Este blog se destina à troca de ideias em torno da Leitura, Literatura, Biblioteconomia e Ensino. Será um prazer contar com sua participação.
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terça-feira, 17 de janeiro de 2017
terça-feira, 25 de outubro de 2016
Nobel a Bob Dylan: esnobismo nórdico ou injustiça artística Leonardo Padura
Estou mergulhado há dois anos na redação de um novo romance. Mesmo
quando um escritor já pratica seu ofício há muito tempo, escrever um novo
romance é sempre um exercício árduo e extenuante –e acredito que seja assim
para quase todos os escritores que respeitam a si e a seus leitores.
Eu precisei de quatro anos para concluir "Hereges" e
cinco para pôr o ponto final em "O Homem que Amava os Cachorros". Por
que é tão difícil escrever um romance? Por que o escritor, ainda mais o
escritor profissional, sente que nunca disse o que pretendia dizer da melhor
maneira em que é capaz de dizê-lo, e retorna várias vezes sobre o que escreveu,
transpira, duvida, receia?
Hemingway confessou certa vez que tinha escrito o final de
"Adeus às Armas" quase 40 vezes. Quando lhe perguntaram qual tinha
sido o problema, ele deu uma resposta tão simples quanto terrível e reveladora:
o problema era a ordem das palavras. Porque, na realidade, tudo se resume a
isto: a colocar uma palavra atrás de outra para conseguir expressar algo que
tenha um sentido e consegui-lo do modo mais belo e claro possível. O difícil é
consegui-lo.
Milan Kundera, por sua vez, falou de uma característica peculiar
da arte do romance: é que o autor que começa a escrever esse livro é diferente
do que terminou de escrevê-lo. Por duas razões: o processo de escrever um
romance, de tirar tantas coisas de dentro de si para falar dos mistérios da
condição humana, muda você, quer você queira, quer não. E a outra razão é ainda
mais dramática: para escrever um romance você pode precisar de dois, três,
cinco anos, às vezes mais. O tempo transcorrido faz com que você não seja mais
o mesmo entre um momento e outro. É a lei da vida.
Gabriel García Márquez contou várias vezes o que precisou fazer
para escrever "Cem Anos de Solidão". O romancista renunciou a todos
seus trabalhos de sobrevivência, encerrou-se com seus cafés e seus cigarros
para escrever e confiou que poderia acontecer alguma coisa com seu livro, pois,
do contrário, sua família estaria do outro lado da beira da falência. E assim
escreveu durante anos.
Parece evidente que o ofício literário requer essa dose de
masoquismo, de autoimolação, um processo com dor ao longo do qual o artista tem
que combater todos os demônios que sejamos capazes de imaginar. Eu me refiro
aos verdadeiros escritores, àqueles que fazem de sua arte um instrumento para
penetrar "a alma das coisas", como pedia Flaubert. Mas esse
verdadeiro escritor assume os riscos e se empenha em sua tarefa. Por quê?
Porque não pode deixar de fazê-lo.
Estou convencido de que nunca serei um escritor com as qualidades
de Hemingway, Kundera, García Márquez ou Flaubert. Mas, se aprendi alguma coisa
em meus quase 40 anos lutando com a escrita, é que escrever literatura é um
ofício tremendamente difícil, às vezes lacerante, repleto de incertezas e
geralmente, depois de tanto esforço, premiado com a indiferença. Porque apenas
um bom livro entre muitos bons livros consegue chegar a se converter em
referência, em sucesso comercial (que está mais ao alcance de alguns maus
livros).
Os poetas, esses seres empenhados em nos fazer descobrir que a
vida pode ser expressa com outras palavras, dedicam-se à sua obra sabendo, de
modo geral, que não receberão recompensas por seu trabalho. A poesia nunca
vendeu bem e, embora em determinadas épocas e conjunturas históricas os poetas
tenham gozado de grande prestígio social e cultural, seu empenho raramente
alcança ressonância maior. Mas os poetas existem, sonham, burilam os idiomas,
iluminam a mente. Porque são poetas e não podem evitá-lo.
E os dramaturgos? Como no caso da poesia, a experiência pessoal
não me acompanha em minha opinião, mas o fato de mover personagens diante dos
olhos de outros e contar por meio das palavras deles algo tão difícil de armar
como um verdadeiro drama implica, sem dúvida, um esforço criativo maiúsculo.
Direi apenas que vi com surpresa como se concedeu a recompensa
literária que se supõe ser a mais importante do mundo a um escritor de letras
de canções. Um dos maiores e mais influentes. Um poeta da canção. Claro, o grande Bob Dylan, o
Prêmio Nobel de Literatura. Esnobismo nórdico ou injustiça
artística? Não sei, mas acho que não teria ocorrido a ninguém entregar um
Prêmio Grammy a um poeta, um romancista ou um dramaturgo, graças à musicalidade
de seus textos. Alejo Carpentier e Carlos Fuentes morreram sem o Nobel de
Literatura. Milan Kundera e Philip Roth esperam pelos deles... Mais do que
nunca, a resposta da Academia Sueca está boiando no ar. L.P. Folha de São Paulo, 22/10/2016
quarta-feira, 27 de julho de 2016
Por que Literatura?
As políticas de Livro,
leitura e programas de incentivo à
Leitura têm defendido com certo ardor de
causa a ênfase ao campo literário como
se este fosse uma unanimidade. É verdade que tudo começou com a Literatura,
desde as mitologias às mais antigas narrativas bíblicas e as mais diversas
narrativas. A História se funda com Homero
e Heródoto e, sendo que Homero relatava proezas sem qualquer preocupação com
inteligibilidade* e Heródoto, considerado “o pai da História”, já ensaiava
um método para contrastar fatos com a
realidade e procurava não relevar as tradições mitológicas. Mas é Homero quem
aparece aos doutos e mestres em Literatura como o reverenciado. E Heródoto
encolhe-se no escaninho da historiografia, já que se constituiu na primeira tentativa do homem em sistematizar o
conhecimento de suas ações, ao longo do tempo. Sua inovação consistiu em
transformar a “linguagem dos deuses para a dos homens”, pela da investigação. Outras e muitas sistematizações e métodos, valendo-se de hipóteses
e argumentos seguiram-se depois, constituindo o campo da Ciência e da
Filosofia, na tentativa de aproximar o homem da “verdade” sobre sua existência.
