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quarta-feira, 28 de março de 2012

D.H.Lawrence e a leitura

Uma grata surpresa tive recentemente ao descobrir um valioso ensaio de D.H.Lawrence. Sim, D.H. Lawrence, famoso por O amante de Lady Chatterley  e Filhos e Amantes, entre outros. O nome do ensaio é O apocalipse  e para maior surpresa ainda descobri uns trechos* que falam dos livros de modo bem original, como são os demais relatos do autor.  Com prazer, os transcrevo:

  " Ora, um livro só vive enquanto não é decifrado. Uma vez decifrado, morre imediatamente. É surpreendente  constatar como um livro muda radicalmente quando o releio cinco anos depois. Alguns livros ganham muitíssimo, tornam-se novos. São tão diferentes que o leitor chega a questionar a própria identidade.Já outro perdem muitíssimo. Reli Guerra e Paz  (Tostoi) e me surpreendi ao constatar que o livro me emocionava pouco ; quase me horrorizei ao pensar no entusiasmo que ele antes despertara em mim, e que agora eu não sentia mais.
Assim é. Uma vez decifrado, uma vez conhecido  (grifos do A) , uma vez fixo e estabelecido seu significado, o livro morre. Ele só vive enquanto tem o poder de nos comover , e nos comover de modo diferente cada vez que lemos ; enquanto nos parece diferente cada vez que lemos. Dada a abundância de livros superficiais que de fato se desgastam com uma única leitura, a mentalidade moderna tende a achar que todo livro é sempre o mesmo, que termina após uma leitura. Mas isso não é verdade. O verdadeiro prazer da leitura é o que se tem ao reler o mesmo livro vez após vez, achando-o sempre diferente , descobrindo nele um novo significado, um novo nível de significação . É, como sempre, uma questão de valores: estamos tão soterrados por quantidades  de livros que dificilmente nos damos conta de que um livro pode ser valioso, valioso como uma jóia, ou um belo quadro, algo que se pode mirar cada vez mais intensamente, cada vez tendo uma experiência mais profunda. É melhor ler um livro seis vezes , espaçadamente do que ler seis livros. Porque se um determinado livro é capaz de levar  o leitor a lê-lo seis vezes, isso significa que cada leitura torna-se uma experiência mais profunda que a anterior , enriquecendo toda a alma, emocional e mental. Enquanto seis livros lidos uma vez só constituem apenas um acúmulo  de interesses superficiais, o acúmulo oneroso dos dias modernos , quantidade sem valor real.
Veremos agora o público leitor se dividir mais uma vez em dois grupos: a grande massa que lê para se divertir e por interesses momentâneos , e a pequena minoria   que só quer livros que sejam valiosos , que gerem experiência , uma experiência cada vez mais profunda. "

*Nota: Pags 14 e 15 do livro referido, editado pela Companhia das Letras, em 1990

