público, mais do que na distinção elitista de grupos”. (108)     [ também em nome de uma excelência formadora da literatura está havendo, já há algum tempo, uma aproximação do livro com formas midiáticas de promoção, via produção cultural, ludicismo e espetacularização]" Seja como for, as culturas populares desvaneceram-se; [Creio que Sarlo se refere ao amálgama de influências; isso se torna claro na expressão musical. Por outro lado, por um processo que as literaturas ditas étnicas tentam resgatar, as manifestações tradicionais acabam se folclorizando, fixando-se em calendários culturais e regionais  como as culturas de origem negra e indígena, e nesse aspecto, bibliotecas,museus instituições de ensino e setores de produção editorial se consolidam também como centros tradicionais]; também esfumaçaram os perfis estáveis que distinguiam as elites do poder.[Nossos ídolos seculares não são mais os mesmos, tendem a ser artistas "celebridades"vulgares e esportistas, enquanto os intelectuais, políticos e cientistas brilham para e entre seus pares] (...) A universalização do consumo material e a cobertura total do território pela rede audiovisual  não acabam com as diferenças sociais, mas diluem algumas manifestações subordinadas a essas diferenças (109)” [cultura e indústria fake, irradiação da moda e linguagem televisiva etc.]
“O caso das línguas é particularmente significativa. Durante décadas [talvez séculos] a língua correta era o ideal [grifo 3] da escola – hoje desaparecido(...). [Esse é o ideal da cultura letrada, legitimado pela escola, porém sem sucesso, porque em vez de empoderar o discurso do estudante, coloca-o numa postura de contemplação e admiração - oh como é bela a arte, oh que belas letras! -, e não o engaja na produção, mas na reprodução do discurso letrado, sem sentido e defasado para ele.Outra ressalva a fazer é a de que, para o sucesso ou para o insucesso, a reprodução da cultura letrada permanece como uma  ferramenta de inclusão no mercado] A vitalidade e a criação lingüística passam por caminhos completamente estranhos à cultura letrada; a homogeneização lingüística desbasta  as diferenças de região , classe ou profissão.(...)" [Objeção minha: não diria "estranheza", mas de rejeição, uma vez que a cultura letrada é encasulada dentro de cânones para resistir, não se deixar penetrar, ou garantir sua sobrevivência]
“Os símbolos de mercado, igualmente acessíveis a todos, tendem a desvanecer os símbolos da velha dominação. (...) Não geram o mesmo tipo de diferenciação  incontornável [tanto faz ] o usufruto de uma biblioteca familiar ou a posse de uma motocicleta japonesa. (...) Aquilo que era cultura letrada – então a única cultura legítima – já não organiza a hierarquia das culturas e subculturas. [Confinam-se nos centros tradicionais de irradiação de cultura, porém ainda dão as cartas quanto à inclusão social] Os letrados diante disso lamentam o naufrágio de valores  sobre os quais estava baseada sua hegemonia ; (...) desconfiam  das [e temem]as promessas do presente; os segundos, neopopulistas, (...) acreditam fervorosamente nelas. [Tanto os tradicionais quanto os pós-modernos pecam por acreditar no espontaneísmo, os primeiros via leitura e os segundos via tecnologias] (...) " Primeiro, os apocalípticos, velhos legitimistas, defensores irredutíveis das modalidades culturais prévias à organização audiovisual; segundo os integrados (2), defensores assalariados vocacionais das indústrias audiovisuais e sua nova legitimidade cultural. Na maioria dos países da América Latina, a escola pública é hoje o lugar da pobreza simbólica, onde professores, currículos e meios materiais concorrem com [eu diria perdem para]os meios de comunicação, q são [também]de acesso gratuito e abarcam os territórios nacionais [e internacionais] (...) A cultura letrada está em  falência no mundo – os norte-americanos vêem com inveja os resultados de exames de crianças japonesas submetidas a regime de samurai para evitar o declínio do desempenho; a escola francesa lamenta a queda dos padrões (...); multiplicam-se os exemplos mais tardios das capacidades elementares [vejam os estudos de defasagem em todos os níveis no Brasil, que repetidas vezes apontei como obstáculo À leitura] (112); vivemos uma crise de alfabetização e, com ela, da cultura da letra, embora os otimistas [integrados] celebrem as habilidades adquiridas com o zapping e os videogames(...) Afirma-se que a escola não estava estruturada para advento da cultura audiovisual, nem as estruturas educacionais foram modificadas, com velocidade, às transformações dos últimos anos. (...) Não se trata apenas da questão de instrumento técnico e sim de mutação cultural (113): a escola poderia beneficiar-se das habilidades adquiridas no videogame, dos conteúdos da mídia, da velocidade das respostas à superposições de imagens; (...) [E importante]: pode-se questionar se tais habilidades são suficientes  como ferramentas para saberes ligados à palavra, ao raciocínio lógico e matemático, à expressão lingüística e a argumentação [retórica], indispensáveis ao [exercício] no mundo do trabalho, tecnologia e política.[grifo 6] [Essa capacitação não se dá nem na cultura dita letrada hoje. Essa é a essência de toda dificuldade em relação ao produto ou bem cultural livro de que tenho falado] A rapidez da leitura [nos meios audiovisuais] não habilita para a capacidade intelectual de longa concentração [grifo 7] (...), nem preparam para o manejo de sofisticadíssimos programas como hipertexto [ A maioria dos usuários fazem uso da Internet como consumidores, sem atentar para os processos].(...) A aquisição de uma cultura comum  - ideal democrático – pode ser reinventado com um sentido de maior pluralismo  e respeito às diferenças, ao estranho e supõe uma série de recortes, e não, de continuidade frente ao cotidiano (...) Aprendizado implica em dificuldade e distanciamento [frente ao desconhecido]; permanece aí uma necessidade de intervenção forte e  não baseada no espontaneismo dos sujeiros (115) 
“O adestramento dos espectadores de Xuxa ou dos pensadores de videogames pode ser utilizado até certo ponto: logo, logo, esses espectadores e  jogadores deverão tornar-se leitores de uma página que requer habilidades ausentes nesse mundo [midiático]. Numa escola forte e intervencionista, os letrados impuseram aos setores populares muitos valores, histórias e tradições. Aquele também foi um espaço laico, gratuito e igualitário, onde os setores populares puderam apropriar-se de instrumentos culturais para empregar em seus próprios interesses (118)”
Assim como as culturas letradas não tornam a seus clássicos, senão por meio de transformação,deformação e ironia [grifo 9: adaptações, provavelmente na expressão argentina], as culturas populares não podem pensar mais nas suas origens, a não ser a partir do presente e, de todo modo, pressupor suas origens já é algo problemático.(119)“Se se quer criar condições para a livre manifestação dos diferentes níveis culturais de uma sociedade, a primeira dessas condições deve ser a garantia de acesso democrático aos armazéns [grifo 11] onde estão guardadas as ferramentas : forte escolaridade e amplas oportunidades de opção entre diferentes ofertas audiovisuais [públicas?]que concorram com as repetidas ofertas dos meios capitalistas (121)”[Ou seja: parafraseando Maquiavel, "se não puderes derrotar teus inimigos, junta-te a eles].