O campo da criação, imaginação e da fantasia ocupou seu lugar na Literatura, o
campo da teoria e experimentação na Ciência, que expandiu-se em vários ramos,
ou seja a tomarmos só a classificação de Dewey*, sete entre os dez campos do
conhecimento (em bibliotecas, “assunto”) são de natureza investigativa:
Filosofia, Psicologia, Ciências Sociais, Língua e Linguística, Ciências Físicas
e Naturais, História, Geografia e Biografia, ao passo que Religião, Arte e
Literatura- a excetuarem aí os estudos sobre - ocupam o metafísico, o fictício
e imaginário. E tenho observado que as defesas apaixonadas da
Literatura se prendem a crenças, que vêm
se consolidando, de que é através dela que se tem o “entendimento do mundo”,
por não estar presa a qualquer paradigma, leis ou regras; a ciência,
argumentam, está aprisionada irremediavelmente ao caráter didático , no acervo
constituído para uso em sala de aula, portanto, o conhecimento científico é, por
natureza, tedioso; verdadeiro em parte, porque a escola estigmatizou as ciências
exatas e humanas, cuja expressão está na visão pedagógica para os jovens, logo, nos livros didáticos, o que, a meu ver, seria a sua pior expressão possível. Que ações de incentivo se têm
implementado para o gosto da Ciência, de ler e experimentar ciência? O livro
temático é a fonte primária do conhecimento. A secundária está nas coleções de
referência e nos didáticos. Daí acredita-se, com certo
exagero, que a literatura irá fatalmente levar o estudante, no futuro a se
interessar por obras de importância incalculável para a Humanidade, como as de Darwin, Freud, Marx, Einstein, e Stephen Hawking, por
exemplo. Gênios na arte como Charles Chaplin, Van Gogh, Beethoven. Da política
como Maquiavel e Gandhi. Da educação como Piaget e Paulo Freire. Esses
pensadores, entre muitos, foram autores e tiveram expressão escrita tão
personalíssima como grandes autores da literatura. Não são meros verbetes ou
citações de livros didáticos e dos quais nunca mais se falará, fechados os
portões da escola. Não se trata de “matéria de aula e prova”, mas de conhecimento. Conhecimento na acepção exata do termo. E esse conhecimento, arrisco dizer, a continuarem essas políticas, passando somente pelas carteiras e por provas, estará em vias
de extinção. É claro que não estou falando dos pequenos das séries
iniciais, mas a partir dos 11, 12 anos em diante, é preciso mostrar que as formas
de apreensão do mundo estão em todos os ramos do conhecimento e que estão também nas livrarias, bibliotecas e todas as mídias. Acreditar-se que
Literatura seja "libertadora', quando a única coisa que ela liberta de verdade é do estudante aplicar-se a “duras” tarefas de investigar os
fatos e fenômenos e trabalharem argumentos que necessitam comprovar, coisa que o devia fascinar e maravilhar e não
entediar. As maravilhas da tecnologia e da ciência estão aí dadas para
comprovar em que resulta o investimento em pesquisas e leitura diversificada nos países mais avançados. Literatura, como classificou Dewey, é o campo da
retórica. Nada contra a retórica, ela é necessária na construção do discurso, mas a tendência preocupante, nas últimas décadas, é que a leitura dos
temas de natureza científica, interessante por si só,“precisa”
ser mediada pela literatura e pelos didáticos para “amenizar’ a sua “dureza”. Pessoalmente amo
ler e amo literatura, confesso que me vejo em dificuldades com as ciências exatas, mais por falta de competências do que por qualquer outra razão, mas reverencio a Ciência pelo conjunto da obra que viabiliza e viabilizará o desenvolvimento da civilização; por isso defendo que, tanto ela quanto os demais ramos do conhecimento, precisam, na mesma medida, de incentivo, em todas as formas de expressão e ambientes.
https://cpantiguidade.wordpress.com/2009/10/14/perfil-historico-herodoto/
quinta-feira, 14 de julho de 2016
Biblioteca e pedagogia bibliotecária Sheila G. Soares
O aprendizado se dá em qualquer
espaço na vida. Porém, ocioso dizer, a escola é o
espaço de aprendizado por excelência,
pela necessidade de instruir, desenvolver competências e principalmente inserir o indivíduo no mundo
letrado, através das práticas pedagógicas. Já a biblioteca propicia o acesso a objetos informacionais, que são objetos físicos e virtuais, que podem não ser necessariamente de
natureza pedagógica, cujo acesso exige ferramentas facilitadoras. Nesse sentido, a informação cumpre a função de
gerar conhecimento. A informação é parte do corpo do conhecimento, não é ele
próprio. Assim a biblioteca cumpre um papel de mediação, não entre o “usuário/
utente/ consulente” e o conhecimento propriamente dito, como é próprio da escola; é a mediação entre aquele e as formas de acesso a conteúdos, através de sistemas de informação. Os
sistemas de informação são estruturas que dispõem de pontos de acesso - como autor, título e assunto - para
atender ao desejo, ou a uma necessidade que tenha gerado uma busca por parte do
indivíduo. Já o leitor, na sua definição
léxica de ”aquele que lê”, ou se propõe
a ler, na ou através da biblioteca, é aquele usuário que é membro ativo e faz
parte da comunidade de leitores, integrado à instituição. Há correntes que inclusive chegam a chamá-lo “sócio” ou “cliente”. É quando aparece o termo
leitor na biblioteca, a partir da atividade interessada de um usuário neste
espaço. Os demais serão potenciais leitores. Pode-se dizer que uma das expectativas mais comuns nas bibliotecas é
fazer de um usuário, apenas visitante ou frequentador, um leitor; daí as atividades
culturais em uma biblioteca serem uma