Evidente que algumas  afirmações de Lawrence  são suscetíveis de debate, porém ele suscita questões bem contemporâneas sobre a leitura "de qualidade" e "best-sellers", e a valorização da quantidade de livros, por exemplo e que teremos oportunidade de voltar a discutir. O escritor, falou duas coisas que me chamaram a atenção - uma  que estamos afogados em uma quantidade imensa de livros e os recebemos numa atitude de consumo. Lemos (digerimos) e fechamos o livro (o livro "morre" após a leitura),foi consumido, acabou. Outra é da leitura de consumo em relação à leitura "de reflexão".  Até onde podemos relativizar essa questão? Até onde é defensável dizer-se que uma obra aclamada pela crítica não foi ou será um dia de consumo, e vice-versa? Há casos e casos. Porém, nos devemos ater sobre se há como se criar parâmetros sobre a "boa" literatura (de reflexão) e a literatura de consumo, os best-sellers? Essa é uma reflexão que nos traz o artigo de Lawrence. Acredito que só se pode avaliar digamos, tecnicamente, se uma obra é "grande" pela temporalidade. Ou seja, dentro daquele raciocínio do autor de que a obra foi lida, relida e marcou cada período que atravessou em diferentes edições e em diferentes línguas. E o tempo. Acabam "clássicos". Há outros critérios como premiação, "nobéis" etc. mas vamos ficar só com a sua propagação através do tempo.
Aqueles que não atravessarem uma linha de tempo de  certa dimensão, cem, duzentos anos não poderão ser ordenados entre os grandes.  Para quem é profissional do livro, essa dificuldade é inquietante. Porque para o leitor comum não importa a "idade", nem a nacionalidade de uma obra. Importa que ela atenda à sua necessidade do momento.
 A categoria "clássicos" se atribui a livros que evidentemente passaram nessa peneira do tempo, e  só podem ser reconhecidos por nacionalidade (literatura francesa, inglesa, etc) pela qual serão procurados pelo especialista ou aquele leitor com certo grau de erudição, em geral , quando vencida esta linha do tempo de prestígio. Essa linha e esse prestígio são o que demarcam  a sua origem.
Aqueles que ainda não têm esse status se classificam apenas como literatura contemporânea, independentemente da nacionalidade.
É claro que não precisamos concordar com Lawrence quanto à releitura de livros. Muita vezes acontece uma releitura na qual aquele livro que foi o máximo para você em certa época, até é capaz de decepcionar. Não por um problema de qualidade, mas de identificação, de sintonia com o seu momento, enfim... Daí pensarmos em parâmetros de qualidade, mas é se esperar muito de um leitor comum. Porém para o profissional do livro, e aí incluem-se críticos, editores,  professores, livreiros e bibliotecários que necessitam de ferramentas de avaliação do livro por diferentes razões. Categorizar autores, um difícil caminho, mas  por outro lado obriga o profissional a estar atento a vários aspectos que envolvem uma obra. Como já falei, a temporalidade, o selo pelo qual é editada, o currículo do autor. Muitas vezes há o autor "de Academia", (com exceção do Prêmio Nobel) que significa que ele tem prestígio,o que não significa necessariamente excelência. O critério acadêmico pode ser político, ou em razão só da repercussão de vendas. Como um bibliotecário, sem ser um crítico, pode dizer se este ou outro autor é notável ou não? Passado o teste da temporalidade, pode-se verificar a abrangência de sua obra a nível nacional e internacional, traduções em várias línguas, prêmios importantes, consultando-se boas obras especializadas ou mesmo fontes confiáveis da Internet. Enfim, o "currículo" da obra.Quase sempre, há exceções, mas a maior parte com esses destaques, vai frequentar a estante de "notáveis".  Aí retomando Lawrence, por que optamos por não diferenciar uma literatura fácil daquela que nos deixa sequelas no pensamento por toda a vida, e colocá-las no mesmo balaio? É a pergunta que repasso principalmente aos colegas.