 SARLO, Beatriz. Culturas Populares, Velhas e Novas. IN: Cenas da via pós-moderna/ intelectuais, arte e videocultura na Argentina. Rio e janeiro: Editora da UFRJ,P 100-22

                                                                                     


sexta-feira, 12 de julho de 2013

As faces do Face


O Facebook é algo que é "para o bem e para o mal", diz o senso comum. Reiterando esse quase adágio e abusando da constatação de Berthold Brecht - "que tempos são esses em que vivemos afirmando o óbvio?", é isso mesmo. Duvido que Zuckerberg tenha premeditado o que seria essa Hidra de Lerna, um monstro mitológico que, cada vez que tinha a cabeça cortada, nasciam duas, no caso do Face não são duas, mas milhões de cabeças em conflito ou em harmonia e, cada vez mais, uma pirâmide gigantesca, em movimento e devorando, amoral, os desejos, o Bem e o Mal, as virtudes e as contradições humanas, ora ao atirá-las à ação, botando vidas em circulação como nas passeatas, ora tirando-lhes o sangue e a alma, como nas minorias fundamentalistas e violentas - sim, porque assim como cidadãos se aglutinam, entre eles há gente raivosa e gente "do mal" também. Se é para construir, também é para destruir, porque diante deste monstro cibernético, por mais que as pessoas se disfarcem em risonhas máscaras - à semelhança de Guy Fawkes (foto) -  de felicidade e alegres mensagens de "elevação espiritual" e alta estima, a vida é dura para a maioria e existe, entre outras possibilidades de escapismo, o Face, cujo nome melhor talvez fosse Espelho ou Mirror, especialmente dos desejos de ser o que não se é, de ser visto, de ser amado, até de ser odiado mesmo que por vaidade, como uma autoestima às avessas, enfim, a despeito de qualquer mérito moral, Zuckerberg formatou uma rede de relacionamento que, segundo se diz, hoje é uma "nação"- multicultural - entre as maiores do mundo, só inferior em população à China e à India, multi (meta)linguística, porque afinal fala-se da vida, e consequentemente, de nós mesmos. É o quinto poder, com chance de alçar a primeiro, quem duvida? Mas o que me chama atenção é que ele é também uma espécie de uma giga-cultura sob a lâmina de um giga-microscópio. Pense quem afinal  você é no meio dessa multidão, senão  um privilegiado micróbio pensante! Isso é tão grande, tão grande que, ao contrário do que parece exposição, é anonimato puro, você é sim, o tão mal-falado  anonymous, o anônimo, contra o vento e contra a (sua) vontade. E que para ser notado, muitas vezes, precisa chegar ao ridículo ou patético. Ou mesmo ao bizarro, na acepção mais extrema. Sinto decepcioná-los.Quanto maior é o Universo, menores somos, à exceção de quando juntamos nossas forças. Êta senso-comum!

domingo, 5 de maio de 2013

O barão e o leitor





Tive a oportunidade de ler o livro O Barão Nas Árvores, do prestigiado escritor italiano Ítalo Calvino (1923-85). Nele, o autor aplica  grande parte - pelo menos as quatro primeiras -  das seis qualidades que, para ele,  apenas a literatura pode salvar - leveza, rapidez, visibilidade, multiplicidade, exatidão e consistência (1). É uma narrativa fluente, viva, e ainda nos oferece uma ambientação e um panorama dos costumes do século XVIII europeu - a Penúmbria era essa Europa -  com lances de romance de cavalaria - romantismo "capa-e-espada"- e um humor à la Cervantes, no que se refere às marchas e contramarchas, principalmente amorosas, na vida de Cosme, o Barão de Rondó. Mas o que é a marca do romance é o fato do herói (às vezes anti-herói) sobreviver em árvores, sem "jamais descer", em razão de sua resistência aos costumes e tradições autoritárias de sua família de origem fidalga. Sua experiência nessa condição, ora flertando com o Bem, ora com o Mal, mas sempre perseguindo o que considera justo, é múltipla, em razão de grande diversidade de personagens e situações. O que chama a atenção é que, à medida que se desenrola a ação,  mais Calvino exige do leitor a "suspensão da descrença", embora pareça o tempo todo tentar nos fazer crer  que é possível  sobreviver sobre árvores. Evidente que essa capacidade (de suspensão de descrenças, não de viver em árvores) é muito mais acentuada entre crianças e adolescentes, estão aí as séries, por exemplo, Senhor dos Anéis e Harry Potter, sucesso entre esses leitores jovens. Talvez Calvino tentasse uma incursão - frustrada - por aí. No entanto, mal comparando, a diferença  a destacar sobre o italiano em relação aos ficcionistas "para jovens" é o incomum refinamento descritivo que arrisca tornar o romance híbrido, ou seja, uma exuberante fantasia que o torna, por outro lado,mais apreensível pelos adultos, e adultos cultos,com certo, digamos, "verniz" para absorver uma narrativa com a mesma agilidade com que se trocam fatos e personagens históricos  ( entre eles Napoleão), idiomas diversos  e misturados às falas, e  livros, pois o protagonista os consegue de um livreiro judeu - sem jamais sair de suas árvores!  Não recomendaria, por isso, o Barão das Árvores aos jovens? Para mim, que não sou versada nem em século XVIII nem em idiomas, sim, você nem precisa ser um conhecedor dos episódios ali narrados, curtos, mas nunca  superficiais. Você  pode encarar o livro como uma alegoria na qual esses fatos estariam como que embalados pela natureza propriamente dita - as árvores como palco da ação - e pela natureza  humana, essa sim diante da qual nada é absurdo.