estratégia importante para atrair o usuário ou potencial leitor para o uso frequente da
coleção ou acervo ou para serviços além dela. Como pensar o papel do bibliotecário? Desde as políticas de
leitura tenta-se “pedagogizar” as funções bibliotecárias para o que chamam de
“formar leitores”. No Brasil essa tendência surge em fins da década de 90 do século passado, com os planos e políticas de leitura (PNLLs),
que ganham força pelo país afora, e cujo viés pedagógico surge com força. Isso
implica (e está expressamente colocado nas diretrizes do Proler) que as
bibliotecas ( e os profissionais) precisam "dar mais atenção" ao usuário do que
às atividades que os ocupam tradicionalmente como o tratamento da coleção, as atividades de classificação, catalogação, referência etc. Não que o bibliotecário não possa
se envolver em atividades culturais ou pedagógicas, como acontece em
bibliotecas escolares, é bom que se envolvam, mas tradicionalmente, para este
profissional não é requisito explorar conteúdos, embora tenha que ter/fornecer referência
deles; ao contrário do que ocorre com o
professor, que ministra os conteúdos. "Grande cuidado está sendo devotado ao estudo das estruturas dos documentos, [...] de forma que os bibliotecários estão sendo vistos por outros especialistas como `arquitetos de informação". (GOMES,2010)¹ É como o arquiteto que projeta um hospital, desconhece matéria médica, mas entende as necessidades de um hospital. No máximo, ele precisa se informar sobre o que é
essencial ao edifício para dar-lhe segurança, conforto e acessibilidade. Ou
seja, ele reúne informações para que o projeto seja executado à perfeição. Por analogia, o bibliotecário projeta um "edifício" do
conhecimento universal, para que as portas se abram à cultura e/ou ao
aperfeiçoamento dos sujeitos. A
diferença do bibliotecário para o arquiteto é que, em vez de ferramentas
matemáticas e o desenho, ele usará códigos, tabelas e índices. Por isso é tido
como um profissional técnico, mas nada obsta que atue com conteúdos, sem que se descaracterizem os fundamentos de sua profissão e as atribuições previstas em lei². Que o
bibliotecário tivesse uma expertise na área de conhecimento em que
atua seria o ideal, mas é impossível, porque é um profissional que atua, tal como o arquiteto, em
diferentes áreas do conhecimento. O conteúdo deve ser o suficiente para construir "pontes" de informação, por onde transitam diferentes e múltiplos interesses. Ou seja, sua responsabilidade é estar atento às
potencialidades e dificuldades do seu público em relação ao acesso a que a instituição
pode oferecer, para que resulte, cada vez mais, na disseminação do conhecimento e no
desenvolvimento das pessoas e dos saberes na sociedade.
1. Gomes, Hagar E. ver em http:// www.bibliodata.ibict.br/ geral/docs/ProfissaodoFuturo.pdf
2..Ver referências sobre atribuições e papel do bibliotecário (sugestão) em http://www.cfb.org.br/institucional.php?codigo=7http://archive.ifla.org/VII/s8/unesco/port.htm
2
sábado, 9 de julho de 2016
Afinal o que é ser leitor? por Carlos Alberto Gianotti
Em seu recente livro A civilização do espetáculo (Objetiva), Mario Vargas Llosa é concludente: vivemos um tempo de banalização da cultura, um tempo de metamorfose daquilo que se entendia por cultura, na época em que era alimentada e preservada por uma elite (cultural) e a ela mesma se destinava. Diz Llosa que essa concepção de cultura inapelavelmente acabou, e que estamos em plena civilização do espetáculo, do entretenimento fútil, do falatório mediante vocabulário glamourizado e da irrelevância da criatividade estética. Seguindo-se um pouco além por esta trilha do Nobel peruano, pode-se perceber a mencionada espetacularização também na atividade empresarial, na educacional escolarizada e na esportiva, amadora ou profissional. Enfim, bem se analisando, constatar-se-á que tudo se move visando um espetáculo sempre alimentador de vaidades.
Nunca encontrei alguém instruído que, pelo menos da boca para fora, não considerasse a leitura como essencial para a vida das criaturas. A leitura aparece, para além do mero entretenimento, como fator de aprimoramento individual, de formação da pessoa humana integral. Muitos especialistas dizem que, suplementarmente, pela leitura, além de outros proveitos, o ledor torna sua imaginação mais frenética; isto é, quanto mais se lê, mais imaginativo se fica, ou os que lêem bastante restam com a imaginação mais arguta do que aqueles que pouco ou nada lêem. E ter imaginação fértil, dizem, é um refrigério para o intrapsíquico. Em outras palavras, a capacidade imaginativa das criaturas precisa ser irrigada com doses de leitura, para crescer como uma planta. Uma tal quantificação parece-me ela mesma imaginária, coisa que é bonita de se dizer, mas que não se pode efetivamente aferir.
Formar leitores?
Algumas semanas atrás, o reputado jornalista, editor e escritor espanhol Juan Cruz, quando esteve em Buenos Aires para o lançamento do último de seus livros, em entrevista ao caderno Ñ, do Clarín, saiu-se com esta: “La tarea del editor es decirle a la gente por qué debe ler um libro y no irse a la playa”. Parecem-me tais ações irrelacionáveis (ler ou ir à praia; soa como se a atividade de ler estivesse acima de qualquer outro fazer), mas indiscutivelmente, como assertiva, rende dividendos na comunidade bem-comportada dos intelectuais do bem. São as verdades que mentem. Vargas Llosa, ao falar na civilização do espetáculo, identifica-a também na miríade de manifestações absurdas, a exemplo da de Cruz, tidas como “culturais”, com que somos bombardeados continua e impiedosamente.