Novidades na escola

Diz um velho ditado francês "plus ça change, plus c´est la même chose" (quanto mais se muda, mais as coisas são as mesmas), e isso tem valido particularmente no Ensino. E vieram Piaget, o nosso excelente Paulo Freire , Emilia Ferrero, Edgar Morin, entre muitas outras cabeças brilhantes,e nada ,ou quase nada, aconteceu em matéria de grade curricular. Estamos no velho iluminismo - por aqui quem manda ainda é o "bom e velho" Auguste Comte - o ícone francês do Positivismo estendeu o ímpeto da racionalidade técnico-científica a todos os domínios da cultura e do espírito. A Educação no Brasil não pegou a carruagem do século 21. Daí os currículos carregados de programas disciplinares chatos e que não fazem sentido para o aluno, a não ser " tirar nota" ou "passar de ano". Ainda o velho ideal de que, a partir da matrícula,   teremos  um futuro cheio de einsteins, ou até mesmo os bill gates da vida, claro seria o ideal, mas o choque de realidade fala mais alto.  Rendâmo-nos: o horizonte da maioria é ter uma boa carreira, uma profissão digna e, como sempre foi, - e nada há de reprovável nisso-, na verdade poucos serão intelectuais e cientistas, não por falta de mérito ou por fracasso da escola, mas porque esse é ainda um  campo privilegiado, dos "gênios", como dizia Nietzsche, daqueles jovenzinhos "nerds" que têm uma curiosidade peculiar a respeito das questões e coisas do mundo, e essa se dá por estímulos e, sem dúvida, esses existem, não necessariamente na sala de aula, pena, porque não deveria fazer mais do que canalizar interesses e curiosidades. A curiosidade, a grande mestra que leva ao conhecimento e aprofundamento dos saberes. Como dizia Platão, "o conhecimento nasce do espanto". A velha grade já vem pronta do " forno", sem levar em conta porquê e para quê de suas propostas e aplicações.  Frequentemente pergunto aos alunos que uso farão de determinada informação. A resposta é "sei lá, mandaram fazer". Ou procuram alguma coisa em "geografia" sobre industrialização ou capitalismo, sem se quer alguém lhes ter aventado que tal tema pertence a um ramo de conhecimento chamado Economia e esta por sua vez, ao campo geral das Ciências Humanas. Aí é que pode entrar a grande contribuição dos analistas, cientistas da  Informação, ou os incansáveis bibliotecários. Os profissionais da informação, ou os que militam nela, têm muito a colaborar para que sua biblioteca acompanhe a implementação dos avanços na Educação. Essa contribuição implica em revermos conceitos, um dos quais é o de que o conhecimento é constituído de disciplinas.Disciplinas, é sabido, são arranjos sistemáticos destinados a facilitar o aprendizado, mas têm a propriedade de isolar o conhecimento, o que é, aliás um "vício" científico sustentado por gerações . A ideia da interdisciplinaridade começa a ruir se não mudarmos essa estrutura de conhecimento.Os bibliotecários tradicionalmente  também bebem da mesma fonte; do conhecimento submetido à noção científica. Enquanto pensarmos que a Cultura está atrelada à Ciência, e não o contrário, pouco se pode fazer em termos de mudança.  E a mudança requer não só trabalharmos com grandes temas - e não disciplinas - e costurá-los a suas afinidades.
O próprio Melvin Dewey, tão familar aos bibliotecários, construiu sua famosa tabela, estabelecendo perguntas sobre a existência humana, uma bela ideia, mas que perdeu-se em privilegiar a noção geográfica  e não temática em literatura e História por exemplo. Outra restrição é a CDD não permitir uma forma de estrutura pelo discurso do documento, tão bem proposto por Mortimer Adler,o qual estabelece uma tipologia de livros - livros de informação, livros de formação, de literatura  e livros práticos.  Essa idéia pode propiciar uma organizaçõe modular em vez de uma sequência linear de códigos de assunto. Nesse sentido, há a opção temática que é interdisciplinar - abriga várias classes.
Assim, livros informativos sobre a origem e desenvolvimento do homem abrigaria tanto cosmologia (100) , religião (200), psicologia (150) , antropologia (300) evolução (500), fisiologia (611) e reprodução (612)- um módulo. Um segundo módulo seria Meio-ambiente - físico e social - onde entram as chamadas "Geociências" e as Ciências Sociais. Outro, ítens da Cultura , inclusive a Ciência, e assim por diante. Assim, temas sob diferentes discursos, subordinam a Ciência ao contrário de lhe serem subordinados.
Uma experiência bastante singular é com relação aos escolares e suas buscas. Ao pesquisarem um assunto, por ex. Meio-ambiente, sentem-se perdidos entre "geografia" e "ciências" porque seu conhecimento está "disciplinarizado". Quando procuram culinária do Nordeste, procuram em "Geografia" e não em Cultura Brasileira, que deveria ser  o ponto de acesso, não só no catálogo como na estante.
A literatura, cujo discurso é narrativo, é outro módulo independente e exclusivo.
Os livros práticos, cuja linguagem é dissertativa e também narrativa também merecem um lugar próprio compreendendo todos os ramos do conhecimento, logo todas as classes.
Sei que essa questão da interdisciplinaridade deve ser levada a muitos e muitos fóruns, principalmente na área da Informação. E que as mudanças não deverão acontecer sem traumas, aliás como foram todas as grandes mudanças que a humanidade conhece.