(1) Ítalo Calvino as descreve magistralmente essas qualidades em Seis Propostas para o Terceiro Milênio (Companhia das Letras)

quarta-feira, 3 de abril de 2013

A biblioteca e o gargalo


Insisto, há pelo menos dez anos,- e tenho apresentado inclusive em congressos -, no fato de que a "falta de hábito de ler" e logo, de frequentar bibliotecas, não está nos déficits nem de livros nem de bibliotecas (mesmo que eles existam), ou seja, no acesso: defendo a biblioteca na sua concepção tradicional: é um espaço de leitura e cultura, mesmo que essa leitura/ cultura se desenrole em diferentes suportes: mídias impressas ou multimeios, e suas linguagens próprias. Defendê-la como   espaço de lazer é propor uma competição com outros bens culturais e colocá-la de saída em séria desvantagem. Biblioteca  é onde podemos relaxar, compartilharmos de um silêncio nas salas coletivas, da concentração necessária para nosso crescimento e de uma troca entre autor e leitor de uma forma produtiva. Portanto um espaço que precisa ser marcado por sua característica própria, que há algum tempo as bibliotecas vêm perdendo. O espaço social (de eventos e atividades) deve estar circunscrito e  corresponder ao que o acervo oferece.  Porém, como tenho repetidamente colocado (e pouco tenho sido ouvida) é que temos um sério gargalo e que se refere a um requisito que os responsáveis pelas políticas têm esquecido - intencionalmente ou não - a de que para se ter leitores é necessário letramento adequado e que por mais se invista em incentivos à leitura, mantido esse quadro,os resultados serão pífios na formação do leitor usuário dos livros. Observem o trecho em destaque, principalmente, sobre o potencial leitor que "não se tornou usuário da língua escrita" e  portanto não é frequentador de bibliotecas. Vejo nesse gargalo uma das razões pelas quais as bibliotecas em geral padecem de alcance. O artigo abaixo ilustra nessa matéria publicada em 27 de março de 2013 pelo Jornal da Cultura (site abaixo): 
Vejam a matéria:
Todos os anos, o governo aplica provas desenvolvidas exclusivamente para avaliar a educação brasileira. Essa iniciativa ainda não é parâmetro de qualidade no ensino, se levado em consideração que o Brasil ocupa o 88º lugar no ranking de educação da UNESCO.
Os índices são preocupantes — de acordo com Instituto Paulo Montenegro, aproximadamente 75% das pessoas entre 15 e 64 anos não conseguem ler, escrever e calcular plenamente. Dessa porcentagem, mais de 60% são analfabetos funcionais e 7% considerados analfabetos absolutos.
Segundo um levantamento feito em 2010 pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), o Brasil possui 30.558 milhões de analfabetos funcionais.
“Os números ainda são alarmantes numa sociedade supostamente democrática. E quando a gente vai entender melhor esse quadro do analfabetismo, a gente percebe outros problemas, que não é apenas o sujeito que não sabe ler e escrever, mas aquele que passou pela escola, que supostamente deveria saber ler e escrever e não se tornou um usuário da língua escrita. A gente sabe que muitos alunos chegam no 7º anos da escola sem saber ler e escrever. Isso mostra que a escola também não está cumprindo o seu papel”, explica a Silvia Gasparian Colello, professora e pesquisadora da Universidade de São Paulo (USP).

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Um mundo sem estantes (por Arnaldo Pereira Júnior)


Nesse artigo, Arnaldo Pereira Júnior faz uma boa reflexão para colocar na mesa de profissionais do livro e informação 