Conforme pude constatar durante mais de trinta anos de magistério, sempre foi intenção de meus colegas docentes das disciplinas de Língua Portuguesa e de Literatura fazer com que seus alunos se tornassem leitores, apreciadores da leitura. Continuam eles ainda hoje a asseverar pelas salas de aula, num psitacismo que enuncia uma verdade que lhes é válida, que é indispensável ler, porque é por meio da leitura que se lapida o espírito crítico, se aprimora o redigir, se acura o bom gosto e se estará apto a exercer com discernimento a cidadania — seja lá isso o que for. Pode-se, entretanto, constatar que esses professores, no que se refere a tal intenção, têm alcançado o mais absoluto insucesso: basta notar que 38% dos brasileiros com curso superior, hoje, não conseguem entender um texto simples ou escrever algumas linhas sem solecismo e de forma coerente (Indicador de Analfabetismo Funcional 2012, dado pelo Instituto Paulo Montenegro, ONG Ação Educativa), como um bilhete para (des)marcar um churrasco com amigos — que acaba por sair em garranchos e ao estilo semântico daquele do Samba do Arnesto, de Adoniran Barbosa. (Nessas condições, leitor destas linhas, noto que há uma nada desprezível probabilidade de o seu médico ter-lhe prescrito aquela medicação sem haver entendido perfeitamente o que diz a bula.)
Ao mesmo tempo de magistério, pude também constatar que colegas professores de Educação Física, alguns deles mesmos com sobrepeso corporal e que não arredavam pé da vida sedentária (porque isso não depende apenas de uma vontade racional), viviam a incentivar seus alunos à prática de esportes e de exercícios físicos para a vida saudável, para um longo e bem viver. Igualmente se pode constatar o insucesso das elocuções desses educadores físicos, a se julgar pelo hábito de realizar exercícios entre os adultos de hoje: quantos entre nós mantemos continuadamente a prática recomendada por nosso antigo professor do colégio?
Fazer exercícios físicos regrados depende de força de vontade, de disciplina, de continuidade por parte do praticante, o motivo indubitável de a maioria manter-se sedentária; a leitura, por sua vez, impõe ao leitor disciplina, atenção, reflexão, razões pelas quais tantos são os refratários a ela. É certo que ler ficção popular, como a de Paulo Coelho, literatura de auto-ajuda ou policial requer miúda aplicação intelectual; já literatura de proposta, de problematização, exige do leitor, além de um vocabulário mais amplo e refinado, um espírito sutil, uma capacidade de entendimento esmerada, um pensamento criativo bem-conformado; reclama a faculdade da abstração e demanda estabelecimento de relações — como para ler Proust, Macedonio Fernández, Pessoa, Bernhard, Kafka, Musil —, condições que, por sua vez, se aprimoram com o continuado deleite com autores como esses.
Então, fazer com que as pessoas passem a apreciar a atividade de ler parece-me um homólogo de fazer com que as pessoas venham a gostar de praticar exercícios físicos sistemáticos. A primeira para uma vida crítica, “cidadã”; a outra para uma longevidade daquela vida crítica: mens sana in corpore sano. Assim, os que não leem estariam para o âmbito da cultura como os sedentários estão para o do fisicultura.
Preliminares
Agora, chegou-me às mãos um exemplar da recém-lançada publicação Plano Estadual do Livro, Leitura e Literatura (PELL), 2013-2023, do Rio Grande do Sul, que, como outros projetos similares, estabelece as bases para uma ação coletiva visando o incremento do hábito de ler. Documento burocrático, fala sobre a importância da leitura, assevera que as escolas devem formar leitores e que sua difusão deve começar na família. Tudo muito bonito. Porém, como costuma acontecer sempre que se fala em fomentar a leitura, o que não diz também este documento é o que vem a ser “a leitura”, o que é “ser leitor”. Parece-me esta uma indagação preliminar essencial quando no Brasil se fala tanto em “formação de leitores”, pois não é possível formá-los se não se tem noção exata do que é ser leitor. Portanto, quais seriam os critérios para considerar uma pessoa como leitora e outra como não leitora? O que caracterizaria como leitor, por exemplo, um eletricista, um desembargador, uma embaixadora, um contador, um bombeiro, uma taquígrafa, um engenheiro, um delegado, um caixa de banco, uma manicure?
Será leitor o oficial do tabelionato que passa o dia lendo escrituras de compra e venda de imóveis? Será leitora a telefonista que, entre um e outro atendimento, examina a Contigo e a Caras de que é assinante? Ou a dona de casa que apenas folheia o jornal diário, atenta especialmente ao obituário? Será leitor o escrivão de polícia que se entretém com literatura policial nos momentos de folga do plantão da calada da noite? Ou o ascensorista que, em seu irremediável sobe e desce, lê e relê as recomendações dos compêndios de Lair Ribeiro? Ou o professor de Literatura que apenas lê os livros que recomenda a seus alunos? Ou aqueles que leem tudo considerado fundamental pela intelligentsia nacional, desde Homero, Ovídio, Camões e Cesário Verde até Verissimo, Caio Abreu, Ruffato e Galera? Ou aquele que, não sendo muito afeito à poesia e à ficção, é, entretanto, estudioso inveterado de filosofia — Platão, Kant, Nietzsche, Hegel, Heidegger, com algumas passadinhas ligeiras por Freud e Lacan?
Poder-se-ia estabelecer, sem auto-engano, que, para ser considerado “leitor”, a criatura deverá ler aquilo que a intelectualidade, aqueles que tanto dizem ler, estabeleça como escritos dignos de serem lidos?
Poder-se-ia também conjecturar, não sem coragem, mas com desentusiasmo, que o hábito de ler será reservado à elite cultural, àqueles a quem foi conferido o dom de apreciar a leitura, com disciplina, atenção, análise, num paralelo àquele dizer de Vargas Llosa que considera a cultura algo a ser preservado e apreciado apenas pelas elites culturais, que realmente se deleitam lendo o que há de bom?
Ou, ainda, aceitar que seja provável que aqueles que não gostam de ler jamais virão a fazê-lo, simplesmente porque acham isso chato ou despiciendo, como quem não gosta de exercitar-se fisicamente nunca irá além da poltrona.
Enfim, o que é ser leitor?
Carlos Alberto Gianotti é professor de Física, é editor-executivo da Editora Unisinos. Autor Um rio circunferencial (WS Editor). Vive em Porto Alegre (RS).