Globalização e sistemas de informação

Hoje uma área de conhecimento que ainda não tem status de especialidade  vai  tornando  força, ao falarmos em sistemas de  informação: a Antropologia da Informação (A I). Muito recente (pensada desde os anos 90 ou pouco antes) e próxima à semiótica, a A I  vem sendo discutida no Brasil e divulgada a partir de estudos de Regina Maria Mateleto (1) nos quais enfatiza que  "a informação, nos últimos anos, foi se desprendendo de um fator regulador de sistemas (físicos, químicos) para se tornar (e se integrar a) uma cultura informacional contemporânea e/ou pós-moderna" (MARTELETO, 1987). E isso significa, "dentre os pressupostos contextuais, cabe destacar o do conhecimento como produto social, com o reconhecimento de uma “cultura informacional”  daqueles dela excluídos; o deslocamento do eixo de política de conhecimento e informação do estatal/público para o privado; e a conformação de um mercado de bens simbólicos com disputas de sentidos entre diferentes práticas, discursos e ações de intervenção social."  E que "dentre os pressupostos empíricos, destacam-se as diversas formas de organizações sociais e suas interfaces com ambientes formais de conhecimento e informação; o conhecimento teórico, histórico, prático e suas composições e estranhamentos na sociedade civil; ação social e saber local: especialistas, lideranças e intervenções com mediação informacional; informação formal dos sistemas oficiais x informação cinzenta e/ou subterrânea das organizações".  Paremos por aí e vamos nos ater aos trechos grifados por mim.
A) O deslocamento do eixo de política de conhecimento e informação do estatal/público para o privado, onde entendemos como "estatal/público" os atores ligados às instâncias de poder e institucionais e como "privados", os atores das instâncias da sociedade civil organizada, do mercado e, principalmente, os atores individuais na sua ação de produção e formatos da informação, a cada dia mais ativos nos processos de comunicação abertos pelos sistemas de conteúdos da Internet., que de uma forma anárquica, permite  acessar a informação de todas as maneiras possíveis, "sem método".
B) Organizações sociais e suas interfaces com ambientes formais de conhecimento e informação, onde entendemos que há uma certa autonomia desses sujeitos individuais, mas ao mesmo tempo há necessidade de uma identidade entre práticas e discursos, uma vez que os agentes de poder, tendo diante de si a tarefa de ´universalizar ´ os discursos e as práticas. Como por exemplo a relação entre usuários de biblioteca e seus catálogos, altamente formalizados quanto aos quesitos de busca.
C) Por último, a necessidade de uma mediação "entre a informação formal dos sistemas oficiais e informação `cinzenta ou subterrânea das organizações`" que nada mais é do que o impasse, em que as primeiras têm de abdicar de suas redes de aprisionamento da informação e estabelecer um diálogo com as diferentes formas de acesso produzidas pelo público.
Vistas essas questões, como se implantar um sistema de informação que contemple o saber global e o local?
 Falávamos em rever conceitos em torno de um sistema de informação, sob a ótica da globalização, e isso compreende que, a partir dos centros de decisão/informação, cada área deva estabelecer canais para um feed-back usuários-centros de informação. Isso representa uma retroalimentação dos sistemas numa dinâmica que se vai do Geral para o Particular e vice-versa, num movimento circular. E a ferramenta é a Antropologia da Informação.  A A I será informada das formas pelas quais se dão as buscas através dos grandes portais. E sua análise requer uma quase simultaneidade entre entradas e saídas de informação, seus conflitos e sua eficácia. O (novo) gestor da Unidade de Informação irá buscar nessa fonte os modos pelos quais se dão esses acessos e imediatamente utilizá-los em seus catálogos, e, evidente que estarão em constante revisão. Quando o mecanismo de busca do Google aponta para uma estatística da pesquisa por expressões ou termos significativa (muitos acessos) ex. Dicionário inglês-português 2,860,000 (dois milhoes, oitocentos e sessenta mil acessos), tal fato nos leva a algumas reflexões.
Sabemos que os catálogos tradicionalmente construídos pelas bibliotecas são fechados, isto é, uma comissão de especialistas escolhe não só os termos como as formas de entrada. No caso da AACR2  (Código Anglo-Americano) a visão contempla o "olhar estrangeiro", particularmente norte-americano,sobre os descritores. Assim História do Brasil será Brasil -História, uma vez que para o estrangeiro essa informação abarca um conjunto de informações especializadas, enquanto que para o usuário local (do Brasil) ela é, ao contrário, inespecífica e até irrelevante, pois muito geral . Voltando ao Google verificam-se Brasil - história , 6,200,000 acessos; para Historia do Brasil 11,000,000 de acessos; para Brazil History 25,000,000 de acessos, uma diferença razoável e indicativa da busca através do olhar estrangeiro. Há que se considerar ambas as entradas, tanto pelo olhar local quanto pelo olhar estrangeiro, e também contemplar as especificidades  regionais. Nós, profissionais alimentadores desse sistema,.devemos não só refletir como nos responsabilizar pelas respostas aos desafios que a globalização apresenta, sob pena de perdermos o bonde da História.                                                                                                           