Um amigo entra na minha casa nova, vê as estantes ainda vazias e começa o bombardeio: "Para que espaço para tanto livro? Livro está acabando".
Ele não quer saber da vista, de nenhum detalhe da obra, da arquitetura ou da decoração (não que eu tivesse algo a dizer sobre essas coisas, mas, enfim, era uma casa nova). O incômodo com as estantes é maior que tudo isso.
Para me safar do cerco, banco o moderno. "Claro que eu sei, os livros eletrônicos são o futuro. Mas isso aqui é para armazenar o que eu já tenho, entende? Até hoje guardo livros na casa dos meus pais, para você ter uma ideia."
Cascata, tática diversionista. Eu sabia que, se já estava sob tiroteio pesado, tudo iria piorar quando meu amigo visse a outra face do móvel. Ali, eu dava os primeiros passos para eliminar a bagunça dos meus CDs. E "in style", à moda gringa, ordenando por sobrenome.
Um serviço que, digamos, me dava certo orgulho. Mas o sentimento só dura até o próximo balaço: "E esse monte de lugar para CDs? CD não vai existir mais".
Em busca de trégua, sugiro sairmos para jantar. Encontramos a mulher dele. Como na faixa de Gaza, o cessar-fogo tem curta duração. "O Álvaro está maluco, botou um monte de estantes na casa nova, parece que não sabe que livros e CDs estão condenados."
Isso faz alguns anos. Nem preciso dizer que, tanto para livros quanto CDs, o espaço naquelas estantes, que pareciam obsoletas, está no fim. E o mais irônico: meu amigo, profeta do apocalipse do plástico e do papel, nunca chegou a comprar um leitor eletrônico de livros. Não tem Kindle nem iPad. Continua encomendando seus volumes de papel.
Já eu, dono do móvel ultrapassado, adotei o livro digital. O encanto inicial foi grande, até escrevi sobre isso. Caminho sem volta para um mundo sem estantes? Talvez não.
Há poucos meses, o ator Bruce Willis revelou que planeja algum tipo de ação legal contra a Apple. O objetivo é garantir que sua vasta coleção de música, em grande parte baixada na loja virtual de Steve Jobs, faça parte da herança que ele deixará às filhas.
Nas entrelinhas da burocracia, Willis descobriu que as músicas não são exatamente dele, nem de ninguém que as compra. São, de certo modo, alugadas. Se ele morrer, voltam para a Apple. Não quer deixar, para as três jovens, um legado de silêncio.
O pesadelo que Willis tenta evitar, uma mulher norueguesa já enfrentou. Identificada apenas como Linn, um dia ligou seu Kindle, o leitor eletrônico da Amazon. Ao conectar o aparelho à web, o golpe: todos os livros que já tinha comprado foram apagados em um segundo.
Seguiu-se um pesadelo kafkiano. Ao contatar a Amazon, foi informada de que havia problemas de fraude em uma outra conta, também associada a ela. Como punição, todas as contas estavam sendo canceladas. Adeus, livros digitais.
Só um problema: ela não tinha nenhuma outra conta. Era claramente um engano. Mas a Amazon se recusava a dar detalhes. Linn não tinha como se defender.
Alguns escritores souberam do caso, e passaram a divulgá-lo. Só a partir daí a situação foi aparentemente resolvida. Os livros eletrônicos foram restituídos a Linn, independente do status da conta.
O futuro desse universo cada vez mais digital é cheio de riscos. Imagine: colapso na nuvem. "Crashes" de servidores, fibras ópticas rompidas, blecautes em série nos principais polos hi-tech da Terra.
Nos primórdios da web, uma situação assim teria uma consequência grave: internet fora do ar. Grave, porém única. Músicas, filmes e demais arquivos baixados pela rede estariam a salvo, guardados nos computadores das casas das pessoas.
Mas, hoje, tudo mudou. Um crash gigantesco seria muito mais devastador. Porque cada vez menos gente armazena em casa seus arquivos digitais. Está tudo em servidores poderosos, espalhados pelo mundo. Nessa nuvem, digital e amorfa.
Não é fora de propósito imaginar um cenário de perda de contato com ela. Sem livros físicos, sem CDs, os arquivos digitais perdidos na nuvem isolada. A distopia digital extrema. O mundo das ideias salvo pelas
estantes.
Fonte: Folha de São Paulo / Ilustríssima. Sábado, 08 de dezembro de 2012 p.E14

domingo, 25 de novembro de 2012

O peso dos livros (por Ronaldo Bressane)

Resumo: angústia de um bibliófilo através de uma carta.