Fonte: http://www.sul21.com.br/jornal/afinal-o-que-e-ser-leitor/
Fonte: http://www.sul21.com.br/jornal/afinal-o-que-e-ser-leitor/
Ensaio para intervenção bibliotecária em gerir competências informacionais: ALFIN numa realidade educacional cambiante: o Brasil
Ensaio para
intervenção do bibliotecário em gerir competências informacionais: (ALFIN) numa
realidade educacional cambiante: o Brasil *
Autor: Sheila
Gomes Soares
País: Brasil
Eixo: “Bibliotecas,
retos e desafios”/ 2. ALFIN como instrumento de educação e inclusão digital
Resumo
O presente texto discorre sobre a
possibilidade o desenvolvimento
de habilidades
informacionais em ambientes cujo estado da
educação ainda
não permite seu pleno desenvolvimento, como no
Brasil e propõe
uma pedagogia bibliotecária facilitadora da
autonomia do
leitor para prover suas próprias necessidades
informacionais.
* Trabalho enviado e aceito no VI Congresso Internacional de Bibliotecologia , Documentação, Arquivística e Museologia 15 – 17 de outubro de 2014 – CBDA 2014, Eixo: bibliotecas, retos e desafios. La Paz,2014.
1.Introdução
O Brasil até o presente ano ocupa o 58º lugar no
ranking mundial da Educação,
segundo os testes do PISA[2] e
o último lugar no quesito Educação no IDH entre os países da América do Sul[3].
Tais dados devem ser considerados em relação às dificuldades e limitações
quanto ao desenvolvimento das competências informacionais do público em
processo de aprendizado. Segundo SERAFIM & FREIRE (2013),[4] “as
aptidões informacionais são resultado da função educacional observada dos
principais serviços de informação, especialmente bibliotecas, já que as pessoas
não precisam somente aprender a usar as bibliotecas, mas serem capacitadas em
habilidades e estratégias para obter e
usar informações”[5], mas, a
nosso ver, não só e exclusivamente. Sugerimos aqui que a função educacional observada
em âmbito escolar é um fator de inibição ou avanço dessas competências por falta de implementação.. Nesse
aspecto, no Brasil há muito menos ilhas
de excelência para essas habilidades do que terrenos ainda a explorar.
1.
Identificar. Identificar uma necessidade pessoal de
informação; 2. Observar. Analisar e avaliar a necessidades de novas informações
3.Planejar. Construir estratégias para localizar informações 4.Reunir.
competências para localizar e acessar a informação desejada 5. Analisar.
Comparar e avaliar as fontes 6. Gerenciar: organizar as informações
7.Apresentar os resultados. Tais competências no entanto são exigidas de graduandos e docentes e raramente encontradas no leitor comum.
Evidente que para nossa realidade, considerando o statu quo da Educação da América Latina, e particularmente América
do Sul, tais pilares parecem estar além do horizonte tangível. No Brasil, e no
continente, ainda se luta contra o analfabetismo absoluto e funcional, em que as situações do leitor incipiente ainda são
muito comuns no ensino básico. As bibliotecas, mais do que quaisquer outras instituições, refletem largamente essas deficiências e o status do ensino de modo geral, através das abordagens do leitor e notadamente das demandas de pesquisas escolares, em geral mal conduzidas.
Muito se discute atualmente o papel educativo dos bibliotecários e existe,
nesse campo, a tentativa de se mesclarem duas matrizes quanto às práticas pedagógicas, hoje
presentes como atribuições desse profissional, uma na ação cultural de
incentivo à leitura e apoio ao letramento, e outra, a “tradicional”, voltada
para competências no acesso à informação. E não é ocioso observar que a primeira prática
tem suplantado a segunda quanto à visibilidade e aplicação no cotidiano das
bibliotecas, particularmente destinado ao público infantil e o jovem leitorado
ainda não universitário, quando aí começam de fato as práticas de pesquisa
sistemáticas. Os bibliotecários recém-admitidos nos serviços públicos e
privados, não raro, se surpreendem, ou muitas vezes aceitam com naturalidade o fato de se depararem com a “missão” de
preparar uma extensa programação de cunho cultural, para a qual não foram formados
- e que sequer consta em seu currículo – pelo menos no Brasil – e o mais das
vezes deixam de se dedicar a investir na capacitação do leitor no
acesso à informação, hoje cada vez mais necessária em razão da pulverização do
conhecimento produzido pelas mídias digitais, e a avalanche das fake news. O bibliotecário, nesse sentido,
é um dos elementos mais importantes, senão o mais, na estruturação dos sistemas
de informação e na mediação desses. Hoje a discussão da ALFIN (Alfabetização
informacional)[8] é uma
grata oportunidade de se colocar as coisas, digamos, em seu devido lugar. Não
que o bibliotecário não possa, e não deva, engajar-se em políticas promocionais
da leitura, mas que fique claro que, bem mais que o professor e o produtor
cultural, seu papel sempre foi e será estabelecer os vínculos entre leitor e
suportes e conteúdos informacionais de qualquer natureza. A promoção da leitura
representa, para este profissional, mais uma das estratégias de atração para os serviços oferecidos pelas bibliotecas do que uma pretensa “pedagogia bibliotecária”, visando
uma “formação de leitores”. Arrisco dizer não formação, mas atração de leitores a frequentar as bibliotecas como membros ativos, tanto como consumidores quanto colaboradores. Embora, muitos bibliotecários tenham se notabilizado em ações culturais em bibliotecas, não é, de fato, atribuição essencial dele a formação
de leitores. A formação dos leitores se estrutura nas competências em leitura e em repertórios de leitura; aquelas vêm da escola e são indispensáveis e
inerentes ao acesso à informação. A segunda é elemento primordial do capital cultural, em que a biblioteca tem papel decisivo em seu processo de seleção. E que costuma ser incipiente na formação escolar (9). Dito assim, os limites entre as duas
atividades - incentivo e competência informacional - parecem tênues, mas não são. A promoção dos acervos e as atividades
dela decorrentes são bem-vindas, no sentido de divulgar repertórios artísticos,
científicos e literários e promover o chamado “capital cultural” mencionado. As confusões,
porém, começam quando surgem discursos difundindo o estereótipo em que o “bibliotecário
não mais aquele que só cuida da coleção”. É sim, “Cuidar da coleção” não é só uma
questão “técnica” e não é pouco; implica em tratar e revelar o potencial
informativo de um acervo de qualquer natureza, e fazê-lo com um olhar afinado para seu
público, com consciência das necessidades e demandas de sua comunidade,
devidamente apuradas, e introduzi-lo no mundo
da informação, cujo propósito é, ao fim e ao cabo, fazer dela conhecimento para
os diferentes e inumeráveis usos, sejam na vida pessoal, nas artes, ciência e
tecnologia, no mercado de trabalho. Nesse sentido, estão compreendidas as
atribuições técnicas clássicas de Seleção,
Classificação , Catalogação, Referência e Desenvolvimento de coleção. A partir dessa última atividade, a “pedagogia
bibliotecária” se inaugura e culmina na
pesquisa temática e seus resultados, os quais, para serem satisfeitos, requerem, necessariamente, e a priori, as
competências informacionais.