Livrarias e bibliotecas

Quando visito as livrarias sinto uma espécie de inveja. Elas têm um layout tão acolhedor e aconchegante, um apelo de "fique-aqui..." e a gente vai ficando. Por que muitas bibliotecas públicas ainda não podem ser assim?
Acontece que nas livrarias, as estantes são setorizadas em grandes assuntos; nas bibliotecas são por hierarquia dos códigos de classificação, chamados "topográficos" e as obras são dispostas de modo hierárquico de assunto e não por grupo de assuntos afins. O argumento é que "facilita" a localização. Discordo. Nas livrarias não há um livro sequer  que o atendente não localize, independentemente de os assuntos não estarem hierarquizados. Porque, se ele não localizar, é prejuízo para o negócio. Nas bibliotecas, a hierarquização é prejuízo para o encanto e mesmo facilidade do usuário. Na verdade esses códigos são irrelevantes para ele. Evidente que as bibliotecas ainda levam ainda vantagem sobre as livrarias no que se refere a recuperar as informações de cada ítem, mas o que impede as livrarias um dia chegarem lá? Por enquanto, não há catálogo nas livrarias, há registro de estoque , mas elas poderão avançar e adquirirem softwares em que também contemplem a particularização de assuntos. E mantenham a feliz setorização. Há diversas partes em uma biblioteca que precisam ser setorizadas: infanto-juvenil, referência, literatura universal , literatura brasileira, clássicos estrangeiros, clássicos da Literatura Brasileira, livros de estudo e ensino (didáticos e pedagogia numa mesma seção), poesia e auto-ajuda, oito seções só para começar. Isso em uma livraria é tranquilo. Em uma biblioteca põe por terra preceitos tradicionais de organização, e que vêm se arrastando há séculos, por pura obediência. Preceitos que os profissionais temem mexer em nome de uma internacionalização e uma padronização que as comissões técnicas, inamovíveis em seus pedestais, mantém por defender os antigos ideais e alguns para defender seus próprios empregos.
Consultando minha "bola de cristal",  antevejo  as bibliotecas cada vez mais próximas das livrarias no quesito organização física. E com o aumento do poder aquisitivo do povo para comprar livros, as bibliotecas nos velhos moldes poderão ser fadadas ao abandono, ou entregues a um competente bibliotecário, que, ao admirar sua organização. tão fiel aos padrões, em pouco tempo terá acrescentada as suas, uma nova e penosa função: a de espantar moscas.

A educação pós-Twitter Dilvo Ristoff



"O Twitter é uma rudimentar rede de conexão social", disse Biz Stone, em novembro último, em Doha. Há, segundo ele, muito a fazer para tirar proveito dos 4,4 bilhões de telefones celulares e de 1 bilhão de contas de internet espalhados pelo planeta.

O criador do Twitter esteve com Sugata Mitra, o autor de "A hole in the wall" - que instalou computadores nas ruas de cidades para onde bons professores não querem ir. Queria ver o que aconteceria com as crianças! Para a sua surpresa, em três meses, sozinhas, elas aprenderam a usar o computador e, como todos nós, a exigir um processador mais veloz. Sem qualquer ajuda, as crianças aprenderam 30% dos conteúdos de genética disponibilizados e, com o auxílio de um tutor, superaram os estudantes das melhores escolas da Índia.

Mitra argumenta que hoje importa menos quem você conhece e mais se você está ou não linkado. Estamos em uma nova era: o usuário linkado questiona, e não raro com razão, as recomendações do médico, a originalidade do artista, o conhecimento do professor.

O acesso fácil à informação gerou a era do espanto, da instabilidade de doutores, mestres e pseudoespecialistas! Não sabe? Não pergunte ao professor! Pergunte à inteligência democrática: pergunte ao google! Para que esta inteligência democrática possa ganhar escala e servir à humanidade, a Escola precisa tornar a inclusão digital a sua palavra de ordem. Para isso, terá que conviver com a aprendizagem auto-organizada e lidar com tecnologias que tolerem múltiplas trajetórias pedagógicas.