Querida Vilma,
perto de sua atividade febril flanando por academias, escolas, parques e jantares, sou um tiozinho sedentário. Cá estou encerrando o superferiado que passei fechado em casa organizando estantes, “desbastando-as”, como me disse há pouco na Mercearia S. Pedro (são três da manhã e estou vagamente bêbado, ou seja, vagamente vago) o Marçal Aquino, que acabou de se mudar e conseguiu corajosa e talentosamente reduzir seu acervo de 54 anos de leitura a meros três mil livros.
Afinal, Vilma, para que um sujeito deve ter mais de três mil livros, ou 300, ou apenas três? Minha última mudança (última não, a mais recente, como uma vez me disse um vagabundo de rua no Rio de Janeiro, depois que ao me pedir, mais uma vez, um cigarro, eu disse “tá, mas é o último, beleza?”, me replicou “último não, camarada. Mais recente. Nunca diga último”, um dos grandes ensinamentos que a rua me trouxe), minha mais recente mudança, da casa da minha ex-mulher, trouxe a este apartamento cerca de seis mil livros, sem contar as centenas de revistas e recortes de jornais; e é esta “poupança” que passei desbastando todo o feriado. Questões telúricas se me assoberbavam: lerei mesmo este livro? Esse monte de livros ruins que me enviaram, com dedicatórias, devolvo-os ao Grande Oceano da Informação Indiferenciada (sebos ou oficinas de reciclagem de papel), ou quem sabe me detenho sobre eles mais uma vez, abrindo qualquer exemplar ao acaso, para me deparar com a Frase Genial Perdida, aquela pela qual vivemos durante toda a nossa vida entre bibliotecas, livrarias, sebos e catálogos de velhos alfarrábios?
Resolvi que precisava dispensar ao menos quinze caixas. Os livros mais bacanas foram bater em Capão Redondo, nas mãos do Ferréz. O autor de Capão Pecado organizou, junto com o Mano Brown, uma bela biblioteca em um terreno onde antes havia funcionado uma boca de fumo – que visitei, junto com o bibliófilo José Mindlin, para uma reportagem na revista Trip (dá pra ler aqui). Quando juntei as bibliotecas com minha ex-esposa, havia muitos livros repetidos – lá se foram para a nova biblioteca que o Ferréz montava em uma casa que ele mesmo comprou, no Jardim Comercial, uma das muitas quebradas do Capão. Na separação, para sair mais leve de minha ex-casa, mandei para lá mais meia-dúzia de caixas. É reconfortante saber que meus livros “voltam” ao lar – é que morei no Capão dos 2 aos 8 anos, quando ainda era um bairro da zona sul isolado entre vastas porções de mata atlântica original, não a atual cidade de 1 milhão e 200 mil pessoas.
(Nota de Bicha Ressentida: doei/vendi cerca de cem livros que me foram enviados com dedicatória e tudo – quase todos livros que ganhei sem pedir. É triste, mas isso acontece. Antes de passá-los adiante, porém, conforme a etiqueta, arranquei as páginas com as dedicatórias. Afinal, vai que um deles reencontra o próprio livro num sebo, dedicado a mim. Imagino os bons pensamentos que o escritor me dedicaria. Já me aconteceu isso, e foi péssimo. Eu estava à toa em Porto Alegre, entrei num sebo da Rua da Praia e topei com a lomba azul de um livro meu. Abri-o e reencontrei a sensual dedicatória a uma jornalista gaúcha que havia conhecido em São Paulo. Lembrei que ela mesma tinha reiteradas vezes me implorado pelo livro, e me fez sair do bar, voltar para casa, retornar até lhe dar o mimo em mãos. Ela poderia ao menos ter sido discreta e eliminado minha dedicatória, não acha, Vilma? Comprei o livro, envelopei-o e mandei-o de volta, com uma nova dedicatória: ‘Perdeu este, querida’. Ressentida, eu?)