2. Quando não se é ainda leitor; o leitor incipiente ou pretenso leitor
Não é preciso
recorrer a nenhuma teoria, mas à experiência, para se saber quando não se é
leitor, estritu sensu, considerando o
trato do leitor com os documentos, sejam impressos ou não. A prática nas bibliotecas
sugere um perfil do não-leitor ou do potencial leitor
Há alguns indicativos [10]
facilmente observáveis quanto a capacitação insuficiente no comportamento do
leitor, que podemos chamar de analfabetismo informacional, com respeito a livros e
outros documentos :
1. Faz
uso do documento como fetiche. O não-leitor envereda pela coisificação do livro, por exemplo, que começa pela capa, a
ilustração, ou por modismos [11].
2.
Ao escolher ou folhear o livro, ou fazer a rolagem de uma página, o
faz de forma aleatória, sem fixar-se em parte alguma.
3.
Define o material de leitura como um fardo, por “ter
que ler” (em geral estudantes).Associa-o à sala de aula, a tarefa.
4.
Não observa fisicamente cuidado com documentos, ou
outros suportes, não se preocupa em não danificá-los. Destrutividade e
negligência quanto a extravios.
5.
Não sabe ou não quer falar sobre o conteúdo do documento
retirado, quando provocado.
6.
Faz outras atividades na biblioteca não concentradas na
leitura: desenhar (o mais típico), jogar, conversar, circular, muito pouco
escrever.
7.
Não distingue os documentos pela espécie: se é um gibi,
um livro, revista, nem por categorias, dicionário, atlas, nem gêneros.
8.
Não reconhece os elementos pré e pós-textuais que podem
ajudá-lo a encontrar um tópico. ou um verbete.
9.
Lê precariamente, ou mesmo não lê.
10.
Quando “não gostar de ler” na verdade significa “dificuldade
de ler”.
Tais comportamentos são verificáveis
e comuns nas condições de analfabetisno absoluto e funcional, independente e
contraditoriamente, do interesse do objeto livro, se levarmos em conta o movimento de
retirada deles[12], e
oferece uma reflexão quanto a valorizar-se em demasia o fator freqüência –
número de usuários - nos relatórios de bibliotecas.
Em resumo, pode haver que as oportunidades de acesso estão perfeitamente contempladas,
sem que signifiquem, no entanto, desenvolvimento desse leitor, porque esse
desenvolvimento tem como marca diferencial a autonomia informacional (12) na maioria dos casos. Exige, portanto,
intervenções diretas dos agentes envolvidos no cotidiano das bibliotecas e
escola, mas quais os limites e o potencial dessa intervenção?
Dito de outra forma, mesmo
com acesso a materiais, ambientes e até práticas leitoras, não podemos afirmar categoricamente
que este leitor, mesmo incentivado a ler, e freqüentar bibliotecas esteja “apto
para todas as leituras e mesmo para a cidadania”, da forma como preconizam as
diretrizes das políticas de Incentivo à Leitura[13]; é necessário verificar se ele está aquém das competências desejáveis, não necessariamente
nessa ordem, a saber:
·
Desenvoltura no uso da biblioteca –
familiaridade com seu equipamento e recursos; curiosidade em relação a
conteúdos.
·
Autonomia: adotam seus temas, gêneros e autores
favoritos. Citam.
·
Manuseio correto dos documentos e seus elementos;
reconhecimento das seções de um documento (pré e pós-textuais) para seu uso.
·
Fluência
no ato de ler ; relações e associações para juízo de valor e crítica.
·
Habilidades no uso das tecnologias, particularmente
as requeridas na busca de informações.
·
Capacidade de identificar e avaliar a propriedade das fontes, ainda que de modo menos técnico.
É
relevante que, no processo educativo em que o bibliotecário se envolve, comece pelas
intervenções de verificação, registro e orientação e distingua entre os itens
listados, quais devem ser relatados aos administradores da rede de ensino da
qual provém o jovem, particularmente, em bibliotecas escolares. Esse elo entre Escola e Biblioteca, mais do que propalado, no entanto, costuma ser tênue, isso quando as instituições não concorrem entre si. Não é o propósito aqui um “tipo ideal” de leitor, nem técnico, nem
erudito, mas para nossas pretensões e estratégias, seja aquele leitor, cujo
domínio no uso do texto repercute em seu próprio proveito e da
sociedade, o leitor autônomo, apto a
buscar por si mesmo a
informação para suas necessidades, enfim um leitor mais treinado e menos
ingênuo, menos dependente e passivo como
o leitor “de mercado”, que faz leitura utilitária e de fruição. Sem que se demonizem o
mercado e o bovarismo[14],
pois este mercado, afinal, é uma das vias de inclusão das pessoas, e a fruição as torna
mais felizes.