Ou seja, a educação terá que ter compromisso inarredável com a inovação! O que Biz Stone e Mitra propõem é um futuro que não mais replicará o presente e que trará à tona milhões de talentos que serão colocados a serviço da vida, com novas oportunidades para todos! Estará o Brasil em condições de preparar os jovens para as demandas de adaptabilidade que se apresentam? A julgar pela resistência que as novas tecnologias encontram em nossas universidades, temo que continuaremos a educar para o passado, imaginando que ele funcionará no futuro. Não funcionará! A menos que aceitemos que se frustrem as nossas esperanças de construir um país avançado nas artes e nas ciências, é urgente que professores sejam expostos a um agressivo choque de novas tecnologias, antes que caiam em descrédito pela sua incapacidade de educar para os novos tempos. Mais do que nunca, dependemos de políticas comprometidas com a interconectividade e com o futuro.


DILVO RISTOFF é reitor da Universidade Federal da Fronteira Sul.

Ler, escrever, calcular

Cesar Benjamim,  Folha de São Paulo, 06/02/010

NÃO DEVEM passar despercebidos dois artigos publicados nesta Folha nos últimos dias. Em "Repetência e alfabetização", de 27 de janeiro, João Batista Araújo e Oliveira apresentou resultados de um teste aplicado em 338 mil alunos do segundo ao quinto ano em 350 municípios brasileiros espalhados por 25 Estados, uma amostra muito representativa. Nada menos de 70% dos avaliados foram considerados analfabetos, e 50% dos estudantes do quinto ano foram classificados assim.
No dia 4, a Folha noticiou o desempenho de alunos da rede municipal de São Paulo em matemática. Não me estenderei. Ocimar Alavarse, da USP, avaliou o resultado como "escandaloso". Um teste semelhante, em escala nacional, mostraria resultado igual ou pior. Tais avaliações mostram que o Brasil ainda recusa à maioria dos seus filhos a possibilidade de participar das potencialidades da civilização contemporânea. Estamos diante de um problema grave, antigo, estrutural, que envolve todos os níveis de governo e a sociedade. Mas não conseguimos reagir.
Há íntima relação entre a capacidade formal de expressão e os conteúdos que se deseja expressar. Em um dos Seminários de Zollikon, Heidegger pergunta: "Por que os animais não falam?". Ele mesmo responde, de maneira simples e muito perspicaz: "Porque não têm o que dizer". Quando depois se refere ao homem como "o animal falante", talvez possamos ler "o animal que tem o que dizer".
Os homens sempre tiveram muito a dizer. Todas as sociedades, das mais primitivas às mais avançadas, separadas por dezenas de milhares de anos, criaram línguas que apresentam grau semelhante de complexidade, a ponto de até hoje não ter sido possível construir uma teoria evolutiva da linguagem, esse grande enigma humano.
Pois é de uma linguagem criativa que se trata, o que nos diferencia. Adquirimos na infância a misteriosa capacidade de construir e entender um número indefinido de sentenças que jamais ouvimos e que talvez jamais tenham sido enunciadas, enquanto os sistemas de comunicação usados por outras espécies só permitem a transmissão de um pequeno conjunto de mensagens cujo significado é fixo.
Assim, além das funções de expressão pessoal e de comunicação imediata, que compartilhamos com os animais, nossa linguagem possui funções superiores que lhe são específicas, como descrição, conceitualização e argumentação.
Graças a elas, podemos desenvolver, por exemplo, padrões de crítica, a ideia de verdade, o conceito de razão. Popper é enfático: "É ao desenvolvimento das funções superiores da linguagem que devemos a nossa humanidade, a nossa razão, pois nossos poderes de raciocínio nada mais são do que poderes de argumentação crítica".
A capacidade de abstração, a formulação de explicações, a compreensão de objetos complexos -tudo isso exige o cultivo das funções superiores da linguagem, que, no mundo contemporâneo, implica o domínio pleno da leitura e da escrita, além de fundamentos de lógica que nos são transmitidos, principalmente, pela matemática.
Nenhuma sociedade poderá se manter à tona, no século 21, sem disseminar essas capacidades em suas populações. Isso exige que as crianças aprendam a ler, escrever e calcular, com proficiência, na idade adequada. É a base do que vem depois. Se isso não for obtido no tempo certo, toda a estrutura educacional do país permanecerá comprometida. Eis um grande tema para a campanha presidencial, se ela quiser ser mais que uma pantomima.