Enfim, Vilma, depois das primeiras desbastadas na estante, vi que ainda precisava me desfazer de mais livros, e eis-me aqui, espiando atônito todas essas lombadas coloridas. Há muita coisa que comprei ou ganhei que, por algum motivo, afetivo ou profissional, guardei, mas nunca li. Saudade do tempo em que dominava totalmente minha coleção: agora ela é uma biblioteca potencial, devo ter lido uns 60% no máximo, e há coisas que sequer folheei. Chega aquela hora de se perguntar: vou realmente ler esse troço? Pra que guardar essa enciclopédia Caudas Aulete que, sejamos sinceros, abri umas dez vezes nos últimos dez anos? Este livro de filosofia não ficaria em melhores mãos do que as minhas relapsas? E este esquisito livro de poesia que o amigo publicou, não encontrará leitor mais adequado nas futuras gerações? Vou realmente precisar das obras completas desse obscuro autor australiano? Até quando vou ficar levando esse peso nas costas?
No que caímos neste novo dilema – caímos, digo, porque você e sua biblioteca de dez mil livros devem saber como é complicado esse relacionamento –: em tempos de nuvem de informação, iPad e e-book reader, pra que ter tanto livro? Não seria muito mais ecológico, econômico e inteligente ter somente um Kindle que baixasse tudo o que precisamos pra ler? Guardar tanto livro assim não é uma veleidade pequeno-burguesa, um feito para impressionar visitas, ou, pior, para impressionar a nós mesmos?
Aconteceu algo parecido com as dezenas de envelopes e caixas com textos que juntei nas últimas décadas. Anotações, cartas, recortes, bilhetes, textos alheios, ideias para serem usadas mais tarde… mais tarde quando, Vilma? Me pegava estranhando aquele sujeito que havia guardado tanta tranqueira. Comecei a entender os “acumuladores”, aqueles radicais latifundiários de todo tipo de treco. Legião, eles têm até um programa de TV no Discovery Channel, o que quer dizer que é uma doença que se alastra: a doença das coisas (Perec tinha razão em seu As Coisas, quando radiografa os protagonistas: “No mundo deles, era quase regra desejar sempre mais do que se podia comprar”). No fim, são as coisas que guardam os guardadores, e eles não conseguem mais sair de casa, presos aos objetos que colecionaram durante anos, e dos quais não conseguem se desvencilhar. Eu os compreendo: um acumulador pretende nada menos que preservar o tempo, estacioná-lo, flexioná-lo até seu ponto de estátua – e, se o termo guardar também está relacionado com olhar (como no belo poema de Antonio Cícero, “Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por/ admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado”), o acumulador se tranquiliza apenas por olhar as coisas que juntou e vê-las ali paradas, tais como no momento em que foram colhidas, como se ele tivesse logrado, finalmente, paralisar o tempo que corre, ou, ao contrário, como se elas o tivessem encantatoriamente tornado jovem para sempre.
Há dois consolos em ver os livros enfileirados arrumadinhos nas estantes. Um é serem meus amigos (muitos são realmente pessoas com quem conversei, bebi, amei, ouvi histórias). Quem tem uma biblioteca jamais estará sozinho, eis o credo número um da Carençolândia que habitamos todos nós tarados por literatura. Outra tranquilidade me convém quando observo os livros que colecionei: a certeza de que um dia terei tempo suficiente para lê-los. Eles em si são uma cápsula do tempo futuro: lembrarão ao homem que serei que havia um homem preocupado com ele, com suas leituras, com seu tempo. Pobre homem.