3. A intervenção do bibliotecário
em gerir competências informacionais (ALFIN) no plano ideal e no plano real
Para além das tarefas do bibliotecário que exigem contato direto, não se
pode mais dar as costas ao fato de a sociedade estar evoluindo aceleradamente para
uma Sociedade da Informação, como há décadas preconizava Alvin Toffler[15] E nessa sociedade, “mais do que a mera posse
de dados, necessita-se de novas habilidades para adquirir, coletar e avaliar
informações, convergindo para um novo tipo de alfabetização (Literacy) , as competências em
informação (Information Literacy)
tais como uso de computadores e dispositivos móveis (...),preferindo-se literacy como competência informacional
em vez de alfabetização informacional” (SERAFIM & FREIRE, 2013) (...) Com
base no Programa dos bibliotecários da CSLA (Californian School of Library
Association), [16]às últimas
séries do Ensino fundamental e às primeiras do ensino médio é que são
recomendados os motores de busca.[17] As
demais recomendações desta instituição são mais voltadas à educação digital do
que à capacitação informacional no sentido amplo. Defendemos a ampliação desse
conceito, levando em conta, porém, a.
dramática situação daqueles, e são
muitos, que carecem de “ferramentas cognitivas para saberes ligados à palavra, ao raciocínio lógico e matemático, à
expressão lingüística e a argumentação [retórica], indispensáveis ao
[exercício] no mundo do trabalho, tecnologia e política”. ( SARLO, 2006
)[18],
situação típica que descrevi acima.
Toda e qualquer leitura qualificada requer essas ferramentas, em
seus diferentes graus. E concordo também com Sarlo sobre o fato de que a
rapidez da leitura [nos meios audiovisuais] dificulta “a capacidade
intelectual de longa concentração”: em qualquer suporte. “Aprendizado implica
em dificuldade e distanciamento. Aí permanece uma necessidade de intervenção
forte e não baseada no espontaneísmo dos sujeiros” .[19]. Não
basta o domínio da máquina. Observa-se que, em geral, a maioria dos jovens de
todas as classes sociais (e às vezes bem precocemente), apoderam-se rapidamente
dos aplicativos oferecidos e os utilizam com desenvoltura. Tal desenvoltura, no entanto, por
si só, não os qualifica como habilitados informacionalmente. Ao contrário das bibliotecas físicas, em se falando
de buscas temáticas, com motores de busca, à exceção das bibliotecas digitais da Rede, os
recursos informacionais eletrônicos, pode-se dizer, são anárquicos. Nas
bibliotecas esses recursos informacionais são estruturados; o usuário dos
motores de busca, que não seja treinado, não conta por falta de formação, com
os meios seletivos necessários ou adequados a satisfazer sua indagação. Tanto
quanto se refere a fontes confiáveis, quanto à profundidade, nem quanto à
adequação ao seu nível de escolaridade. Nesse ponto, os sistemas de bibliotecas físicas
e digitais são vantajosas em relação aos motores de busca, e o bibliotecário
fundamental em seu papel de educador da informação.
- O status
informacional em ambiente escolar: “CTRL-C/CTRL-V” na pesquisa
A tão propalada
prática de “pesquisa escolar”(as aspas são propositais), o ambiente por
excelência das competências informacionais, costuma se dar somente através de
buscas temáticas, em geral desestruturadas – não se relacionando aos campos de
conhecimento, nem levantando-se os tópicos pertinentes, em geral, ou, então,
são termos isolados ou títulos de conteúdos parciais de disciplinas – com
o propósito de auxiliar a pontuação do aluno, e não de capacitá-lo na busca da
informação. Em geral, encontrado o título ou o termo equivalente, produz-se um
texto, sem a devida seleção das partes e seus interrelacionamentos, de tal modo
que não propicia ao estudante um exercício de reflexão, e estabelece um automatismo que, em
informática, são ações conhecidas como “copiar e colar”(CTRL-C/CTRL-V). Essa
tem sido a prática observada em bibliotecas que atendem às demandas da escola. Tal
constatação, propomos como hipótese, decorre também da práticas de leitura dos
alunos, cuja “interpretação” textual é apenas reprodutiva, factual e onde há pouco
estímulo à produção de sentido, que é exigida, mais tarde, nos vestibulares que
reprovam, largamente, todos os anos. Esses concursos costumam dar prioridade às
habilidades de compreensão e capacidade de discorrer sobre os temas
apresentados, habilidades que as escolas insistem em não trabalhar em prol da reprodução de conteúdos. E assim acontece em relação à pesquisa, onde é necessário compreensão para estabelecer relações entre as
partes de um todo, que são os termos relacionados e os temas, tal como é necessário
estabelecer relações entre elementos em um texto. Segundo Cláudio Moura e
Castro (1981), citando Kaplan[20] “o
sentido de unidade ou um todo deve ser precedido por um estudo minucioso das
partes: o hábito de proceder assim seria adquirido no estudo de alguma ciência”,
porém, arremata ele, “o apuro na lógica e o rigor no pensar não caracterizam só o pensamento científico, são condições porém absolutamente indispensáveis nas
discussão de problemas filosóficos, éticos e sociais[21] Há que se perseguir os requisitos essenciais
para uma boa habilidade ou competência informacional. Observar-se a contextualização
( no tempo, espaço, campo temático); relevância, propriedades das fontes. Talvez
o professor esteja a dever na mediação da leitura, tanto quanto o bibliotecário
esteja a dever na mediação da pesquisa, que é uma leitura metalinguística. Ao bibliotecário não cabe avançar no campo do
aprendizado no que não lhe é próprio, mas deve cumprir o que dele é esperado no campo da informação. Ao professor cabe propiciar os saberes da leitura facilitadores da competência informacional a que Sarlo se referiu [22], de
maneira tão clara. . Ou será porque,
talvez, esses profissionais não troquem
informações e experiências entre si que possam somar esforços e alterar o
quadro atual com se defronta o país?
5. As competências e o ALFIN
Às competências desejáveis ao leitor autônomo no quadro de defasagens imensas de aprendizado tão difundidas interna e externamente[23], sugerimos incluir o conceito ALFIN mais abrangente, na linha que descreveremos, como ação educativa de acordo com um projeto de pedagogia informacional, onde se fixem metas a alcançar. A seriação (nível escolar) aqui considerada é apenas um critério, sujeito a revisões e não invalida outros. A maior parte dessas atividades têm caráter seletivo, muitas não são estranhas ao professor, e contribuem para o ALFIN.