CESAR BENJAMIN, 55, editor da Editora Contraponto e doutor honoris causa da Universidade Bicentenária de Aragua (Venezuela)

Leia menos, reflita mais Jerônimo Lima

Artigo de Jerônimo Lima*

Vivemos numa sociedade poluída pela oferta de informações a ponto de gerar um síndrome ansiosa caracterizada pela tendência de ler tudo sobre tudo. Neste artigo, o diretor-coordenador do Núcleo Rio Grande do Sul do IBCO, Jerônimo Lima, mostra como contornar o problema com praticidade e consistência. “Vivemos numa sociedade saturada e poluída de informações, na qual o poder está nas mãos de quem as detém. Associado a isto, há um aumento dramático da doença da moda, a síndrome da ansiedade de informação, caracterizada por uma tendência a se ler tudo sobre tudo. É fácil entender a síndrome: quando a quantidade de leitura consumida é superior à quantidade de energia disponível para sua digestão, o excesso se acumula convertido em stress e overdose de estímulo até o estado doentio. As formas mais comuns de manifestação da doença são a frustração gerada pelo volume, a decepção com a qualidade dos conteúdos, a sensação de saber pouco e tarde demais. Fique atento aos sinais da doença: demora a se “desligar” das atividades, mesmo quando está fora delas; queda da produção no trabalho e/ou nos estudos; distúrbios de sono; agitação, irritabilidade, fadiga, dores musculares e lapsos de memória. Faça um teste para ver se a contraiu em http://www.crcinfo.com.br/testes.asp. Após assistir o dr. Ryon Braga  www.aprendervirtual.com  falar sobre o tema, refleti se devia me vangloriar ou me criticar por ter lido pelo menos um livro por semana, por mais de 20 anos. Concluí que todos nós, generalistas itinerantes, intelectuais curiosos, maníacos por leitura e estudantes de mestrado e doutorado, não precisamos digerir essa avalanche literária que nos é imposta. Passei a escolher mais criteriosamente o que ler pela relevância do conteúdo para minha vida e trabalho, praticidade e consistência. Menos leitura com mais qualidade é melhor para adquirir conhecimento. Para entender melhor isto, leia “Ansiedade da Informação”, de Richard Saul Wurman, e o artigo de Rubem Alves “O prazer de ler: sobre leitura e burrice”, em “Entre a Ciência e a Sapiência: O Dilema da Educação”. Para não ficar doente, faça um plano de leitura com grupos de assuntos específicos. Uma vez adaptado e no seu controle, modifique-o para incluir ou excluir alguma fonte, quando necessário. Caso realmente precise encontrar um livro esgotado, procure em www.livrosdificeis.com.br. Em seu Plano de Leitura, coloque jornais (...). Leia um por dia, antes do trabalho.  Escolha um jornal de ampla cobertura, com cadernos sobre temas variados. Melhor: assine o serviço Informa Brasil ( www.informabrasil.com.br), pelo qual é possível ler as notícias em mais de 400 jornais e revistas em um único informativo totalmente personalizável. Inclua revistas de cultura geral. Sugiro a Bravo! ( http://bravonline.abril.com.br ) e a Scientific American Brasil (...) (...)Os livros: como preparação para a leitura, adquira um ótimo dicionário, como o Houaiss ( www.dicionariohouaiss.com.br ), em cd-rom. Leia um livro por bimestre, alternando um de sua área de atuação com outro que não seja, dando preferência aos clássicos e aos mais indicados pelas livrarias Cultura ( www.livcultura.com.br) e Amazon ( www.amazon.com).
Agora, o mais importante: seu plano de leitura tem de ter alguma ação específica para transformar conhecimento em capital intelectual. Isto vai acontecer se você fizer uma profunda reflexão do que ler. Reflexão significa “concentração do espírito sobre si próprio”. Isto é, pela reflexão, suas idéias e sentimentos consideram as observações que resultam de intensa cogitação, traduzindo-se assim numa virtude que evita a precipitação de juízos, a imprudência e a impulsividade na conduta, fazendo de quem reflete uma pessoa menos paradigmática e mais aberta. E ande sempre com um bloco de anotações e uma caneta ou use seu celular/PDA para registrar os insights provenientes de suas leituras e reflexões. Assim vai conseguir criar projetos de melhoria para sua vida e trabalho”.
 *” Leia Menos, Reflita Mais” foi escrito por Jerônimo Lima, Diretor do Núcleo Rio Grande do Sul do IBCO diante de sua experiência em consultoria