sábado, 25 de agosto de 2012

A fantasia dos computadores na escola (por Elio Gaspari)


A fantasia dos computadores nas escolas, por Elio Gaspari

Elio Gaspari, O Globo 19/08/2012
O comissário Aloizio Mercadante, que anunciou a compra de 600 mil tabuletas para professores, bem como os educatecas que lidam com encomendas de computadores para escolas, deveria pedir à Universidade Estácio de Sá uma cópia da dissertação de mestrado de Marcelo Remígio Tavares de Matos. É curta e simples. Analisa o impacto e o desempenho de 11 computadores federais colocados na periferia de Petrópolis, na escola municipal Stefan Zweig, o autor do livro "Brasil, país do futuro".
No Brasil do presente, Remígio entrevistou 164 alunos num universo de 200 jovens do segundo ciclo, mas só três dos dez professores quiseram responder ao seu questionário.
Só uma informou que usava o laboratório de informática em suas aulas. Tanto a diretora da escola como a garotada exaltam a experiência. Já os professores não receberam capacitação adequada, nem a escola dispôs de assistência para colocar uma página na internet.
Quando as máquinas chegaram, ficavam disponíveis sete dias por semana e havia um contrato de assistência. Deletaram-no, a sala foi fechada aos sábados e domingos, e sumiram os endereços eletrônicos dados aos alunos. Se um computador enguiça, o conserto leva cerca de um mês.
Em média, cada aluno tem acesso aos computadores duas horas por semana. Como eles não são bobos, ligam-se duas horas por dia em outras máquinas quando conseguem. Numa conta racional, poderiam ter cinco horas por semana na escola.
Apesar da falta de capacitação dos professores, não há má vontade de vivalma na Stefan Zweig com os computadores. O que há por lá é a fantasia segundo a qual basta comprar máquinas e, com isso, chega-se ao futuro. Capacitação de mestres dá trabalho. Compra de equipamentos dá marquetagem y otras cositas más.