5. As competências e o ALFIN
Às competências desejáveis ao leitor autônomo no quadro de defasagens imensas de aprendizado tão difundidas interna e externamente[23], sugerimos incluir o conceito ALFIN mais abrangente, na linha que descreveremos, como ação educativa de acordo com um projeto de pedagogia informacional, onde se fixem metas a alcançar. A seriação (nível escolar) aqui considerada é apenas um critério, sujeito a revisões e não invalida outros. A maior parte dessas atividades têm caráter seletivo, muitas não são estranhas ao professor, e contribuem para o ALFIN.
Para series iniciais: Identificar conjuntos que tenham características em comum: ex. animais, transportes, vegetais etc. jogos de localizar pessoas ou objetos, cores, tamanhos e formas. associações. Séries intermediárias (1º ciclo) Identificar suportes impressos, saber reuní-los por categorias. Classificar itens, recortá-los (fisicamente ou no computador), reuni-los por seções; procurar itens segundo requisitos, com descritores em classificados ou textos. Segundo ciclo: produzir títulos e subtítulos. Coletar e relacionar palavras em dicionários, informações em enciclopédias impressas e online.: Noções sobre os ramos de conhecimento, relações entre disciplinas e campos de conhecimento. Contextualizar. Práticas de pesquisas selecionando tópicos específicos em um texto em qualquer mídia. Ensino médio: Estruturar termos e tópicos correlatos. .Usar motores de pesquisa, usar sites de pesquisa restritos, em homepages. Ensino superior: Avaliar fontes. Diferença entre dados e informações. Noções de propriedade intelectual, de bibliografia. Referências e fontes. Relatório de pesquisa. Apresentação.
O importante a nosso ver é um método progressivo de aquisição de habilidades ou competências informacionais para os jovens e, ao cabo, empreender uma avaliação, levando-se em conta os progressos obtidos, a partir da autonomia conquistada por cada um.
5. Considerações
finaisÉ preciso diferenciar dois eixos. Um do campo pedagógico próprio do professor e outro exercido na função de bibliotecário. Falamos aqui de atividades que entendemos podem e devem ser transversais à docência e cujo domínio, espera-se, o profissional da informação já tenha e exerça, no seu dia a dia. As atividades descritas requerem, em certo grau, conhecimentos de biblioteconomia, alguns constantes de programas estabelecidos tradicionalmente na grade deste curso, que podem ser oferecidos a estudantes de Pedagogia nas universidades, como disciplinas optativas ou como especialização latu sensu, sem que isso represente, a nosso ver, qualquer conflito corporativo. ALFIN necessita abrir-se a todos os campos
REFERÊNCIAS
AREAS, Manoel . ordenadoresenelaula.blogspot.com.br/2007/05/la-formacin-en-competencias.html
CASTRO, MOURA e. Claudio. . A prática da pesquisa.
São Paulo: McGraw-Hall do Brasil, 1981
SARLO, Beatriz. Culturas
Populares, Velhas e Novas. IN: Cenas da via pós-moderna/
intelectuais, arte e videocultura na Argentina. Rio e janeiro: Editora da
UFRJ,P 100-22, 2006.
SERAFIM, Lucas
Almeida & FREIRE, GUSTAVO Henrique de Araújo. Competências em informação
na contemporaneidade. RACIn, João Pessoa, v.1.n.1.p.67-87, junho 2013
NOTAS
[1] Trabalho enviado e aceito no VI Congresso Internacional
de Bibliotecologia , Documentação, Arquivística e Museologia 15 – 17 de outubro
de 2014 – CBDA 2014, La Paz,Bolívia
[2] PISA (
com dados publicados em 2013)
[3] Dados da
educação no IDH entre países da América
do Sul publicados pelo PNUD/ONU de 2011 a 2013
[4]
SERAFIM&FREIRE,,p.11
[5] IDEM
P.13
[6] IDEM
p.14
[7] Outras
entidades elaboraram também seus pilares
Cf ÁREAS, Manoel.2007.http://ordenadoresenelaula.blogspot.com.br/2007/05/la-formacin-en-competencias.html
[8] Ver
Manoel Areas,2007
[9] Soares,
Sheila Gomes. Apresentação no III Salão
da Leitura de Niterói, 2012 (digitado)
[10] Tive a
oportunidade de observar crianças, que sequer sabiam ler, pegando os livros da
série Harry Potter.
[11] Nota do
A. Estatísticas de empréstimo podem ser um fator enganoso, ao contrário das de
consulta que apontam para uma demanda.
[13] Bovarismo
é um conceito criado por Jules de Gaultier (em Le bovarysme, la
psychologie dans l’oeuvre de Flaubert), e
apropriado à leitura diletante por Daniel Pennac . Como um romance, 1993, o
livro favorito de 9 entre 10 bibliotecários.
[14]
TOFFlER, Alvin , 1970.Apud SERAFIM& FREIRE p.9
[15] IDEM
SERAFIM... p.15
[16]
1.Jardim de Infância Identificar
mateiais impressos e digitais diariamente;Serie 1: Ligar e desligar o
computador, entender o que é Internet;Serie 2: ferramentas de navegação: ícones
de softwares;Serie 3 Conhecer tecnologias da informação para interagir;Serie 4
Criar documentos simples como o Word; Serie 5 usar e-mails com segurança; Serie
5 identificar problemas de segurança; Serie 7 e 8 em diante: conhecer fundamentos
de propriedade intelectual ao usar variedade de mídias; 9 Series 9 a 12 Usar os motores de pesquisa. IDEM, p.15
[18] IDEM
p.115
[19] A
conduta na pesquisa. 1969, p.37
[20] CASTRO,
MOURA, 1981,p.9.
[21] SARLO,
Op cit. P.6
[22] Ver as
pesquisas do INEP com relação a avaliações de ensino básico, fundamental e
médio (Saeb, Enem, Prova Brasil e Ideb no Brasil. E PISA, O Programme
for International Student Assessment : o programa é desenvolvido e coordenado pela Organização para
Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).
sexta-feira, 24 de junho de 2016
Ainda queremos comprar livros? C.S.Soares
http://oglobo.globo.com/cultura/livros/artigo-ainda-queremos-comprar-livros-17821044
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